domingo, 19 de março de 2017

pensamentos perdidos - O CIRCO - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 5 de 7

Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 5 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que está sendo publicado em sete partes!  Esta é a quinta! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

V

Continuei no trailer, porque foi-me oferecida uma cama. Lá moravam também mais dois malabaristas. Um deles era apenas aprendiz, mas já sabia muito do malabar.
Foi aí que comecei a ajudar na apresentação do grupo. Limpava as malabares, guardava-as com todo cuidado, e, depois de certo tempo, comecei a levá-las até o picadeiro. Mas, para isso, jogava um manto sobre minha cabeça que caía sobre meus braços, cobrindo assim as marcas que me transformavam na figura humana mais horrenda que eu vira até então.
Nesse convívio, peguei amizade com o aprendiz e ele me ensinou mais movimentos do malabarismo. E de pouco em pouco, fui me lembrando de alguns movimentos e aprendendo mais, de fato, a arte do malabar.
Um dia, estava eu a treinar atrás do trailer, quando, assim que parei para descansar de uma série mais difícil do jogo, percebi que o malabarista maior estava a me observar. Fiquei um tanto sem graça, mas arranjei, como desculpa, dizer-lhe que eu estava apenas a brincar. E qual não foi o meu espanto quando ele, com semblante fechado e voz de seriedade, me disse:
- Amanhã, tu entras no picadeiro e, junto com o aprendiz, apresentarás um número – afirmou aquilo, deu-me as costas e saiu.
Eu não tive o que falar... Mas no dia seguinte, no meio da tarde, ele chegou no trailer acompanhado da moça que fazia a maquiagem dos artistas e também acompanhado do palhaço mais novo do circo. 
Estranhei o fato de, já naquela hora, o palhaço estar todo pintado. Percebi logo que ele, além de não estar disposto à conversa, pois apenas resmungara umas duas ou três palavras desde que ali entrara, também agia como se eu ali não estivesse. Não me olhava de forma alguma. Imaginei que o horror da minha aparência o afastasse de mim.
Minha surpresa foi grande, quando, depois de certo tempo em que o malabarista explicava ao palhaço e à moça maquiadora sobre a pintura de uma máscara em um modelo, os três voltaram-se e olharam-me. Só aí compreendi que o modelo era eu, e a máscara era para mim. 
Assim foi que a maquiadora pintou os meus braços e o meu colo, aproveitando os queloides e construindo desenhos.
Quando o palhaço começou o seu trabalho, vi logo que a sua tarefa era a de cuidar do meu rosto. Ele teria de transformar o horror da minha face em uma máscara que poderia ser olhada sem causar repulsa. E isso ele fez.

Durante o tempo em que o palhaço em meu rosto tocava, eu de olhos fechados, refletia sobre o fato de aquelas mãos terem, um dia, me arrancado das garras das feras, e, agora, essas mesmas mãos estarem ali para amenizar o que aquelas feras me causaram.  E aí eu concluía quão estranha é a vida e quão estranhos são os caminhos, nela, a serem percorridos.





quinta-feira, 16 de março de 2017

poesia de ver - "... caminhos!"

Poesia de Ver: “… caminhos!”



“Ah!, os caminhos construídos na infância… 
… sempre levam à melhor parte de nós mesmos…!”


