domingo, 14 de janeiro de 2018

O Rei Mais Rico, do Reino Mais Pobre - contículo

O rei mais rico do reino mais pobre

O rei mais rico, do reino mais pobre, decidiu dar uma grande festa para o menor povoado.
O rei mais pobre, do reino mais rico, decidiu dar uma pequena festa, para o maior povoado.
O rei mais rico, do reino mais pobre, mandou preparar o maior salão, do menor dos castelos.
O rei mais pobre, do reino mais rico, mandou preparar o menor salão, do maior dos castelos.
O rei mais rico, do reino mais pobre, foi até o mais distante dos povoados mais próximos, e contratou o melhor músico, da orquestra dos surdos.
O rei mais pobre do reino mais rico, foi até o mais próximo dos povoados mais distantes, e contratou o melhor artista, do ateliê dos cegos.
O rei mais rico, do reino mais pobre, mandou o maior número de pescadores ao menor dos lagos, para que peixes fossem servidos na maior festa ao menor dos povoados.
O rei mais pobre, do reino mais rico, mandou o menor número de pescadores, ao maior dos lagos, para que peixes fossem servidos na menor festa ao maior dos povoados.
O rei mais rico, do reino mais pobre, mandou abater o maior número de reses, do menor dos campos, para servir na maior festa ao menor dos povoados.
O rei mais pobre, do reino mais rico, mandou abater o menor número de reses, do maior dos campos, para servir na menor festa ao maior dos povoados.
O rei mais rico, do reino mais pobre, querendo mostrar humildade, sem deixar de exibir a realeza, mandou que trouxessem a mais exuberante veste dos trajes mais modestos.
O rei mais pobre, do reino mais rico, querendo exibir sua realeza, sem deixar de mostrar humildade, mandou que trouxessem a veste mais modesta dos trajes mais exuberantes.
O rei mais rico, do reino mais pobre, mandou que o buscassem na maior entre as menores carruagens.
O rei mais pobre, do reino mais rico, mandou que o buscassem na menor entre as maiores carruagens.
O rei mais rico, do reino mais pobre, entrou no maior salão do menor castelo, na maior festa ao menor povoado, no mesmo instante em que o rei mais pobre, do reino mais rico, entrou no menor salão do maior castelo, na menor festa ao maior povoado. 
Não havia música no maior salão, do menor castelo.
Não havia arte no menor salão, do maior castelo.
Não havia peixes.
Não havia carnes.
Havia um só rei… … e o seu espelho.

Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Poesia de ver: ... pertenço-te!

Poesia de ver: … pertenço-te!



Leva-me contigo. Vivo sozinha aqui no meio do mato!
— Se eu te levo, morrerás!
Abreviarás minha solidão. Antes a morte pra fazer-me companhia!

Eu não a levei. Abri um caminho. Trouxe pessoas. Dividi a beleza.
A flor continua lá… vai ver!

Por Luís Augusto Menna Barreto
(Flor nascida no mato, em Santo Antônio da Patrulha, RS… onde há  flores à beira do caminho  sem calçamento…   … e onde há flores no mato, perto da sanga!)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

