segunda-feira, 9 de maio de 2016

diálogos - reminiscências do Marajó

Diálogo - REMINISCÊNCIAS DO MARAJÓ


Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 20.02.2016.
Comentários na postagem original:  nenhum
Visualizações até ser retirado:  118

From: andriangalindo@yahoo.com.br

Subject: reminiscências do arquipélago

To: ibdpprofessoresn-ne@groups.live.com


Amigos,

Com a brevidade de quem tem 25 jurados, 1 réu e todo o aparato do júri esperando, lhes direi que o Arquipélado do Marajó é lindo, desafiador, diferente de tudo que já havia presenciado.

Aprendi muito lá, com a cordialidade dos locais, a simplicidade de suas vidas.

Compreendi também de forma clara o que se quer dizer quando se afirma que "a natureza é grande".

Dificuldades foram muitas, mas se pudesse escolher faria tudo do mesmo jeito. Faria semanalmente as mesmas viagens de 12 horas de barco, quando o barco não quebrava. Enfrentaria o chacoalhar das noites claras, quando o vento aparece com as estrelas e nos faz dormir rolando de um lado para outro na cama estreita do camarote, ou na rede, quando se resolve viajar de última hora. Inspecionaria urnas eleitorais distantes (3 horas de barco).

Para fugir da viagem no barquinho de madeira, que muito chacoalha, pegaria a voadeira as 11 da noite, navegando sem ver um palmo além do nariz, passaria uma hora na baía, esperando o barco grande da comarca do Menna, vagando, olhando as estrelas, e faria traslado com os barcos em movimento. Indiana Jones!!!

Quando conto essas coisas e digo que tenho uma ponta de saudades olham para mim como se fosse mentiroso ou doido.... mas é a pura verdade (que sinto saudade, não que sou mentiroso ou doido).

Às vezes acabava mais cedo o expediente e não queria esperar o barcão no Menna. Pegava a voadeira, um barquinho de 4 metros de comprimento por 70 cm de largura, e após uma hora, de viagem, vendo o pôr do sol, num rio sem fim, com 2 ou 3 km de largura, em volta só água e floresta, chegava na comarca do amigo. Naqueles dias vi bem o tamanho de minha insignificância.

Jogávamos conversa fora e um pouco de xadrez. Eu o deixava ganhar vez ou outra, para manter a amizade.

É batido mas muito verdadeiro: se alma não é pequena, tudo vale a pena.

Fui fiel em meu relato, Menna?

Abç,

Andrian



Resposta:

Barbaridade!!!

Dizer mais o quê, depois do Ândrian???

Acho que o dia que a ilha me deixar, viro ilha eu! Ninguém é uma ilha, ilha deveria viver...

... acho que vendo tanto bicho, tanta gente se sabendo bicho, aprendi a ficar mais humano...

Quando longe, chego a sentir falta da minha cama em rede no navio... o barulho constante do motor e o cheiro de óleo já me fazem ninar como um afago... esse rio é minha rua...

Não lembro qual foi a última vez que andei de carro por aqui... pego a voadeira e ando uma hora para fazer as audiências no termo Judiciário de Bagre... sinto-me mais à vontade do que no ônibus...

Nem lembro a última vez que usei gravata...

Não sei o nome das árvores... mas já aprendi o que é matapi, gapó, mariscar...

Aprendi a vida em um ritmo que nem conhecia...

... dificuldades (tantas!), prá quê? Não preciso delas ou falar nelas...

A ilha abraça-me... e faz eu sentir que não sou uma ilha!


Luís Augusto Menna Barreto

Breves - Arquipélago do Marajó - 9 de junho de 2011



Date: Thu, 9 Jun 2011 05:09:56 -0700

18 comentários:

  1. Sua alma doce que faz enxergar o quanto de belo encontra-se nas simplicidades da vida...

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    1. Bem-vinda ao blog "menna em palavras".
      Espero que tenhas gostado.
      Quanto ao teu comentário, evidentemente, vem sempre exagerado por tua gentileza. Porém, de fato, há muito de belo no simples. E não sou somente eu que assim vejo. O texto do Dr. Ândrian, que inicia o diálogo, é de uma descrição maravilhosa! Penso que o Marajó arrebate qualquer um que o venha conviver com o Arquipélago, aberto aos ensinamentos que ele tão generosamente dá-nos!

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  2. Meu Deus, que bela descrição de um local! E como não se apaixonar...?? O barulho do rio é encantador... convidativo... Amei tudo! Parabéns, Andrian! Parabéns, Luís!
    Já amo essa ilha!

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    1. Venha, então, professora, visitar o arquipélago! Garanto-lhe que haverá, o povo e a vida marajoara, de acolher-lhe como o faz com todos os que se dispõem a vir e aceitar a beleza do quotidiano simples local!
      Muito obrigado!!

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  3. Esta é a segunda vez que leio estes dois textos que se tornam um, porque se complementam. E desta segunda vez eles me levaram às lágrimas. Sem frescura alguma; emoção verdadeira.

    E vou dizer mais: entendo perfeitamente este sentimento do Andrian e do Menna Barreto. Esta sensação, este anseio de integralizar-se, mesmo como partícula, com a imensidão da natureza amazônica deve ser algo de força maior. Imagino que eu sentiria o mesmo. Deve ser quase um transe.

    Parabéns aos dois pelos textos!

    Parabéns a Luís Augusto Menna Barreto pelo blog que hoje inaugura! O meu desejo é de continuidade do sucesso que ele sabe que merece.

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    1. Escritora... mesmo aqui no novo blog, não perdes o exagero da avaliação, fruto da bondade e gentileza que te habitam! O arquipélago do Marajó, certamente é, em mim, tua Barra Grande, Maraú (é assim?). Quando vemos, se não fazemos parte, desejamos fazer. Lembro-me inevitavelmente, do maiúsculo romance de Luiz Sepúlveda, "Um Velho Que Lia Romances de Amor"... ("vivia entre nós, mas não era um de nós...")
      Queremos fazer parte.
      Neste diálogo, o mérito é todo do Dr. Ândrian, prezado colega de toga e inestimável amigo! Ele instiga ao belo do texto. Escreve fácil. Vê a vida com olhos que queria saber ter, sorri com a facilidade das pessoas generosas e felizes! Hoje, destila sua natural poesia nas comarcas pernambucanas, hoje em Garanhuns, onde, aparentemente, fixou morada!
      Obrigado, escritora! Sinceramente, obrigado!

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  4. Primeiro parabenizar pelo novo blog, está como descreveste, melhor organizado,o antigo era muito bom, mas esse está muito melhor e mais parecido com vc...Qto ao diálogo entre amigos, vcs me fazem ter vontade de ir pra Amazônia, olha que eu tenho pavor de insetos e nunca me imaginei numa floresta, mais vcs dois conseguiram plantar em mim esse desejo de experimentar essa beleza que vcs vivenciam no Marajó....Parabéns...linda e poética a descrição de vcs...

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    1. Cara amiga, desses indecifráveis "bits", megabits e gigabits, como fico feliz que já tenhas visitado o blog, e deixado, aqui, tua marca gentil!
      Obrigado pela carinhosa consideração do blog.
      Quanto à Amazônia, venha! Haverás de ser recebida em festa e abraços! Os braços do povo e terra marajoara estão sempre abertos em uma hospitalidade sem par! É preciso navegar estes rios, sentir o cheiro e tocar a floresta para ter-se noção da grandeza, na exuberância da natureza, nestas terras do norte equatorial!
      Venha... aventure-se. Serás muito bem-vinda!

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  5. É poeta gosto do que fala...sei bem como é, conheço lugares assim ...que faz a gente vive sem fim...com tanto encanto e cor, lá vive gente sonhador...vim tanto dor, esse povo e sonhador transforma à vida de um juiz....pra mais feliz....juiz se encantou pois sua vida transformou...aprendeu à amar não importa o lugar...

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    1. Sem dúvida, Geraildes, este juiz encantou-se, teve a vida transformada. Haverei de tornar-me pessoa melhor, à medida em que a vida acostuma-se ao Marajó!
      Bem-vinda ao novo blog!
      Obrigado!

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  6. A simplificado das palavras, mostra a generosidade do poeta, lindo de ler.....

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    1. Olá Shirley. Fiquei muito feliz que conseguiste postar teu comentário. Sei das dificuldades que passaste e da tentativa, desde cedo de comentar! Muito bem vinda!
      Quanto às palavras do diálogo, tu bem conheces este lugar! Sentes o balanço do rio, toda com teus olhos a mata da margem... vê a vida passar em Breves, em outro ritmo, que nos torna tão melhores pessoas...!
      Obrigado, guria!
      Bem-vinda!

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  7. A simplicidade (das coisas que acontecem na vida) é exatamente o que fica qdo nos distanciamos de momentos assim...
    Não tem como não sentir uma pontinha de "inveja branca" das situações vividas por vocês! É claro que temos consciência dos sacrifícios e das aflições de ter que enfrentar cada uma dessas ocorrências... medo do "barco virar", dos atrasos, dos bichos, da sensação de insignificância - como tão bem foi descrito acima...
    Mas, quando nos deparamos com tais pontos de vista... Ah, meu querido, não tem como não amar viver tão perigosamente! Simplesmente porque viver é isso: manter-se alerta, mas não perder o brilho dos olhos que nos fazem ver estrelas, em meio às ameaças que nos cercam e que, tão bem, chamamos de ROTINA!

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    1. Ah, poetiza... como flui fácil teu texto, tanto no antigo blog, como aqui, em que te dou as boas-vindas!
      Se for para estar preso à rotina, que seja no balanço do rio, no vento da floresta, na rede atada no barco...
      ... vem, poetiza. Vem viver a Amazônia Marajoara!

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  8. ⁠⁠⁠Prezado Dr. Menna Barreto, num primeiro momento fazer uma saudação ao Dr. Andrian pela brilhante participação no seu blog irradiando momentos em momentos maravilhosos da vida. Dr. Menna Barreto ,nesta oportunidade quero dizer, e para que todos saibam, que você não e o meu genro preferido pois não faço distinção, mas quero que saibas que te admiro muito pelo seu caráter, pela tua perseverança e pela pessoa que tu és UM GRANDE HOMEM. Parabéns pelo teu novo blog. E isso aí!

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    1. Barbaridade, Dr. Valdomiro!!!! Que história é essa que não sou o preferido? Mas dos genros que moram no Pará, tenho certeza que sou! Pois vou dizer uma coisa: eu não vou pipocar como o senhor: o senhor é o meu sogro preferido!
      Um baita abraço!

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  9. Amigo, maravilhoso teu blog, teus textos, teus seguidores fiéis. Fico feliz de fazer parte (0,000001%) dessa coisa bonita.
    Sigo sendo seu fã.
    Abç.

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    1. Ah, tá.... jura, Andrian...!!!
      Eu que sou teu fã... Quando crescer, quero entender a vida do teu jeito, olhar o mundo com teus olhos generosos...! Quero continuar aprendendo contigo!
      ... e sou tão honesto que vou falar..... visitando o Andrian no feriado da Páscoa na sua bela casa em Garanhuns, PE, o placar no xadrez ficou 28 x 8... prá ele...!!!!!

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