quarta-feira, 23 de agosto de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 3

Conto Della
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Decisões - parte 3

O almoço transcorreu agradável. 
Ela o observava em cada detalhe. E ele sabia. 
Não cometeu o erro de falar cedo demais no motivo de contrata-la. Ela notou isso também. Porque muitos clientes chegam ansiosos e, antes mesmo de o garçom servir o vinho, já falam o que esperam dela. Ele não se traiu. Esperou ela perguntar. E ela o fez no tempo exato. Como tudo o que fazia. Precisa. Direta.
— Por que você me procurou?
Ele sorriu com o canto da boca. Segurou a taça, levou-a lentamente aos lábios, tomou um gole lento:
— Preciso impressionar mulheres poderosas. Na verdade, uma mulher poderosa!
Ela fez um silêncio. Mais uma vez, ele não se traiu com o silêncio dela. Não o preencheu com explicações não pedidas. Olhou-a nos olhos e sorriu, simplesmente.
Era outro teste. Ele sabia. E ela percebeu que ele sabia. Ela sabia, também, que ele era Chief Executive Officer (CEO) da empresa de aplicativos de celular que ele mesmo fundara e que com um aplicativo para hospedagens, transformou-se em uma empresa relevante no ramo. Logo a empresa foi comprada por uma grande rede hoteleira sul-americana, e, como parte do contrato, ele virou executivo para a divisão do aplicativo. Com o tempo, virara o CEO da empresa. E estava na eminência de uma fusão de milhões de euros com uma rede mundial de hotéis, cujo escritório é em Singapura… e é comandado por uma mulher. Muito poderosa. Tudo isso, ela já sabia, porque jamais marcava com algum cliente, sem antes o estudar, sem antes saber de todas as suas atividades. 
Ela iniciara como uma mera assistente de cerimonial, atendia o terceiro escalão do governo. Logo o talento foi descoberto, porque justamente nas cerimônias ao seu encargo, não havia notícias de gafes ou falhas, tão comuns em cerimoniais apressados pela velocidade das intrigas políticas. Em um tempo de acusações de toda ordem de corrupção nos governos, com políticos a todo o instante tendo de dar declarações e entrevistas e transformar eventos beneficentes em palanques de recados para imprensa, ela logo estava no primeiro escalão. Ela cometera apenas um erro. E por este erro, ela perdeu a garantia de estabilidade que fora até então o projeto de sua vida e saiu do serviço público que tanto se esforçou para entrar depois de haver passado por um rigoroso processo seletivo.
Mas naquele momento, ela não pensava nisso. Olhava, ainda, para ele, e não poderia enganar-se. Estava orgulhosa. Ele realmente estava quase impecável. Observou apenas um pequeno deslize, que ela consertaria facilmente, pensou. Decidiu que iria aceitar o contrato.
Enquanto ele tomava mais um gole do vinho, chegou próximo à mesa, de forma quase imperceptível, uma mulher elegante, que não o cumprimentou, limitando-se a olhar para ela e piscar os olhos de forma lenta com um discreto movimento vertical do rosto.
Ela retirou o guardanapo do colo e colocou-o à esquerda do prato.
Ele fez o mesmo e levantou-se uma fração de segundos antes dela, abotoou o paletó e não deu a volta na mesa para puxar-lhe a cadeira, porque sabia que naquele restaurante, o garçom o faria.
Ela o olhou de cima abaixo e disse:
— Ok. Vou aceitá-lo. Minha assistente enviará o contrato e a agenda disponível. Os honorários não são negociáveis. 
— Eu não ousaria negociá-los — respondeu.
Alguns instantes depois, no carro, ele sorriu, lembrando-se que ela não o decepcionou, quando ele, de propósito, levou a taça aos lábios antes de responder porquê ele a havia procurado. Sabia que ela notaria que era um erro, que soava deselegante e poderia sugerir insegurança tomar o vinho antes de responder, como se estivesse precisando de tempo para a resposta.
— Você foi quase perfeito.  — Ela falou ao despedir-se. — Mas não faça ninguém esperar por sua resposta. Pode soar insegurança, ou arrogância. Em qualquer caso, não é elegante.

(continua…)

Luís Augusto Menna Barreto

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 2

Conto Della
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Decisões - parte 2