O Quebra Salto, o Polegada e o Incorporado

O Quebra Salto, o Polegada e o Incorporado

Como eu disse, depois do caso do Fila Bóia e do Cara de Cuspe, com a morte do promotor Cava-Cova, tudo voltou ao normal: no final das festas, voltou a ter alguém querendo furar alguém… 
Pois foi daí que chegou no caso do júri do Quebra Salto: 
— … não foi o Quebra Salto quem ME furou… não foi ele…
O paletó estava desalinhado e quase pingando de suor! O advogado estava com os olhos pra cima, quase piscando, daquele jeito que meio que fica aparecendo os brancos dos olhos e as pupilas parecem querer subir pra testa pelo lado de dentro dentro.
Eu nunca gostei de júris! Quer dizer, como juiz, nunca gostei de júris, porque a função é basicamente administrativa. Como um “mestre de cerimônias”. Porque toda a ação de verdade, é desenvolvida pelo promotor e pelos advogados de defesa! Eu adorava júri quando era advogado! Porque sempre fui meio exibido, então, eu tinha 2 horas pra falar e toda a atenção era pra mim!
… mas como juiz…? Ufa… confesso que às vezes quase dá vontade de dormir.
Mas aquele júri, definitivamente foi diferente! 
Primeiro que não fazia muito da morte do Cava-Cova! Era recém o segundo júri. O primeiro foi o júri do Cara de Cuspe que foi absolvido, especialmente depois que os jurados souberam que ele tava pescando, antes do júri, com o Fila Bóia que era a vítima! E, agora, esse do Quebra Salto.
O Quebra Salto é um desses caboclos com um parafuso solto na cabeça! Um bom sujeito… até o segundo copo! O caboclo ia nas festas, sempre com um trocado reservado pra poder pagar duas latinhas para alguma morena. Se não conseguia, gastava o dinheiro todo com bebida pra ele mesmo e ia dançar sozinho. Daí, quando passava uma morena com salto, ele chutava bem no salto e quebrava o salto do sapato da menina que, normalmente caía. E ele fazia isso com uma imensa habilidade! Imagina: salão escuro, todo mundo dançando, uns encostados nos outros, o caboclo da um chute direto no salto, o salto quebra, a menina normalmente cai e ele some, misturado no pessoal dançando, que ninguém nem percebe o que aconteceu.
O problema é que o abestado do caboclo fica se gabando no dia seguinte, tomando uma cervejinha no açougue do Retalho!
Pois foi numa dessas que houve o entrevero! Tava o Quebra Salto se gabando, e levantou do fundo do açougue, o Polegada, completamente porre. Pegou um taco da mesa de bilhar e sem aviso quebrou o taco na cabeça do Quebra Salto. Meio tonto, o Quebra Salto levantou, defendeu com o braço mais duas ou três pauladas. O Retalho saiu de trás do balcão pra apartar (ou “desapartar”, como dizem aqui no Marajó), mas veio com a faca de açougueiro na mão. O Quebra Salto pegou a faca e deu uma furada nas costelas do Polegada, que a faca ficou fincada. 
— Deusulivre, o Quebra Salto matou o Polegada! — gritava o Retalho, enquanto o Quebra Salto pulou no rio e o Polegada cambaleava gritando: “Ele me matou! Ele me matou!”
O Manobra saiu ligeiro pra buscar a ambulância, mas o Retalho e o Descarrega colocaram o Polegada no carrinho de mão e chegaram no hospital antes do Manobra, que duas vezes saiu pro lado errado, demorando a dar-se conta, numa luta que seria até engraçada, consigo mesmo, pra tentar correr e segurar o copo de cerveja que não deixava cair da sua mão.
Naquela noite mesmo, o Polegada foi levado para o Navio que passa às 20 horas pra ser levado para um hospital na capital. Depois, não se teve mais notícia. Tem todo tipo de boato. Que morreu no hospital; que morreu no caminho; que os parentes buscaram o Polegada no hospital de Belém pra morrer em casa, no interior do Marajó… A única coisa certa é que não se viu mais o Polegada.
