quinta-feira, 15 de setembro de 2016

pensamentos perdidos - AS FLORES - parte 10 de 15

Pensamentos Perdidos - AS FLORES - parte 10 de 15

Pensamentos de Carolina
Como homem. Ele correu como homem pra ficar ao meu lado. Não olhou mais pra trás. Na última vez, virou-se decidido e correu mais que o vento para alcançar-me.
Está ao meu lado, agora. Não sente mais medo de olhar pra mim. Algumas folhas continuam a passar por nós e indo ao longe. Ao lado do caminho, alguns ramos inclinam-se suavemente para acompanhar o vento.
Ele vê meus cabelos sendo empurrados pelo vento. Ainda há dúvida em seus olhos de menino. Não sabe se deve. Eu deixo meus cabelos ao sabor do vento. Espero por suas atitudes. Quero que se liberte.
Hesitante, ele levanta sua mão. Delicadamente, tira os cabelos de meu rosto. Depois, toca em meu ombro. Eu sinto sua mão. Fico excitada. Olho pra ele. Ele faz seu olhar fugir de mim mais uma vez. Mas não tira a mão do meu ombro.
Eu vejo a dúvida. Torço para que ele consiga libertar-se. Não se virou mais. Eu paro. Ele também. Eu vejo. Não é mais menino. É homem. Vento. Há vento.
Por Luís Augusto Menna Barreto













quarta-feira, 14 de setembro de 2016

poesia de ver - "...valor!"

Poesia de Ver: “… valor!"

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 9.04.2016.
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Ela foi achada jogada no chão… assim: dobrada…

… esquecida…

De repente, olhei para ela e vi que tinha o mesmo valor que as notas guardadas com carinho, protegidas nas carteiras…

… vês…?

Mesmo as vidas dobradas, jogadas e esquecidas, continuam tendo o mesmo valor.



Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto



crônica - A Dor nas Costas e a Tonha Puxa-Ferro

A Dor nas Costas e a Tonha Puxa-Ferro

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 19.04.2016.
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A impressão que tive, era que todos na sala de audiências ouviram o barulho! Pareceu um “nhééééééé” de porta quando as dobradiças estão velhas…. e foi um “nhéééééé" bem forte.
Ninguém se mexeu… nem eu. 
Mas logo descobri que ninguém tinha se mexido porque não ouviram nada do “nhéééé’”… e eu não havia me mexido, porque o “nhééééééé" foi em mim! Eram minhas costas… e só eu escutava ou, pior: só eu sentia!
Disfarcei como pude, dei graças a Deus que era a última audiência da manhã, e fiquei ali, discreto, tentando mexer só o pescoço e passando a usar o universal vocabulário do “ã-ã…; ãrrã”.
Quando a audiência acabou, pensei quase em desespero: e agora?
Em pequenas cidades na beira do rio, é uma raridade quando há um médico. Tem até fogo de artifício e fila na unidade de saúde, quando chega um.
O problema nestas cidades mais isoladas, pequenas, em que para chegar ou sair é necessário uma viagem de horas e horas de barco, não é verba para pagamento do médico. É conseguir mesmo o médico. Porque o médico rala anos e anos, depois se forma, mais anos e anos para especializar-se, e daí começa a luta para colocar-se no mercado. 
Esses tempos, chegou na cidade, uma médica dermatologista. Chegou pensando que iria tratar de doenças de pele e coisa e tal… pois é: pensa que caboclo tem doença de pele? Pois foi só mordida de cobra, parto, furo de faca, tiro de cartucheira, ferroada de rabo de arraia, coração doente e galhada na testa! A pobre doutora, assim que conseguiu, fugiu no primeiro barco e nem sequer recebeu o pagamento!
Até eu já experimentei meu “dia de médico". Foi no meio da madrugada! Acordei assustado, achando que alguém batia na janela… E batia! Fui meio dormindo ver o que poderia ser tão urgente que não pudesse esperar mais 3 horas até amanhecer o dia:
“Doutor, socorro! O senhor precisa me ajudar…”
Pela cara de apavorado do homem, achei que era daqueles casos em que está havendo alguma briga, ou um casal querendo se matar. Fiz a única pergunta que consegui formular:
“Ãããnnnh…?”
“Tá nascendo, doutor, tá nascendo!!! Acode, doutor!”
Minha segunda pergunta foi:
“Hein?!”
“Minha mulher, doutor, tá parindo!” Ele quase gritava, nervoso! Já havia segurado meu pulso e, quando percebi que realmente eu estava acordando, estava, já, quase na praça, arrastado pelo homem! 
“O Tchê, te acalmas! Eu sou juiz, não sou médico!”
“Eu sei doutor… mas médico não tem na unidade de saúde e o senhor estudou, sabe mais que eu! Vai saber fazer o parto!”
(Agora, nem “ãããhnnn”, nem “hein”! Só meus olhos arregalados!)
Pois deixa eu voltar ao que estava dizendo: minhas costas! Nossa!, como doíam!
… ah, tá: quanto ao caso do caboclo, passamos por um mototáxi e pedi para chamar a “Da Luz”, parteira da cidade. “Da Luz” pariu mais uma, como diziam!
Então… como eu ia dizendo, onde eu conseguiria um médico para minhas costas? Tomei alguns analgésicos, repousei um pouco, e tentei ir levando.