Há alguns anos atrás ela ficaria nervosa. 
Não pelo que estava fazendo. Era seu trabalho. E desde o primeiro dia, sentiu-se segura. Sabia o que tinha de fazer. Sabia como tinha de fazer.
Ela já perdera as contas de quantos clientes teve. Alguns, claro, marcaram-na mais que outros. Na maioria políticos. Muitos artistas. Alguns “novos ricos”… mas todos com o mesmo desejo: aparentar serem seguros e saber como se portar fazendo parecer natural. Não aceitava clientes mulheres. Não sabia direito porquê. Intuição. E de há muito aprendera a confiar na intuição.
Dificilmente aceitava clientes que já não tinham um mínimo de noção. Fazia alguns testes discretos durante as entrevistas. Lembra de uma vez que nem mesmo chegou a conversar. Quando o cliente chegou, foi sentar-se e arrastou a cadeira em vez de levanta-la discretamente. Aquilo lhe doeu nos ouvidos e ela disse que iria ao toilette… A gota d`água foi quando ela falou isso e ele sequer se levantou. Ela imaginava, agora, com um sorriso, o quanto ele deve ter esperado até perceber que ela não voltaria?!
Outro cliente, ela recusou com uma desculpa, simplesmente porque o cliente chegou com um paletó escuro sobre uma camisa também escura, mas com a gola e os punhos brancos. Outro, que não a conhecia, ela nem mesmo cumprimentou, e talvez até hoje ele nem saiba que foi ela quem passou por ele, quando ele chegou no restaurante, com o paletó um número acima (imperceptível para muitos, mas chocante para ela) e com a gravata presa por um prendedor que a deixava enrugada. 
Mas desta vez… o cliente seria diferente. E ela ainda nem sabe ao certo porque o aceitou.
Ele havia mudado muito. Ela também. Não era mais a menina insegura que fora. Ele não era mais o “amor pra sempre” de sua vida, como ambos falavam anos atrás. Ele estava mudado.
Entrou em passos firmes, cumprimentou-a com um aceno de cabeça e sentou-se. Não cometeu o erro que muitos cometem de querer beijar a sua mão, ou (muito pior!) de querer apertar-lhe a mão. 
"— Jamais a quem está à mesa! Nem para mulheres, nem para homens, nem para ninguém! — Ela lembrava como se fosse hoje, da primeira lição que dera, com um pequeno frio na barriga, ao seu primeiro cliente, hoje senador. Talvez fosse “mania de político” querer estender a mão a todos, mas ainda com a mão do então prefeito estendida no ar, antes de ela lhe dizer sequer bom dia, ela lhe disse: “Jamais a quem está à mesa”. "
Mas ele era diferente dos políticos. E ela tinha certeza que ele aprendera muito com os anos.
Ela sorriu quando ele pegara, entre três, o garfo mais próximo do prato ao servir-se de salada.
Era uma armadilha que ela sempre preparava. Porque todo mundo já havia visto no filme “Uma Linda Mulher”, que a disposição dos talheres à mesa era “de fora pra dentro” e, então, deve-se usar primeiro o garfo mais distante do prato. Mas isso para refeições com entrada, carnes e a salada em terceiro lugar. Embora não fosse o mais elegante (e ela evidentemente o sabia), ela normalmente pedia a salada para esperar o cliente, e fazia-o de propósito, esperando quase que invariavelmente, os clientes pegarem o garfo para peixes, que normalmente é o mais distante do prato, e usarem com uma falsa segurança para comer a salada. 
Ela não notou nenhuma hesitação nele. Sem tirar os olhos dela, ele pegou o garfo de saladas, colado ao prato, em um gesto natural em que ela não notou absolutamente nenhuma hesitação que o traísse.
E decidiu, enfim, que sim: aceitaria como cliente, o homem que um dia fora seu noivo!

(continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 19 de agosto de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 1

Conto Della
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- Decisões - parte 1

Ela estava sozinha na mesa do restaurante. 
Estava tranquila. Não havia tristeza ou solidão. Ela esperava. Havia dois pratos na mesa. Duas taças. 
De repente, enquanto o garçom servia-lhe mais uma taça de vinho branco Louis Latour Chablis 2014, que ela saboreava com uma salada niçoise, veio-lhe um quase sorriso, ao lembrar há quanto tempo era ela quem decidia os restaurantes, quem decidia os cardápios… quem decidia a companhia.
Lutara por isso. Ficara muito tempo à sombra. Por anos, não fora notada, mas sabia que era ela a responsável pelo desempenho impecável de tantos homens que se apresentavam poderosos, seguros, decididos… Ela quase riu ao pensar nisso: “poderosos, seguros, decididos”. Na maioria das vezes, não passam de adolescentes brincando de gente grande, pensava. Quantos não saberiam nem que vinho escolher, ou a cor do paletó, se não fosse por ela…? 
De alguma forma, hoje parecia-lhe quase divertido. Mas lutara. Estudara, esforçara-se, teve de enfrentar muitas portas fechadas… até que, aos poucos, conquistou seu espaço. Aprendeu a ser invisível… e esta habilidade, por mais paradoxal que parecesse, trouxe-lhe a visibilidade e a agenda cheia, a ponto de não ser mais escolhida… a ponto de escolher.
Então, sempre que se permitia entrevistar quem a contrataria, ela chegava antes. 
Gostava de avaliar o candidato a contratar-lhe, desde a sua chegada. E estava convencida que nenhum lugar era melhor para avaliar alguém do que em um bom restaurante. 
E ela estava lá para isso. 
E ela começou a avaliá-lo assim que o garçom indicou a ele a mesa onde ela estava.

(continua…)
Por Luís Augusto Menna Barreto


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Eu, o Pilha e a Caixa Mágica