O Promotor denunciou o Quebra Salto por homicídio consumado, mas acabou indo a júri por tentativa de homicídio, porque ninguém conseguiu achar o corpo do Polegada, nem saber onde tava sepultado.
O Promotor era um guri novo, recém saído dos cueiros, como a gente fala lá no Rio Grande! Esperneou demais quando decidi que não seria homicídio consumado. Mas não recorreu, porque era promotor substituto e queria fazer o júri antes de ser transferido. Já o Quebra Salto foi logo preso e depois eu o soltei com a condição de que não frequentasse mais nenhuma festa e que não tomasse qualquer bebida alcoólica. Pois o Quebra Salto, sem poder mais beber nem ir em festas, acabou entrando em uma igreja evangélica, e disse-se convertido! Voltou a ser Eleotério Raimundo.
A igreja, tratando o Eleotério, ex-Quebra Salto como um exemplo, cootizou-se e contratou um advogado da capital, dispensando a advogada da prefeitura que fazia as vezes de Defensora Pública. O advogado, um gordinho baixo, com cara de poucos amigos, transformou-se no júri! Não… não é uma figura de linguagem: o advogado transformou-se mesmo! 
Pensa: o ato houve no açougue do Retalho, de dia, com testemunhas! O próprio Retalho e o Descarrega levaram o Polegada. O Manobra também viu… quer dizer: o Manobra tava presente, mas considerando que nem mesmo conseguiu achar o caminho do hospital, acho que não deve ter visto muita coisa. 
Eu fiquei imaginando: o advogado vai dizer que foi legitima defesa. Pois não é que o Dr. Pinguim surpreendeu?! (Já ganhou o apelido logo na chegada, porque parecia o “Pinguim" do primeiro filme do Batman, interpretado pelo Danny DeVito)! Pois é: depois que o promotor fez toda a sua acusação, o Dr. Pinguim foi devagarinho até o centro do salão e, quando foi falar… começou a contorcer todo!
Vendo aquilo:
— Hein? (escapou!).
O Goela deu um passo pra trás. Olhei logo pra D. Boneca e ela, que estava pertinho de mim, colocou a mão no meu ombro, como que pra evitar qualquer atitude minha, abaixou-se no meu ouvido e disse: 
— Ta encostando um caboclo!
Pois foi aí que eu quase não acreditei, quando ouvi:
— … não foi o Quebra Salto quem ME furou… não foi ele…
Ou não tava entendendo direito, ou o Dr. Pinguim havia “incorporado" o Polegada pra convencer aos jurados que o Quebra Salto era inocente!
Bem, posso dizer que foi algo realmente inusitado! O resultado é que o Eleotério, ex Quebra Salto foi absolvido! Pois o Dr. Pinguim (ou o Polegada, sei lá!) conseguiu convencer que o Eleotério era inocente! 
O promotor, esperneou, gritou e reclamou, dizendo que aquilo era nulo, porque, se era o Polegada incorporado, não poderia falar depois do promotor, e que ele mesmo, promotor, tinha direito de interrogar a vítima incorporada! 
Enfim, foi um rebuliço! Mas o caso é que valeu o júri, o promotor foi designado para substituir em outra cidade e o promotor que veio não esteve a fim de recorrer. 
… 
O corpo do Polegada? Sim, foi achado! Vivinho da silva, depois que a benzedeira pra onde a família dele levou quando o pegaram no hospital de Belém, deu ele por curado. O Dr. Pinguim virou o advogado oficial da igreja, e voltou outras vezes no Marajó, para outros casos! Ganhou a fama de defensor de causas impossíveis e, quando perguntado como pode incorporar o Polegada se ele não tinha morrido, ele respondeu que foi quando o Polegada tava desvivido e a alma passeado, sem saber se voltava pro corpo ou ia pro beleléu. O Polegada não podia desmentir, porque tava tão porre no dia, que disse que não lembrava de nada.
… 
O Eleotério? Ah, voltou a ser o Quebra Salto, quando foi expulso da igreja… é que durante os cultos, aconteceu de várias mulheres caírem, com o salto quebrado!


Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 7 de janeiro de 2018

Pensamentos perdidos - ... vem tomar um café!

Pensamentos perdidos - … vem tomar um café!

Nesse exato momento, descubro que são quase 7h30… Eu sei, porque, como tu, ouço o sino da igreja da beira tocando, fazendo a segunda chamada. E nós sabemos que o Padre que reza a missa das 8h aos domingos pela manhã, sempre toca o sino uns minutos antes… Diferente do padre da missa das 20h, que sempre atrasa uns minutinhos… 
É com um sorriso gratuito no rosto, que lembro os inevitáveis apelidos dos dois: “Padre Já Toquei” e “Padre Vou Tocar”…
Quando o Padre Já Toquei fez a primeira chamada das três, uns minutinhos antes das 7h, eu já estava acordando, junto com o sol, que nessa época fica sempre escondido atrás das nuvens. Mas, aqui no Marajó, a gente estranharia se essa época de festas Natalinas e festa de Reis, não fosse assim, nublado e com chuvas… Diferente do resto do país, é inverno na Amazônia! Depois de onze anos na ilha, já ouvi tanto dizer que "no verão, todo dia chove e no inverno, chove o dia todo"… Não é mais assim, porque no verão, passam dias sem chover. Só no inverno ainda é como antes, em que chove o dia todo.
Mas agora não está chovendo, está um nublado gostoso que quase dá pra imaginar com seria o frio, se não fosse pelo abafado que faz a gente quase suar essa hora da manhã. Volto da padaria da beira, com o pão ainda quente e, por isso, tenho de trazer a sacola aberta. Cheguei quando o padeiro estava tirando uma fornada nova de pães e o pão tá daquele jeito que quase queima os dedos. Caminhando devagar de volta pra casa,  no meu lado direito o rio parece realmente adormecido… vejo um mururé, dono da rua de água (“Esse rio é minha rua / minha e tua mururé / piso no peito da lua / deito no chão da maré…). O mururé está parado. Nem desce nem sobe por esse rio que de tão grande, tem maré. Quem disse que rio nunca volta, é porque nunca veio à Amazônia, onde tem dias que o rio faz o caminho de volta, tão grande é a influência do oceano, aqui no Marajó. Tem dias que o mururé acompanha minha caminhada. Outros dias, passa por mim, apressado, no rio. Hoje, está parado, fazendo o pô-pô-pô desviar pra não prender a hélice e o ribeirinho ter que remar até o outro lado. 
Desviando do rio, e entrando no caminho de casa, eu, já da curva, sinto o cheiro do café… Eu havia moído os grãos, no velho moinho de madeira, aqueles com manivela, pouco antes de ir comprar o pão, e coloquei a cafeteira no fogo (aquelas que colocamos a água embaixo, depois o café moído, e levamos diretamente ao fogo para passar o café com a água em ebulição). Aconteceu o que eu esperava: o cheiro espalhou-se pela casa, e, como eu disse, da curva já dava pra sentir o aroma delicioso, que impregna, mais que o cheiro, um sorriso no nosso rosto.
Subo o alpendre, deixo a porta aberta e ouço o ronco da cafeteira, avisando que o café acaba de ir todo para o bule. 
A mesa, eu coloquei no alpendre mesmo, pra esperar tu chegares. Eu fatiei o pão e tenho além da manteiga (aquela bem dura, que a gente tem que raspar com faca quente) uma chimia de uva. Coloco as xícaras na mesa. As flores, dessa vez, não arranquei. Estavam tão bonitas que estavam a cumprimentar-me na volta, que as deixei para dizer-te bom dia, quando dobrares a curva e avistares a casa.
Eu mal preparo a mesa e te vejo, com um sorriso, dobrando a curva. Aceno de longe, e recebo teu aceno de volta!
Vem… eu tava esperando por ti…
O que tu trazes nesse pacote? 
O que tu me contas?


Por Luís Augusto Menna Barreto… e todos mais que vieram para o café e continuarem essa história…




sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Poesia de ver: "... motivo!"

Poesia de ver: … motivo!




— Todos os dias cruzas a ponte, cheira-me, e vais embora… Por que não me levas contigo?
Porque eu não teria mais motivos para cruzar a ponte…!

Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto
(Ponte ao final da rua Plínio Flores de Jesus, em Santo Antônio da Patrulha, RS… onde há  flores à beira do caminho  sem calçamento…  

— O que te faz cruzar tuas pontes?)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Diálogo: "... colore-me!"

Diálogo: … colore-me!