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 11 de março de 2017

crônica - O Promotor, o Torneio e as Fadas

O Promotor, o Torneio e as Fadas

“Ele roubou a banda do porco, doutor”.
“Não roubei nada! Tava morto peguei o que era meu!”
Não, eu não estava na sala de audiências. Nem no fórum! Estava pegando a mochila, ainda, saindo do barco, depois de mais de 4 horas navegando de uma cidade pra outra na região do Marajó. 
Os dois que estavam discutindo haviam ido até a sede do judiciário, muito exaltados. Lá procuraram o Promotor, mas este, que havia chegado dois dias antes, estava envolvido com o problema das “Fadas”, e pelo jeito iria demorar. Daí, que o Goela, que também estava por lá, disse, com o seu jeito inevitavelmente maroto, sabendo que iria dar pano pra manga:
“Olha, o juiz tá chegando daqui há pouco no municipal” (trapiche municipal). 
Foi só o que o Goela disse. Ele sabia que, dizendo isso, os dois iriam lá pro trapiche brigando, esperar eu chegar. E quando eu reclamasse, ele iria dizer que só avisou que eu chegaria, não que era pra eles irem até lá! Mas, enfim, é o Goela, né?!
A viagem havia sido tranquila e demoramos porque o Fumaça, piloto do barco, teve que dar voltas pra ir bem pelo canal, porque a “água não tava grande” e, se fôssemos por cima da praia, poderia encalhar. Quando a gente sai do “furo de Breves, no Marajó, para atravessar a baía para o lado do continente, atravessando o rio Pará, para ir até a parte de trás da pequena ilha que é onde fica a sede da cidade de Bagre, tem muita praia quando a maré do rio (sim, rio tem maré, no Marajó!) tá baixa. Quando a “água tá grande”, o barco passa por cima da praia e economizamos até quase 1 hora. Se a “água tá pequena”, tem que ir pelo canal, e aí, só quem conhece o local, porque as indicações são apenas umas poucas varas cravadas no rio, que só quem tem o olho acostumado a ver na lonjura da água sem fim que consegue identificar. 
Pois quando cheguei, estava pegando a mochila, ainda com uma perna o barco outra no trapiche, chegaram os dois discutindo, e falando como se estivessem falando comigo a manhã inteira!
“Ele roubou a banda do porco, doutor”.
“Não roubei nada! Tava morto peguei o que era meu!”
“Hein?! Bom dia pra vocês também!”, falei para ver se eles se tocavam que eu não estava entendendo nada e estava chegando agora!
“Bom dia!”
“Bom dia!”
"Pois ele roubou a banda do meu porco, doutor. Ele tem que devolver!”
“Roubei nada!”
Socorro!!!
Já havia saído do trapiche municipal, já estava na praça na frente da igreja indo para o judiciário, e os dois não paravam de falar, fazendo com que eu nem percebesse toda a calma da cidade!
Virei para os dois e falei: 
“Acalmem-se os dois!” (Tá bem, eu não falei “acalmem-se”, eu falei “se acalmem’”, mas não quis escrever errado). “Lá no judiciário a gente resolve!”
“Tá bem, doutor, lá o senhor vai mandar ele me devolver a banda do porco!”
“Devolvo nada, doutor, lá no judiciário o senhor vai ver que ele estava me devendo”!
E assim foi, não adiantou nada eu dizer para esperar chegar no judiciário.
Quando chegamos (sim, quando nós TRÊS chegamos), o Goela estava na porta, com um sorriso de quem está rindo por dentro, sabendo da confusão que havia aprontado!
Eu havia ido porque combinei com o promotor e com o defensor público, fazermos um mutirão de processos criminais do juizado especial, que são aqueles pequenos delitos que, na prática, não deixam ninguém preso, como brigas, rixas, e pequenas confusões entre vizinhos e amigos que bebem demais.
Eu estranhei os dois terem ido esperar-me desde o trapiche. Eu sabia que devia ser coisa do Goela, mas, mesmo assim, quando tem promotor ou mesmo defensor público na cidade (e os dois estavam lá há dois dias) as pessoas sempre correm para eles com qualquer problema. E o promotor que estava lá não era qualquer um e nem era do tipo que foge dos problemas. Já falei dele outro dia, e prometi que não ia dizer que o nome dele é Gerson!
Chegando no judiciário (eu esqueci de dizer que o pessoal de Bagre chama o local das audiências de “judiciário”), perguntei logo pelo promotor. Mas vocês tem que entender que todo o caminho do trapiche ao judiciário, e mesmo enquanto eu falava com o Goela perguntando pelo promotor, os dois continuavam num tal de “roubou banda do porco, não roubei, roubou sim, tu estavas me devendo”!
“Boa tarde, Goela! Foste tu que mandaste esses dois atrás de mim?”
“Claro que não doutor! Só falei que o senhor tava pra chegar!”
“E o promotor?”
“Tá com as “Fadas”, doutor”.
Enruguei a testa num universal gesto de “diga mais”.
“O torneio de futebol começa hoje, doutor, e a prefeitura não deixou o time das “Fadas" ser inscrito. Tá a maior onda lá na promotoria!”
As “Fadas" são os gays da cidade. Para uma população do tamanho de Bagre, até que tem bastante… mas fazem barulho como se fossem muito mais! O mais interessante é que convivem praticamente sem homofobia, com toda a população sabendo quem são, sem precisarem esconder-se, nada! Entre as “Fadas" tem professores, servidores públicos, pessoas inseridas na comunidade de maneira completamente normal. Apenas fazem parte das “Fadas” e pronto!
