quinta-feira, 13 de abril de 2017

diálogos - (fragmento da próxima aventura do Pilha)

Diálogos: (Fragmento da próxima aventura do Pilha)

“Tu vai roubar, Pilha?” E eu fiquei mesmo assustado! A gente sempre aprontava, eu sei… mas aquilo era tão diferente…
“Que mané roubar nada! Vou pegar emprestada.”
“Mas tu tem camisa, Pillha”
“Preciso de uma bonita, nova!”
“Mas desde sempre a gente usa roupa velha e gosta!”
“Hoje não é sempre! Tem vez que a gente precisa de roupa nova pra ser gente!”
O Pilha tava sério. E pela primeira vez, eu fiquei com medo da gente estar deixando de ser criança… fiquei com muito medo. Se o Pilha pegar mesmo a camisa, acho que ele não vai só roubar uma roupa… acho que vai roubar nossa criancice…


Por Luís Augusto Menna Barreto


sábado, 8 de abril de 2017

pensamentos perdidos - O CIRCO - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 6 de 7


Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 6 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que está sendo publicado em sete partes!  Esta é a quinta! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

VI

À noite, junto com o malabarista aprendiz, fiz minha primeira apresentação com as malabares. E não posso negar que foi um sucesso.
Um mês, dois, três... Eu já era quase uma malabarista. 
Certo dia, entretanto, no momento da apresentação, ao fazer um dos movimentos com as malabares, meu olhar se deparou com o trapézio. Aí... pela primeira vez errei em público o movimento e deixei uma das peças rolar pelo chão.
Fiquei triste com o meu primeiro desacerto, assim para todos verem, no jogo do malabar. Mas continuei me apresentando.
Um mês, mais outro, cinco meses, um ano... Aí eu já era uma malabarista de verdade.
Mas havia o trapézio lá em cima que, de quando em quando, puxava o meu olhar.
Durante todo este tempo, o palhaço que me salvara dos leões, mesmo sem me dizer uma única palavra, ensinou-me a pintar a minha máscara. Entretanto, reparei que ele nunca se apresentava sem a pintura no rosto, sem o nariz de bola vermelha e sem o chapéu de três pontas que quase encobria seus olhos.
 Isso me deu a ideia, que para mim foi uma libertação. Passei também a viver sempre pintada. Aí não precisei mais andar pelos cantos escuros, a fim de esconder o monstro que eu me tornara. Agora, eu era uma figura excêntrica, quase mítica. Chamava a atenção por onde passava, mas eu não era mais um horror.







quarta-feira, 5 de abril de 2017

poesia de ver - "...sinta-me!"

Poesia de ver: “… sinta-me!”



Eu a olhei com piedade… 
Mas ela não falou das pétalas que murcharam…
… não falou do caule que lhe quebraram…
… não falou da beleza perdida.
Ela sorriu: “vem… chega mais perto… deixa eu te dar o que tenho de bom: sente meu perfume!”