— Não dá pra ver se havia sol…
Ah!, tem sim, na foto. Um sol lindo no céu!
Nem dá pra ver o rio direito…
É o rio mais lindo que eu já vi! Parece amarelo com os raios do sol, enquanto ele corre tranquilo.
Ela riu:
A foto é em preto e branco!
Ele sorriu de volta:
Desde aquele dia em que você pegou a minha mão para ir até o rio, só sei enxergar a vida com cores vivas!


Por Luís Augusto Menna Barreto

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Bora conversar?!! - Dia 29 de dezembro, 20h - Uma boa conversa!

Olá pessoal,

Estou a postos para conversarmos. 

A partir das 20 horas, quem quiser iniciar qualquer tópico pra a conversa, basta lançar nos comentários aqui embaixo da postagem e responderei a todos os comentários (que eu conseguir rsrsrs).

Todos estão convidados!

Ah... estarei, também, ao vivo pelo PERISCOPE / TWITTER, em @mennaempalavras. 

Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 24 de dezembro de 2017

UM CONTO DE FÉ - parte 2

UM CONTO DE FÉ
Parte 2

— … e reze um rosário em penitência. — Disse isso, enquanto fazia o sinal da cruz, e aguardava que ele levantasse. 
Ele não levantou em silêncio absoluto… ele sempre agradecia ao padre que o confessasse.
Decidiu por se confessar, no dia em que falaria para sua mãe. 
Com a mãe, as coisas sempre foram mais fáceis. E ela sempre se preocupava em dobro: preocupava-se pelas angústias dele… e preocupava-se como o pai iria reagir. Não que fosse um bruto. Não o era. Mas era rígido:


— O que foi isso? — perguntou-lhe o pai, quando ele chegou da escola com um olho roxo!
Ele, de cabeça baixa, segurava o choro, sem responder. O pai abaixou-se na frente dele: 
— Olhe pra mim. Você vai voltar lá, e não virá embora antes de que quem tenha feito isso, fique igual a você, entendido?
Ele balançou a cabeça. Largou os cadernos da quinta série e retornou pelo caminho da escola, assolado pela angústia tremenda. Não tinha medo de quem lhe batera. Não teria medo da briga, ou de apanhar de novo… a angústia era porque não queria brigar. Sobretudo, apavorava-lhe a ideia de bater em alguém. Mas não ousaria desobedecer o pai. 
Antes de chegar na escola, viu o garoto que lhe havia agredido passar correndo e chorando, com a camisa rasgada e uma das mãos no rosto. Em seguida, viu seu irmão, 15 meses mais velho, com o uniforme todo desalinhado:
— O pai mandou você voltar?
Ele balançou a cabeça. O irmão colocou a mão sobre seus ombros, virou-lhe no caminho de casa e saiu caminhando ao seu lado.
— Já resolvi pra você. O olho dele também está roxo.
De alguma forma ele sentiu um alívio. E sentiu-se quase culpado por isso, porque entendia que pelo pecado do irmão, escapara de pecar batendo ele mesmo no colega.
O irmão tornou a falar:
— Mas olha, agora você me deve uma. Não vai contar pro pai que me viu fumando nos fundos da escola.

… 

Quando contou para a mãe, ela encheu os olhos de lágrimas que não caíram. 
O coração de mãe, sabia há tempos… mas era diferente ouvindo-o falar. Talvez não estivesse preparada. 
Passados uns instantes, ela pegou as mãos do filho, segurou-as e disse-lhe, simplesmente:
— Filho. Tu serás sempre medido e julgado, pelo tamanho do teu coração. E eu tenho muito orgulho de você.
Ele abraçou a mãe. Quando soltaram o abraço, veio a pergunta que ele esperava:
— Quando você vai contar para o seu pai? Ele está doente, você sabe…
Ele baixou os olhos…
— Eu não sei…
— Você precisa contar. Não pode esconder.
— Eu sei…


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Poesia de ver: “… dengo!"

Poesia de ver: “… dengo!"