Daí, que foi um reboliço a proibição do time das “Fadas" ser inscrito no torneio. E foram todas, ou quase todas falar com o promotor (vou usar o gênero feminino porque estou usando o termo “Fadas”, sem qualquer conotação pejorativa!).
Como o promotor não é de meias soluções, quando começou o falatório todo, ele não teve dúvidas: bateu na mesa, pediu silêncio, e chamou o Goela (viram que o Goela é um “faz-tudo”, né?!)
“Goela, chama agora o secretário de educação aqui!” No município, o secretário de educação cuida, também, do esporte e cultura. 
O Goela nem disse nada, e se mandou para a prefeitura!
Ele sabia que quando o promotor chamava, era sério. Teve uma vez que um ex-vereador estava sendo processado, e houve várias audiências frustradas, porque ele nunca comparecia, apresentando sempre atestado médico. Numa dessas, em que a audiência era pela manhã, quando o promotor estava indo para o judiciário, viu o ex-vereador na frente de uma loja na beira. Daí, quando chegou na hora da audiência, o Goela chamou o ex-vereador e ele não apareceu, enviando um atestado médico.
Acho que era o terceiro atestado médico no mesmo processo. Olhei, e alcancei o atestado para o promotor. O promotor, na hora:
“Goela, vem aqui. Pega esse atestado, leva lá na casa dele agora e fala que ele tem três opções. Mas presta atenção pra decorar as três, que vou falar só uma vez: ou ele vem, ou ele vem, ou ele vem!”
Menos de dez minutos depois, o ex-vereador apareceu lá, com um cabide de soro e a agulha no braço!
Daí que quando o promotor falou para chamar o secretário de educação, o Goela foi faceiro!
Em seguida, o secretário chegou na salinha da promotoria, e entrou sob vaia das “Fadas”.
No meio do “bom dia” que o secretário tentou falar, o promotor já foi dizendo:
“Ou as “Fadas" jogam, ou não tem torneio. Obrigado. Bom dia.”
Simples assim!
Enquanto isso, eu finalmente conseguia sentar-me para dar ouvidos aos dois brigando pelo porco.
“Sim, explica o que houve, Tesoura”. O Tesoura era o dono do porco, e tinha esse apelido, não porque era criador de porco, claro, mas porque era cabeleireiro!
“Doutor, o "Papel de Xerox” roubou meia banda do meu porco!, e eu quero de volta”.
“Roubei nada, doutor. Ele tava me devendo a meia banda, pode perguntar pra ele”
Não cheguei a perguntar, mas o Tesoura foi logo falando:
“Eu devia, doutor, mas o combinado não era esse. Eu perdi na aposta da bola, mas eu ia dar só quando o porco morresse”.
“Mas ele morreu, doutor”.
“Morreu nada, tu que mataste!”
“Eras! Pois se eu matei, ele morreu. Doutor, eu lhe juro que matei ele primeiro, e depois tirei minha banda. Não ia fazer isso com o bicho vivo!”
“Hein”?
Pois é… mas enfim, o dia estava animado! Ouvi os dois mais um pouco e ficou por isso mesmo. O porco já tava morto mesmo, fazer o quê?!
Depois de mais um tempo entre problemas de porcos, galinhas e vizinhos, não necessariamente nesta ordem, chegaram as “Fadas" pra falar comigo.
Fiquei estranhando, porque dificilmente um problema levado até o promotor, não era resolvido.
Mas o assunto era outro:
“Doutor, tem o nosso baile na semana que vem. Podemos contar com a sua ajuda?”
Fiz minha cara de “hein”, sem dizer nenhuma palavra.
“A gente sempre pede colaboração pra todos. Nosso ídolo, o doutor promotor, já ajudou”.
Bem, acabei contribuindo.
Depois disso o dia correu normal, fizemos as audiências, resolvemos o que dava para resolver e, no final do dia, estávamos indo para o hotel, eu, o promotor e o defensor público, que resolveu parar numa banca de DVD’s piratas. Eu fiquei uns passos afastado, e o promotor ficou conversando comigo. Depois, o promotor saiu e foi em direção à banca. O atendente, já sabendo que o promotor havia resolvido o problema das “Fadas" quis agradar o promotor (o vendedor da banca era do time das “Fadas” também).
“Ô doutor, nem tem como agradecer. Obrigado pelo que o senhor fez por nós. Olhe, para o senhor, eu ofereço pelo mesmo preço qualquer um desses filmes aqui, que são especiais”. E tirou de baixo da banca uma caixinha com DVD’s que não estavam expostos. De longe eu não vi nada. Mas só vi o promotor saindo xingando o vendedor. Estranhei! Depois fiquei sabendo: o vendedor achou que o promotor fosse uma das “Fadas”, por ter ajudado, e queria oferecer filmes especiais… na verdade eram filmes pornôs gays!!
Báh, foi quase uma semana que eu e o defensor público ficamos tirando onda com o promotor. Mas o problema foi na semana seguinte, quando voltamos na cidade e era o dia do baile das “Fadas”.
Eu notei que o pessoal da cidade estava me olhando um pouco mais do que de costume e quando eu passava o pessoal olhava e cochichava entre si alguma coisa.
Pois quando passamos à tarde na frente do local onde seria o baile das “Fadas" estava lá a faixa e o cartaz:
“Baile das Fadas. etc, etc, etc… apoio, Doutor…” Meu nome!
Dá pra imaginar a onda que o promotor tirou? Juiz gaúcho, apoiando o baile das “Fadas”? 