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 2 de abril de 2017

crônica - O De Testa, o Goela e a Maria da Penha

O De Testa, o Goela e a Maria da Penha


“Nem me liga, Afrodite, nem me liga!”
E logo em seguida aquela risada espontânea e contagiante do Goela, quando ele mesmo achava graça do que contava!
Parece que a risada que não durou muito, mas que teve graça, teve!
Eu lembrei disso, porque estava em mais um dia de audiências “Maria da Penha”. Isso mesmo: aqueles casos de violência doméstica. Tá bem, o conceito “violência doméstica” não tá muito certo, porque tem vezes que aparece um caboclo lá, com a cabeça quase rachada de perna de mesa, diz que quer denunciar a pequena “por Maira da Penha”, e sai frustrado. A gente explica que não tem “Maria da Penha” pra homem.
Eu tento até falar que, tendo sido agredido, ele pode denunciar a agressão, fazer um boletim de ocorrência porque de qualquer forma agressão é crime, só não dá pra ser por meio da Lei Maria da Penha, mas isso não adianta. O caboclo sai frustrado, porque queria mesmo era colocar a esposa no “Maria da Penha”!
Aliás, duas observações sobre o que eu falei nos dois parágrafos anteriores: A primeira é sobre a "cabeça rachada com uma perna da mesa”: incrível como as mulheres, na hora da raiva, conseguem arrancar pernas de mesa, e tascar bem no meio da cabeça dos homens. Pra quem não sabe, é muito mais comum do que pensam por aí! A segunda observação é sobre o caboclo sair frustrado da delegacia ou do Poder Judiciário quando descobre que não tem uma Lei “João da Penha”! Eu lembro, por exemplo do caso do “De Testa” (não, eu não sei porque chamam ele assim!) que insistiu por umas três vezes que queria tirar a “Zilda Fala Pouco” de casa. E foi tudo no mesmo mês! 
Tô eu, tranqüilo, no Fórum, num dia normal, despachando sobre um caso de furto de bicicleta, quando o Goela avisa que tem um sujeito que quer falar comigo. Como sempre, disse que entrasse, e dali há pouco entra um caboclo justamente com a testa ensanguentada: 
“Me ajuda, doutor!” E apontava pra testa!
No momento que ele entrou, quase que digo “não sou médico”, mas esperei um pouco!
“Me ajuda, doutor!” E apontava pra testa!
Daí, fui eu que enruguei a testa e levantei os ombros daquele jeito “sim, desembucha!”
“Me ajuda, doutor!” E apontava pra testa!
Pronto, não segurei a vontade: 
“Não sou médico. E pára de caminhar de um lado pro outro, que pelo menos vai ficar mais fácil de limpar o sangue do chão!”
“Mas me ajuda, doutor. Foi a Fala Pouco, doutor. Ela que fez isso comigo! Só porque eu tomei uma cachacinha e cheguei com fome, doutor, ela fez isso!”
Fiquei em silêncio. Esperando…
“É Maria da Penha, doutor! Tem que fazer ela sair de casa e ficar longe de mim cem metros e chamar para audiência”.
“Hein?” (Acho que o De Testa já tinha passado por essa situação ao contrário, porque até que tava sabendo de como funcionam algumas coisas… só que ao contrário: em favor das mulheres!
"Maria da Penha, doutor!”
Daí, expliquei que não poderia ser pelo procedimento da Lei Maria da Penha, e que ele poderia, em todo caso, ir até a delegacia, contar o que houve, registrar a ocorrência e a agressão seria investigada. Entreguei para ele, um folheto explicativo, sobre as situações de violência doméstica.
Não serviu. O De Testa saiu muito decepcionado.
Não deu nem dez dias, e, de novo, o De Testa no Fórum. O Goela abriu a porta sorrindo: 
“Doutor, de novo!” E nem deu tempo de eu perguntar “o quê”, foi fazendo o De Testa entrar. Entrou quase chorando e, no lado do pescoço, uma marca vermelha como se tivesse levado uma paulada com um cabo de vassoura. 
“Agora, doutor! Agora é! Agora é Maria da Penha!”E apontava para o pescoço!”
Lembrei de uma assessora muito espirituosa que eu tive que falava: “Dai-me paciência, Senhor, porque se me der coragem, eu mato esse desgraçado!”
“Doutor, agora é Maria da Penha! Olha: igual no folheto! Ela me bateu com a vassoura, doutor! Agorá é!”
“Mas De Testa, não é isso que tá no folheto! Tu não leste?”
“Mas é igual tá no desenho, doutor!”
O De Testa não sabia ler. E, no folheto, tinha alguns desenhos exemplificativos, em que aparecia uma vassoura com um “X”, tanto quanto vários outros utensílios domésticos, advertindo e alertando para evitar-se situações de violência e orientando os procedimentos em caso de eventos de agressões físicas, psicológicas ou meramente verbais.
Vou eu, explicar o folheto para o De Testa… ai, paciência!
Expliquei, também, que a Lei Maria da Penha protegia, especialmente as mulheres no âmbito da convivência doméstica, etc, etc, etc…!
Mais uns poucos dias, e o Goela abre a porta:
“Doutor, seu freguês!”
“Que fre…” E o De Testa veio entrando, com a camisa toda rasgada!
Entrou, olhou pra mim, sem dizer nada. Ficou parado na porta.
Também não falei nada, olhei, coloquei o rosto meio de lado, encolhi os ombros levantando as palmas das mãos e ele entendeu!
Virou as costas e saiu de novo. Assim. Acho que já estávamos ficando íntimos! Nem precisávamos mais falar e já nos entendíamos!
Depois disso, o De Testa não pareceu mais.
Dali um tempo, chegou um auto de flagrante delito de Maria da Penha e eu me lembrei que o De Testa nem havia mais aparecido. 
“Chegou o preso, doutor”, disse o Goela.
Fui para a sala de audiências para realizar a audiência de custódia, peguei o processo pra olhar enquanto encaminhavam o preso: “Orisvaldo Pinto Rocha, vulgo De Testa”.
E o De Testa entra, algemado, e sorrindo! Parecia bem à vontade, foi logo sentando e falou comigo, todo faceiro:
“Agora acertei, né doutor?”
“Hein?”
Pois é! Lembrei dessa história, por causa do Goela, que apareceu, outro dia, com o olho roxo. Quando fui comentar do olho, ele veio logo dizendo: “Maria da Penha, doutor”.
“Até tu, Goela, mas tu sabes que Maria da Penha não tem pros barbados! É só se as mulheres são agredidas!
“Ah, doutor, mas o senhor não sabe como eu deixei a mão da Afrodite com a ‘olhada' que eu dei na mão dela. Fiquei até com pena! Acertei meu olho em cheio nos ossinhos da mão dela, doutor, que não sei se não quebraram!”
Estão perguntando por quê? Tudo bem, eu conto: acho que todos já ouviram uma música chamada “Domingo de Manhã”, que tem uns versos assim:
“Poderia estar agora num hotel mil estrelas em Dubai, mas eu prefiro estar aqui, te perturbando domingo de manhã”!
Pois o Goela estava com a Afrodite e uns amigos na lancheria do hidroviário, quando tocou essa música e ele falou pra Afrodite:
“Se eu tivesse num hotel em Dubai, ia preferir estar aqui te perturbando? Nem me liga, Afrodite, nem me liga!”
Pimba! Maria da Penha. O Goela acertou o olho bem na mão da Afrodite!