O sol já brilhava, e a florzinha resistia a abrir…
— Por que não abres, florzinha…? — Eu perguntei.
— Estou com frio…
— Mas o sol já brilha forte!
— Chega mais perto —, ela me disse.
Eu me aproximei devagar… e ela foi abrindo:
— Tem dias, que o frio é na alma… e só me aqueço e abro, com o brilho dos teus olhos.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

UM CONTO DE FÉ - parte 1

UM CONTO DE FÉ
Parte 1

Sil estava alguns bancos atrás. Observava com paciência, embora achando desconfortáveis os bancos em madeira da pequena Capela no hospital.
Olhava pra ele. Não entendia como ele podia ficar horas ajoelhado, imóvel, repetindo as mesmas frases. 
“Se adiantasse alguma coisa, não haveriam pobres, doentes, ninguém passando nenhuma necessidade”, Sil dizia-lhe. Mas não adiantava. Todo os dias, ao acordar, via-o ajoelhar; todos os dias, antes de dormir, via-o ajoelhar. Sil sabia que nunca adiantava chama-lo antes que terminasse de passar pelas 59 contas de seu rosário. Mas dessa vez, ele estava ajoelhado há muito tempo. E era a terceira vez que iria terminar de passar todas as contas.
Quando ele terminou o rosário completo, tirou os joelhos do aparador de madeira, sentou-se pesadamente no banco e ficou olhando a imagem do Cristo pregado na cruz. Era uma imagem sempre intrigante para Sil, porque a impressão que tinha, era a de que o Cristo, pregado, tinha menos sofrimento no olhar, do que quem rezava. 
“Ele está pregado! Como espera que alguém pregado possa fazer algo por você?”, Sil dizia-lhe.
“Não blasfeme”, ele respondia, sempre, sem qualquer irritação. “Você deveria tentar. Se você pedir com fé, terá seu pedido atendido.”
“Se eu passar horas ajoelhado e rezando, vou levar horas a mais para conseguir o que quero, porque terão sido horas perdidas. Você sabe que eu não acredito.”
“Não importa! Peça!”, ele insistia.
“Como assim não importa”?
“Não importa que você não acredite. Ele acredita em você! “
Eram discussões infrutíferas. Sil, sem acreditar; ele, com uma fé inabalável.
Ele credita sua fé, na mãe, que o ensinou, desde pequeno, a rezar, agradecendo por tudo de bom que o dia havia trazido. Falava-lhe, sempre que somente pedisse algo depois de refletir muito… porque se fosse pedido de coração, Deus atenderia. E é preciso cuidado com o que se pede, porque Deus não volta atrás, dizia-lhe. O pai também acreditava em Deus. Não da mesma forma e com mesmo fervor da mãe. Era militar. Rígido. Acreditava em disciplina antes de tudo. Poucas vezes, vira o pai rezar. 
“É difícil ver o pai num hospital. Sempre foi tão forte, tão enérgico”, ele falou quando Sil aproximou-se.
Sil envolveu-lhe com o braço em sua cintura: 
“Eu imagino… Ainda mais em uma situação assim…”.
Ele sabia o que Sil queria dizer. Os médicos retiraram qualquer esperança. O pai não voltaria para casa. Disseram para despedir-se dele, aproveitar que ainda estava lúcido. Desde então, da reunião com os médicos, ali no hospital, ele fora para a capela. 
“Obrigado, Sil.” Ele falou.
“Pelo quê?”
“Por haver ficado o tempo todo comigo, enquanto eu rezava. Por não ter ficado falando que não adianta. Obrigado por estar comigo!”
"Você vai contar pra ele?”, Sil perguntou.
“Vou.”
“Então você realmente pensa que ele não voltará para casa?”
“Isso, só Deus Pode responder”. 
“Os médicos já disseram”, Sil devolveu-lhe.
Ele ficou em silêncio. Mas havia pensado: “Médicos não são Deus”. Preferiu não falar. Foi Sil quem falou novamente:
“Posso perguntar pelo que você estava rezando?”
“Por um milagre”. 
“Imaginei", Sil respondeu. 
Porém, Sil não imaginava sobre qual milagre ele estava falando.