Por Luís Augusto Menna Barreto



terça-feira, 7 de março de 2017

diálogos - "...do teu amor"

Diálogos: “…do teu amor!"

“Tu me maltratas”, ela lhe disse de repente.
Como posso maltratar-te se só te quero bem?
“Esse teu amor me maltrata.”
“Como pode o amor maltratar?
“Tu ficaste com todo o amor pra ti… e não me ensinaste a amar-te assim como me amas.”
(Fragmento de um conto não terminado)


Por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 5 de março de 2017

pensamentos perdidos - O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 4 de 7

Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 4 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que será publicado em 7 partes! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

IV

Uma noite, na hora do espetáculo, quando os aplausos e os risos ecoavam por todo o circo, senti vontade de espiar o que fazia aquele mais novo palhaço, para que o público vibrasse daquele jeito. Foi, então, que ao me aproximar da cortina que me esconderia, para dali assistir ao palhaço, passei em frente a um espelho grande, pelo qual os artistas se miravam, no instante anterior de entrar em cena.
Deus de todos os horrores! O que eu via no espelho era um assombro, era um monstro, não podia ser eu. Mas era eu. Aos poucos, esse entendimento foi me chegando e, com ele, o choro convulsivo que vinha do mais profundo do meu ser. E eu chorava dobrada sobre meu próprio corpo, com a pena imensa daquilo que restara de mim.
Foi aí que um homem grande, muito magro, de compleição nada forte, me viu, eu não sei como, e me susteve pela cintura. Levou-me até o seu trailer e fez-me sentar em uma cadeira. Esperou um pouco e disse-me:
- Deite-se, menina! Chora o quanto quiser! Deságua teu pranto no travesseiro! Depois durma! O sono às vezes cura feridas _ disse isso e começou a sair.   É minha hora de entrar no picadeiro. Mais tarde eu volto - aí saiu.
Horas depois, quando acordei, tentei falar. Eu tinha sede, muita sede, mas minha voz era uma rouquidão só. E o homem estava lá. Somente naquele instante, eu o reconheci. Ele era o malabarista maior.








sexta-feira, 3 de março de 2017

poesia de ver - "...fé em fitas!"

Poesia de ver: “… fé!”

   


Era um muro de pedidos…
Era um muro de gratidão…
Era um muro de fitas…
É um muro de fé!