Eu, o Pilha e a Caixa Mágica

Como ele faz isso? O Pilha é mágico! 
— Cadê, Pilha? Tava ali!
— Tu é muito otário!
O Pilha apareceu com uma bolinha de esponja. Igual as que a gente bota cola pra matar a fome cheirando, mas essa era uma bolinha bem pequena. E tinha três copos de plástico que ele deve ter pego em alguma lixeira por aí. Copo é muito fácil de achar. Não… acho que tudo é muito fácil de achar, porque tudo que a gente precisa a gente acha no lixo. Rico joga tudo fora! Também, acho que morando naquelas casas empilhadas uma em cima da outra, nem deve caber muita coisa e tem que ficar jogando fora mesmo! 
O Pilha apareceu com um pedaço de papelão, os três copos e a bolinha. Daí, ele colocou os três copos virados pra baixo, e colocou a bolinha dentro de um deles. Foi no do meio, eu vi! Daí ele misturou um pouco os copos, mas eu fiquei cuidando. Não tirei o olho do copo da bolinha. Então ele perguntou onde a bolinha tava. Eu vi que ela ficou na bolinha do lado do meu "braço de pedir”. Eu falo “braço de pedir”, porque não entendo esse negócio de “lado direito e esquerdo”. Como pode lado ter nome? E como pode um lado ter um nome desses, se tem vezes que me viro e daí já falam que o nome dos lados trocou de lugar? Acho muito complicado isso de lado ter nome. Então eu falo “braço de pedir” porque eu acabei descobrindo que sempre que tô na sinaleira trabalhando com o Pilha, é com a mesma mão que eu peço as moedas na janela dos carros.
A bolinha tava do lado do meu “braço de pedir”. Daí quando eu fui levantar o copo, o Pilha disse que apostava que não tava. Mas é claro que tava lá, eu sabia! A gente apostou duas moedas. Daí, ele estendeu o papelão pra mim enquanto eu pegava as moedas na cueca. Achei o Pilha muito otário, porque eu tinha visto que tava no copo do “braço de pedir”… mas não tava! Não sei como ele fez isso! Ele só ficou rindo! A bolinha tava do outro lado! Como pode? Eu pedi pra ele fazer de novo e daí eu não desgrudei a olho. Acho que nem pisquei! Daí quando eu fui levantar, acho que ele ficou com pena e resolveu devolver uma das moedas. Daí ele me deu a moeda e estendeu de novo o papelão com os copos na minha direção. Eu vi que a bolinha tinha ficado no copo do outro lado, dessa vez. Mas quando eu levantei o copo… não tava lá! Como pode? Tava no lado do “braço de pedir”! O Pilha ria muito.
— Bora mané! Vamos ganhar dinheiro duns ricos!
Quando a gente tava indo pro centro, eu lembrei da outra vez que o Pilha fez mágica pra mim. A gente era pequeno ainda. Foi antes do Pilha me ensinar como fazer pra andar de carro, quando ele disse pra eu atirar a pedra no vidro do shopping e fui de carro até o juizado! 
Eu lembro: ele apareceu na sinaleira dizendo que ia me mostrar uma coisa muito doida, que eu não ia acreditar. Mas tinha que ter coragem! Sempre que o Pilha fala que tem que ter coragem, eu fico com medo. Porque sempre que ele diz isso, tem alguma confusão. Mas eu fui, né. Morrendo de medo.
— Êh, Pilha. Que tá pensando?! Sou mais corajoso que tu!
Fui com ele até o centro. Daí ele mostrou um daqueles prédios altos, que tem uma casa em cima da outra, parecia o prédio do Uálquin, que mora em frente ao parquinho. Tinha uns latões de lixo perto e fomos pra lá.
— Vamos pegar o quê, Pilha?
— Que mané pegar?! Deixa de ser otário. Tem que se esconder aqui, óh. Abaixa. Tá vendo aquela porta lá dentro, na frente do balcão? 
Tinha um balcão e um homem velho que ficava sentado atrás. E tinha uma porta esquisita na parede do outro lado, na frente do balcão. De repente a porta abriu, um pedaço pra cada lado, e saiu um homem lá de dentro. Falou com o velho do balcão e saiu. E a porta fechou sozinha! Não dava pra ver o que tinha do outro lado da porta. 
— Ó, mané, fica esperto. Quando a porta abrir de novo, a gente tem que correr lá pra dentro. Mas tem que ser rápido, senão o velho pega a gente.
Eu fiquei apavorado! O que será que tinha do outro lado daquela porta que o Pilha queria me mostrar? Eu tava morrendo de medo.
Daí, a porta abriu de novo e saiu uma mulher de dentro.
— Espera… espera… vem! Corre mané!
O Pilha saiu correndo e eu nem pensei em nada, saí correndo atrás dele, louco de medo! A gente passou voando pela mulher e pelo velho, e corremos pra porta. Eu fiquei mais assustado porque quando o Pilha passou correndo na porta, alguém começou a fechar a porta, porque ela quase me esmagou. Daí, eu bati numa parede e fiquei mais assustado ainda. Ouvi o velho gritar… e eu tava zonzo, porque bati em alguma coisa e o Pilha parecia que tava apertando um monte de botões, rindo.
Eu não entendi bem, porque não tinha nada ali! Era só uma caixa com uns botões, por isso que eu bati na parede, porque não tinha nada! Fiquei com mais medo ainda. E acho que eu tava muito tonto com a batida, porque deu uma sensação muito esquisita, parecia que minhas pernas ficaram pesadas, e eu senti vontade de vomitar. E quase caí, parecia que eu tava pesado. 
O Pilha só ria. E me falou:
— Te prepara pra maior mágica da tua vida mané!
— Pilha, o velho vai pegar a gente. Tu é doido? O que tem nessa caixa? 
— Cala a boca, otário. Vou fazer uma mágica. Vou fazer o velho e a mulher e tudo desaparecer, olha!
Eu tava com muito medo. Daí, teve uma sensação esquisita, como se o chão tivesse tremendo… e a porta abriu!
Meu Deus! Eu fiquei muito apavorado! Era verdade! O velho desapareceu, o balcão desapareceu. Tava frio. E escuro. Até o dia desapareceu. 
Depois a porta fechou de novo e o chão tremeu mais uma vez. Eu fiquei com ânsia de novo… acho que bati muito forte na parede quando entrei na caixa! A porta abriu de novo. O Pilha me empurrou pra fora. Eu tava com muito medo. A porta da caixa fechou. Tava tudo escuro. O Pilha ria que se matava! Eu tava apavorado. Não enxergava nada.
— Caramba, Pilha, a gente morreu! 
Demorou um pouquinho e a porta da caixa abriu sozinha de novo. Entrei correndo.
— Pilha, faz tudo voltar! Ta doido! Não quero ficar morrido!
— Dexia comigo, mané! Mas olha: quando eu fizer tudo voltar, vai voltar até o velho e a gente vai ter que sair correndo! 
Eu tava tão apavorado que nem me importava de levar uns cascudos do velho. Só queria desmorrer e ver tudo de novo!
Daí, depois de o chão tremer de novo, a porta abriu! E tava tudo lá! O dia, o balcão, o velho. O Pilha saiu correndo e fui atrás dele! O velho ficou gritando! Eu acho que nunca corri tanto na minha vida!
Até hoje não sei como o Pilha fez aquilo! 
Hoje, vou ficar cuidando pra descobrir o truque do Pilha com essa bolinha. 
… e um dia, eu descubro o truque da Caixa Mágica!