Por Luís Augusto Menna Barreto

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Poesia de ver: "... perda!"

Poesia de ver: “… perda!”




Eu vi a flor, e fiquei triste por haver, ela, perdido a beleza…
— Eu não perdi nada — ela me disse. — Foste tu que demoraste, e perdeste o tempo de ver-me bela.

Por Luís Augusto Menna Barreto

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

UM CONTO DE FÉ (uma prévia)

UM CONTO DE FÉ
(uma pequena prévia - estreará em breve no blog “menna em palavras").

… foram anos de angústia… mas não pode mais adiar. Talvez não tivesse mais a chance de falar. E não queria guardar essa culpa. Não culpa pelo que era, pelo que sentia. Não queria guardar a culpa de não haver falado para seu pai. 
Não sabia como dizer. Então, disse da única maneira que conseguiu:
(…)
… sim, foram anos de angústia imaginando aquele momento. 
Mil vezes, pensou em como seria. Imaginou mil reações diferentes. Quando ainda morava com os pais, esteve preparado até mesmo para ser expulso de casa. Esperou a bofetada. Castigos. Esperou até mesmo ser negado. 
… mas, definitivamente, ele não estava preparado para a intensidade da reação que recebeu:
(…) 


Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 10 de dezembro de 2017

O TEATRO - parte 5 - final

O TEATRO
Parte 5 - final

A risada do Conrado meio que me marcou… Ele ria com vontade enquanto tudo ia dando errado. Daí quando a parede de papelão caiu por cima do palco, ele apontava o dedo e ria… e todo mundo tava rindo!
Naquele momento, tudo o que eu queria era simplesmente sumir.
Pensei na Luísa que também tava rindo, pensei no que ela ia pensar de mim depois. Pensei na vó, xingando e me dizendo “eu disse pra parar com essas bobagens e estudar”.  Pensei em com eu iria para a escola no outro dia e fiquei imaginando todos rindo de mim…
Eu lembro que tinha sido a melhor semana da minha vida! Todos os dias, depois da escola, eu, o Juca e a Luísa saíamos e íamos direto pra casa do Juca, arrumar nosso “teatro" e ensaiar a peça. A Luísa, era uma princesa! Ficava presa num castelo. Daí, o vô do Juca emprestou uma escada e colocamos um papelão de geladeira na frente da escada e ela subia lá atrás. Eu era o mocinho, o cavaleiro que tinha que salvar a princesa, e o Juca era o dragão malvado! 
Eu queria que aquela semana durasse pra sempre! Mas a Luísa e o Juca estavam loucos pra apresentar a peça! Quando o Conrado ficou sabendo, quis participar, mas não dava mais tempo. Daí, ele falou que o pai dele ia alugar o Clube pra ser a peça de teatro dele, e ficou falando mal da nossa peça. Só não falava mal quando a Luísa estava perto.
A Luísa e o Juca contaram pra todos os professores e para os nossos colegas. Eu por mim, não queria que fosse muita gente. Eu nem ia contar na escola. Tava muito nervoso! Mas eles estavam empolgados.
Marcamos para quinta-feira, depois da escola. O dia amanheceu nublado, e foi ficando mais quente, aquele vento quente que vem antes das chuvas. Achei que ia chover e falei pra Luísa e para o Juca, pra gente adiar. Mas eles estavam empolgados demais. À tarde, depois da escola, fomos correndo pra casa do Juca. Tava tudo pronto! Os pais da Luísa estavam lá. A mãe dela fez uma saia linda, verde, e um chapéu de princesa. O Juca fez uma máscara de papelão e colou o desenho de um dragão na frente. E tava usando um macacão velho do trabalho do vô dele, que a mãe dele tingiu de verde, pra ser o dragão. Eu tava com uma espada de madeira, e peguei um lençol pra ser minha capa! 
A nossa professora foi lá ver o teatro. E tinha mais uns cinco colegas. E o Sabão do Conrado!
Eu estava apavorado! 
Achava que alguma coisa poderia dar errado. E tudo deu errado!
A peça até começou direitinho, com o dragão prendendo a princesa no castelo. Daí, eu entrava depois! Eu já tropecei na entrada, e as pessoas riram. Fiquei mais nervoso. Olhei pra Luísa e ela segurou um risinho. O Juca eu não sei, porque tava de máscara de papelão na cara. Daí, eu fui dizer minha fala e engasguei. Mais risadas! O Juca improvisou, porque eu tava congelado:
— Rrrrrrrooooooooaaaaaaauuuuuuuuuu… você não vai passar por mim, cavaleiro! (daí, eu lembrei o que tinha que dizer).
Meio gaguejando, falei:
— … eu vou casar com a Princesa! 
Casar? Meu Deus, eu disse casar? Eu nem sabia se disse ou não e fiquei mais apavorado ainda! Por que eu não escolhi ser o dragão, pelo menos ia estar de máscara!
Mais risadas!
Eu não sabia o que fazer… daí levantei a espada, gritei e parti pra cima do dragão. Mas tropecei no lençol que era minha capa e caí. Nossa, o pessoal começou a rir muito! O Sabão batia os pés no chão e apontava pra mim, dando gargalhadas, e dizendo: “não sabia que quem salvava a princesa era o palhaço!”
Eu ouvia todo mundo rindo… tentei sair correndo, mas tropecei de novo, e bati na parede de papelão que caiu no palco. 
É, eu lembro: a risada do Conrado meio que me marcou…
E eu só pensava em sumir dali. Mas daí, eu olhei a Luísa e o Juca… eles não estavam brabos! Estavam rindo! A professora tava rindo. Os pais da Luísa estavam rindo. Um riso gostoso! 
O Juca resolveu continuar improvisando, e a Luísa também! E, daí, de propósito, faziam tudo dar errado e cada vez mais as pessoas riam. E depois de alguns minutos, a Luísa pegou minha mão e a do Juca e nós nos abaixamos agradecendo. E todo mundo aplaudiu. 
Naquele dia, eu descobri que jamais poderia ser um bom ator de teatro…


