terça-feira, 28 de junho de 2016

crônica - O Juiz Que Pague o Acordo

O Juiz Que Pague O Acordo

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 26.02.2016.
Comentários na postagem original:  9.
Visualizações até ser retirado:  413.

Essa eu me arrisquei! E quando cheguei em casa, ainda levei uma bronca!
Foi no Juizado Especial do Bairro do Marco, em Belém do Pará, como algum caso que já contei aqui!
Naquela época, em 2003, havia um advogado que atuava muito por lá. E olha!, eu reconheço: ele lutava com unhas e dentes pelos clientes dele. Fechava muitos acordos, mas em todos, podem ter certeza de que o seu cliente saía com alguma boa vantagem. Claro que não sei o acerto entre ele e seu próprio cliente, nem quanto ele levava daquilo… o fato é que o qüera era bom de acordo!
Também havia por lá, uma advogada muito conhecida no Juizado, que atuava defendendo várias empresas que eram processadas. E olha que não ficava muito pra trás do advogado bom de acordo. Ela era dura na queda. Já chegava impressionando: era uma mulher alta, cabelos escuros e compridos, sempre maquiada e equilibrando-se perfeitamente em saltos daqueles que a gente vê em desfile de moda. Fechava acordos… mas dificilmente um acordo superava metade do que o autor tava pedindo.
Esse caso, eu lembro bem, o autor reclamava uma bicicleta muito boa, que havia sido furtada de dentro do estacionamento de um supermercado conhecido daqui de Belém. O autor entrou pedindo o valor da bicicleta, danos emergentes, ou seja, pedia o valor que passou a gastar levando a filha de táxi para a escola, eis que antes a levava de bicicleta, e pediu, também, “dano moral”. Vai saber qual é o dano moral num caso desses, mas vá lá. Acho que se fosse o contrário até era mais razoável, não é?: antes ia de táxi e agora fora forçado a ir de bicicleta… o caboclo podia até tentar dizer que sentia vergonha de ter trocado o táxi pela bicicleta… mas o contrário? Imagina: o cara que levava a filha na “garupa" de uma barra forte, agora tava todo "podendo" chegando de táxi todo dia na escola da filha…?! Pode até ter tido prejuízo financeiro, mas que chegar de táxi todo o dia faz um bafo, a isso faz!
Mas enfim… eu ainda não havia decidido, e somente o faria ao final da audiência!
Normalmente, havia quatro audiências de instrução por tarde (o Juizado funcionava  aberto ao público das 16 até às 20 horas). Aquela era a última e havia começado perto de 19h30.
Fiz minha introdução acerca das vantagens de um acordo, tentei deixar bem claro a parte do “sabe-se lá o que pode sair da cabeça de um juiz”, e fui pros “finalmentes" de um acordo! 
Bah, não teve jeito! (Se eu fosse paraense, provavelmente diria: égua, moleque, o acordo levou farelo!).
Enfim, sem acordo, uma vez que o autor queria pelo menos R$ 4.000,00 para acordo e a empresa queria pagar no máximo R$ 500,00, vamos para a instrução. A advogada fez a contestação na hora (tinha farinha no saco pra fazer!). Achei que seria isso e perguntei:
“Alguma das partes quer depoimento pessoal?”.
“Nós queremos”. “Nós queremos”. 
Não, não foi repetição. As duas partes quiseram! (Afff…!).
Isso já era por volta de 20h20.
Ouvimos os depoimentos e perguntei:
"Alguma das partes trouxe alguma testemunha que queira que seja ouvida?"
“Nós trouxemos”. “Nós trouxemos”.
É, de novo! As duas partes!
“Quantas?
“Três”. “Três”.
Ui!
Busco ânimo e vamos lá, já pensando o que vou dizer em casa quando chegar perto de 22h!
Ouvimos TODAS as seis testemunhas!
Mesmo cansado, como todos ali, aliás, fiz o que sempre faço quando todas as provas foram feitas no Juizado: tento novamente um acordo, explicando às partes que será com aquilo que haverei de julgar. E tento enfatizar novamente aquela parte do “sabe lá o que vai sair da cabeça de um juiz”!
Progredimos! 
Chegou um momento, perto de 22h30, que o autor contentava-se em receber R$ 1.850,00. E a parte ré aceitava pagar R$ 1.800,00.
Pensei: “tá no papo”! Ninguém vai perder de fechar um acordo por conta de R$ 50,00!
Eles deixariam! Acreditem! Não houve jeito!
Olha… tentei… ficamos quase 1 hora tentando de tudo, mas travou bem ali, pela maldita diferença de R$ 50,00. 
Estávamos esgotados e, àquela altura, se não houvesse acordo, ainda demoraria pelo menos mais uns 40 minutos para eu prolatar a sentença (Juizado Especial sempre prolatei as sentenças em audiência).
Até que tive uma idéia. Virei-me para o autor e seu advogado:
“Deixa eu entender: se o seu cliente receber R$ 1.850,00, vocês aceitam o acordo?”
"Aceitamos, doutor. Mas nem um centavo a menos!”
Virei-me para a advogada da parte ré:
“Vocês aceitam o acordo se só pagarem R$ 1.800,00, é isso?”
“Isso, doutor, nem um centavo a mais!”. Imagina se ela ia dar o braço a torcer àquela altura do campeonato!
Foi então que virei para a auxiliar que estava digitando e disse:
“Escreve aí: as partes fecharam o acordo em R$ 1.850,00. Eu vou pagar esses R$ 50,00 para todos podermos ir embora!” - E nisso coloquei a mão para trás como quem vai tirar a carteira do bolso!
Foi um tal de “Doutor, não faça isso”, que os dois advogados pularam da cadeira e disseram que não poderiam deixar aquilo acontecer e coisa e tal!
Resultado: Fecharam o acordo pelo óbvio: R$ 1.825,00.
Quando contei em casa, foi aquela bronca:
“Tu tá louco?! Vais ficar pagando acordo dos outros agora? E outra: tua carteira ficou em casa!”
Era verdade. Na hora que botei a mão pra trás vi que a carteira não estava no bolso… mas não quis recuar. Não faço a menor idéia de como eu ia sair dessa, se eles aceitassem que eu pagasse a diferença! Nunca mais fiz isso!


Por Luís Augusto Menna Barreto



27 comentários:

  1. Olha só o que o cansaço faz com a pessoa!!!!?????

    Mas seria bem engraçado não achar a carteira.😂😂😂😂😂

    Muito boa!!!! Aliás, como todas!

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    1. Ja pensaste? O juiz fazendo acordo fiado...??!!

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    2. Lembro perfeitamente deste "causo". Rsrs

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  2. Muito boa!!!
    Tu sempre te saindo muito bem nessas ocasiões....
    Queria tanto ver tua reação quando percebesse que a carteira não estava no bolso...rsrs
    Ótima!!!!
    E ainda teve que explicar por teres chegado fora de hora?rsrsrs
    Como tantas,adorei,escritor...

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    1. Foi um dia diferente.... mas de fato, nunca mais tentei uma dessas!!

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  3. Vc como sempre maravilhoso em nos transmitir suas experiências com humor...imagino se eles tivessem aceito seu pagamento, vc teria que deixar fiado ou pedir emprestado a uma das partes...ainda bem que eles não aceitaram...hahahaha...Parabéns pela crônica.

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    1. Imagines se para realizar o acordo eu tivesse que pedir emprestado para as partes...?? Acho que daí, seria como a crônica anterior, do Maradona no Juizado Especial: só que eu seria o Maradona....!

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  4. Que anjo da guarda magnífico você tem, inspirou-lhe a solução, mas não permitiu que não cumprisse a palavra, pois era o que aconteceria, caso aceitassem o seus r$50.00, e tu não encontrasse a carteira. Muito bom !

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    1. ( ) A . Desistira do acordo
      ( ) B . Pediria emprestado às partes
      ( ) C . Fingiria um desmaio
      ( ) D . Nenhuma das alternativas

      rsrsrsrs.... não sei como eu me sairia dessa!!

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  5. Égua, essa foi incrível! Parece que estou te vendo Menna fazendo gesto procurando a carteira e as manifestacoes dos advogados... Muito boa, ri bastante dessa maravilhosa crónica...

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    1. Barbaridade, Roberto... tu bem sabes dessas situações que passamos....!!
      E, me conhecendo, sabes que mesmo que saísse a carteira, poderia é não encontrar os cinqüenta reais nela... rsrsrs

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  6. Amigo, parabéns pela maneira como você domina suas audiências. Mas tenho certeza que vc teria uma saída se precisasse do dinheiro. poderia dar um vale. Valeu.

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    1. O pior, Dr. Izamir, é que sempre que penso nessa situação, eu não imagino como eu me sairia... rsrsrsrs

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  7. Essa é muito boa!!! Imagino o seu cansaço e nada de resolverem...você foi muito bem!!! Só não dá para ficar arriscando, vai que numa dessas a sua proposta é aceita!!?? Vai levar uma baita bronca em casa!! Kkkkkkkkk

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    1. E pior, Camila: se a notícia se espalha, que o juiz que paga o acordo...????!!!!
      rsrsrsrs

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  8. São lembranças, boas lembranças e quando se olha para trás se vê que o tempo passou, 2003, lembro dessa história. A história nos mostra a boa atuação de dois batalhadores do direito e buscavam o melhor para seu cliente, consequentemente para si também quanto aos honorários advocaticios. O fato inusitado ao finalizar a audiência/julgamento, o Juiz viu-se num aperto numerário de última hora e não tinha outra medida que não fosse sua participação/responsabilidade pela pequena diferença pela qual as partes discutiam. Após um entendimento (enfim já passados das 22,30 horas) acordaram as partes, deixando o juiz fora dessa responsabilidade de pagamento. Hora vai, hora vem o Juiz chega em casa, super atrasado e toma uma branca da esposa pelo atrazo e aí, relatando rapidamente o acontecido, ficou sabendo que ele havia esquecido a carteira em casa. Se propôs a um pagamento e foi salvo pelo acordo das partes pois o juiz, até sem dinheiro andava. Digo assim porque naquela época eu andava por Belem pois sou o sogro do juiz é a mulher dele e minha filha. 2003. O tempo passou mas é uma boa lembrança. É isso aí.

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    1. Ah, se o sogro estivesse por perto... daí estava resolvido o problema. Como dizemos no Rio Grande do Sul: o sogro está sempre de guaiaca cheia!!

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  9. Pensei que as partes tivesse brigando por 500 reais, lá no final do texto que li corretamente 50 (ciquenta) reais. Kkk. Começar audiencia as 19:30 e passado mais de uma hora e meia sem acordo, foi muita boa sua Idéia. Concordo com
    IZamir, iria rolar um vale se fosse para ter que dar os 50 reais.

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    1. Talvez eu fosse inventar alguma coisa par sair da sala rapidinho, e pedir emprestado aos servidores.... rsrsrsrs

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  10. Na crônica “O Juiz que Pague O Acordo”, o autor Menna Barreto introduz um novo componente que é também impulsionador da continuidade do enredo. Tal componente consiste na introdução da família do narrador, personagem-juiz, no decorrer da trama.

    Há vários estudos que afirmam a presença do escritor em sua obra, de forma direta ou diluída em suas personagens. Como exemplo cito a dissertação de mestrado, defendida na UnB, denominada “Defenestração – deslocamento e identidade na obra de Amélie Nothomb” de autoria de (MACEDO: 2016.) Entretanto, em nossa análise, não trabalharemos com tal pressuposto e, portanto, teremos o cuidado de não confundir a personagem com o autor.

    Vejamos! A audiência em questão começou às 19h e 30min. Em torno de 20h a personagem-juiz prevê que o acordo não vai ser fácil de ser firmado e apresenta a primeira preocupação com a duração da audiência “o que vou dizer em casa quando chegar perto de 22h!”.

    No final da crônica, quando a personagem-juiz, após a audiência, que terminou bem mais tarde do que o comum, chega em casa, é confirmada a apreensão que sentira, a qual fora propulsora da decisão não habitual de um juiz em processos similares, ou seja, pagar uma quantia complementar, a fim de que o acordo fosse firmado logo. “Quando contei em casa, foi aquela bronca:
    “Tu tá louco?! Vais ficar pagando acordo dos outros agora? E outra: tua carteira ficou em casa!”

    Observa-se, pois, que, nesta crônica o narrador-personagem-juiz introduz no enredo a sua família, que mais comumente pode ser simbolizada na esposa, ou na esposa e filhos; ou nos pais.

    Em outra crônica do autor Menna Barreto, da qual não me recordo o nome, essa esma personagem cita a esposa. Entretanto, a figura da esposa não é de forma alguma motivadora da continuidade da trama.

    XXXXXXXXXXXXXXXX

    Um abraço baiano a todos vocês!

    A ti, meu cronista predileto, os parabéns que não têm mais novidade, e o abraço que é sempre novo!

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    1. ... e o sorriso, por ler tuas análises, e um sorriso DE NOVO... ou um sorriso sempre!
      Ah, escritora, super obrigado!!!!!

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  11. Desculpem-me! Citei uma dissertação e me esqueci da referência.

    MACEDO, P.Ivo. Defenestração – deslocamento e identidade na obra de Amélie Nothomb”. Brasília:Universidade Nacional de Brasília. 2016.

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  12. Doutor! Ia pagar o acordo e pagar o "pato" en casa!?! Só imagino!

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    1. ... o pior, é que em casa, o pagamento seria em várias parcelas.... porque a bronca não se encerraria em um dia....!!! rsrsrsrsrs

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  13. Você é fantástico!
    Mas pra resolver o problema da falta de dinheiro em caixa, só convocando o Pilha!

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    1. Ah, Maria....!!!
      Que lembrada deliciosa, tu me trazes.... ouvi dizer que em seguida o Pilha virá contar-me mais das suas aventuras...!!!!
      Não tenho dúvidas que ele seria excelente em fechar acordos!!!!!
      Um milhão de obrigados, Maria...!!!

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