Por Luís Augusto Menna Barreto


quarta-feira, 22 de março de 2017

diálogos - "...presença!"

Diálogo: “…presença!"

“Às vezes, teu silêncio machuca tanto…”
“… mas outras vezes, gosto de sentar aqui e contar-te tudo!”
“Acho que nunca contei tantos segredos quanto conto pra ti…”
“…acho que perto de ti, sinto-me completa.”
“Mas tem vezes, que mesmo que eu fale tudo, sinto falta do teu abraço.”
Ela se levantou, passou os dedos delicadamente sobre os olhos dele… … olhos que continuavam abertos, na fotografia que já começava a amarelar, colada à lápide…


Por Luís Augusto Menna Barreto


domingo, 19 de março de 2017

pensamentos perdidos - O CIRCO - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 5 de 7

Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 5 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que está sendo publicado em sete partes!  Esta é a quinta! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

V

Continuei no trailer, porque foi-me oferecida uma cama. Lá moravam também mais dois malabaristas. Um deles era apenas aprendiz, mas já sabia muito do malabar.
Foi aí que comecei a ajudar na apresentação do grupo. Limpava as malabares, guardava-as com todo cuidado, e, depois de certo tempo, comecei a levá-las até o picadeiro. Mas, para isso, jogava um manto sobre minha cabeça que caía sobre meus braços, cobrindo assim as marcas que me transformavam na figura humana mais horrenda que eu vira até então.
Nesse convívio, peguei amizade com o aprendiz e ele me ensinou mais movimentos do malabarismo. E de pouco em pouco, fui me lembrando de alguns movimentos e aprendendo mais, de fato, a arte do malabar.
Um dia, estava eu a treinar atrás do trailer, quando, assim que parei para descansar de uma série mais difícil do jogo, percebi que o malabarista maior estava a me observar. Fiquei um tanto sem graça, mas arranjei, como desculpa, dizer-lhe que eu estava apenas a brincar. E qual não foi o meu espanto quando ele, com semblante fechado e voz de seriedade, me disse:
- Amanhã, tu entras no picadeiro e, junto com o aprendiz, apresentarás um número – afirmou aquilo, deu-me as costas e saiu.
Eu não tive o que falar... Mas no dia seguinte, no meio da tarde, ele chegou no trailer acompanhado da moça que fazia a maquiagem dos artistas e também acompanhado do palhaço mais novo do circo. 
Estranhei o fato de, já naquela hora, o palhaço estar todo pintado. Percebi logo que ele, além de não estar disposto à conversa, pois apenas resmungara umas duas ou três palavras desde que ali entrara, também agia como se eu ali não estivesse. Não me olhava de forma alguma. Imaginei que o horror da minha aparência o afastasse de mim.
Minha surpresa foi grande, quando, depois de certo tempo em que o malabarista explicava ao palhaço e à moça maquiadora sobre a pintura de uma máscara em um modelo, os três voltaram-se e olharam-me. Só aí compreendi que o modelo era eu, e a máscara era para mim. 
Assim foi que a maquiadora pintou os meus braços e o meu colo, aproveitando os queloides e construindo desenhos.
Quando o palhaço começou o seu trabalho, vi logo que a sua tarefa era a de cuidar do meu rosto. Ele teria de transformar o horror da minha face em uma máscara que poderia ser olhada sem causar repulsa. E isso ele fez.

Durante o tempo em que o palhaço em meu rosto tocava, eu de olhos fechados, refletia sobre o fato de aquelas mãos terem, um dia, me arrancado das garras das feras, e, agora, essas mesmas mãos estarem ali para amenizar o que aquelas feras me causaram.  E aí eu concluía quão estranha é a vida e quão estranhos são os caminhos, nela, a serem percorridos.





quinta-feira, 16 de março de 2017

poesia de ver - "... caminhos!"