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 22 de julho de 2017

CONTO DE BELLA - Escolhas - Parte 8 - final

Conto de Bella
Escolhas - parte 8 - final

— Bella…
Ele segurou a mão de Bella por cima da mesa… Do parquinho, mesmo em meio ao leve burburinho do restaurante, já começando a esvaziar, chegavam os sons das crianças no parquinho.
Ela lembrou do dia em que, já com dezesseis, quase dezessete anos, terminando o último ano de escola, estava sentada no mesmo brinquedo da infância… no dia em que ele descobriu que ela havia guardado a folha da revista.
— Eu nunca pintei nosso brinquedo, né?
Bella não conseguiu olhar nos olhos dele… continuou olhando a folha de revista:
— E eu ainda não saí daqui…
Naquele dia, ele teve a certeza que os sonhos de Bella eram muito mais distantes do que ele poderia realizar. Eram muito maiores do que um restaurante e um brinquedo pintado. Ele era alguns meses mais novo que Bella… e recém havia conseguido o emprego de garçom. A garrafa de refrigerante e o copo tremiam na bandeja, na primeira vez em que serviu Bella. Mil vezes brincaram, quando crianças, que ele a servia… mas naquela primeira vez, em que não era mais brincadeira, ele tremia.
Sentindo a mão dele segurando a sua, com as vozes distantes de crianças felizes chegando até os dois, ela finalmente disse, como quem tira um suspiro que se havia incrustado na alma:
— Desculpa eu ter brigado com você.
— Eu nunca lhe culpei por isso. Nem a culpo por nada, Bella. 
— Eu acho que briguei, naquele dia, pra tornar as coisas mais fáceis pra mim. Acho que quis ter raiva de você, pra poder ter coragem de deixá-lo. 
A briga a que se referia, foi dois dias depois que ele a viu olhando a folha de revista. Ela o encontrou no parquinho, em um dia quente de sol. Ele estava sem camisa, com algumas manchas de tinta e pintava o brinquedo.
— Por que você está fazendo isso? — Bella perguntou.
— Porque eu lhe prometi um dia. No dia em que vi o seu sorriso mais lindo.
E, de repente, ela simplesmente se zangou, e passou a gritar com ele:
— Que coisa idiota! É ridículo ver você pintando esse brinquedo estúpido. Não somos mais crianças. A gente cresceu e você parece não entender! Parece que você quer passar a vida toda dando voltas nesse carrossel velho e é por isso que nunca vai sair do lugar! Eu vou embora! Vou embora daqui! Não aguento mais ficar dando voltas. Você só me faz dar voltas! Se eu ficar aqui, nunca vou conseguir chegar em lugar nenhum, minha vida vai ficar só dando voltas!
Ela parecia esperar ele reagir. Ele não disse nada. Sua respiração estava acelerada demais, mas ele não disse nada. Engoliu tudo. Trincou os dentes. Ficou pintando até Bella sair, furiosa. Assim que ela saiu, ele jogou para o lado o pincel, levantou e deixou tudo lá. Não retornou para acabar a pintura.
— Sabia que eu quase voltei de dentro do ônibus, no dia que fui embora? Cheguei a levantar duas vezes. — Ela forçou um sorriso.
— Eu sei.
— Sabe? — Admirou-se! — Como pode saber se nunca contei pra ninguém?
— Eu estava lá. — Parou de olhar a mão de Bella na sua e olhou-a nos olhos. — Eu sempre tentei estar por perto, Bella. Desde que brigamos, eu sabia que você iria partir. Na verdade, eu sempre soube, mas quando brigamos, eu soube que era o jeito que você achou pra não me machucar. — Ele sorriu com o canto da boca. — Jeito estranho de não querer machucar. — Disse sorrindo. — Depois daquela briga, eu passei a levantar cedo todos os dias, e ir até a árvore do outro lado da rua, na frente da sua casa. Lembra como a gente sempre subia nela? Todos os dias, eu subi nela bem cedo, até que não demorou nem uma semana, e teve o dia que você saiu, quase escondida, com uma mochila nas costas. Eu fui seguindo você até a rodoviária, porque eu queria ver pra onde você iria. Vi você comprar a passagem e pegar o ônibus. E vi você levantar duas vezes, e quase sair. 
— Você queria que eu tivesse saído?
— Não.
— “Não”? — Ela, instintivamente, puxou a mão, tirando-a dele, com uma expressão surpresa.
— Não, Bella. 
— Você não me amava?
— Amava mais que tudo. Amava como só se pode amar aos desessete anos, como só se pode amar uma vez na vida que é quando descobrimos o amor, sem nem sequer saber o que é. Eu te amava tanto, Bella, que não queria que você desistisse.
Bella olhou-o com uma ternura que lhe doía no peito, e com lágrimas querendo invadir seus olhos.
— Se você descesse, Bella, nenhum de nós seria feliz. Eu não conseguiria ver você todos os dias, sabendo que poderia ter sido o responsável por impedir seus sonhos. Você não estaria comigo de verdade. Se você desistisse de ir embora, você desistiria do seu sonho. Quando você brigou comigo, Bella, fui pra casa e chorei…
Bella, contraiu a testa, sentiu uma lágrima querendo escapar-lhe.
Ele logo se precipitou a confortá-la:
— Não, Bella, não fique triste. Foi um choro de alívio. Todos os dias, Bella, eu rezava pra que você tomasse coragem. A cada dia que passava na nossa adolescência, eu via como você queria ir embora. Eu via seus olhos brilharem quando você via revistas de moda, e cada vez que via um “x redondinho”…
— Chanel — ela disse sorrindo.
— … e me mostrava, eu via como você ficava fascinada. 
— Eu ensinei mil vezes pra você que era o símbolo da Chanel, mas você nunca aprendia… — Bella falou, sorrindo.
— Eu aprendi, Bella. E eu aprendi muito mais. Quando eu passei a comprar todos os meses a revista Vogue pra você, eu nunca falei, mas eu comprava sempre duas. Ficava com uma pra mim, pra tentar ler e aprender as coisas que você gostava. Estudava cada detalhe das dicas, das roupas, das marcas. Eu acho que cheguei a saber mais que você. — Ele quase riu, ela fez uma careta. — Mas eu adorava cada vez que você me explicava coisas que eu mesmo já havia lido, antes de dar a sua revista.
— Não acredito! — Disse Bella, sem convicção, porque, conhecendo-o, sabia que ele bem faria isso mesmo. — Eu nunca queria que você gastasse o seu dinheiro comigo. Você cortava grama para arrumar dinheiro, lembra? Mas você sempre aparecia com a revista. E eu não resistia. Você devia me achar tão fútil. Talvez, você, me vendo assim, continue a me achar fútil. 