No dia seguinte, eu estava despachando o processo de uma tal Jussemira Antônia, que estava em processo de separação. No processo, ela pedia a casa, a moto, os dois filhos, pensão de um salário para cada um dos dois filhos e para ela. Disse que queria a separação porque só ela trabalhava, e o marido ficava o dia na rede, debaixo do ventilador. Seria uma decisão longa… e minhas costas doíam. Como estava doendo muito, em vez de decidir imediatamente, determinei que o réu (marido) se manifestasse. Depois, chamei o Goela e perguntei se havia algum médico ou enfermeiro na unidade de saúde, porque minhas costas estavam me matando.
“Médico não tem doutor… mas tem a “Tonha Puxa-Ferro”.
“Enfermeira ou massagista?” Perguntei.
“É dessas que faz exercício com a gente doutor”.
“Personal?”
“Acho que é isso aí que o senhor falou!”
Pois o Goela chamou a tal “Tonha Puxa-Ferro”, e dali combinamos para iniciar alguns exercícios. 
Passado quase um mês, fazendo exercícios com a Tonha três dias por semana, senti uma melhora incrível!
Quase esquecia da dor. 
Eu estava me sentindo tão bem que, um mês e pouco depois de iniciar os exercícios, veio novamente o processo de separação da Jussemira e pensei: agora vou decidir direito isso! Examinar com calma e dar uma decisão “bonita”! Eu me debrucei no processo, estudei, e destilei todos os meus anos de faculdade naquela decisão! Coloquei latim e tudo! Foram quase cinco folhas. No fim, determinei que a casa teria de ser dividida, e a metade seria do marido. Teriam de vender se um não pudesse comprar a parte do outro. A moto ficaria com ela, mas pensão não haveria neste momento, porque a própria Jussemira Antônia, se encarregou de dizer que só ela trabalhava. Ora, se só ela trabalhava e ainda sustentava ele, pra quê pensão? Ia até diminuir a despesa dela, com ele saindo! E sorte a dela, ele não ter pedido pensão! Como havia, ainda, a guarda dos filhos para decidir, e algumas outras poucas questões, marquei uma audiência para resolver o restante para dali há 15 dias.
Terminei a decisão, eu chamei o Goela para levar o processo ao cartório. Eu iria para casa trocar de roupa porque tinha minha ginastica com a Tonha Puxa-Ferro. Estava me sentindo um gurizão! O Goela, pra variar, antes de levar o processo, ia direto na última página e, como sempre, fez seu comentário, antes de entregar: 
“Égua, doutor…”
Reticências… quando o Goela fazia assim, tinha previsão de confusão!
“… quero estar perto quando ela souber! Pense numa mulher braba!” E saiu rindo. Com isso, eu sabia que antes de eu trocar de roupa para os exercícios, todos já estariam sabendo.
Dali menos de 1 hora, eu estava na beira do rio, fazendo exercícios. A Tonha estava com a "corda toda”, e foi muito puxado naquele dia! Mas saí renovado!
Assim foi indo… dali em diante, cada vez mais puxados os exercícios!
Uns dois ou três dias depois, algo estava estranho na audiência… demorei pra entender o que era: o “nhéééé" estava voltando e só eu ouvia! De novo!
Ai meu Deus!
Comentei, naquela tarde mesmo, com a Tonha! Ela mudou os exercícios e nada. Os dias foram passando e cada vez doía mais. 
Parece mentira, mas no dia da audiência da Jussemira, eu estava quase sem poder me virar. Voltei ao vocabulário “ã-ã…; ãrrã”… Disse para o Goela chamar as partes para audiência. 
Estranho. 
O Goela chamou pelo nome a mulher e apelido somente o marido:
“Jussemira Antônia e ‘Deitado’, passar para audiência”!
Entrou um caboclo quase em câmera lenta… pense num sujeito sem pressa!
E entrou a Jussemira Antônia:
“Tonha Puxa-Ferro??? Tu que és a Jussemira?”, eu perguntei espantado!
Pois é… descobri porque minhas costas voltaram a doer!


Por Luís Augusto Menna Barreto





segunda-feira, 12 de setembro de 2016

diálogos - "... bem me quer!"

Diálogo: “… bem me quer!”

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 11.04.2016.
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“Bem me quer… bem me quer… bem me quer…” … e a flor já ia quase despetalada…

“Teu amor te quer tanto assim?” Ela perguntou com um sorriso divertido…

“Não…” Havia mais duas pétalas apenas… ele puxou a penúltima: “bem me quer…”

“Ora… mas tu só dizes “bem me quer”!

“… eu sei… bem me quer!” E puxou a última pétala: “… mas estou despetalando a flor para quem eu amo…”



Por Luís Augusto Menna Barreto



domingo, 11 de setembro de 2016

pensamentos perdidos - AS FLORES - parte 9 de 15

pensamentos perdidos - AS FLORES - parte 9 de 15


Lembranças de Henrique
Notei que se formaram duas sombras a nossa frente… Sombras que logo se foram apagando e, depois de algum tempo, tornaram a aparecer… e mais uma vez apagaram; mais uma vez apareceram… e aconteceu assim muitas vezes.
Eu fiquei esperando as sombras aparecerem pra observar as formas graciosas da sombra ao lado da minha. Eu senti algo estranho. Algo que me fez querer olhar mais e mais pra forma de mulher desenhada pelo sol no chão.
E, quando a sombra desapareceu, eu tentei buscá-la em ti. Tu passaste a mão nos teus cabelos negros que o vento, que só então percebi, empurrava pra frente, fazendo com que as pontas tocassem nos teus seios nus…
E, de repente, notei que as plantas ao lado do caminho, se curvavam em uma dança magnífica na mesma direção das inúmeras folhas e flores que passavam por nós. Eu olhei pra frente s só vi ramos indo ao longe, na mesma direção que eu não sabia aonde daria, mas que, simplesmente, era a direção do vento.
Eu lembro, Letícia, que em meio a todo aquele vento que ficava mais forte a cada instante, senti medo… medo, Elizabete… senti vontade de voltar pras minhas bolitas, pra minha árvore grande, pra uma casa que nem me lembro, pra infância que me abandonava…
O vento também fazia com que caminhasses mais rápido. E eu… eu até tentei parar, voltar, mas o vento lançava-me à frente como uma folha em tua direção…

Por Luís Augusto Menna Barreto















sábado, 10 de setembro de 2016

poesia de ver - "...encontro!"

Poesia de ver



“Não cansaste de navegar em todos esses anos?”

Tu cansarias de buscar o céu? Olha… é pra lá que sempre navego: onde o rio toca no céu…


Imagem e texto por Luís Augusto Menna Barreto



crônica - D. Socorro e os Lábios da Viúva, Pitanga e da Janete

D. Socorro e os Labios da Viúva, Pitanga e da Janete

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 12.04.2016.
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“Ah, doutor… meu advogado é Jesus!”. 
"Ai, ai, ai…” Seguido de um suspiro meu.
Isso acontece com muita frequência. Com uns, porque são realmente pessoas simples, entendem que têm razão, e então cruzam os braços e ficam irredutíveis, desdenhando da necessidade de advogado. Outros, malandros, querem se passar pelas pessoas simples que acreditam que tem razão. Outros, ainda, porque acham que gastarão dinheiro com advogado.
Enfim, seja como for, Jesus é muito lembrado em audiências. Aliás, há os que dizem:
“Doutor, para mim é Deus no céu e o senhor aqui na Terra”. 
Socorro!
Não, não é um pedido de ajuda: D. Socorro era a campeã de pedir os préstimos jurídicos de Jesus. Ela era dona de um pequeno salão de beleza e anunciava que fazia, também, “Maquiagem Definitiva”. Não sei se a grafia está certa, mas era assim que estava no cartãozinho que ela distribuía. 
“Não é tatuagem”,  ela explicava, é “Maquiagem Definitiva”.
Acontece que era comum as cliente da D. Socorro, insatisfeitas por algum motivo, processar D. Socorro no Juizado Especial (aquele das “pequenas causas”).
D. Viúva (era assim que era chamada, parece que estava, já no quarto marido e jamais se divorciou de nenhum!!), era uma dessas que processaram a Socorro.
"Olha aqui, doutor” e D. Viúva espichava o beiço. “Olha como eu fiquei, doutor…”
Eu me esforcei, juro que me esforcei… 
“Olha doutor!” Ela insistia… eu precisava de uma pista!! “Meu lábio tá maior de um lado do que no outro, doutor”, dizia indignada!
“Ãããnnh….” Era o máximo que eu conseguia. Graças à Deus, antes que eu tivesse de dizer alguma coisa, D. Socorro justificava, com cara de poucos amigos:
“Doutor, olha aqui (e quase pegava no lábio da D. Viúva)! Tá vendo? Foi só o contorno que eu fiz, doutor, não foi preenchimento! Fala pro doutor, Viúva, fala!”
Eu confesso que não entendia nada. Fosse na Suécia, haveria perícias na D. Viúva, exames detalhados, verificação das habilidades e licenças da D. Socorro, enfim, todo um arsenal de prova técnica… Mas a Suécia está há milhares de quilômetros! Aqui no Marajó, com a estrutura que podemos ter, se for submeter a tudo isso, as duas estarão mortinhas e enterradas antes de marcar a data da perícia… na verdade, eu acho que eu mesmo já estarei morto! Então, sempre fico torcendo para um acordo, num caso desses. 
Pois apesar da choradeira inicial, a D. Socorro sempre dava jeito de fazer um acordo. E era boa mesmo nisso. Prometia um retorno gratuito para algum reparo, e sempre acabava, ainda, empurrando algum outro procedimento das suas clientes, de modo que muitas vezes, ainda saía ganhando alguma coisa.
Lábios era sempre a reclamação mais comum. Lembro da audiência da D. Pitanga. Não me lembro mais o nome, Pitanga era apelido. Dizem que uma referência à facilidade com que nasce o pé de pitanga. Dizem que em qualquer lugar, frutifica. O pessoal fala isso de modo diferente: diz que pitanga, “frutifica" em qualquer lugar. Tá bem, o verbo é “dar”! Enfim…
“Ah, doutor, meu advogado é Jesus!” 
Isso mesmo, era D. Socorro. Ela sempre começava assim.
D. Pitanga reclamava do lábio. Lá foi ela espichar o lábio. Depois, colocou o dedo embaixo do lábio inferior e balançava como quem faz “bilu-bilu” em bebê:
“Olha, doutor. Olha como ficou caído!”.
Meu Deus. Eu arregalei os olhos sem querer, tentando entender o que NÃO estava caído na D. Pitanga, depois de quase 70 anos de muito “frutificar”.
“Ãããnnnh…” (Meu melhor argumento nesses casos. Era a deixa para D. Socorro)!
“Doutor, ela entra como a Dercy Gonçalves e quer sair como a Angelina Jolie! Sou esteticista, doutor, não sou santa. Não faço milagre!”
E assim começava, mas logo D. Socorro conseguia um acordo!
Mas o caso inusitado, mesmo, se deu com o Valério Augusto. Sim, Valério Augusto, sem apelido. Pelo menos, foi assim que o meirinho chamou:
“D. Socorro, Valério Augusto, passar para audiência”.
Entrou D. Socorro e uma moça bonita atrás; chamava a atenção o cabelo bem escuro e liso e a boca como quem já entra mandando beijinho, com os lábios esticados para frente!
Esperei um segundo para ver se entrava algum “Valério Augusto” e nada. Olhei para o Goela (o meirinho) e ele só olhou para a moça de lábio espichado. Entendi! Ainda bem que não dei nenhuma mancada. E entendi, também, porque o Goela não chamou por apelido: ele sempre fazia isso comigo. Se achava que eu ia fazer confusão, chamava pelo nome, só pra ver minhas gafes! Mas, dessa vez, eu consegui escapar. … estava começando a conhecer as armações do Goela.
Iniciei a audiência e lá veio D. Socorro:
“Ah, doutor, meu advogado é Jesus!”
Mas dessa vez, diferente de muitas outras, pelo menos, eu conseguia ver o problema! Eram os lábios de Valério Augusto! Mas não arrisquei. Perguntei:
“Então, qual o problema…” Fiz as reticências de propósito, esperando que Valério Augusto me dissesse como gostaria de ser chamado ou chamada. Ele entendeu, ufa!
“Janetche, Doutor!” Assim, com “ch" para o “te" do “Janete" sair bem chiado: Janetchhhe”!
“Sim, Janete” (meu “Janete foi normal). “Qual o problema?” Era o lábio… mas já estava calejado, não quis arriscar!
“Meus lábios, doutor! Ela não fez o que prometeu”.
Fiquei até feliz. Acertei uma nos casos contra D. Socorro, que eu nunca adivinhava qual era o problema! 
Usei aquele argumento para esperar D. Socorro:
“Ãããnnnh…”
“Ah, doutor, não tem o que fazer…” Falou D. Socorro.
“Mas ela prometeu, Doutor”, atalhou Janetchhhhe!
De fato os lábios estavam estranhos. Era até difícil parar de olhar. Formavam um bico MESMO! Pensei que pra esse caso, só uma intervenção cirúrgica para tirar o bico que ficou. 
Daí, D. Socorro falou, já se alterando:
“Doutor, esse não dá. Não tem como aumentar mais os lábios da Janete!"
“Ãããnnh…"

Por Luís Augusto Menna Barreto



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

pensamentos perdidos - AS FLORES - parte 8 de 15

Pensamentos perdidos - AS FLORES - parte 8 de 15


PENSAMENTOS DE SOFIA

     As nuvens que estavam paradas no céu, movem-se e deixam algumas frestas pelas quais o sol espia algumas vezes. O vento, ainda fraco, traz uma folha que passa por nós e pára mais adiante.
     Ele olha muitas vezes pra trás. Ainda não está seguro ao meu lado. Olha pouco pra mim. Com cuidado. Como se estivesse fazendo algo errado… tenta não olhar para os meus seios ou o meu ventre nu.
     Seus olhos de menino passam pela folha que, agora, já vai ficando pra trás. Algumas vezes ele fica na ponta dos pés, coloca a mão acima dos olhos para evitar os espios do sol, e tenta enxergar a árvore grande, como se tivesse deixado alguma coisa lá. Eu não paro. Continuo caminhando da mesma forma. Então, quando ele se vira, seu olhar procura o meu corpo que já vai à frente. E corre, como homem, para caminhar novamente ao meu lado. Posso sentir seu conflito.
     O vento continua a trazer folhas e fazer com que passem por nós.

Por Luís Augusto Menna Barreto


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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

poesia de ver - "...bouquet!"

Poesia de Ver:


Foi no ocaso que a florzinha exibiu seu melhor sorriso:
Quando vi que ela estava perdendo as pétalas, chamei a todos para verem a florzinha, pela última vez. "Que belo presente tu me trazes", ela me disse!
"Que presente?", perguntei intrigado.
"Esse bouquet! Um bouquet de pessoas!" 

Texto por Luís Augusto Menna Barreto
Imagem por Maria Júlia Ferraz




terça-feira, 6 de setembro de 2016

crônica - Do Goela, Mundinha e Barganha



Do Goela, Mundinha e Barganha

(Publicação original no antigo blog "Menna Comentários"
em 8 de abril de 2016.
Comentários no original: 13)
Eu achei que o Goela havia apregoado errado! Eu havia acabado de ver o processo e entregar para o meirinho. Era uma ação de divórcio! Eu lembro. Era divórcio! Não tava ficando louco!
“Francis e Mundinha. Passar para audiência!” Gritou o Goela, na porta da sala. No interior das cidades da Amazônia, até meirinho tem apelido. Goela era o meirinho e, mesmo lendo os nomes, chamava por apelido!
Eu sei que hoje em dia, há uma liberalidade muito grande, mas era o ano de 2007, ainda. Eu lembro que era meu segundo dia naquela cidadezinha e nem fórum havia. Estávamos fazendo as audiências numa escola, em uma sala de aula! Nem conhecia direito as pessoas. Nem mesmo o pessoal de apoio do judiciário eu conhecia direito! Então era tudo muito novo pra mim. Mas a Lei eu conhecia, havia me matado de estudar pra passar no concurso. Daí, que eu sabia que não podia haver casamento registrado no cartório, de duas mulheres! Se não podia haver casamento, como poderiam estar se divorciando? Fiquei curioso!
Pois entrou na sala uma mulher, pouco mais de menina, que calculei que tinha uns 20 e poucos anos, filho recém nascido no colo. A mulher veio com o pai. Um sujeito de uns quase sessenta... ou era muito judiado pelo tempo (depois do caso da D. Mocinha, que eu já contei aqui, numa crônica anterior, não me arrisco mais com idades!!). Caminhava com dificuldade e sentou gemendo com um nada silencioso “aaaaahhhh”.
Sentaram lado a lado! Fiquei esperando a Francis.
“O senhor senta aqui”, disse o Goela pro pai da menina, apontando para a cadeira do outro lado da mesa.
“Não, Goela, ele pode ficar aí”, falei. O cidadão era velho e cansado, e, se veio para acompanhar, desde que não se manifeste, eu permitiria que ficasse ao lado da filha.
"Tá bem”, disse o Goela e me devolveu o processo. Foi sentar na cadeira perto da porta.
“Sim, Goela! E a Francis?"
O Goela sorriu e apontou pro pai da moça sentada.
“Hein?"
Pois é. Não era o pai. “Francis" era marido. O homem velho e cansado sentado ao lado da moça!
Bem, olhando como o SEU Francis parecia acabado, pensei que até que a “Mundinha" poderia se dar bem, porque é nova ainda, e bem apessoada!
Perguntei se havia possibilidade de se reatarem e ambos balançaram a cabeça pra um lado e pra outro e responderam com a universal negativa:
“Hum-hum”!
Daí, segue o procedimento, ficou na sala apenas eu, o promotor, o defensor público e a Mundinha. O SEU Francis, esperando.
“Alguma chance de reconciliar, Mundinha?” Perguntei.
“Hum-Hum”, de novo. Cabeça baixa e filho no colo.
Olhando o SEU Francis, todo acabado, gemendo pra sentar, e vendo a Mundinha, uma moça nova na flor da idade, não fizemos mais nenhuma pergunta.
Sai Mundinha, entra SEU FRANCIS.
“E aí, SEU FRANCIS? Alguma possibilidade de reconciliação?” Já fiz a pergunta meio com medo... vai que o velhinho comece a desfiar um catatau de queixas...? Porque tem uns inconformados como o “Virado" um preguiçoso que levou um pé na bunda da "Joana do Crediário”, que fica implorando para que o juiz mande ela voltar.
“Doutor, eu não quero me separar, doutor. Essa mulher vai acabar comigo, ela tá partindo meu coração, vou me matar, doutor... o senhor tem que proibir ela de se separar, ela já saiu de casa, o senhor tem que trazer ela de volta...”
“Pai de santo é que traz a pessoa amada de volta, Virado. Arruma um emprego e tenta conquistar a Joana de volta”.
Achei que o SEU Francis podia ser um desses.
E ele respondeu meio cabisbaixo:
“Não, doutor... acho que não dá mais. Eu até que queria que ela não fosse embora, fiz proposta prá Mundinha, mas ela não quer.”
Na verdade, eu até achei a Mundinha meio insegura com aquele “hum-hum”. Daí perguntei qual foi a proposta.
“Sabe doutor. Pois eu arrumei outra né? Sabe como é, a Mundinha já pariu 3 filhos meus, tá ficando velha, né doutor. E eu agora tô com a Graça, mais novinha, já tá esperando um filho meu, doutor. Eu até perguntei se a Mundinha queria viver comigo também, porque a Graça não se importa, e daí, é sempre mais uma pra cuidar de mim, né doutor. Uma hora a idade chega, sabe como é...”
“Hein?!!!!"
Pois é. No fim, o divorcio foi amigável e a sentença prolatei na própria audiência! Mandei que esperassem, porque faríamos o mandado de averbação do divórcio no mesmo dia, porque todos moravam em ilhas distantes, e eram horas remando para chegar ali. Ficaram esperando.
Enquanto isso, mandei que passasse à próxima audiência:
Darcy x Régis. Cobrança.
“Chama os dois”, disse para o Goela!
“Darcy, Régis, passa prá audiência!”, gritou. Finalmente, chamou duas pessoas seguidas pelos nomes, não por apelidos.
Entraram duas mulheres!
Dá prá acreditar? Numa cidade em que TOOOOOODOS tem apelidos, justo quando o nome confunde, não tem apelido nenhum!
Terminado o caso da Darcy e da Régis (sabe Deus que motivo leva um pai a olhar uma bebezinha e chamar de Régis? Vai ver não sabia ver se era homem ou mulher...!) ...mas enfim, terminado o caso da Darcy e da Régis, a escrivã havia preparado o mandado de averbação do divórcio! Mas havia um pequeno erro em uma letra do nome, no mandado que a escrivã, D. Joyce Andrea (assim, Joyce com ípsilon e Andrea sem “i”) havia feito.
“Goela, chama a escrivã”, pedi.
Pensa que o Goela foi chamar? Só deu um grito:
“Barganha, o doutor tá te chamando!”. Ai, ai... fosse pra gritar, eu mesmo havia gritado... mas enfim.
Em seguida entra um caboclo com a pele bem bronzeada e para do meu lado, me encarando.
Eu estranhei. Mas perguntei:
“Pois não?”
“O senhor mandou me chamar. Sou o Barganha”!
...
Era o dia... O Joyce com ípsilon era o Barganha!
Tá decidido. Nenhum filho meu será registrado naquela cidade!

Por Luís Augusto Menna Barreto