Poesia de Ver: “… caminhos!”



“Ah!, os caminhos construídos na infância… 
… sempre levam à melhor parte de nós mesmos…!”


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 11 de março de 2017

crônica - O Promotor, o Torneio e as Fadas

O Promotor, o Torneio e as Fadas

“Ele roubou a banda do porco, doutor”.
“Não roubei nada! Tava morto peguei o que era meu!”
Não, eu não estava na sala de audiências. Nem no fórum! Estava pegando a mochila, ainda, saindo do barco, depois de mais de 4 horas navegando de uma cidade pra outra na região do Marajó. 
Os dois que estavam discutindo haviam ido até a sede do judiciário, muito exaltados. Lá procuraram o Promotor, mas este, que havia chegado dois dias antes, estava envolvido com o problema das “Fadas”, e pelo jeito iria demorar. Daí, que o Goela, que também estava por lá, disse, com o seu jeito inevitavelmente maroto, sabendo que iria dar pano pra manga:
“Olha, o juiz tá chegando daqui há pouco no municipal” (trapiche municipal). 
Foi só o que o Goela disse. Ele sabia que, dizendo isso, os dois iriam lá pro trapiche brigando, esperar eu chegar. E quando eu reclamasse, ele iria dizer que só avisou que eu chegaria, não que era pra eles irem até lá! Mas, enfim, é o Goela, né?!
A viagem havia sido tranquila e demoramos porque o Fumaça, piloto do barco, teve que dar voltas pra ir bem pelo canal, porque a “água não tava grande” e, se fôssemos por cima da praia, poderia encalhar. Quando a gente sai do “furo de Breves, no Marajó, para atravessar a baía para o lado do continente, atravessando o rio Pará, para ir até a parte de trás da pequena ilha que é onde fica a sede da cidade de Bagre, tem muita praia quando a maré do rio (sim, rio tem maré, no Marajó!) tá baixa. Quando a “água tá grande”, o barco passa por cima da praia e economizamos até quase 1 hora. Se a “água tá pequena”, tem que ir pelo canal, e aí, só quem conhece o local, porque as indicações são apenas umas poucas varas cravadas no rio, que só quem tem o olho acostumado a ver na lonjura da água sem fim que consegue identificar. 
Pois quando cheguei, estava pegando a mochila, ainda com uma perna o barco outra no trapiche, chegaram os dois discutindo, e falando como se estivessem falando comigo a manhã inteira!
“Ele roubou a banda do porco, doutor”.
“Não roubei nada! Tava morto peguei o que era meu!”
“Hein?! Bom dia pra vocês também!”, falei para ver se eles se tocavam que eu não estava entendendo nada e estava chegando agora!
“Bom dia!”
“Bom dia!”
"Pois ele roubou a banda do meu porco, doutor. Ele tem que devolver!”
“Roubei nada!”
Socorro!!!
Já havia saído do trapiche municipal, já estava na praça na frente da igreja indo para o judiciário, e os dois não paravam de falar, fazendo com que eu nem percebesse toda a calma da cidade!
Virei para os dois e falei: 
“Acalmem-se os dois!” (Tá bem, eu não falei “acalmem-se”, eu falei “se acalmem’”, mas não quis escrever errado). “Lá no judiciário a gente resolve!”
“Tá bem, doutor, lá o senhor vai mandar ele me devolver a banda do porco!”
“Devolvo nada, doutor, lá no judiciário o senhor vai ver que ele estava me devendo”!
E assim foi, não adiantou nada eu dizer para esperar chegar no judiciário.
Quando chegamos (sim, quando nós TRÊS chegamos), o Goela estava na porta, com um sorriso de quem está rindo por dentro, sabendo da confusão que havia aprontado!
Eu havia ido porque combinei com o promotor e com o defensor público, fazermos um mutirão de processos criminais do juizado especial, que são aqueles pequenos delitos que, na prática, não deixam ninguém preso, como brigas, rixas, e pequenas confusões entre vizinhos e amigos que bebem demais.
Eu estranhei os dois terem ido esperar-me desde o trapiche. Eu sabia que devia ser coisa do Goela, mas, mesmo assim, quando tem promotor ou mesmo defensor público na cidade (e os dois estavam lá há dois dias) as pessoas sempre correm para eles com qualquer problema. E o promotor que estava lá não era qualquer um e nem era do tipo que foge dos problemas. Já falei dele outro dia, e prometi que não ia dizer que o nome dele é Gerson!
Chegando no judiciário (eu esqueci de dizer que o pessoal de Bagre chama o local das audiências de “judiciário”), perguntei logo pelo promotor. Mas vocês tem que entender que todo o caminho do trapiche ao judiciário, e mesmo enquanto eu falava com o Goela perguntando pelo promotor, os dois continuavam num tal de “roubou banda do porco, não roubei, roubou sim, tu estavas me devendo”!
“Boa tarde, Goela! Foste tu que mandaste esses dois atrás de mim?”
“Claro que não doutor! Só falei que o senhor tava pra chegar!”
“E o promotor?”
“Tá com as “Fadas”, doutor”.
Enruguei a testa num universal gesto de “diga mais”.
“O torneio de futebol começa hoje, doutor, e a prefeitura não deixou o time das “Fadas" ser inscrito. Tá a maior onda lá na promotoria!”
As “Fadas" são os gays da cidade. Para uma população do tamanho de Bagre, até que tem bastante… mas fazem barulho como se fossem muito mais! O mais interessante é que convivem praticamente sem homofobia, com toda a população sabendo quem são, sem precisarem esconder-se, nada! Entre as “Fadas" tem professores, servidores públicos, pessoas inseridas na comunidade de maneira completamente normal. Apenas fazem parte das “Fadas” e pronto!