— Eu nunca achei você fútil, Bella. Eu sempre soube que era seu sonho. — E ele, agora, olhando um pouco mais sério nos olhos de Bella, disse: 
— Mas o meu sonho, nunca foi fora daqui, Bella. Desde que meu pai morreu, eu sonhei com esse lugar. Eu sonhei em orgulhar meu pai. Sonhei viver o que ele queria. E eu sabia que se você ficasse comigo, nunca poderia viver o seu próprio sonho. E nós dois ficaríamos presos. 
— Mas como foi que você fez isso? — e Bella apontou para o restaurante, que era completamente diferente do pequeno restaurante de beira de estrada da infância e adolescência. — Você é mesmo o dono? 
Ele sorriu, um quase riso.
— Sou. E só consegui realizar o meu sonho, por causa do teu, Bella.
— Mas eu não tive nada a ver com isso! Nem sequer voltei. Eu nunca liguei pra você, por medo que você não quisesse falar comigo. Eu sempre me senti culpada de ter brigado com você, de ter deixado você pra trás. Então, quanto mais tempo passava, esse peso ficava maior e eu não queria nem ligar, de medo que você não quisesse falar comigo, com medo que eu tivesse de alguma forma magoado muito você.
— Não Bella. Foi por você que eu consegui tudo isso. 
— Como?
— Mesmo depois de você partir, eu continuei comprando as revisas. Porque eu acreditava que você iria conseguir! E eu vi seu nome na lista dos aprovados em jornalismo na faculdade. E eu sempre entrava no site da faculdade pra ver suas notas. Você sempre foi brilhante. E eu também acompanhei quando você conseguiu o estágio no jornal, no oitavo período da faculdade. E sei até quando era você que escrevia a coluna e a jornalista assinava, porque eu tinha certeza que era seu estilo! Você entendia de moda mais que ela!
Bella sorriu, mas ainda estava surpresa demais. 
— Eu queria aprender tudo pra poder acompanhar o que você escrevia. Daí que quando você estava no final da faculdade, vi na Vogue, um anúncio de um concurso de culinária e o vencedor faria um estágio de um ano em França, com os melhores chefs. Eu estudei muito, Bella, estudei francês pela internet, eu me dediquei demais à cozinha, aqui mesmo, depois do expediente acabar. Eu me inscrevi no concurso, fui selecionado na primeira etapa que era de enviar a receita e consegui ir para o Rio, pra etapa prática. 
— Você venceu?!!!!
— Não. — Ele riu. — Eu fiquei nervoso demais e estraguei minha receita. — Ele deu uma generosa risada lembrando. 
— Então? — Perguntou Bella, curiosa.
— Então que um chef francês que era jurado, havia ficado curioso por minha receita. Pediu que eu a fizesse novamente, fora do concurso. Daí eu fiz, e ele gostou. Daí, mesmo sem eu ter vencido, ele me propôs ir em França e estagiar no restaurante dele. E acabei em Paris. Guardei cada centavo, fui crescendo no restaurante, iniciei com os comins, depois fui a cuisinier, depois chef de parte e então sous chef. Guardei cada centavo e, quando tive o suficiente, voltei. E, quando voltei, comprei o restaurante e reformei. Mas, enquanto estava lá, Bella, eu continuei comprando a Vogue. Mas conheci, também, a “i-D” inglesa, e a “Numéro" francesa*…
— As duas primeiras revistas que fui correspondente e permitiram que eu abrisse a agência! — Exclamou Bella.
— Sim… e eu peguei uns artigos seus do jornal onde você estagiava… e enviei mil vezes. Parece que uma dessas vezes, alguém recebeu e resolveu abrir meu envelope!
— Meu Deus!! — Lágrimas finalmente rolaram no rosto de Bella. — Foi você…?… — Ela quase não conseguia falar… — Eu fiquei surpresa quando recebi um e-mail convidando-me a escrever um artigo free lance  sobre a SPFW quando eu recém colei grau! Logo depois fui contratada pela “i-D”, depois todas as portas se abriram pra mim! Foi você…! — E Bella finalmente permitiu-se chorar.
— Vem… quero mostrar uma coisa.
Ele se levantou dando a volta por trás da cadeira de Bella, tal qual muitas vezes, ainda criança, seu pai ensinou-lhe a fazer, durante as refeições imaginárias que ele e Bella faziam servidos pelo pai dele. Delicadamente, puxou a cadeira e, assim que Bella levantou, estendeu-lhe a mão, indicando o caminho do escritório. 
Lá dentro, nas paredes, vários prêmios culinários pendurados e, num canto, em um elegante chiffonier em carvalho, todas, absolutamente todas as críticas que Bella havia escrito, primeiro em jornal, depois em todas as revistas: i-D, Numéro, Vogue, W, Flaunt, Nylon, Love…
— Meu Deus… — Foi tudo o que Bella conseguiu dizer. — Se eu pudesse ter entendido… se a gente pudesse voltar atrás…
— Não… — e ele delicadamente colocou um dedo sobre os lábios de Bella. Não seria justo. Fizemos as nossas escolhas. Se não fosse o seu sonho, Bella, eu não realizaria o meu…
— Mas foi você quem fez realizar o meu! Agora eu sei que foi você que fez tudo acontecer. Eu jamais imaginaria chegar onde cheguei! Não assim! Eu queria ser jornalista de moda, mas meu sonho não ia além de um jornal ou revista daqui! 
— Bella… — E ele lhe tomou a mão. — É tempo de aliviar nossos corações. Tempo de tirar qualquer peso. Nós dois realizamos nossos sonhos. 
— Mas e quanto a nós?
— Nós vamos seguir amando quem escolhemos para amar! — E ele sorriu, indicando o caminho de uma porta lateral de onde as vozes das crianças chegavam mais forte. 
Ele conduziu Bella e ela pode ver o parquinho do restaurante. O garoto menor estava sentado em uma caixa de areia, sorrindo, deliciosamente sujo. A garotinha, estava sentada em um brinquedo de rodar… colorido exatamente como o brinquedo de uma folha de revista há muito guardada por Bella. 
Antes de chegar no parquinho, Bella ainda lhe perguntou:
— Será que aquele nosso amor vai ter chance em alguma outra vida?
Nesse momento, a menininha disse ao garoto maior, quase da sua idade: 
— Empurre bem forte, que eu quero dar a volta ao mundooooo…
E o garotinho respondeu:
— Eu levo você! — E começou a empurrar o mais forte que podia.

