terça-feira, 23 de agosto de 2016

crônica - A Apreesão do Prego e do Taxinha

A Apreensão do Prego e do Taxinha

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 21.03.2016.
Comentários na postagem original:  8.
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“Eu vim buscar o “Taxinha”!
Pois foi assim mesmo que ele chegou. Já veio com a mão estendida há dez metros de distância, que achei até que estava engessada! Caminhando decidido… mas tinha algo de errado naquilo…
A história foi a seguinte: eu havia recém chegado na cidade! Era a primeira comarca da qual eu era titular. Mais de 400 km de floresta amazônica para qualquer lado. Mas a cidade até que tinha sua estrutura (claro!, imagina se uma cidade em que não há como chegar ou sair na hora que se quer, poderia ficar sem ter seus recursos?!). Mas, enfim, não deixa de ser um certo isolamento!
Quando cheguei, a cidade estava fervendo. A economia era basicamente de madeira e ouro: extração não exatamente legal de madeira e garimpos francamente irregulares. A então Ministra do Meio Ambiente Marina da Silva (isso, essa mesmo!), havia recém determinado uma faixa muito maior de proteção e preservação às margens da estrada Cuiabá-Santarém, e a economia da cidade praticamente parou! 
Quando cheguei lá, muitos caminhoneiros e moradores, haviam trancado a estrada Cuiabá-Santarém em protesto às medidas da Ministra, e haveria uma audiência pública para dali dois dias. 
Recém chegado, e ainda inexperiente na função de juiz (embora com 7 anos de advocacia), fui surpreendido já no meu segundo dia no fórum com um barulho de voz num megafone (aquela coisa que parece um cone, e que deixa a voz parecendo vento em taquara rachada)!
“Seu Juiz!" (isso, “seu" mesmo, ufa… não podia colocar um “Doutorzinho” que fosse…? era minha primeira comarca, estava todo empolgado e já chego sendo tratado de “seu”? Bem, mas vamos lá…!).
“Seu Juiz, aqui é a população… esvazie o fórum para ninguém se machucar que nós vamos tomar o fórum em protesto”!
Báh! (Isso, sou gaúcho e vim para o Norte!). 
“Seu Juiz, aqui é a população… esvazie o fórum para ninguém se machucar que nós vamos tomar o fórum em protesto”! 
Ele repetiu mesmo a frase. Achei até que estava ensaiado e era só o que ele havia decorado! Mas então ele improvisou:
“Seu Juiz, a população dá 2 minutos para sair do fórum.”
Como diz minha irmã, lá no interior do Rio Grande: “Daí, me caiu os butiá do bolso”. (Ela fala assim, de propósito sem concordância… mas quando ela fala, fica engraçado!).
Por muito menos, já soube de juiz saindo pela janela e só parando de correr quando não se ouvia mais grito nem latido de cachorro. Mas na hora não consegui pensar muito, e fiquei com raiva. Fui logo ver o que era aquilo. Os servidores do fórum já estavam todos do lado de fora e ficaram olhando pra mim, como que querendo saber se eu tomaria alguma atitude, ou me borrava todo!
Eu até que estava mais para a segunda opção, e até hoje não sei o que me deu, pra não me agarrar a esta, que seria a mais natural. Mas fiquei na porta do fórum e olhei firme para a manifestação e o qüera do megafone.
Pra começar, o que ele chamava de “população" não tinha mais de 200 pessoas… mas convenhamos que para invadir um fórum no interior até que está de bom tamanho. Parei na porta! E falei alto, sem megafone:
“Bom dia pra vocês também!” Eu sempre começo assim, quando alguém fala comigo sem me cumprimentar!
"Pois é o seguinte: estou chegando agora na cidade e não estou entendendo muita coisa. Mas até onde eu sei, a Ministra nem sabe que existe um fórum aqui! E digo mais: ouvi dizer que vocês estão trancando a estrada há uns 15 dias e nada acontece. E nem vai acontecer! Pelo que tenho conhecimento, não é esse o caminho que a Ministra usa para ir pro trabalho!”
Como até ali, ninguém tinha esperado que eu fosse falar, ficaram olhando um pro outro. Quando o cara do megafone foi levantar o cone pra falar de novo, eu atalhei:
“Seguinte: eu não tenho como segurar vocês. Então, quem quiser pode entrar. Mas prometo uma coisa: se eu ficar vivo, o PRIMEIRO que atirar uma pedra ou que passar por essa porta, ESSE vai ser preso. Pode não ser hoje nem amanhã, mas eu PROMETO que vai ser preso e responsabilizado! Os outros não vou nem ficar cuidando quem é, nem tentar impedir. Mas o PRIMEIRO, esse eu prometo!” E nisso, saí pro lado abrindo passagem!
Querem saber? NINGUÉM foi o primeiro! 
Não perguntem de onde eu tirei essa, mas me veio na hora e deu certo!
O pessoal já passou a me respeitar. E na audiência pública à tarde, quando eu falei no ginásio lotado, que fiquei triste porque enviaram o “Ouvidor Agrário Nacional” em vez de um “Contador Nacional”, virei uma especial de “popstar”. E eu falei aquilo porque em todas as audiências públicas que eu já havia participado, quando havia um ouvidor, eu nunca notava efeito prático. Parece que o ouvidor desempenhava perfeitamente sua missão: OUVIA… mas não contava nada do que ouviu e ficava por isso mesmo! Então fiquei esperando um dia em que enviassem um “Contador" em vez de um “Ouvidor”.
Pois foi nesse clima que cheguei na cidade. 
E tinha um promotor… barbaridade! Pense num Promotor a fim de trabalho! Não me dava sossego. Lembro que no primeiro mês, gastei quase metade do meu vencimento comprando livro para poder entender e despachar certo tudo que o Promotor pedia em mil procedimentos diferentes!
Pois o Promotor (que nem sei se dormia) inventou uma noite, que faria um “Patrulhão" da Infância e Juventude para recolher menores de 18 anos das festas noturnas! Pois o Promotor articulou tudo: falou com Polícia Militar, Polícia Civil, Conselho Tutelar, tudo… e me convidou! 
Eu fui, né?!
Pois por volta das 2 horas da madrugada de uma sexta para sábado, depois de passar em todos os locais de festa, foram recolhidos mais ou menos uns 100 adolescentes em festas, desacompanhados de responsáveis. Foram recolhidos para uma sede que nem lembro do que era. Depois, o Conselho Tutelar e a Polícia começou a ir nas casas dos pais ou responsáveis para avisar, de modo que começou uma procissão de pais, mães e ambos, vindo buscar menores e já saindo intimados para uma audiência junto ao Ministério Público!
Pois eis que lá pelas tantas da madrugada, com muito café na cabeça, estávamos já apenas com uns 8 ou 10 apreendidos, e conversávamos, eu, o Promotor, o comandante do Policiamento Militar e o Delegado, na frente da sede, quando chegou um rapaz numa motocicleta. Nós quatro paramos para olhar a situação: a motocicleta estava sem placa e o rapaz, apesar do capacete, desceu de chinelos de dedos! Eu vi que estava nervoso, porque, como comecei contando, já veio com a mão estendida há uns 10 metros de distância. Cumprimentou a todos e falou:
“Eu vim buscar o ‘Taxinha’”.
“Hein?”. Saiu sem eu pensar, mas é que eu não estava acreditando mesmo!
“O Ronaldo Alfredo”, ele corrigiu!
O Ronaldo Alfredo, apesar do nome, era um garoto até bem miudinho, que contou que tinha 12 anos de idade e estava furioso por ter sido apreendido, logo na primeira festa dele! O Apelido era “Taxinha”.
“E o senhor quem é?” Perguntou o Promotor.
“Eu sou o ‘Prego’… digo, sou Gustavo Afrânio. Responsável pelo Ronaldo Alfredo”.
Nós nos olhamos, mas ninguém riu! Seguramos.
“Quantos anos o senhor tem?”. O Promotor que perguntou (a operação era dele; eu também faria essa pergunta, ok?!)
“17”, respondeu o “Prego".
Podem imaginar o que aconteceu, né? O “Prego” foi imediatamente apreendido e ficou ao lado do “Taxinha”.
Depois soubemos a história. Estava muito estranho mesmo, um rapaz de 17 anos ter a coragem para ir lá, enfrentar todos nós e tentar tirar o irmão dali. O que houve, foi que o “Prego" (Gustavo Afrânio), foi pegar escondido, a motocicleta do pai; e o “Taxinha" (Ronaldo Alfredo) viu. Daí, disse que se o “Prego” não levasse ele junto, contava para o pai. O  “Prego” levou e deu o azar de ser justamente no dia da operação do Promotor!
Agora… pense num homem zangado: pois assim estava seu Ricardo Nelson, pai do “Prego” e do “Taxinha”, quando foi buscar os dois. Só não saiu batendo nos meninos porque a esposa o deteve! 
A propósito: o apelido do Ricardo Nelson era “Martelo”! E ele tinha 7 filhos… juro que não quero saber o nome nem o apelido dos outros 5.

Por Luís Augusto Menna Barreto




24 comentários:

  1. Estou aqui zonza. É muita aventura pra um dia só. Fiquei me acabando com esses três:"Martelo","Prego" e "Taxinha". Fiquei imaginando os três em uma mesma casa, deve ser uma confusão só, sem contar que ainda tem mais 5, meu Deus!!!
    Agora... quando você diz diante da manifestação:"...o primeiro que atirar uma pedra ou entrar por aquela porta vai ser preso"...foi de uma sabedoria imensa!!! Você foi imbuído de uma autoridade "Divina".
    Fiquei arrepiada só em ler, imagino quem estava presente e pode sentir todo clima. Me lembrou a passagem em que Jesus diz aos agressores da mulher pega em adultério:"Quem não tiver pecados atire a primeira pedra." E o resultado foi o mesmo.
    A situação da manifestação foi grave...mas o desfecho foi lindo!!!
    Como disse a Ana Macedo. Estou ficando repetitiva, mas não posso dizer outra coisa, senão: Que crônica linda...maravilhosa!!! Mil Parabéns!!!

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    1. Guria.... não sei o que dizer...
      ... mil obrigados por tanta gentileza...
      O inusitado é que foi exatamente assim que aconteceu! Agradeci muito à Deus porque sei que, naquele momento, foi-me enviada a inspiração pelo Espírito Santo.
      Eu jamais teria condições de uma saída dessas, em que tudo, ao final, correu bem, se não fosse inspiração Divina!
      Essa foi uma das situações em que na hora é por demais tenso... mas, Graças à Deus, transformou-se em algo para podermos dar risadas depois!!!
      Super obrigado, guria!

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  2. Ah, Cronista,meu predileto Cronista!

    Vou tentar não ser repetitiva, amiga Armelinda, mas que é difícil, isso é, porque eu ADORO as crônicas desse moço.

    É que gostaria de discutir uma afirmativa do autor, em que ele diz que o juiz de suas crônicas é ele próprio. Vou contestar, claro!

    Meritíssimo, o juiz de tuas crônicas é a personagem criada por ti, com base na visão que tens de ti mesmo. Ele, o juiz das crônicas, não é o próprio juiz Luís A. Menna Barreto. Aquele é a IMAGEM que este tem dele próprio, mas não ele próprio. Provavelmente, esta imagem não é exatamente a mesma que outra pessoa construiria de ti.

    Acontece também, quanto à imagem que outra pessoa faz de ti. Bem, vou tentar me explicar melhor! A imagem que outra pessoa constrói de ti não é a que tu imaginas que ela, a outra pessoa, constrói.

    Isso é o que se chama do “jogo de imagens”. É um dos objetos de estudo da corrente de estudos linguísticos chamada ANÁLISE DO DISCURSO. No meu entender, pela LINGUÍSTICA TEXTUAL, pode-se também justificar o que estou a dizer.

    Mas esse não é o caso! Não quero aqui defender nenhuma tese.
    Estou é com muita pressa, pois vou fechar as malas, para pegar meu voo no finalzinho da tarde. Além do quê, Confins fica nos “confins do judas”.

    Ah! Gostei de ver a personagem “irmã do juiz” inserida no texto.
    PARABÉNS, amigo! Tu sabes o que eu acho da crônica. (Viu, Armelinda? Não falei! Mas que deu vontade, deu.)

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    1. Ei, mas nesse caso, dessa crônica em especial, foi exatamente assim que aconteceu... sem personagens... foi na lata... depois do acontecido, quase me borrei, mas na hora, punk! Tava imbuído de uma coragem que só pode vir por forca divina!

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    2. Ah... e a mana tem umas tiradas boas... gosto de ir lá e ver quais as novidades do vocabulário semi-gaudério!

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  3. É assim mesmo Ana...ele tem esse Dom de nos deixar meio que sem palavras.
    Boa viagem pra você. Um feliz voo!!!
    Se fosse eu, estaria com o coração na boca...não gosto de voar.

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  4. Não tenho medo nenhum de voar, Armelinda (Ah, quero te chamar como teus amigos próximos te chamam. Posso? Como é?)
    Nem de navegar. Adoro! Agora, as estradas me deixam meio apreensiva. Mas... acho que gosto também. Sabe de uma coisa?! Tenho a impressão que sou mesmo é "viajadeira".

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    1. ... e como é bom viajar.... gosto demais até das viagens quotidianas no rio que minha rua...!

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  5. Gosto muito de viajar também, menos de avião. E por incrível que pareça, não tenho apelido Ana!!!

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    1. adoro avião.... e adoro viagens em aviõezinhos pequeninos... é muito diferente a sensação de voar em um avizinho pequenino...!

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    2. Acho que o meu medo tão grande de voar, foi justamente depois de uma viagem que fiz em um aviãozinho que chamam de Bandeirante. O dia estava chuvoso, muitas nuvens carregadas, escuras, o avião vez ou outra fazia uns movimentos diferentes, e eu quase morri de tanto medo. Fiquei com esse pavor. Mesmo assim já voei outras vezes, mas evito o estresse.

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    3. Em uma das crônicas, acho que "A Esposa do Juiz", eu relato justamente uma viagem dessas... em que o avizinho parece um brinquedo de Deus...!

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  6. Como te acho, pelo que escreves, uma pessoa linda e, coincidentemente, linda é parte do teu nome, posso te chamar de Linda?

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    1. Nossa, receberei esse apelido com muita alegria e orgulho, ainda mais vindo de você, Ana. Muito obrigada pelo carinho!!!

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    2. Pronto! Doravante, para mim, tu serás Linda!

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    3. A partir de hoje tenho um apelido, e lindo!!!

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    4. ... e teu sobrenome também ajuda: é a padroeira de Breves, no Marajó: Sant'Ana!!

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    5. Quanta coisa boa em um só dia. Estou muito feliz!!! Obrigada pelo carinho de vocês.

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  7. Uma crônica de encher os olhos, preencher a mente e atiçar o coração. Personagens que nos enriquecem, cada um à sua maneira. E um Juiz de atitude! Valente! Mais parecendo um nordestino.
    Adoro ler Menna Barreto.

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    1. Ah, mas foi um episódio isolado... duas vezes aconteceu essa inspiração em momentos tensos... o outro foi....... ops! Espera. O outro momento dá uma crônica, também!!!!

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  8. Ah!!!Como me encanta essas histórias tão peculiares,tão nossa...Adoro suas crônicas...(Isso não é novidade)!!!

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    1. Como não é novidade a generosidade com que avalias os escritos...!
      ... mesmo assim, sem eu merecer tanto, obrigado do tamanho que couber em teu coração!!!

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