Por Luís Augusto Menna Barreto


quarta-feira, 1 de março de 2017

crônica - Eu o Pilha e o Circo

Eu e o Pilha e o Circo


A minha perna ainda tava com gesso. Só na canela, porque a parte que descia pro pé, eu mesmo fui arrancando. Queria era tirar tudo, mas o Pilha disse pra não tirar que rico fica com pena de criança quebrada!
Faz tempo que eu tô com esse gesso. Nem lembro quanto. E também não sei se já tinha que ter tirado ou não, porque eu e o Pilha saímos fugidos do hospital. Tava com medo que me levassem para o juizado e o Pilha me salvou! Ele arranjou uma cadeira de rodas e saiu me empurrando à toda velocidade; mas os caras do hospital correram atrás de nós. O Pilha disse que eram os polícias do juizado disfarçados… daí, ele jogou a cadeira na frente de um carro e me levou na cacunda!
Depois, nunca mais voltamos no hospital e tô com o gesso na perna, ainda!
Tava muito quente de novo… por isso que viemos pro parquinho, ficar na nossa árvore.
“Eu queria voar, um dia…"
Eu tava olhando o céu, pelo meio das folhas da árvore… eu achei que tinha só pensado, mas acho que eu falei alto… porque o Pilha falou:
“… às vezes, eu queria ser ator…”
Eu fiquei meio sem saber o que dizer. O Pilha nunca falava assim… mas achei que eu tinha que dizer alguma coisa!
“… iiihhh… cheirou cola vencida? Ficou doido, Pilha?”
“Doido é tu, que quer voar. Até por cima de carro já voou, mané!”
“Não sei que graça tem em ser ator, Pilha… ficar vivendo a vida dos outros!”
“A graça não tá em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho…”
Eu não entendi muito bem… Mas achei engraçado imaginar o Pilha, todo pequeno, numa roupa de gente grande e fazendo biquinho pra falar…! Porque é assim que ator faz, né?!
Mas depois, achei estranho que o Pilha passou o dia mais quieto. Parece que tava com o pensamento longe.
No domingo, normalmente o Pilha vai pro centro ajudar o irmão dele vender DVD que eles pegam com um chinês. Mas nesse domingo, o Pilha chegou cedo no muro onde a mãe tinha arrumado pra gente dormir. 
"Bora mané”! 
“Onde Pilha?”
“Shhh! Bora. Vamos ganhar uma grana!”
Eu fui com o Pilha. Ele sempre sabe o que fazer. Acho que caminhamos umas duas ou três horas, atravessando a cidade, até que lá, depois de uma curva na Zona Norte, apareceu uma baita barraca de lona. Era um Circo!
“Vai trabalhar no circo? Virou palhaço, Pilha?”
"Cala a boca, mané! Tu é muito burro!”
O Pilha é mesmo esperto: o ingresso pro circo tava trinta pilas. O Pilha descobriu um lugar meio escondido, que dava pra passar embaixo da lona. Daí, que ele começou a passar umas crianças por baixo da lona, por 2 pilas cada. Eu ficava cuidando, enquanto ele passava as crianças! Mas eu só podia olhar de um lado, né? E o circo é redondo, então, não tinha como cuidar os dois lados! Daí, que um palhaço chegou pelo outro lado e pegou o Pilha! Ouvi ele gritar! 
Eu saí correndo desesperado. Tinha que dar um jeito de salvar o Pilha! Mas como é que se salva quem vive salvando a gente? Quando cheguei correndo, vi o Pilha sendo arrastado pelo braço pra trás de um caminhão. Corri o mais que pude, mas quando cheguei não vi mais eles, e nem ouvi os gritos do Pilha!
Fiquei desesperado! Comecei a procurar por tudo que era lugar.
Quando eu tava olhando um domador dar comida para dois leões que pareciam mais magros que eu, tomei um susto com uma mão no meu ombro! Era o Pilha!
“Bora, Mané! Ainda dá pra ganhar mais uns pilas.”
“Mas Pilha, o que houve? Como tu te livrou do palhaço?”
O braço dele tava meio vermelho, mas era só. Eu nem imaginava o que ele fez, mas o Pilha sempre dá jeito em tudo!
“Depois te conto, bora!”
“E se o Palhaço volta?”
“Não vai voltar!”
E o Pilha logo logo arranjou mais crianças pra passar por baixo da lona! Eu fiquei cuidando de novo. Mas tava apavorado!
Depois, começou um barulhão. Parou de chegar gente! Ia começar o Circo. Tava louco pra ver. Mas o Pilha disse que a gente tinha que conseguir mais dinheiro. Não entendi muito bem, porque o Pilha não era louco por dinheiro. A gente sempre conseguia só pro que tava precisando! O Pilha nunca foi de juntar e ficar guardando. Ele sempre fala que dinheiro que a gente não usa é só papel velho que não serve pra nada!
Mas fui com ele. E não sei de onde, ele conseguiu um isopor cheio de refrigerante. Era enorme, a gente quase nem podia carregar!
“Bora vender que fica mais leve”, ele falou.
Entramos no Circo e começamos a andar pelo meio das pessoas. No começo não vendemos nada, mas, depois da metade, começamos a vender muito. Quando dava, eu espiava um pouco. Mas o Pilha ficava o tempo todo contando o dinheiro e dizendo pra gente vender mais.
Antes de terminar, o Pilha me falou pra ficar com a caixa perto da saída que ele já voltava. Eu fiquei. Terminou o circo e ele não voltava. Comecei a ficar com medo, e me escondi com a caixa vazia atrás de uma arquibancada. Vi quando uma menina pouco maior que nós começou a subir lá no alto. Não acreditei quando ela pegou o balanço e começou a se balançar lá em cima! Só num circo, mesmo, pra ter um balanço tão alto! Vi que ela caiu e meu coração quase saltou! Mas tinha uma rede… e depois que eu vi que ela começou a pular na rede, achei até bonito. 
Ela saiu, depois, com o cara que tava dando comida para os leões. E eu tomei outro susto! Quase morri. Era o Pilha de novo! Mas tava muito diferente! Tava engraçado demais. E ele tava muito alegre! Tava com a cara toda pintada de palhaço e com uma roupa colorida! E o palhaço que tinha pego o Pilha tava logo atrás, com cara de brabo. Mas não tava correndo a gente dali. Chamou:
“Vem moleque. Anda logo, senão não vai dar!”
O Pilha me puxou e foi me levando até o meio, lá no poste com escada. E disse pra eu subir. Eu tava tão espantado que nem perguntei nada, fui subindo. O Pilha também! Mas ele tava numa alegria que era bonito de ver. Daí, eu não sabia se ficava com medo da altura ou feliz com o Pilha. Misturei os dois, e fui subindo. Quando vi, tava com o balanço da menina. O Pilha disse pra eu segurar. Eu tava me pelando de medo, mas segurei. E não é que o doido do Pilha me empurrou? 
Acho que dei o grito mais forte da minha vida. E foi tudo muito louco: acho que no circo, as coisas ficam mágicas, porque parece que o tempo começou a ficar devagar, porque eu sei que pensei num montão de coisas, enquanto o balanço foi até o meio, não aguentei o peso e caí… deu tempo de ver o Pilha rindo numa alegria que eu nunca tinha visto, deu tempo de lembrar do dia que eu tinha voado por cima do carro, e lembrei que eu me achei o super-homem… e pensei que eu era o super-homem de novo! Deu tempo de pensar que eu ia morrer quando chegasse lá embaixo, porque nem lembrei da rede… e quando achei que eu ia morrer fiquei feliz de saber que a última coisa que eu ia ver era meu melhor amigo feliz, porque ele tava rindo tão gostoso, com cara de palhaço!
… mas daí, parece que bati numa coisa mole. Era como se Deus tivesse me pegando no colo de um jeito bom e me jogando pra cima de novo! daí, parece que eu acordei e vi que eu tava balançando na rede! E Vivo! Foi ali que eu vi que o circo era mágico, porque hoje, cada vez que penso em tudo, levo um tempão lembrando! Não dava pra pensar em tudo no tempo só de cair! Eu sei que de algum jeito o mundo tinha dado uma freada!
Depois, quando saí da rede e o Pilha desceu, tirou a roupa que tinha colocado e devolveu pro palhaço que ficou o tempo todo com a cara fechada, olhando a gente da porta do circo. E o Pilha também deu todo o dinheiro pra ele. 
“Tá faltando dez real.”
“Mas é só o que consegui."
“Tá. Vazem, moleques”. 
Quando voltamos pra casa, a mãe tava furiosa. Eu tava com medo. Mas o Pilha tirou um saquinho da cueca. Tinha dez pilas. 
“Toma, não vai apanhar no dia que tu voou!”
Era verdade! Eu disse que queria voar, e o Pilha me fez voar! 
Nossa! Eu tinha voado! 
Não sei o que deu em mim, mas dei um abraço no Pilha!
“Tá doido, mané?!”… mas deixou eu abraçar.
E enquanto me abraçava, ele falou: 
“Acho que se não fosse tu, eu não ia ter sido um palhaço, hoje… foi tão bom não ser eu.”
Daí, ele me largou de repente e saiu correndo:
“Tchau, mané. Chega cedo amanhã no trabalho, que tu tá me devendo dez pilas!”
Fiquei pensando depois, em como o Pilha ficou diferente e feliz vestido de palhaço. Parecia que ele tinha ficado triste quando voltou a ser ele de novo.
Daí, eu não ri mais. Acho que fiquei triste… porque eu adoro minha vida… e quando ficar mais velho, tudo o que quero, é ser sabido como o Pilha…!