Fim.

Por Luís Augusto Menna Barreto

*Duas revistas de moda européias que figuram entre as dez revistas de moda mais famosas e respeitadas do mundo.


terça-feira, 18 de julho de 2017

CONTO DE BELLA - Escolhas - parte 7

Conto de Bella
Escolhas - parte 7


Alguns dias depois, em um sábado de frio e sol, Bella olhava, absorta em seus pensamentos, as paisagens que, rapidamente iam ficando para trás. Ouvia vozes de criança, mas, distraída, não identificava o que os garotos falavam no banco de trás da daquela luxuosa caminhonete. Seu marido dirigia seguindo as instruções de Bella que dissera, apenas, que levaria a todos para almoçar em um local especial, sem dar maiores informações e mantendo um ar de segredo.
Bella nunca soube ao certo, quanto tempo ficou olhando o telegrama no dia que o recebeu, nunca soube ao certo, por quanto tempo o mundo inteiro havia parado… “Traga as crianças. Vou servir você.” Naquela manha, na agência, Bella tinha de terminar uma crítica sobre o desfile que o jovem estilista Shayne Olivier havia feito na SPFW… quase perdeu o prazo e, ao final, falando sobre o próximo evento em que o promissor estilista negro exibiria seus conceitos, Bella escreveu sem querer: “… com a capacidade de transformar o jeans que usamos, em alta costura, fazendo-o perder o caráter meramente comercial, para transformá-lo em objetos de desejo. Vale a pena conferir. Traga as crianças.
— “Traga as crianças”, Bella? Tem certeza? — perguntou-lhe a assistente, que sempre lia as críticas de Bella como uma espécie de revisão. 
— Como?
— “Traga as crianças”. Você realmente quer que as pessoas levem crianças ao desfile?
Bella ficou olhando, sem sequer ouvir a pergunta.
Nos próximos dias, Bella sentiu-se em outro ritmo. Lembrou-se que no restaurante, teve a impressão, quase certeza, de vê-lo servindo as mesas. Depois, entretanto, de passar dias pensando na conversa que tivera com o garçom, tentava convencer-se de que se havia enganado. Bella achava que ele não a tinha visto, e pensava, de forma lógica, que não teria nenhum motivo para o garçom haver mentido para ela. Algo não fazia sentido. Mas agora, com o telegrama… ela não conseguia entender o que houve. Talvez ele a tenha visto e sentido vergonha por ser ainda garçom, e ela ter chegado naquele carro, vestida daquele jeito… Teria sido esnobe?
O telegrama, entretanto, não dizia muito, mas mostrava que ele sabia que ela tinha filhos. Então, ele sabia algo de sua vida! E sabia onde ela trabalhava. Decidiu. Iria encontra-lo. O telegrama não marcava data. Então ela teve certeza: se não há data, definitivamente ele trabalhava lá. Era garçom ainda.
Passando a placa que indicava a entrada da cidade, indicou ao marido que reduzisse e logo apontou para o restaurante. Quando o marido foi estacionar o carro, Bella viu umas marcas no chão, riscos aparentemente traçados a mão, na pirraça, simulando uma vaga, em linhas não muito retas… e Bella disse:
— Ali! Estacione ali. É a nossa vaga.
Desde que havia enviado o telegrama, todos os dias, ele chegava cedo no restaurante, e ia até o estacionamento, desenhar com as mãos, uma vaga de estacionamento. Um dia, quando a mulher e a filha chegaram, e perguntaram o que era, ele disse simplesmente: 
— Vaga de estacionamento!
Quando o carro de Bella estacionou, ele a viu. Deu um telefonema para um amigo, e foi para a cozinha do restaurante.
Bella e a família escolheram uma mesa em um canto perto da janela, onde tinham a vista da estrada, estacionamento e da parte externa, onde ficam as mesas embaixo da figueira. Em poucos minutos, sem ter havido pedido, uma entrada fora servida, em uma colher em louça estilizada, um tomate recheado com peito de peru cortado em minúsculos pedaços, batido no liquidificador junto com creme de leite, azeite de oliva, cebolinhas, sal e pimenta rosa. Na colher, sob o tomate, uma pasta de geleia de pimenta.
Ficaram surpresos. Ainda mais quando o garçom, impecável, disse que era cortesia da casa. As crianças adoraram “comer direto na colher” e perguntaram se Bella poderia fazer o jantar deles assim também.
Em seguida, acompanhado de vinho branco, trouxeram Gigot d'Agneau, servido como recomenda a melhor culinária francesa: cozido por fora e rosado por dentro, depois de sete horas no forno em baixa temperatura. As crianças adoraram, porque se desmanchava facilmente na boca. 
Bella estava, ainda, ansiosa por vê-lo e, de certa forma, preocupada com o evidente custo de tudo aquilo, porque sabia que poderia ser pesado demais a um garçom. E ansiosa, também, porque ainda não o vira. 
Terminada a refeição principal, um outro garçom veio empurrando um carrinho de sobremesas e, chegando na mesa falou ao casal:
— Senhores, com sua permissão, o Patrão gostaria de cumprimentá-los. — … e foi nesse instante que Bella o viu. Uma lágrima caiu-lhe, sem que pudesse ter evitado, no canto do olho direito, mas nem o marido nem as crianças perceberam, porque ele chegara com um maçarico culinário na mão, apresentou as sobremesas com nomes que divertiram os garotos e, em seguida, sugerindo o Crème Brulée, ele mesmo colocou a capa de açúcar cristalizado e acionou o maçarico para solidificá-la, explicando diretamente às crianças que eles quem deveriam ensinar aos pais como quebrar a capa de açúcar com a colherinha. As crianças adoraram. 
Bella estava como que petrificada. Ele elegantemente fez uma reverência à Bella e disse, simplesmente:
— Bella.
O marido em seguida, percebeu que se conheciam. E também em seguida, chegou à mesa um rapaz com corte de cabelo militar, que havia chegado depois de receber um telefonema com instruções. Sentou-se em uma mesa afastada e levantou-se, como recomendado, logo depois de que ele serviu a sobremesa. 
— Coronel! É uma honra. 
O rapaz apresentou-se como Tenente de Força Aérea, exaltou o currículo do marido de Bella, inclusive as incursões na Força de Paz brasileira no Haiti, onde o marido de Bella fora condecorado, e convidou-o para conhecer o clube de aviação amadora da cidade que ficava há seis quilômetros dali. O marido, entendendo que Bella teria muitas recordações a serem rememoradas, perguntou se Bella não se importaria, e convidou as crianças. 
Nesse mesmo instante, entrou no salão do restaurante uma menininha sorridente, levada pela mão da mãe. 
Ele faz as apresentações. A menininha perguntou se foram bem servidos e, olhando à Bella disse:
— Você é como seu nome.
Bella sorriu e, antes que respondesse qualquer coisa, a menininha dirigiu-se aos garotos:
— Vocês querem ir no parquinho? — Bella não havia visto nenhum parquinho, mas havia um, na parte de trás do restaurante, com recreacionista para os clientes que fossem com crianças.
Os garotos olharam o pai com olhos de quem pede. A esposa dele cumprimentou Bella e disse que não se preocupasse que ela os acompanharia no parquinho.
 O marido saiu acompanhando o jovem tenente. As crianças foram ao parquinho com a esposa dele. Ele apontou para Bella sentar e, delicadamente, puxou a cadeira. Sentou-se em seguida e só então Bella notou que o terno que usava era um Yves Saint Laurent.
Ficaram a sós. E ele começou a falar:
— Bella…