Daí, que foi um reboliço a proibição do time das “Fadas" ser inscrito no torneio. E foram todas, ou quase todas falar com o promotor (vou usar o gênero feminino porque estou usando o termo “Fadas”, sem qualquer conotação pejorativa!).
Como o promotor não é de meias soluções, quando começou o falatório todo, ele não teve dúvidas: bateu na mesa, pediu silêncio, e chamou o Goela (viram que o Goela é um “faz-tudo”, né?!)
“Goela, chama agora o secretário de educação aqui!” No município, o secretário de educação cuida, também, do esporte e cultura. 
O Goela nem disse nada, e se mandou para a prefeitura!
Ele sabia que quando o promotor chamava, era sério. Teve uma vez que um ex-vereador estava sendo processado, e houve várias audiências frustradas, porque ele nunca comparecia, apresentando sempre atestado médico. Numa dessas, em que a audiência era pela manhã, quando o promotor estava indo para o judiciário, viu o ex-vereador na frente de uma loja na beira. Daí, quando chegou na hora da audiência, o Goela chamou o ex-vereador e ele não apareceu, enviando um atestado médico.
Acho que era o terceiro atestado médico no mesmo processo. Olhei, e alcancei o atestado para o promotor. O promotor, na hora:
“Goela, vem aqui. Pega esse atestado, leva lá na casa dele agora e fala que ele tem três opções. Mas presta atenção pra decorar as três, que vou falar só uma vez: ou ele vem, ou ele vem, ou ele vem!”
Menos de dez minutos depois, o ex-vereador apareceu lá, com um cabide de soro e a agulha no braço!
Daí que quando o promotor falou para chamar o secretário de educação, o Goela foi faceiro!
Em seguida, o secretário chegou na salinha da promotoria, e entrou sob vaia das “Fadas”.
No meio do “bom dia” que o secretário tentou falar, o promotor já foi dizendo:
“Ou as “Fadas" jogam, ou não tem torneio. Obrigado. Bom dia.”
Simples assim!
Enquanto isso, eu finalmente conseguia sentar-me para dar ouvidos aos dois brigando pelo porco.
“Sim, explica o que houve, Tesoura”. O Tesoura era o dono do porco, e tinha esse apelido, não porque era criador de porco, claro, mas porque era cabeleireiro!
“Doutor, o "Papel de Xerox” roubou meia banda do meu porco!, e eu quero de volta”.
“Roubei nada, doutor. Ele tava me devendo a meia banda, pode perguntar pra ele”
Não cheguei a perguntar, mas o Tesoura foi logo falando:
“Eu devia, doutor, mas o combinado não era esse. Eu perdi na aposta da bola, mas eu ia dar só quando o porco morresse”.
“Mas ele morreu, doutor”.
“Morreu nada, tu que mataste!”
“Eras! Pois se eu matei, ele morreu. Doutor, eu lhe juro que matei ele primeiro, e depois tirei minha banda. Não ia fazer isso com o bicho vivo!”
“Hein”?
Pois é… mas enfim, o dia estava animado! Ouvi os dois mais um pouco e ficou por isso mesmo. O porco já tava morto mesmo, fazer o quê?!
Depois de mais um tempo entre problemas de porcos, galinhas e vizinhos, não necessariamente nesta ordem, chegaram as “Fadas" pra falar comigo.
Fiquei estranhando, porque dificilmente um problema levado até o promotor, não era resolvido.
Mas o assunto era outro:
“Doutor, tem o nosso baile na semana que vem. Podemos contar com a sua ajuda?”
Fiz minha cara de “hein”, sem dizer nenhuma palavra.
“A gente sempre pede colaboração pra todos. Nosso ídolo, o doutor promotor, já ajudou”.
Bem, acabei contribuindo.
Depois disso o dia correu normal, fizemos as audiências, resolvemos o que dava para resolver e, no final do dia, estávamos indo para o hotel, eu, o promotor e o defensor público, que resolveu parar numa banca de DVD’s piratas. Eu fiquei uns passos afastado, e o promotor ficou conversando comigo. Depois, o promotor saiu e foi em direção à banca. O atendente, já sabendo que o promotor havia resolvido o problema das “Fadas" quis agradar o promotor (o vendedor da banca era do time das “Fadas” também).
“Ô doutor, nem tem como agradecer. Obrigado pelo que o senhor fez por nós. Olhe, para o senhor, eu ofereço pelo mesmo preço qualquer um desses filmes aqui, que são especiais”. E tirou de baixo da banca uma caixinha com DVD’s que não estavam expostos. De longe eu não vi nada. Mas só vi o promotor saindo xingando o vendedor. Estranhei! Depois fiquei sabendo: o vendedor achou que o promotor fosse uma das “Fadas”, por ter ajudado, e queria oferecer filmes especiais… na verdade eram filmes pornôs gays!!
Báh, foi quase uma semana que eu e o defensor público ficamos tirando onda com o promotor. Mas o problema foi na semana seguinte, quando voltamos na cidade e era o dia do baile das “Fadas”.
Eu notei que o pessoal da cidade estava me olhando um pouco mais do que de costume e quando eu passava o pessoal olhava e cochichava entre si alguma coisa.
Pois quando passamos à tarde na frente do local onde seria o baile das “Fadas" estava lá a faixa e o cartaz:
“Baile das Fadas. etc, etc, etc… apoio, Doutor…” Meu nome!
Dá pra imaginar a onda que o promotor tirou? Juiz gaúcho, apoiando o baile das “Fadas”? 