… mas eu descobri que seria, pra sempre, um ótimo palhaço!
E descobri que tem coisas, que passam de pai pra filho. 
Aprendi, no palco, que um palhaço chorando de emoção, emociona a plateia. E foi o que aconteceu, quando pela primeira vez, minha filha, aos 6 anos, subiu no palco com o rostinho todo colorido, fazendo palhaçadas. Estreou na matinê, com lotação de meia casa.
Acho que por isso, lembrei de tudo. Mas tem coisas, que parece que foi ontem…outras, foram mesmo! Ontem, depois que minha garotinha estreou, senti uma das maiores emoções da minha vida! 
Emoção parecida de quando Luísa disse “sim”, anos depois… 
— Sim, — ela disse — eu quero ir com você, no seu teatro, para nos apresentarmos juntos pro resto da vida!

Fim.

Por Luís Augusto Menna Barreto



Pós escrito (Inserções):

Eu não cheguei a falar… mas aconteceu uma coisa curiosa, no dia: depois da peça, onde tudo deu certo porque deu errado, a professora comentou: “Os R$ 2,00 do ingresso valeram a pena”.
Mas a gente não tinha cobrado ingresso! 
O mais legal, foi ver o Sabão reclamar: 
“R$ 2,00 ??? Eu paguei R$ 10,00!”  Quero meu troco.”
Mas a gente não cobrou ingresso e todos acreditaram, até o Sabão, quando a Luísa falou que a gente não cobrou ingresso mesmo!
Daí, outro dia, quando a gente voltava da escola, o Conrado viu dois garotos na sinaleira, lavando vidro dos carros e pedindo dinheiro, e falou: 
“Lá, olha! Aqueles dois que estavam na frente da casa do Juca, cobrando ingresso!”
Os garotos viram o Conrado e dispararam. Só deu pra ouvir um dos dois gritando:
“… corre, Pilha!!!