(continua…)

Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 16 de julho de 2017

CONTO DE BELLA - Escolhas - parte 6

Conto de Bella
Escolhas - parte 6

Enquanto Bella dirigia, quase ausente de pensamentos, quase ausente de si mesma, distante algumas horas dali dois garotos estavam com os dedos completamente sujos de grama e barro no quintal de casa, e incansavelmente subiam e desciam de uma casa em construção na árvore atrás da casa.
Embora a cozinha francamente confortável onde faziam as refeições de maneira informal, ou embora a sala de jantar, elegantemente decorada, um almoço havia sido servido de maneira improvisada em um terraço de uma casa de árvore em construção.
Enquanto Bella estacionava, estranhou que o carro do marido ainda estava ali. Era um velho Jeep. O carro estaria adequado ao modesto soldo do marido, mas o casal, com os ganhos de Bella, poderia ter os carros que quisesse. E não era por qualquer orgulho que o marido mantinha o Jeep. Ele simplesmente gostava e, na verdade, Bella achava que combinava com o estilo do marido, um jovem Coronel da Força Aérea Brasileira.
As crianças apareceram correndo e Bella não se importou quando mãozinhas embarradas de 6 e 4 anos abraçaram-lhe as pernas, deixando generosas marcas na calça Emílio Pucci.
— Mamãe, mamãe, fizemos comida. Vem!
Ela viu o marido vir, desajeitado, de bermudas, pés descalços, mas com um pano no braço, imitando ser um garçom… Pensou na ironia… mas não pode deixar de sorrir. Antes que ela perguntasse, ele explicou:
— Só tenho de voar em três dias. Perdoa eu não ter acordado quando você saiu. Mas pousei às 3h da manhã na base, e você dormia tão tranquila que não quis que acordasse. Vem. Está tudo pronto!
E Bella foi levada até a casa na árvore, em construção, e que não havia quando ela saiu de casa, mas que os garotos há tempos pediam para o pai construir.
Ela deixou que a alegria dos filhos e a gentileza e amor do marido viessem como um abraço bom e tentou abafar as emoções da manhã. Bella passaria o dia sendo levada pela imaginação dos garotos e sorriu muitas vezes durante aquele dia…
O primeiro ímpeto que ele teve, foi o de correr para o estacionamento e chamar por Bella, pedir que ficasse. 
Depois, sentiu em seguida a mãozinha da filha a envolver-lhe a perna e ela já lhe perguntava:
— As batatas estão sequinhas? Posso cozinhar, hoje? 
Então, pegou a filha no colo, ainda absorto em pensamentos que não sabia interpretar. 
Mas havia tomado uma decisão. Era a hora!
Os dias passaram-se estranhos para Bella, no escritório da agência onde mantinha a coluna de crítica de moda, e era correspondente internacional de revistas européias… mas, de repente, chegou-lhe um telegrama. Estranhou. Num mundo de aplicativos, em que mesmo os e-mails tornavam-se, já, obsoletos, ela recebera um telegrama. E teve de assinar o recibo! 
Todos os cinco funcionários ficaram curiosos, e Bella teve alguma dificuldade em descobrir por onde abrir o telegrama. Estava escrito:
“Venha almoçar. Traga as crianças. Vou servir você.”