Por Luís Augusto Menna Barreto



terça-feira, 7 de março de 2017

diálogos - "...do teu amor"

Diálogos: “…do teu amor!"

“Tu me maltratas”, ela lhe disse de repente.
Como posso maltratar-te se só te quero bem?
“Esse teu amor me maltrata.”
“Como pode o amor maltratar?
“Tu ficaste com todo o amor pra ti… e não me ensinaste a amar-te assim como me amas.”
(Fragmento de um conto não terminado)


Por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 5 de março de 2017

pensamentos perdidos - O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 4 de 7

Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 4 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que será publicado em 7 partes! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)

IV

Uma noite, na hora do espetáculo, quando os aplausos e os risos ecoavam por todo o circo, senti vontade de espiar o que fazia aquele mais novo palhaço, para que o público vibrasse daquele jeito. Foi, então, que ao me aproximar da cortina que me esconderia, para dali assistir ao palhaço, passei em frente a um espelho grande, pelo qual os artistas se miravam, no instante anterior de entrar em cena.
Deus de todos os horrores! O que eu via no espelho era um assombro, era um monstro, não podia ser eu. Mas era eu. Aos poucos, esse entendimento foi me chegando e, com ele, o choro convulsivo que vinha do mais profundo do meu ser. E eu chorava dobrada sobre meu próprio corpo, com a pena imensa daquilo que restara de mim.
Foi aí que um homem grande, muito magro, de compleição nada forte, me viu, eu não sei como, e me susteve pela cintura. Levou-me até o seu trailer e fez-me sentar em uma cadeira. Esperou um pouco e disse-me:
- Deite-se, menina! Chora o quanto quiser! Deságua teu pranto no travesseiro! Depois durma! O sono às vezes cura feridas _ disse isso e começou a sair.   É minha hora de entrar no picadeiro. Mais tarde eu volto - aí saiu.
Horas depois, quando acordei, tentei falar. Eu tinha sede, muita sede, mas minha voz era uma rouquidão só. E o homem estava lá. Somente naquele instante, eu o reconheci. Ele era o malabarista maior.








sexta-feira, 3 de março de 2017

poesia de ver - "...fé em fitas!"

Poesia de ver: “… fé!”

   


Era um muro de pedidos…
Era um muro de gratidão…
Era um muro de fitas…
É um muro de fé!


Por Luís Augusto Menna Barreto


quarta-feira, 1 de março de 2017

crônica - Eu o Pilha e o Circo

Eu e o Pilha e o Circo


A minha perna ainda tava com gesso. Só na canela, porque a parte que descia pro pé, eu mesmo fui arrancando. Queria era tirar tudo, mas o Pilha disse pra não tirar que rico fica com pena de criança quebrada!
Faz tempo que eu tô com esse gesso. Nem lembro quanto. E também não sei se já tinha que ter tirado ou não, porque eu e o Pilha saímos fugidos do hospital. Tava com medo que me levassem para o juizado e o Pilha me salvou! Ele arranjou uma cadeira de rodas e saiu me empurrando à toda velocidade; mas os caras do hospital correram atrás de nós. O Pilha disse que eram os polícias do juizado disfarçados… daí, ele jogou a cadeira na frente de um carro e me levou na cacunda!
Depois, nunca mais voltamos no hospital e tô com o gesso na perna, ainda!
Tava muito quente de novo… por isso que viemos pro parquinho, ficar na nossa árvore.
“Eu queria voar, um dia…"
Eu tava olhando o céu, pelo meio das folhas da árvore… eu achei que tinha só pensado, mas acho que eu falei alto… porque o Pilha falou:
“… às vezes, eu queria ser ator…”
Eu fiquei meio sem saber o que dizer. O Pilha nunca falava assim… mas achei que eu tinha que dizer alguma coisa!
“… iiihhh… cheirou cola vencida? Ficou doido, Pilha?”
“Doido é tu, que quer voar. Até por cima de carro já voou, mané!”
“Não sei que graça tem em ser ator, Pilha… ficar vivendo a vida dos outros!”
“A graça não tá em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho…”
Eu não entendi muito bem… Mas achei engraçado imaginar o Pilha, todo pequeno, numa roupa de gente grande e fazendo biquinho pra falar…! Porque é assim que ator faz, né?!
Mas depois, achei estranho que o Pilha passou o dia mais quieto. Parece que tava com o pensamento longe.
No domingo, normalmente o Pilha vai pro centro ajudar o irmão dele vender DVD que eles pegam com um chinês. Mas nesse domingo, o Pilha chegou cedo no muro onde a mãe tinha arrumado pra gente dormir. 
"Bora mané”! 
“Onde Pilha?”
“Shhh! Bora. Vamos ganhar uma grana!”
Eu fui com o Pilha. Ele sempre sabe o que fazer. Acho que caminhamos umas duas ou três horas, atravessando a cidade, até que lá, depois de uma curva na Zona Norte, apareceu uma baita barraca de lona. Era um Circo!
“Vai trabalhar no circo? Virou palhaço, Pilha?”
"Cala a boca, mané! Tu é muito burro!”
O Pilha é mesmo esperto: o ingresso pro circo tava trinta pilas. O Pilha descobriu um lugar meio escondido, que dava pra passar embaixo da lona. Daí, que ele começou a passar umas crianças por baixo da lona, por 2 pilas cada. Eu ficava cuidando, enquanto ele passava as crianças! Mas eu só podia olhar de um lado, né? E o circo é redondo, então, não tinha como cuidar os dois lados! Daí, que um palhaço chegou pelo outro lado e pegou o Pilha! Ouvi ele gritar! 
Eu saí correndo desesperado. Tinha que dar um jeito de salvar o Pilha! Mas como é que se salva quem vive salvando a gente? Quando cheguei correndo, vi o Pilha sendo arrastado pelo braço pra trás de um caminhão. Corri o mais que pude, mas quando cheguei não vi mais eles, e nem ouvi os gritos do Pilha!
Fiquei desesperado! Comecei a procurar por tudo que era lugar.
Quando eu tava olhando um domador dar comida para dois leões que pareciam mais magros que eu, tomei um susto com uma mão no meu ombro! Era o Pilha!
“Bora, Mané! Ainda dá pra ganhar mais uns pilas.”
“Mas Pilha, o que houve? Como tu te livrou do palhaço?”
O braço dele tava meio vermelho, mas era só. Eu nem imaginava o que ele fez, mas o Pilha sempre dá jeito em tudo!
“Depois te conto, bora!”
“E se o Palhaço volta?”
“Não vai voltar!”
E o Pilha logo logo arranjou mais crianças pra passar por baixo da lona! Eu fiquei cuidando de novo. Mas tava apavorado!
Depois, começou um barulhão. Parou de chegar gente! Ia começar o Circo. Tava louco pra ver. Mas o Pilha disse que a gente tinha que conseguir mais dinheiro. Não entendi muito bem, porque o Pilha não era louco por dinheiro. A gente sempre conseguia só pro que tava precisando! O Pilha nunca foi de juntar e ficar guardando. Ele sempre fala que dinheiro que a gente não usa é só papel velho que não serve pra nada!
Mas fui com ele. E não sei de onde, ele conseguiu um isopor cheio de refrigerante. Era enorme, a gente quase nem podia carregar!
“Bora vender que fica mais leve”, ele falou.
Entramos no Circo e começamos a andar pelo meio das pessoas. No começo não vendemos nada, mas, depois da metade, começamos a vender muito. Quando dava, eu espiava um pouco. Mas o Pilha ficava o tempo todo contando o dinheiro e dizendo pra gente vender mais.
Antes de terminar, o Pilha me falou pra ficar com a caixa perto da saída que ele já voltava. Eu fiquei. Terminou o circo e ele não voltava. Comecei a ficar com medo, e me escondi com a caixa vazia atrás de uma arquibancada. Vi quando uma menina pouco maior que nós começou a subir lá no alto. Não acreditei quando ela pegou o balanço e começou a se balançar lá em cima! Só num circo, mesmo, pra ter um balanço tão alto! Vi que ela caiu e meu coração quase saltou! Mas tinha uma rede… e depois que eu vi que ela começou a pular na rede, achei até bonito. 
Ela saiu, depois, com o cara que tava dando comida para os leões. E eu tomei outro susto! Quase morri. Era o Pilha de novo! Mas tava muito diferente! Tava engraçado demais. E ele tava muito alegre! Tava com a cara toda pintada de palhaço e com uma roupa colorida! E o palhaço que tinha pego o Pilha tava logo atrás, com cara de brabo. Mas não tava correndo a gente dali. Chamou:
“Vem moleque. Anda logo, senão não vai dar!”
O Pilha me puxou e foi me levando até o meio, lá no poste com escada. E disse pra eu subir. Eu tava tão espantado que nem perguntei nada, fui subindo. O Pilha também! Mas ele tava numa alegria que era bonito de ver. Daí, eu não sabia se ficava com medo da altura ou feliz com o Pilha. Misturei os dois, e fui subindo. Quando vi, tava com o balanço da menina. O Pilha disse pra eu segurar. Eu tava me pelando de medo, mas segurei. E não é que o doido do Pilha me empurrou? 
Acho que dei o grito mais forte da minha vida. E foi tudo muito louco: acho que no circo, as coisas ficam mágicas, porque parece que o tempo começou a ficar devagar, porque eu sei que pensei num montão de coisas, enquanto o balanço foi até o meio, não aguentei o peso e caí… deu tempo de ver o Pilha rindo numa alegria que eu nunca tinha visto, deu tempo de lembrar do dia que eu tinha voado por cima do carro, e lembrei que eu me achei o super-homem… e pensei que eu era o super-homem de novo! Deu tempo de pensar que eu ia morrer quando chegasse lá embaixo, porque nem lembrei da rede… e quando achei que eu ia morrer fiquei feliz de saber que a última coisa que eu ia ver era meu melhor amigo feliz, porque ele tava rindo tão gostoso, com cara de palhaço!
… mas daí, parece que bati numa coisa mole. Era como se Deus tivesse me pegando no colo de um jeito bom e me jogando pra cima de novo! daí, parece que eu acordei e vi que eu tava balançando na rede! E Vivo! Foi ali que eu vi que o circo era mágico, porque hoje, cada vez que penso em tudo, levo um tempão lembrando! Não dava pra pensar em tudo no tempo só de cair! Eu sei que de algum jeito o mundo tinha dado uma freada!
Depois, quando saí da rede e o Pilha desceu, tirou a roupa que tinha colocado e devolveu pro palhaço que ficou o tempo todo com a cara fechada, olhando a gente da porta do circo. E o Pilha também deu todo o dinheiro pra ele. 
“Tá faltando dez real.”
“Mas é só o que consegui."
“Tá. Vazem, moleques”. 
Quando voltamos pra casa, a mãe tava furiosa. Eu tava com medo. Mas o Pilha tirou um saquinho da cueca. Tinha dez pilas. 
“Toma, não vai apanhar no dia que tu voou!”
Era verdade! Eu disse que queria voar, e o Pilha me fez voar! 
Nossa! Eu tinha voado! 
Não sei o que deu em mim, mas dei um abraço no Pilha!
“Tá doido, mané?!”… mas deixou eu abraçar.
E enquanto me abraçava, ele falou: 
“Acho que se não fosse tu, eu não ia ter sido um palhaço, hoje… foi tão bom não ser eu.”
Daí, ele me largou de repente e saiu correndo:
“Tchau, mané. Chega cedo amanhã no trabalho, que tu tá me devendo dez pilas!”
Fiquei pensando depois, em como o Pilha ficou diferente e feliz vestido de palhaço. Parecia que ele tinha ficado triste quando voltou a ser ele de novo.
Daí, eu não ri mais. Acho que fiquei triste… porque eu adoro minha vida… e quando ficar mais velho, tudo o que quero, é ser sabido como o Pilha…!


Por Luís Augusto Menna Barreto