Por Luís Augusto Menna Barreto



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

diálogos - "... esquecer-se!"

Diálogos: "...esquecer-se!"

"Tu vais me devolver…?"
O quê eu teria pra devolver-te?
“O amor que levaste de mim”.
Não levei amor nenhum que não fosse meu”.
“Eu te amava tanto... Então por que fiquei vazio quando partiste?"
"Por isso: porque todo o amor que tu tinhas, era meu: acho que tu me amaste tanto, que esqueceste de amar a ti próprio!"

Por Luís Augusto Menna Barreto

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

pensamentos perdidos - O CIRCO - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 3 de 7

Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 3 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que será publicado em 7 partes! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)


III

Um dia, no entanto, reconheci que havia certa tristeza no olhar do domador. E quanto mais o tempo ia para frente, mais feras ele domava, e mais a tristeza saltava de seu olhar.
Horas havia em que ele desaparecia e, por mais que eu inventasse jeito de saber onde ele se escondia, meus intentos não apresentavam sucesso. 
Ele reaparecia, e eu lhe perguntava por onde andava, e a resposta vinha sempre como verso de cantiga: nas nuvens da alegria; nos tempos de antanho; nos risos dos insanos; nas gargantas das crianças...
Uma vez, depois do amor, eu lhe perguntei sobre a dor que enlanguescia seu olhar. Ele me respondeu que havia uma fera que desafiava seus poderes. Disse que estava quase a se dar por vencido, pois, por mais que tentasse, não conseguia domá-la.
Uma fera que desafiava os poderes do meu domador!? Como assim?! Eu nunca tinha visto uma que resistisse ao poder de mando daquele homem. Durante aqueles anos todos, eu entrava sempre junto com ele nas jaulas, e as feras lambiam meus pés, minhas mãos, se aconchegavam em mim. Eu sabia que o poder de domar o instinto daqueles animais estava nele. Era por ele que elas me aceitavam. Era pelo cheiro dele impregnado em mim que elas não me atacavam. Como então crer que havia uma fera que seus poderes não conseguiam domá-la?! Que fera seria esta?!
Mas com o passar do tempo, os súbitos desaparecimentos do meu domador ficaram mais amiúdes e mais demorados. E em certo dia, que entrou por noite a dentro, seu desaparecer se alongou e muito passou da hora de alimentar os animais.
Eu, então, confiante no cheiro que, há duas noites passadas, ele deixara em mim, quando me amara com sua voracidade contumaz, resolvi entrar sozinha na jaula primeira, a fim de alimentar os bichos ferozes.
Aí... Talvez não tivesse transcorrido ainda nem meio minuto que eu estava sozinha dentro da jaula, vez que nem a grade-porta dera tempo de eu fechar, quando o leão mais velho me atacou e jogou-me longe uns dois metros. Lembro-me do vermelho do meu sangue jorrando em minha frente, e das outras feras se aproximando e emitindo um som do qual jamais me esquecerei. Não sei se me recordo de tudo, mas o que retenho na memória não condiz com uma cena desta nossa realidade. O que guardo em mim é um acontecer típico de um universo fantasmagórico. As minhas lembranças desse momento são todas de várias imagens superpostas e moventes dentro de um mar de sangue. Dentre elas, há um rosto de palhaço.
Depois... Só depois, bem depois, fui dar por mim em um leito de hospital, toda enfaixada e com um grande curativo no rosto. Quando isso se deu, um mês já havia se passado desde que eu sofrera o ataque das feras.
Contaram-me então que, no instante em que o leão me atacou, o grito que eu dei ecoou em toda área do circo. Foi aí, sem titubear um segundo, que o mais novo palhaço do circo, arrancou, do torno, o ferro de tocaiar as feras, que o domador sempre usara no período em que as domava. Como um relâmpago, ele entrou na jaula e conseguiu me resgatar dos bichos sanguinários.
À medida em que eu me recuperava, sentia que algo havia mudado em mim. Não, não me refiro às mudanças físicas ocorridas, à grande cicatriz com a qual eu ficara no rosto, os queloides que atravessavam meu tronco e as marcas feias que ficaram em meus braços. Na verdade, eu sentia que dentro de mim, algo se apagara.
 Levei muito tempo no hospital. Quanto tempo? Não sei.
Às vezes, o domador aparecia para me visitar. Porém, a palavra nos faltava. Eu esperava que ele tocasse no assunto do acidente, mas ele nada falava. Talvez eu quisesse lhe culpar por ele não estar no circo, na hora de alimentar as feras. Talvez eu quisesse saber o porquê de ele desaparecer tanto.
 Como ele nada falava, eu me calava e acumulava o silêncio em meu coração.
Certo dia, quando ele já estava a se retirar, lhe fiz somente esta pergunta: 
- Por quê?
Ele apenas se voltou, olhou fundo para mim e nada respondeu. Só seu olhar me disse o que eu não esperava:
-Adeus!
Quando recebi alta do hospital e voltei ao circo, outro domador cuidava das feras. O meu domador eclipsara. Nem em seu nome alguém tocava.

Passei então a não ter uma função certa no circo. Apenas ajudava em alguns afazeres aqui e ali. Com aquele aspecto, não seria conveniente para o circo me exibir no picadeiro. E eu, que todos me diziam ser tão bonita, com a nova aparência, fiquei tão feia... Com um rosto quase assombroso.




sábado, 18 de fevereiro de 2017

poesia de ver - "...bondade!"

poesia de ver: “…bondade!”



A florzinha ofegava quando segurei em seu caule, sem arrancá-la…
Suspirando, disse-me:
“Se me fores desfolhar… comeces por “mal-me-quer”…

Achei tamanha sua bondade, que disse “bem-me-quer” duas vezes… e de seu último perfume exalou um sorriso…!

Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

crônica - As Eleições, o Promotor, o Morto e a Parideira

As Eleições, o Promotor, o Morto e a Parideira

Época de eleições, é sempre um sufoco pra quem é juiz eleitoral.
Mas vou ser honesto… promotor também sofre um pouco…!
Pois lá no Marajó, por algum tempo, havia um promotor que, como eu, também viveu seus perrengues e teve muita história pra contar. Faz mais ou menos sete ou oito anos que ele saiu do arquipélago, mas ainda o considero um grande amigo! E vivemos boas histórias por lá. A etiqueta recomenda que eu não decline seu nome, então, de jeito nenhum poderia dizer que se trata do Dr. Gerson! 
Enfim…
Eu lembro que ele, com seu jeito peculiar de ser, descobriu um pequeno golpe, uma esperteza, digamos assim, que eu jamais observaria. Mas ele é um guri muito esperto e, na época, estava no auge de seus menos de trinta anos.
Antes preciso dizer que, para o Poder Judiciário, a eleição não é só o período de campanha eleitoral. Não mesmo! Uma das épocas de mais trabalho é perto do tal do “fechamento do cadastro”. É o seguinte: meses antes das eleições, fecha o cadastro, ou seja, não pode mais alistar eleitores nem pode mais haver mudanças de domicílio eleitoral. O eleitor tem até o fechamento do cadastro para mudar a cidade em que vota. E normalmente esse fechamento do cadastro acaba em maio. E, no dia em que acaba o prazo, à meia noite simplesmente encerra o cadastro. Tudo via sistema. Isso: deixa eu esclarecer essas duas informações, porque serão muito importantes pro que vou contar: sim, eu disse MEIA NOITE! E, sim, simplesmente acaba a possibilidade de cadastro. 
Pois é, vai chegando o final do prazo, e, especialmente no último dia, o atendimento vai direto e os servidores do cartório eleitoral ficam trabalhando realmente até a meia noite… mas DIRETO MESMO, até a meia noite! E não tem esse negócio de que "quem tá dentro será atendido”, ou distribuição de senha! O cadastro simplesmente fecha! Nem querendo, conseguimos cadastrar mais quando chega a hora.
Tá, vocês devem estar perguntando: “mas tem tanta gente assim, querendo mudar de cidade pra votar?” E eu respondo: “No interior? Mas báh, e como!”
O negócio é que quem já sabe que vai ser candidato, começa toda uma função de buscar parentes e amigos e interessados de qualquer forma que moram em outras cidades e começam um movimento migratório, de acordo com o interesse no futuro candidato (jamais falaria eu que muitas são pessoas muito simples às quais seria prometida alguma vantagem em troca da mudança do domicílio eleitoral e do voto nas eleições).
Daí, que nos últimos dias, fica um loucura.
Hoje em dia, não sei por que cargas d’água, o sujeito que quer mudar o domicílio eleitoral não precisa comprovar o endereço. Basta uma declaração afirmando que seu endereço é no município e pronto! Isso, uma declaração. Lá em algum lugar naquele papel que já veio pré impresso e que noventa por cento das pessoas que estão fazendo a mudança do domicílio eleitoral nem leem (umas porque não sabem, outras por preguiça), tem um aviso dizendo que é crime fazer declaração falsa! Tá, não vou nem falar se isso adianta alguma coisa ou não! Mas, naquele tempo, ainda era preciso algum comprovante do endereço! O talão da energia (é como o pessoal do Marajó chama o que conhecemos por "conta de luz”) servia. Só que não era exigido que estivesse no nome do eleitor, afinal, em uma casa podem morar quatro ou cinco eleitores e a conta da luz virá, evidentemente, no nome de apenas um.
Bem, o negócio é que nos últimos dias é muita, mas muita gente! Pense em uma fila de inscrição para o Big Brother ou o The Voice… pois é mais ou menos disso que estou falando!
O bom é que normalmente o fórum da Justiça Eleitoral é separado do Forum da Justiça Comum e a maior parte do tempo, eu não passo com essa pressão toda. Mas a verdade é que, nos últimos dias, nós (eu e o promotor) depois do expediente normal no fórum, íamos para a Justiça Eleitoral. E saíamos de lá normalmente depois da meia noite! 
Naquela época, o cartório eleitoral contava com 3 servidores e havia 4 computadores! Um luxo! Daí que chegava perto de dez horas da noite, eu resolvia sentar no computador como os outros servidores para atender também. E o promotor ia pra fila fazer uma triagem! Pois no primeiro dia da triagem, já foi uma loucura o que a fila diminuiu e acabamos rápido! Tô dizendo: o guri era bom!
A primeira providência que ele fez, foi organizar a fila! A fila era um problema! A partir do portão do pátio do cartório eleitoral pra dentro, a fila até que estava mais ou menos em ordem… mas do portão pra rua, era cruel! O pessoal meio que se aglomerava em um amontoado que de fila não tinha muita coisa, daí que quanto mais perto do portão do cartório, mais confusão tinha! Pois o promotor resolveu rapidinho: chamou o Tonelada, policial militar sobre o qual já falei algumas vezes, especialmente sobre a sua “delicadeza”, e num instante a fila foi arrumada! O Tonelada foi no começo da fila, deu dois gritos, tirou o cacetete, ficou balançando na mão e começou a andar ao longo da fila! Num instante a fila ficou organizada e silenciosa! Tem jeito com gente esse Tonelada, vou te dizer!
Pois, organizada a fila, o promotor começou a fazer a triagem. Ele olhava o caboclo, abria um sorriso imenso (ele sempre sorri, é um guri realmente simpático) e pedia para dar uma olhada nos documentos. O caboclo, inocente, entregava para o promotor. Daí o promotor perguntava:
“O senhor veio mudar o endereço?”
“Vim, sim senhor”
“E qual é o seu endereço?”
Pronto… o caboclo começava a gaguejar… 
“Tá, tá aí no papel que o senhor pegou”.
“Isso eu sei! Quero que o senhor me diga o endereço!”
“Ãnnh… doutor, é que eu mudei faz pouco…”
“Qual o bairro”, perto do quê?”
O caboclo tava ainda respirando pra responder, e ele atalhava!
“Vai-te embora daqui, seu lesado, pensa que vai enganar? Volta pra tua cidade!”
E lá saía o caboclo da fila! O resto do pessoal começava a arregalar os olhos. Ele passava pro outro. Mesma coisa:
Pedia documentos, “veio mudar o endereço pra votar aqui?”, “empreste-me seus documentos”, "qual o endereço”, “não gagueja que é mentira”, “vai-te embora daqui”!
Passava pro outro.
Certo, vocês estão pensando: ah, mas assim que o pessoal começou a ver o promotor fazer isso, passaram a ler rapidinho o endereço na conta de luz, pra dizer quando o promotor chegasse! 
Ta… isso serviria na Suécia! Estamos falando do Marajó, onde lamentavelmente existe uma população ribeirinha muito grande que não tiveram acesso à escola! Mais da metade não tem condições de ler, ainda mais ler rápido e sob pressão e, ainda, decorar o endereço. 
E pra fila esvaziar rapidinho, olha o que o esperto do promotor fez: gritou bem alto: 
“Tonelada, continua a triagem! Quem não souber ou gaguejar o endereço, recolhe que falo com ele amanhã!”
Já viu né?! Todo mundo que não vinha mudar-se de verdade (e mais os gagos!) foram embora da fila! 
Pois o promotor era assim!
Teve uma vez, já no dia da eleição, que deu problema numa seção de votação, em que um cidadão queria votar, estava com o título, mas o presidente da mesa de votação não deixou ele votar. 
No dia da eleição tem sempre muito problema e passamos o dia de um lado pro outro, visitando locais de votação, coibindo boca de urna, resolvendo um ou outro problema. Como sempre tem muita coisa, nós nos dividimos, o promotor para um lado e eu para outro. Pois esse chamado, ele que foi atender.
No local, confusão armada, chegou o promotor… com o Tonelada!
O eleitor, um senhor velhiiiiiinho, mal sabia desenhar seu nome, segurando o título e dizendo que queria votar. 
“O que está havendo?” Perguntou o promotor para o presidente da mesa.
“Ele não está na lista de eleitores, doutor. Não tem como votar”.
“Mas tá aqui meu título, é esse número de seção!” Exibia o eleitor.
O promotor pegou o título e conferiu. Era a zona e seção certas. Problema!
Telefonou para o cartório eleitoral. Passou a informação. Veio a resposta:
“Consta como falecido, doutor!”
“Égua!” (Fosse eu, teria saído um “hein?”. Mas o promotor é paraense da gema!)
Com seu jeito peculiar, ele falou com toda a calma para o eleitor velhinho:
“O senhor tá morto, não pode votar!”
… (Olhos arregalados, aquele momento em que a gente pensa em alguma coisa pra falar, e o promotor encarando o velhinho e sorrindo!)
“O senhor morreu. Tá morto. Consta no cadastro!”
“Mas doutor… eu tô aqui, não tô?”
“Não. O senhor tá morto!”
O caboclo olhou o promotor que sorria, o Tonelada atrás dele, muito sério, e falou:
“Olha, doutor… eu achava que não, mas o senhor tem mais estudo… vai ver eu já morri mesmo… Obrigado, doutor, vou ver se aviso a família…” E foi saindo!
… 
Tá, tudo bem… depois disso, claro que o promotor levou o caboclo para o cartório eleitoral e resolveram o problema. Era caso de homônimo. Devia ser proibido pessoas com apenas um pré nome e um só sobrenome! Será que não pensam na justiça eleitoral quando batizam os filhos?! 
Pois bem, estávamos nós no último dia do cadastro. Quando eu cheguei com o promotor no cartório eleitoral, por volta de três da tarde. Ainda tinha um monte de mães e pais com criança no colo, “furando a fila”. Pois é! O pessoal leva os filhos de propósito, porque com criança de colo, tem preferência, como as grávidas, deficientes e idosos.
Eu estranhei, porque normalmente (não sei porquê) esse pessoal que tem alguma preferência, vai bem cedinho! Mas, como sempre tem muita gente, também nem me chamou a atenção tanto assim. 
Pois o promotor, desde a chegada, sempre muito comunicativo, vai fazendo a triagem mas sempre brinca com as crianças de colo. Até pegar algumas no colo, ele pega.
E assim foram passando algumas horas, e a todo o momento vinha uma mãe ou um pai com bebê de colo. O promotor começou a estranhar quando viu uma ou duas crianças chorando quase desesperadas, querendo, a todo o custo sair do colo. O pai da criança estava mesmo meio sem jeito. O promotor foi lá e o sujeito ficou nervoso. O promotor, bem mais jeitoso do que aquele pai, acalmou a criança. O pai fez o cadastro, pegou a criança e vai ela chorar de novo. E assim aconteceu com mais um ou outro!
Lá pelas tantas, eu lembro que saí do cartório, acho que fui no mercadinho ali perto comprar água com gás e, na volta, vi uma cena curiosa que achei interessante e comentei com o promotor:
“Tchê, Doc., olha, caiu meu queixo agora! Achei muito legal que uma mãe, ali na sombra do mercadinho tava trocando a roupa do bebê!”
“O quê?” Perguntou ele com uma desconfiança que eu não entendi. Pra mim, aquilo foi uma grata surpresa, ver uma mãe, em pleno Marajó, em que as crianças às vezes usam a mesma roupa a semana toda, trocar a roupa do bebê, numa fila em um dia quente. Imaginei logo que a criança deveria ter suado muito e a mãe, prevenida, trocava o bebê.
Pois o promotor olhou mais uma criança que chorava no colo de uma mãe sendo atendida, olhou pra mim e disse:
“Égua!” E saiu ligeiro!
Fiquei com a minha expressão de “hein" no ar.
Depois de uns minutos o promotor voltou e sentou sorrindo. Em seguida, chegou uma Conselheira Tutelar:
“E a criança, doutor?” Perguntou para o promotor.
“Leva pro conselho. A mãe vai ficar detida só até à noite, depois vou liberar e tu devolves a criança para a mãe”.
“Hein?”
… 
Pois não é que a Maria Parideira arranjou de ganhar uns trocados no fechamento do cadastro? Dos nove filhos que tem, estava alugando três, pra quem queria furar a fila: um de quatro meses, um de quase dois anos e um de três e pouco! Alugava, trocava a roupa e alugava de novo! 
E dizem que quem estava pagando era um cidadão que queria ser candidato na próxima eleição!
Foi. E se elegeu!

Por Luís Augusto Menna Barreto