(continua…)

Por Luís Augusto Menna Barreto


sexta-feira, 14 de julho de 2017

CONTO DE BELLA - Escolhas - parte 5

Conto de Bella
Escolhas - parte 5


Bella esperou um pouco até recuperar o controle e saiu devagar do carro. 
Havia um “x redondinho” na haste dos óculos escuros. O salto da sandália Jimmy Choo que usava, afundou de leve na piçarra do estacionamento, onde tantas vezes brincara com ele, no passado. Às vezes, enquanto o pai dele varria o salão e preparava as mesas, ela e ele traçavam, com as mãos, pequenos sulcos na piçarra, que nem saiam tão retos, tentando desenhar as vagas para os carros estacionarem… linhas trêmulas, às vezes tortas, às vezes quase o dobro da largura de um carro, às vezes pequenas demais… e ficavam, depois, sentados no tronco ao lado do estacionamento, e vibravam e batiam palmas quando algum carro estacionava nas “vagas”…
Então, Bella sorriu e olhou um instante o estacionamento, como que procurando marcas dos sulcos traçados por dedinhos que ficavam com unhas cheias de terra…
Dirigiu-se em passos que com esforço de autocontrole mantiveram-se firmes, sentou-se em uma das mesas ao ar livre, protegidas pela sombra de uma generosa figueira, e ficou aguardando que o garçom viesse servi-la. Passados alguns instantes, em que também outros fregueses chegavam, veio um garçom que não era ele, e Bella resolveu por não perguntar, ainda, por ele. Ficou esperando para ve-lo atender outra mesa, cuidando, especialmente, a mesa em que estava o casal com as crianças, cujo pedido ela o viu anotar. Pediu o cardápio e ficou impressionada com alguns pratos de fina culinária descritos. Havia os tradicionais, do tempo de sua infância e adolescência… mas, agora, havia pelo menos quatro pratos que causaram em Bella alguma surpresa. Pediu água com gás e gelo, enquanto esperaria pelo outro garçom.
Viu que o pedido da mesa do casal e crianças foi servido, mas por um terceiro garçom. Admirou-se ao notar que mais pessoas trabalhavam no restaurante, porque nos tempos de outrora, apenas o pai dele servia a todos. Agora, já vira ele e mais dois. 
Como o tempo foi passando sem que o visse novamente, decidiu perguntar por ele, justamente quando o casal com as crianças terminou o almoço e saiu. Os dois garçons que não eram ele estavam no salão, atendendo e, quando um deles veio para a área de fora, à sombra da paineira, Bella chamou-o.
Bom dia. Eu vi um outro garçom, que atendeu ao casal que acaba de sair… poderia chama-lo para mim? 
Pois não! - Fez uma discreta reverência com a cabeça, girou nos calcanhares e saiu. Em um instante, o garçom que não estava no salão, aproximou-se em passos firmes, sem conhecer a pessoa que o solicitou.
Bella não teve a coragem de olhar nos olhos e, quando o garçom veio-se aproximando ela baixou os olhos, sem que fosse percebida, por trás dos óculos do “x redondinho”.
Pois não?
Um frio no estômago. Bella não reconheceu a voz. Pareceu mais fina que ela imaginava que estaria. Diferente. Olhou para o garçom… … e com surpresa, não era ele.
Não é você… - foi o que ela disse, sem querer, sem saber esconder a decepção.
Perdão, senhora?
Não é você.
O garçom ficou sem entender. Bella, depois de alguns segundos, novamente recuperando o controle embora surpresa por ver mais um garçom trabalhando no restaurante, explicou que queria falar com o garçom que havia servido o casal com as crianças.
Fui eu que os serviu, senhora.
Não. Foi outro garçom!
Desculpe senhora. Talvez haja algum engano. Aqui, trabalhamos neste turno, apenas eu, Francisco que foi chamar-me e Paulo. Talvez seja o Paulo? - E apontou para um garçom baixinho e loiro, que não poderia, de nenhuma forma, ser confundido com ele.
Eu não entendo, disse Bella… eu vi… - ficou em silêncio. Sem palavras. Sem chão.
Posso ajudá-la?
Bella olhou-o alguns instantes. Agradeceu. Tentou pagar a conta, mas o garçom, diante do visível abalo de Bella, estava instruído a não cobrar em situações assim, e disse que seria uma cortesia da casa. Perguntou se ela queria ajuda até o carro, ou se gostaria que chamassem alguém, mas Bella recusou e disse que estava bem. 
Não estava. 
Voltou ao carro, olhando tudo em volta. E, de repente, viu tudo diferente: notou que realmente o restaurante estava reformado, e com mais ambientes. O estacionamento estava maior e, no lugar do antigo tronco, havia bancos espalhados na grama, em agradáveis sombras. Havia movimento. Muito movimento no restaurante e três garçons trabalhavam, revezando-se por entre as mesas.
Bella estava confusa… poderia jurar que o havia visto. Era ele. Conhece-lo-ia em qualquer lugar, em qualquer tempo, em qualquer vida, não importa quantas vivesse, mas o conheceria. 
Entrou no carro, um pouco atônita, quase sem pensamentos… e o caminho de volta seria um caminho trilhado num vazio de pensamentos… como quando nos roubam uma parte de nosso passado…
Em seguida a que aquela senhora elegante levantou-se e saiu depois de o garçom haver puxado a cadeira para ela e a acompanhado elegantemente até a porta, abrindo-a, o garçom dirigiu-se à cozinha porque sabia que seria muito mais provável encontrar o dono do restaurante ali, do que no escritório. De fato, ali estava, trocando ideias com o chef. Havia a recomendação de que qualquer desconforto dos clientes, por menor que fosse, ele deveria ser avisado. Na dúvida, depois daquela conversa estranha, o garçom que atendeu Bella, foi avisar o patrão.
Contou-lhe em rápidas palavras, descreveu a cliente e foram, ambos, até a janela. O garçom indicou-a com o dedo, quando ela entrava no carro.
Também nesse instante, uma menininha de seis anos entrava saltitante pelo restaurante, conduzida pela mão da mãe, e falando com todos os garçons que lhe retribuíam com sorrisos e uma grande reverência, chamando a menininha de “madame" e demonstrando uma cumplicidade que é adquirida com a repetição.
A menininha, em cada mesa que passava perguntava:
Bom dia. são sendo bem servidos?
Invariavelmente causava surpresa e admiração dos clientes que retribuíam com sorrisos a gentileza da menina.
Dirigiram-se à cozinha com a intimidade de quem por mil vezes já fez esse caminho e a menininha viu o pai com um garçom, olhando pela janela.
Papai!
Ele olhou a mulher que o garçom indicava… E foi o seu mundo que parou por um instante.
No mesmo momento em que uma menininha de seis anos corria de braços estendidos gritando “papai”, de algum lugar há muito guardado, saiu de seus lábios um nome que há muito não mais teve oportunidade de pronunciar:
Bella…

(Continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto