sábado, 18 de novembro de 2017

O TEATRO - parte 2 - drama

O TEATRO
Parte 2 - drama

— … óh!, Alberto… por que você nunca está junto quando quero você ao meu lado? — E Carolina afastou-se com um dramático movimento encostando o punho na testa, girando sobre si mesma e antes de cair, fora amparada por Frederico.
— Carolina! — Gritou Frederico, e, depois, repetiu mais baixo: — Carolina… — Pegou-a nos braços, olhou desafiadoramente para Alberto: — Desapareça, covarde! — Alberto deixou cair os ombros, baixou a cabeça e caminhou para fora do palco, sumindo por entre panos que traziam o desenho de uma estrada. 
Primeiro, silêncio. Em seguida, aplausos. Muitos aplausos.
Fechou-se a cortina. Panos vermelhos apareceram de um lado e de outro, movendo-se em direção ao centro. 
O teatro foi na praça, na frente da igreja. A missa tava cheia. Terminou a missa, e todo mundo parece que foi no teatro. O teatro tava mais cheio que a missa. Lá no lugar em que a gente joga bola na praça, cercaram com uma lona. Daí, tinham aquelas cadeiras de metal, com propaganda de cerveja. Muitas mesmo, tudo em fila, bem lindo. Na frente das cadeiras, o caminhãozinho, todo enfeitado. Em cima dizia “Paris” e no fundo, tinha uma torre pintada, parecida com a torre da antena da repetidora da TV. Na caçamba, que era o palco, dois bancos iguais aos da praça. 
E toda a peça foi ali em cima do caminhãozinho.
Eu não era muito ligado nessas coisas de teatro. Na verdade, eu nunca tinha visto um. Nunca tinha assistido. Pra mim, pareceu gente falando de um jeito que a gente não fala na rua. Porque mexiam muito os braços, e pra qualquer coisa falavam “óh”, “ah”… e andavam de um lado pro outro. As pessoas que eu vejo conversando, ficam paradas, não ficam andando assim, como os atores. E eu não sabia direito quando era pra rir, ou pra ficar com “cara de óóóóhhh”… mas daí, eu ficava cuidando a Luísa. Ela não parou quieta! Ela ria, ia pra frente na cadeira, quase levantava, depois sentava, ficava assustada… e fazia “cara de óóóhhh”. 
Eu lembro que no cartaz, lá na entrada dizia “Grande Drama”. Eu não sabia o que era “drama”. Quando fui perguntar pra vó, ela perguntou se eu já tinha feito a lição de casa da escola. Daí eu disse que ainda não, e ela respondeu que eu ia aprender o que era drama se eu não fizesse a lição naquela mesma hora! A vó é meio braba. Preferi não aprender com ela o que era drama. 
Quando eu tava indo, encontrei o Conrado. Ele é muito metido. Eu e o Juca apelidamos o Conrado de “Sabão”… porque ele acha que sabe tudo! Daí, perguntei pra ele o que era drama. E ele me disse que era quando a gente via alguma coisa e ficava “óóóhhh”. Eu acho é que ele nem sabia nada. Mas eu queria descobrir, porque tava com medo que a Luísa me perguntasse e eu não soubesse dizer. Mas ela não perguntou. No fim, passou a peça inteira, e eu não descobri o que era drama. Mas seja lá o que for, eu adorei. Porque cada vez que todo mundo fazia “óóóóhhh”, a Luísa segurava no meu braço e apertava. Ela nem olhava pra mim, acho que ela nem sabia que tava apertando meu braço… mas eu sabia uma coisa: não queria que a peça terminasse… E drama, pra mim, podia ser “óóóóhhh pro resto da vida…


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 11 de novembro de 2017

O TEATRO - parte 1

O TEATRO
Parte 1

… foi de repente… 
Jamais vou esquecer. Faz um tempo, já. Nem sei quanto. Sempre que a gente lembra que era menor, parece que o tempo some… e tem coisas que parece que foi ontem. Outras, foram mesmo.
Eu estava com a Luísa, e ela estava me mostrando umas figurinhas novas do álbum. Eu nem sei direito que figurinhas eram ou como eram as figurinhas. Eu lembro dos olhos da Luísa… E daquele sorriso de lábios finos… Ah!, mas não era isso que eu queria contar. 
Eu estava ali, com a Luísa e, de repente, virou na esquina, uma Kombi toda colorida, cheia de cartaz colado. E tinha auto-falantes:
… venham ver esta incrível história de amor! Frederico terá coragem para largar tudo e ir com Carolina? E Alberto, que secretamente nutre seu amor, abandonaria sua mãe doente para disputar com Frederico o amor de Carolina?…
E atrás da Kombi, veio uma espécie de caminhãozinho, todo velho e barulhento, e em cima do caminhão quatro atores iam e voltavam, quase perdendo o equilíbrio, ora a moça abraçava um, ora, repudiava outro, ora dois deles parece que pegavam em facas pra lutar… e logo a Kombi e o caminhãozinho passaram por nós, deixando só fumaça e aquele resto de barulho, que parece poeira de ouvir…
Eu tava louco que passassem, porque eu queria conversar com a Luísa. Eles estavam me atrapalhando, porque não é sempre que eu conseguia falar com a Luísa sem o grudento do Conrado se exibindo pra ela. 
Daí, quando passaram e a poeira de barulho e a fumaça foram ficando menores, a Luísa estava diferente: parecia que estava e que não estava ali ao mesmo tempo. Umas figurinhas até caíram no chão. Eu comecei a juntar todinhas pra ela e ela continuava ali, paradinha. Eu achei que deveria até chamar ela, fazer algo pra ela se mexer de novo. Mas ela tinha paralisado com um sorriso tão lindo, que já não sabia se queria que ela se mexesse, ou ficasse ali, paradinha e sorrindo daquele jeito pra sempre. Porque eu ficaria pra sempre olhando…
… hoje à noite, na praça, depois da missa, não percam a estréia do Grand Teatro Ranulfo Penha! Toda noite, uma peça diferente, que vai fazer você”. Era o restinho da poeira do barulho…
Quanto eu levantei com as figurinhas que caíram ela se mexeu, mas os olhinhos ainda acompanhavam a Kombi… daí, quando a Kombi e o caminhãozinho viraram a outra esquina, ela olhou pra mim, e me disse segurando meu pulso! 
— Eu quero ir!
Ela segurou meu pulso!


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pensamentos perdidos - ... fotografia!

Pensamentos perdidos - … fotografia!

Revirando as gavetas, onde tanto de mim deixei, achei essa foto da minha juventude… 
É bom ver fotos antigas… fazem-nos lembrar como éramos…
Essa foto, é como eu era: 
… porque sempre me soube em palavras!




“Um rock’n'roll
na mesa da avenida
a cerveja
o futebol, a vida
não é política…
é a embriaguez da poesia
n’uma noite quase dia
da mesa de um bar
… a velha turma
não tão velha
belo par.

verão-93”  

Do tempo em que eu ainda usava o velho caderno e uma caneta “pilot”…
(Tu ainda tens tuas canetas…?)


Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 22 de outubro de 2017

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 2

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 2

Coisa difícil é não arregalar os olhos!
Alguém aí já parou pra pensar nisso? A gente tá ali, tranquilo, ou eventualmente concentrado em algo, daí vem alguém conta uma coisa inesperada, baixinho, bem no ouvido… e quero ver conseguir não arregalar os olhos. Na verdade, a gente nem pensa: vem a notícia e parece que no caminho do ouvido pro cérebro, ela passa pelos olhos e vai levantando pálpebras e sobrancelha, de um jeito tão ligeiro, que chega a enrugar a testa!
E outra coisa: por mais que seja um movimento relativamente pequeno e absolutamente silencioso, parece que tem um “imã de olhares”… porque é a gente arregalar os olhos, e alguém nota! 
Pois quando a Dona Boneca veio quietinha no meu ouvido perguntar, sussurrando “Doutor… mas cadê o Cara de Cuspe?”, lá foi: olhos arregalados, testa enrugada, e aquele arrepio que antecede um palavrão.
Consegui segurar o “hein?”, mas não adiantou: parece até que meus olhos arregalados fizeram barulho! Quando vi que todos estavam olhando para meus olhos arregalados, fiquei arrependido de segurar o “hein?”, porque estava fazendo como que um “bolo" na minha garganta!
E, de repente, cheguei a desconfiar que, em vez de sussurrado, a Dona Boneca tivesse gritado no meu ouvido, porque o pessoal começou a se olhar no salão do júri, e aquele burburinho de gente falando com o vizinho ao lado, atrás, na frente, tomou conta do salão.
Os dois policiais se olharam, a advogada levantou os ombros, era um tal de um-olha-pro-outro-que-olha-pro-um, e balança a cabeça, e sobe os ombros… 
O promotor estava branco. Suava bicas e com aquela cara de “não é possível… de novo?!” Foi levado pelo assessor e pelo Goela para o seu gabinete e a Dona Boneca já providenciou um copo de água com açúcar, que tudo cura!
Até existe situações em que é permitido fazer o júri sem o réu. Mas de jeito nenhum se pensava nisso naquele momento. Depois de toda a expectativa, depois do envolvimento de toda a cidade, ninguém cogitava em um júri sem o réu.
O efetivo da Polícia Militar saiu em busca, o Branco, carcereiro, acionou o delegado, que até liberou o Brédi-Piti, que tava preso, pra ajudar na busca pelo Cara de Cuspe. O burburinho no salão do júri estava impossível de conter. Mas com os minutos, que viraram "meias horas”, que virou hora, os ânimos no salão foram arrefecendo, e o salão começando a esvaziar, com as pessoas preferindo o vento que vinha do rio, concentrando-se na praça na frente do fórum.
Pois não levou nem meia hora pra começarem a surgir as mais variadas notícias da morte do Cara de Cuspe… ou “das mortes”:
“Ouvi dizer que se jogou na baía, com uma pedra no pescoço”, comentavam no bar do Seu Nonô.
“O Fagulha disse que viu ele indo pro mato, só de bermuda, sem sandália nem nada, dizendo que ia pegar a cobra grande à unha”, alguém falou na praça!
“… comeu pão com chumbinho”, alguém disse na porta do fórum!
“… pois eu falei com ele e ele disse que tinha se matado comendo manga com leite”, disse o Manobra, já com um copo na mão, no açougue do Retalho.
E por aí, iam os comentários.
Rebuliço deu mesmo, quando a mãe do Cara de Cuspe apareceu com uma sombrinha em punho e tom de ameaça, procurando pelo promotor! 
“Cadê aquele excomungado que matou meu filho?… o que vai ser de mim sem meu Geodésio?! A culpa é desse promotor, que meu Geodésiozinho levou farelo, Cava-Cova do cão!”
A rádio da cidade (aquela com caixa de som nos postes, e que liga todo dia das 16h até 19h) estava transmitindo em jornada excepcional às 10 horas da manhã e, claro, contribuindo para aumentar a agitação. 
Pois não deu muito mais tempo e atraca um “pô-pô-pô”* de onde sai um tranquilo Cara de Cuspe, com uma vara cheia de peixes! E tava formado novamente o rebuliço! 
Rapidinho anunciaram na rádio que o finado Cara de Cuspe ressuscitou pra enfrentar o Cava-Cova na justiça. A mãe do Cara de Cuspe teve que ser atendida e levada pra unidade de saúde, ao ver o filho voltar dos mortos! 
Por onde ia passando, tinha gente fazendo o sinal da cruz! Os policiais militares iam abrindo caminho no meio do povo e conduzindo o Cara de Cuspe para o salão do júri, do jeito que ele tava, com cheiro de peixe e tudo, pra não deixar escapar de novo: 
“Saiam da frente! Ninguém toca no morto, que ele tem que ir pro júri”, iam gritando!
Os lugares rapidinho foram preenchidos novamente, toga recolocada, ventiladores ligados, gente nas janelas… tinha jurado que nem olhava para o Cara de Cuspe, convencido que era visagem, não parava de se benzer e achava que seria sacrilégio condenar um morto!
De qualquer forma, entrei de novo no salão, respirando aliviado. Conferi: o réu tava lá, de bermuda, camiseta, chinelo de dedo e cheirando a peixe! 
Quando pensei em recomeçar, veio discretamente, a Dona Boneca, abaixou-se do meu lado e perguntou baixinho…
“Doutor…”
Frio na barriga.
“… onde está…”
Arregalei os olhos antes de terminar a pergunta.
“… o promotor?”
Não segurei: 
“HEIN?!”


É… tem coisas que a gente não explica. 
O promotor anterior fez jus ao apelido até o final: era o Cava Cova e, enquanto esteve lá, ninguém foi julgado no tribunal do júri. Pois aconteceu que cavou a sua própria cova. Infartou de toga, no seu gabinete, quando o assessor falou que "o Cara de Cuspe  desmorreu pra ser julgado."
Depois daquele dia, não deu muito tempo e conseguimos realizar vários júris. Inclusive o do Cara de Cuspe, que foi absolvido, principalmente depois que a vítima, o Fila Bóia, deu o depoimento de que estava na pescaria junto com o Cara de Cuspe, e que a briga já tinha ficado pra trás. 
Com a morte do promotor, o pessoal da cidade acreditou que terminou a maldição. 
Daí, tudo voltou ao normal: começaram a se matar de novo! 


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 14 de outubro de 2017

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 1

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 1

Meus dias de “Odorico Paraguaçu” Haviam terminado!
Assim como o personagem da novela “O Bem Amado” que, sendo prefeito de Sucupira queria inaugurar o cemitério e ninguém morria, eu também estava há quase dois anos querendo inaugurar o salão do Tribunal do Júri sem que ninguém quisesse matar ninguém. O promotor estava mais ansioso do que eu, porque ele estava na comarca há quase dez anos e louco pra realizar um júri… e ninguém matava ninguém!
Reza o folclore popular que o promotor era apelidado à boca pequena, de Cava-Cova, porque nesses dez anos que ele estava lá, por três vezes ele denunciou alguém por homicídio… e os três morreram antes do júri. O Fatiado que matou um antigo desafeto que o havia legado o apelido, depois de cortá-lo várias vezes com um terçado, morreu no mato, dizem que picado por cobra. E dizem que havia matado seu desafeto menos pelos cortes que levou na briga anterior, e sim porque não gostou do apelido que recebeu por ter sido cortado. O Espoca-Bota morreu de cirrose um mês antes do júri. Ele havia matado o dono do bar do barco em que viajava, quando este disse que não venderia mais cerveja pra ele antes que ele pagasse o que já havia bebido. Com esses dois, o promotor ganhou o apelido de Cava-Cova. E espalhou-se a notícia de que se ele denunciava, o caboclo morria. Isso evidentemente contribuiu para evitar muitos homicídios. A população acreditava que o fato de ser denunciado, já era a pena de morte: o caboclo morreria antes do júri! O terceiro, apenas confirmou a fama do promotor: o Medida, assim que soube que tinha sido denunciado, resolveu abreviar a angustia, já que acreditava que, tendo sido denunciado a morte era certa, e se jogou de cima de uma árvore, com uma corda amarrada no pescoço. Dizem que queria enforcar-se, mas calculou errado a medida da corda e morreu mesmo foi da queda, levando a corda frouxa no pescoço. Ganhou o apelido de Medida depois da morte. Antes, era Sagüi.
Pois eu também estava ansioso.
Primeiro, eu pensava numa inauguração pomposa, em grande estilo, um homicídio desses de televisão, com cobertura da imprensa nacional, quem sabe uma notinha no The New York Times, ou no Le Monde… depois fui meio que perdendo as esperanças e pensei em um homicídio que fosse notícia na cidade, ao menos, com o pessoal da rádio local (aquela com caixas de som penduradas em postes de luz) gastando horas de programação com especulações…
… mas aqui numa das menores cidades do Marajó, depois de dois anos sem nem notícia de homicídio, acabei me contentando com a denúncia que o Promotor ofereceu afirmando que o  Cara de Cuspe tentou matar o Fila-Bóia.
Os motivos, o início não se sabia, mas a contenda terminou pelo Fila-Bóia sendo arremessado no leito do rio pelo Cara de Cuspe. Até aí, nenhum problema haveria, não fosse por dois motivos: o Fila-Bóia não caiu na água, mas por cima de um casco* que estava atracado ali. A queda foi de três metros, e o Fila-Bóia demorou um pouco a levantar. Quando se equilibrou no casco, nitidamente tonto, pulou no rio… mas a água estava pequena** e bateu a cabeça no fundo, tendo sido levado às pressas para a unidade de saúde.
Foi então que o promotor em vias de aposentar-se (e queria um júri mais que eu), decidiu por denunciar o Cara de Cuspe que empurrou o Fila-Bóia “com o nítido dolo de ceifar sua vida por meio cruel, empurrando covardemente a vítima para o abismo de modo que, caindo, desencadeou a série de nefastos eventos que colocaram em risco a sua vida, agindo de modo que impossibilitou a defesa do sacrificado, não obtendo o resultado morte por motivos alheios a sua vontade: cabeça dura da vítima”. Arrolou como testemunha, a Dona “Falo-Nada” que ganhou o apelido, porque normalmente começa a conversa com “ulha, nem falo nada, mana…"
O fato é que o caso ganhou um tamanho tal, que toda a cidade ficou ansiosa pelo “júri”, mesmo que quase ninguém soubesse o que era isso, ou como funcionava. 
Teve o dia que cheguei no fórum e tava uma agitação só: além da Maria Sem Sossego gritando "justiiiiiiiiiiiiiiiiça" na frente do fórum, segurando um cartaz onde estava escrito “Canhoto não pagou a pensão da Meia-Vaga”, havia uma fila imensa na frente fórum. 
Fui perguntar pro Goela o que era aquilo e ele disse que era tudo gente querendo ser jurado. A lista de jurados para o tribunal do júri é sempre feita no ano anterior, e mesmo sem nunca ter havido um júri por ali, a lista era feita todo o ano. Mas pelo jeito a população não sabia disso. Ainda assim, eu estranhei o número de pessoas querendo ser jurado, porque normalmente acontece o contrário: as pessoas querem é se livrar do encargo. Mas o Goela explicou:
“É que tão falando que tem almoço e lanche pra quem for jurado, doutor”! 
Esse era o clima na cidade, quando o júri foi marcado. Acho que nunca um processo de homicídio tinha corrido tão rápido. Mas o fato é que nem o promotor nem a advogada da prefeitura (única na cidade e que fazia as vezes da Defensoria Pública que naquele tempo não havia por lá) recorreram de nada e o caso foi a julgamento rapidinho.
O Cara de Cuspe não estava preso. No dia do fato foi levado em flagrante para a delegacia e foi atendido pelo Brédi-Piti, o preso que ajuda o delegado. Mas o Cara de Cuspe confessou que havia empurrado o Fila-Bóia no rio. Como o Delegado achou que era só um caso de pequenas causas, afinal, empurrar alguém no rio não era lá essas coisas, o Brédi-Piti fez o TCO*** e o Cara de Cuspe ficou solto. 
Surpresa foi quando o promotor denunciou o Cara de Cuspe. Mas nem o promotor pediu a prisão, nem eu decretei. O Cara de Cuspe foi em todas as audiências e sempre assumiu que empurrou o Fila-Bóia. O motivo é que ele nunca falou.
No bar do S. Nonô e no açougue do Retalho, as pessoas discutiam se o “Cara de Cuspe” deveria ou não ser condenado.
“O Deitado já até furou o Fila-Bóia e não deu nada! Que negócio é esse de júri, já?”
“Diz que pode ser preso pra sempre!”
“Acho que o Cara de Cuspe vai levar farelo. A mãe dele tá despombalecida na cama!”
E por aí, iam os comentários.
O dia do júri virou evento! Teve até foguetório pela manhã, tinha ambulante vendendo lanche na porta do fórum e a criançada toda na praça querendo ver alguma coisa. Sim, porque alguma coisa deveria estar acontecendo, né, e criança quer sempre ver e pronto!”
Daí que entrei no salão do júri, e senti cheiro de naftalina. Não, não era do salão… era da minha toga, que eu não usava desde a cerimônia em que tomei posse como juiz, e já fazia quase quatro anos, naquela época.
E tava tudo bonito, as pessoas todas arrumadas.
O Goela tava até com gel no cabelo, D. Boneca que cuida da copa do forum tava com vestido novo, o efetivo da polícia (dois policiais militares) com uniforme limpo. 
Na primeira fila, o prefeito, a primeira dama e (dizem!), na outra fileira, estavam a segunda e a terceira dama também! Os vereadores todos, e as figuras mais importantes da cidade. Os ventiladores de teto do salão não davam conta e as janelas estavam abertas com a criançada tentando espiar, disputando lugar com alguns curiosos.
O promotor chegou já suando na toga, todo sério, e com vários livros embaixo do braço e mais o assessor com duas outras sacolas de livros. A advogada da prefeitura entrou discreta e trazendo a toga em um cabide. Vestiu lá mesmo. 
Todo mundo por ali, aquele burburinho imenso, e começamos os trabalhos.
Pra quem não sabe a primeira coisa que acontece numa sessão é o sorteio dos sete jurados que comporão o que se chama de Conselho de Sentença (aqueles que, no fim, votam “sim” ou “não" para dizer se o réu é culpado ou inocente). Pois parecia bingo. Cada um torcendo pra ser sorteado. E, quando saía um nome, a pessoa era aplaudida como se tivesse ganhado uma rifa! 
Formado o conselho de sentença pelos sete sorteados, tomado o compromisso, foi lida a denúncia e a minha decisão que determinou pela realização do júri.
Confesso que foi emocionante! Lembro, ainda, de cada detalhe! 
… inclusive de um, que quase passou despercebido…: 
Onde, afinal, estava o réu?

(Continua…)

*“Cascos” são pequenas embarcações semelhantes a uma canoa, que pode ser movida a remos ou a um pequenino motor portátil acoplado na parte traseira, apelidado de “rabudinho”.
**Como o rio é diretamente influenciado pelas marés oceânicas, o povo daqui fala que a água “tá grande” quando a maré está alta, ou seja, quando o rio está cheio, e fala que a "água tá pequena” quando está raso.
*** “T.C.O. (abreviatura de “Termo Circunstanciado de Ocorrência) é o nome do expediente feito nas delegacias para casos de delitos de menor potencial ofensivo, em que o apontado agressor assume o compromisso de comparecer em juízo quando for chamado, e é liberado sem prisão em flagrante nem inquérito.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

FÉRIAS!

Olá pessoal!!
Com um mega abraço em cada um que gentilmente visita o blog, estou anunciando férias até o dia 4 de outubro!
Nesse tempo, aproveitarei, inclusive, para trabalhar em um outro projeto bem diferente, que espero que eu consiga realizar e, mais que isso, espero que possa ser algo bem legal para ser postado aqui!
Super obrigado a todos e perdoem se durante algum tempo, eu não responder aos comentários!
Em outubro, volto ao blog com TUDO!!!!

Um baaaaaaita abraço!

Luís Augusto Menna Barreto

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Juiz, a Hora da Sesta e o Almoço

O Juiz, a Hora da Sesta e o Almoço

…   …   …
…     …     …
… … …
(Silêncio)…
É difícil descrever o silêncio! Fosse um roteiro, eu descreveria mais ou menos assim: “CENA 1. EXT: CIDADE ADORMECIDA. CACHORRO ENCOSTADO NA PORTA DO BAR DO S. NONÔ, SOB O TOLDO. CABOCLO ADORMECIDO NA REDE PENDURADA SOB A ÁRVORE. MESA DE BILHAR DO AÇOUGUE DO RETALHO COM AS BOLAS PARADAS SOBRE O FELTRO VERDE JÁ BASTANTE SURRADO E OS TACOS CRUZADOS SOBRE A MESA. FOLHA DAS ÁRVORES PARADAS. RIO PASSANDO LENTO.”
A cena acima rodaria sem trilha sonora alguma. As pessoas entenderiam que tudo estava em silêncio. Mas, como é uma crônica, fica difícil descrever o silêncio. Mas era assim que estava a cidade, na beira do rio. Até os pássaros estavam adormecidos. Nem barulho de pô-pô-pô havia! (Ah, pô-pô-pôs, são pequenos barquinhos que fazem um barulho bem alto, semelhante a… “pô-pô-pô”!!). Eu estava saindo do fórum, e só uns instantes de caminhada, já me deixaram suado. Não, não se tratava de uma noite quente e eu não estava trabalhando na madrugada. Eram 2 horas… da tarde! 
Isso mesmo! Tem lugares no Marajó, que entre 12 horas e 16 horas, nada funciona. Nem as pessoas. Não há notícia sequer de roubo, furto e, menos ainda de agressão e tentativa de homicídio, na cidade, nesse horário! (Sim, especialmente tentativa de homicídio ou mesmo homicídio, porque, como eu já falei outra vez, com o decorrer do tempo, eu cheguei a sentir-me uma espécie de “Odorico Paraguassu” do Fórum local: tinha um salão de júri bem bonito, mas ninguém tentava matar ninguém pra eu poder inaugurar!).
Eram meus primeiros dias ali, logo depois do episódio da “visagem" no fórum, onde eu acho que fui enrolado em cinquenta reais pela Socorro Benzedeira… mas isso eu também já contei em outra crônica!
Enfim, eu estava descobrindo que a cidade simplesmente adormecia entre 12 horas e 16 horas. O comércio realmente fechava! Depois, abria as 16h e ia direto até perto de 21 horas.  
Todos os dias anteriores, eu havia almoçado em uma pequena cozinha no fórum. Antes de eu ir para lá, assumir a titularidade da comarca, eu liguei para perguntar algumas coisas que eu achava importante saber. Daí, sobre comida, disseram-me que serviam almoço no bar do Seu Nonô, ou eu poderia comer no fórum, porque o pessoal recolhia dinheiro uma vez por semana e  havia duas servidoras responsáveis pela limpeza, que preparavam almoço.
O problema é que logo no terceiro dia, quiseram agradar-me, eu acho… e fizeram uma fritada enorme de camarão! E olha… enormes. Cheguei na cozinha e havia uma panela generosa de camarão e ao lado, uma jarra imensa com açaí. Arregalei os olhos. Estava linda a mesa. Eu tenho certeza que eu me esbaldaria comendo, se não fosse por um pequenino detalhe: tenho alergia à camarão. E ainda não me havia acostumado com o açaí. Daí, que inventei uma desculpa qualquer (que é sempre constrangedor) e pensei em conhecer o bar do S. Nonô.
Trabalhei até 14 horas e saí pra almoçar. No caminho de dois quarteirões pequenos, um ocupado pelo fórum e câmara municipal e o outro pela loja do Desconto que é colada ao bar do Seu Nonô, com a diferença que o bar, sendo na esquina, fica com a frente para a outra rua, tendo a Igreja na frente, não encontrei uma alma viva… quer dizer… uma encontrei, mas não sei se tava viva, porque o caboclo tava pendurado numa rede entre duas árvores na beira, de um jeito que parecia morto! 
O bar estava aberto, mas não tinha ninguém. Procurei algo pra chamar alguém e não encontrei nada, então usei o universal chamado da tosse falsa: 
“crrf, crrf"… Nada. 
“Oi…?”. Nada.
“OLÁ…” Assim, mais alto! Nada. 
Apelei: bati palmas, quase me sentindo culpado por fazer algum barulho naquele silêncio todo!
… esperei. Ouvi um barulhinho fraco, como que pés sendo enfiados em chinelos que depois se arrastaram. Apareceu, por trás da cortina de pano, com uma preguiça até no falar, o Seu Nonô (que naqueles dias, eu ainda nem sabia que era o Seu Nonô!). 
Ele me perguntou, sem palavras, com aquele gesto de levantar o queixo, o que eu queria.
“Boa tarde!”, eu disse faceiro!
… esperei uma resposta, mas veio um suspiro e um olho mais aberto que o outro, como se ele guardasse um dos olhos descansando, afinal, pra quê fazer os dois trabalharem naquela hora, né?
“Posso almoçar?” Falei, ainda empolgado e com um sorriso, daqueles que quem quer ser bem recebido nos primeiros dias em uma cidade nova, sempre faz!
O olho que estava mais fechado abriu, e, quando ficaram ambos abertos do mesmo tamanho, a testa dele enrugou e o rosto virou um pouco pro lado. Na hora, entendi que aquele gesto era o mais perto do que seria meu “hein?”.
Com a empolgação francamente diminuída, ainda tentei num fio de voz:
“… posso almoçar…?”
E a resposta veio franca, simples, quase direta: 
“Pode… amanhã!”. Nem esperou mais nada, virou-se num movimento quase em câmera lenta e o único barulho que se podia ouvir era o do arrastar dos chinelos sumindo atrás da cortina de pano, novamente. Fiquei ali, com minha cara de “e agora?”, e lembrei que havia visto um pequeno comércio com uns pacotes de bolachas quase solitários em uma prateleira que, embora pequena, ficava grande demais com poucos produtos espalhados aqui e ali. Prometi a mim mesmo que voltaria lá, iria comprar as bolachas e resistiria à tentação de olhar o prazo de validade!
Mais três pequenos quarteirões de suor no sentido contrário… e fechado! 
Olhei em volta. Parecia madrugada… só que com sol!
Desisti. Decidi ir pra casa que aluguei e tentar dormir um pouco, também. 
Eram perto de 15 horas quando cheguei em casa, depois das tentativas frustradas de almoçar. Tive de tomar um banho, e a água estava quente… muito quente! Saí mais suado e descobri que banho naquele horário também era proibitivo.
Coloquei o ventilador no mais forte e me deitei na frente dele… e o vento era quente! Quando finalmente comecei a relaxar:
“AMÉM?” (Assim, em maiúsculas porque foi meio gritado mesmo!). 
“Hein?”. O amém não foi meu; o "hein", foi!
“VOCÊ QUE TÁ ACORDANDO AGORA, VOCÊ QUE TÁ COM PROBLEMA, VOCÊ QUE TÁ COM DÍVIDA, VEM! É HOJE O CULTO DO MILAGRE! VEM PRA CURA…” O barulho parecia de uma caixa de som meio velha. Tomei um susto. Mas estava claro que era alguma caixa de som. Daí que achei que era alguém passando na rua de bicicleta, ou coisa assim. Nem bicicleta, nem passando, nem coisa assim!
“… TRAGA SUA ANGÚSTIA, TRAGA SUA DOR, TRAGA SEU PEDIDO…”
A voz era rasgada e aflita. Parecia de alguém que estava narrando um jogo muito movimentado.
Fiquei irritado. Mas achei que ninguém ia conseguir gritar daquele jeito por muito tempo.  Não com o calor que fazia. Daí, resolvi esperar um pouco. Quando passou de meia hora, não aguentei mais. Comecei a vestir-me novamente, e decidi procurar o gritador. Quando eu estava a caminho da porta, silêncio de repente.
Olhei para um lado e outro, e nada. Não vi ninguém. Nem uma caixa de som pelas calçadas, nem uma porta aberta que parecesse um templo. Fiquei intrigado, mas, enfim, eu já havia perdido meu momento de descanso e estava com fome. Daí que notei que parecia que começava algum movimento pela rua. 
Tive a impressão que estava amanhecendo, porque as pessoas estavam como que despertando com preguiça e até o sol estava baixo, perto do rio… só que era uma amanhecer à tarde! 
Comprei os dois únicos pacotes de bolacha que encontrei, e, com eu havia prometido a mim mesmo, não olhei a data de validade. Foram meu almoço e jantar daquele dia.
No dia seguinte, fiquei esperto. Cedo quando cheguei, pedi para o Goela ver qual seria o almoço.
“Camarão com açaí, doutor. Sobrou de ontem.”
Novamente com uma desculpa, dispensei o almoço e fiquei controlando o horário. Sairia pouco antes do meio dia para almoçar e compensaria voltando à tarde.
Assim eu fiz. Saí uns dez minutos antes do meio dia. Dava pra ver uma certa agitação na rua, tanto quanto existe na hora do fechamento do comércio em qualquer cidade. Só que com a diferença que ali era meio dia e só abriria novamente 16 horas. Vi o caboclo atando a rede na árvore na beira do rio. Acho que era o mesmo que tava como morto no dia anterior, quando saí e não consegui comer. 
Mas agora… ah, agora eu tava me sentindo esperto! Verifiquei com antecedência o almoço no fórum e saí a tempo de almoçar no bar do S. Nonô.
Entrei no bar e cumprimentei o S. Nonô como se fosse um velho conhecido, afinal, no dia anterior nós nos conhecemos e ele chegou a me dizer duas palavras. Já me sentia íntimo!
“Hoje tem almoço, S. Nonô?”
“Tem. Mas só o prato do dia.”
“Pois traga. E uma garrafa de água com gás”.
Na parte do “com gás”, ele subiu uma sobrancelha. E eu refiz o pedido:
“Uma água. Com ou sem gás”.
Foram dois dias sem almoço. Mas uma semana de precioso aprendizado. Quando fui em Belém, no final de semana seguinte (10 horas de barco pra ir e 10 horas de barco pra voltar), eu trouxe um bom abastecimento de mantimentos, incluindo muitos enlatados e gêneros para microondas.
O prato do dia, no S. Nonô, era camarão.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 9 de setembro de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 8 - final

Conto Della
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Decisões - parte 8 - final

Ela estava sozinha na mesa do restaurante. 
Estava tranquila. Não havia tristeza ou solidão. Ela esperava. Havia dois pratos na mesa. Duas taças. Como sempre.
De repente, enquanto o garçom servia-lhe mais uma taça de vinho branco, que ela saboreava com uma salada niçoise, veio-lhe um quase sorriso, ao lembrar que há vinte e cinco anos, tomava também vinho branco, comia a mesma salada e estava no mesmo restaurante… e, naquela oportunidade vinte e cinco anos antes, esperava por ele.
Foram três meses intensos naquela época. Vários encontros. Ela já o acompanhava por noticiários, jamais perdera o contato dele. Sempre torcera por ele, mesmo depois que ela rompera o noivado. Ficara surpresa com a ascensão e crescimento dele. Por algum motivo que não sabia explicar, sempre ficou atenta sobre ele ter um novo relacionamento ou não, e as notícias jamais o colocavam com qualquer relacionamento sério. Pensa que, de algum modo, naquela época, era ciúmes… e viu-se sorrindo, ainda sozinha à mesa, pensando nisso.
Lembrou-se de como ele a surpreendera naqueles três meses. Parecia que ele sempre antecipara suas orientações. E foi em um golpe de mero acaso, que tudo ficara claro para ela: encontrara-se com uma assistente de sua amiga Constanza Pascolato, em plena Milão, Itália, no chamado Quadrilátero da Moda (as ruas Via Manzoni, Montenapoleone, della Spiga e Corso Venezia), saindo da loja da grife Ermenegildo Zegna. Embora muito discreta, a assistente, também sua amiga, deixou escapar, apenas, que eram compras para um cliente muito especial de Constanza, um “novo rico” do mundo da tecnologia, em ascensão e que queria impressionar alguém. 
— Deve ser alguém muito especial, porque além da Constanza, para moda, contratou sessões, também, com a Cláudia para etiqueta. — Disse-lhe a assistente.
No dia seguinte, ela recebera um telefonema da própria Constanza, pedindo desculpas pela inaceitável indiscrição de sua assistente, e colocando-se à disposição para qualquer eventualidade que poderia, a improvável conversa, ter causado.
Com aquele acaso, soubera, duas semanas antes da viagem a Singapura, que ele havia tido a assessoria das mulheres que eram, para ela, ídolos e, quando estava à altura, fora recebida como amiga. “Constanza Pascolato para moda, e Cláudia Matarazzo para etiqueta… por isso ele estava tão perfeito”, pensara. A partir de então, fora simples demais refazer os passos dele e entender que tudo aquilo não seria para uma reunião de negócios. 
Daí, que quando recebera o recado dele, para o encontro no restaurante do hotel, soube muito bem o que vestir. E soube o que esperar:
— Parabéns! — Disse a ele, que interrompeu, por um instante, os passos e sem perceber franziu a testa. Naquele momento, ele sentira um calafrio. Como um aviso de que tudo que planejara durante meses, poderia ruir. 
— Como você soube? — E, enquanto ela o olhava nos olhos, ele ainda disse: — Você sempre soube, não é? 
E, de repente, ele não era mais o homem seguro que durante quase três meses encontrara-se com ela. Era, novamente o garoto que não sabia o que pensar quando estava na frente dela. Teve o ímpeto de beijar-lhe, porque era o que fazia quando ainda namoravam, e ele não sabia o que dizer. Mas nem isso conseguiu. 
— Não… só descobri há poucos dias, por um golpe de sorte. Você esteve perfeito. Não fez absolutamente nada de errado.
Ele forçou um sorriso:
— Então você sabe sobre qual proposta eu me referia…
— Agora eu sei.
— E…? 
Ela o olhou com ternura. E, por esse olhar, ele soube a resposta.
— Está no meu bolso. Você nem ao menos quer vê-lo? — Ele perguntou.
— Não… — Ela sorriu. — Tenho medo de que eu aceite, apenas para ter esse anel.
Ele também sorriu. Não chegou a tirar o anel do bolso. 
Aquela foi a última vez que haviam conversado. Vinte e cinco anos atrás. Mas mesmo assim, ambos continuaram seguindo um ao outro pelos noticiários. Ambos sorriam com o sucesso um do outro. 
E, agora, ela estava ali. No mesmo restaurante. Pedira o mesmo vinho. A mesma mesa. A mesma salada. Vinte e cinco anos depois daquele encontro, recebera um bilhete dele. Entregue por um mensageiro. Um bilionário aposentado do mundo da tecnologia, usara um mensageiro para levar-lhe um bilhete escrito à mão, com um pedido para um encontro. 
Então, ela fez questão de que tudo fosse absolutamente perfeito. E, embora há alguns anos também ela não atendesse mais, limitando-se às colunas que passara a escrever, e palestras para seletas empresas, aceitou mais uma vez atender pessoalmente um cliente… que se sentou a sua frente, aceitou a salada e pegou o talher errado (pegou o de fora), ela sorriu e pensou: “ele não a enviou a ninguém primeiro”.
A menina de vinte anos sentada a sua frente pediu desculpas, trocou o talher como indicado por ela, e sorriu com o canto da boca.
— Você tem o mesmo sorriso de seu pai. 
… e pela primeira vez, ela aceitou uma cliente mulher.


Fim.


Por Luís Augusto Menna Barreto 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 7

Conto Della
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Decisões - parte 7

O paladar era de café da manhã… mas no Summer Pavilion, restaurante do hotel, os pratos eram os de jantar. 
Assim que chegaram no hotel, depois de um dia e duas horas de viagem via Doha, esgotados embora o conforto da 1ª classe no Qatar Airways, ele providenciou o check in de ambos e disse que a aguardaria no restaurante. Mesmo acostumados a viagens, era sempre estranho viajar a noite toda e chegar ainda no início de uma próxima noite, conseqüência do fuso horário de 11 horas a mais da cidade-estado de Singapura em relação ao Brasil. Quando ela chegou, ele havia pedido Dal Tadka, um prato indiano com Lentilhas amarelas, cebolas, tomates e especiarias indianas.
— Ainda não entendo por que você fez questão que eu viesse. — Ela lhe disse, talvez para quebrar o silêncio. — Você está perfeito. Nem o reconheço mais. Não tem mais nada do universitário relaxado, o nerd de computadores que você era.
Ele sorriu. Olhou nos olhos dela:
— Algumas coisas conseguimos mudar. 
— Comportamento é uma delas. — Ela respondeu.
— Eu perdi você pelo meu comportamento. Não entendia o quanto era importante pra você as coisas que eu falava, ou que eu vestia.
— Você sempre foi alguém interessante. Sempre teve um jeito diferente e único de ver o mundo. Foi esse jeito que fez você desenvolver o aplicativo que hoje vale essa disputa de milhões. Não eram as coisas que você falava ou o que vestia… era como você falava, quando você falava, e como se vestia. 
Ele ficou um instante parado, olhando pra ela. Até que falou:
— Outras coisas, não conseguimos mudar… — E, propositadamente, deixou a frase no ar. 
Ela disse:
— “Jack Campbell”.
E, como no passado, ele não entendeu o que ela queria dizer.
— “Jack Campbell”! Você é meu "Jack Campbell”!
— O quê? Quem é esse cara? — Ele perguntou intrigado.
— Você não vê esses filmes! — Ela respondeu. Ela se referia ao personagem de Nicolas Cage no filme "Um Homem de Família", de 2000, em que numa determinada cena, “Jack Campbell” olhava para “Kate" (personagem de Tea Leoni) e ela perguntava como podia, depois de tantos anos, ele olhar para ela como se fizesse anos que não a tivesse visto.
Quando ainda namoravam e, depois, como noivos, ela às vezes tinha a impressão que ele a olhava assim! Então quando ela sentia esse olhar, chamava-o de “Jack Campbell”, ainda que ele nunca entendesse a quem ela se referia.
A reunião dele com a poderosa CEO do grupo que iria realizar a fusão e incorporar a rede de hotéis que ele representava, seria no dia seguinte.
— Nós temos de descansar. Preciso de você pronta amanhã, 21 horas. Não repare se eu estiver nervoso. Mas você pode ter certeza que eu saberei muito bem o que tenho de fazer.
Despediram-se. Durante o dia, não se viram nem se encontraram. 
Por volta de 14 horas, um mensageiro deixou para ela um recado de que a reunião seria na ala privada do Restaurante.
Às 21 horas, ela desceu. Pontualmente. Foi recebida por um maître impecável que disse que o vinho havia sido escolhido pelo anfitrião, um tinto São José de Pêra Manca "Pêra-Grave" Reserva 2013 Sexteto.
A reunião da fusão já havia acontecido às 15 horas, no "The Fullerton Hotel Singapore”, no centro financeiro de Singapura, sem que ela tivesse sido avisada. Não foi para essa reunião que ele a trouxe. Fora um sucesso. Há algumas horas, ele se tornara um bilionário. E achou que fora até bem simples lidar com a representante do grupo europeu que adquiriu o grupo que ele representava. Os valores superaram o ágio que ele previa, e o fechamento do negócio decorreu mais tranquilo do que imaginava.
A grande proposta, porém, pela qual a ansiedade dele atrapalhava seu normal ritmo cardíaco, viria desse novo encontro:
21 horas e 3 minutos. Ela esperou menos de três minutos. O tempo suficiente para uma pequena ansiedade, mas não exagerado a ponto de causar qualquer irritação pela demora. Fora calculado por ele. O que ele não calculou, é que ela estaria vestida daquela forma: um vestido longo, Versace, na cor creme em um tom levemente mais forte do que a pele dela. Ele hesitou o passo um instante quase imperceptível. Definitivamente, aquele vestido não estava adequado para a reunião de negócios que ele havia há meses sugerido para ela que aconteceria.
“Então, ela também erra!”, ele pensou. 
Sorriu com o canto da boca, retomou o controle, e aproximou-se em passos decididos.

 (continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto