quarta-feira, 26 de outubro de 2016

crônica - O Presidente, o Manobra e a Ambulância (parte 1)

O Presidente, o Manobra e a Ambulância (parte 1)

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 03.05.2016.
Comentários na postagem original:  19.
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Começou com o telefonema:
“… então, Dr., o senhor providencia o carro da comarca para buscar o Presidente no aeroporto?!”
“Hein?”
“O carro da comarca, Dr. O presidente deve chegar aí em Curralinho por volta de 9 horas.”
“Hein?”
O servidor do cerimonial do Tribunal de Justiça pensou que estava ruim a ligação. Estava! Mas eu entendia as palavras. Apenas ainda não sabia dizer de um jeito bom, o que era pra dizer. Então falei do jeito que sei:
“Não tem carro, aqui.”
“Ah, Dr., então o senhor alugue um carro bom por aí, quem sabe um taxi um pouco maior…”
“Não, o senhor não está entendendo: não tem carro na cidade!”
“……..” Silêncio do outro lado da linha. Eu estava achando divertido, mas ajudei o homem que certamente não estava acostumado com a realidade do Marajó:
“……” Silêncio. Então continuei:
“Primeiro: não tem “aeroporto”. O que tem é uma pista de piçarra, pequena, que desce só monomotor! Fica lá na estrada, uns cinco quilômetros da sede da cidade.”
“ok, Dr., o senhor avise lá na pista…”
“Clandestina!”, interrompi logo, pra deixar tudo claro.
Daí pra diante, foi um festival de gaguejadas do homem.
O Presidente do Tribunal de Justiça havia assumido com a promessa de que interligaria todas as comarcas do Estado pela internet e que visitaria todas as comarcas. E estava cumprindo!
“Dr., (engasga, engole, pigarreia), o senhor providencia, então, o carro?” Ele não desistia, pensei!
“Seguinte: ou o Presidente vem da pista em um mototáxi sem habilitação, sem capacete, usando chinelo de dedos, em uma motocicleta sem placa; ou curte uma de “bóia-fria” e vem na caçamba do caminhão de lixo; ou dá uma de doente e vem de ambulância!"
“…………….. (silêncio… hesitação)… bem… veja aí como for melhor, Dr.!" E desligou!
Olhei o calendário. Seria sábado. Sábado?! Mais essa: minha rotina era chegar na cidade na segunda e sair da cidade na sexta à noite, sempre de navio. O navio vem da cidade de Breves, de onde sai às 18 horas, passa em Curralinho por volta das 22 horas e, depois, chega em Belém por volta de 6h da manhã. Nessa rotina, eu levava minhas roupas contadas para usar em Curralinho! E paletó, meu Deus? Eu só tinha um em Curralinho, porque nunca fui muito dado a fazer audiências de paletó, e foi justamente naquela semana que eu havia derramado café na calça do paletó. Cheguei a pensar em receber o presidente sentado na minha mesa o tempo todo, usando outra calça e a parte de cima do paletó… … tá bem!, óbvio que não daria certo! 
Receberia o Presidente de calça jeans e camisa polo, mesmo!
Quanto ao transporte, decidi pela ambulância. Fui no hospital falar com a administradora. Expliquei a situação e ela não teve dúvida! Fez o que se espera: não resolveu!
“Ah, doutor, tenho que falar com o Secretário de Saúde…”
Vi o rumo que a conversa tomaria, com muita desculpa e nada resolvido, e levantei-me:
“Obrigado. Pode deixar que eu falo com ele”. 
Fui na Secretaria de Saúde e não o encontrei. 
“Não chegou ainda, doutor…”, disse-me a Nevinha, que atendia ali com cara de sono.
Fui na casa dele, não estava. Voltando pro fórum, passei no bar do Seu Nonô… … estava lá. Expliquei a situação e então, sim… não deu em nada:
“Ah, doutor, tenho que falar com o Prefeito…”
“Obrigado, deixa que eu falo com ele”.
Mas, desta vez, em vez de ficar andando pela cidade, perguntei para quem sabia da vida de todo mundo: 
“Onde encontro o prefeito, seu Nonô?”
“Doutor, se não tiver no açougue essa hora, o senhor encontra o prefeito em casa ou então, não está mais na cidade”.
O açougue era um local onde havia as carnes penduradas em ganchos, sem nenhuma acomodação refrigerada, uma mesa de bilhar e ponto de reunião de várias pessoas, onde o açougueiro era também o dono do jogo do bicho (dizem!) e pagava os prêmios em carne. Ah, claro, vendia uma ou outra cervejinha…
“Fala, Retalho (o apelido do açougueiro), sabes do prefeito?”
“Quinta-feira, doutor… já tá em Belém”.
“Poxa… tô precisando da ambulância para buscar o presidente do Tribunal de Justiça na pista…”
“Ai, meu Deus! O homem tá aqui? Acha melhor eu fechar doutor? Porque jogo não pode né?”
“Calma Retalho… vai vir no sábado. Tô tentando a ambulância para buscar ele na pista, mas preciso falar com o Prefeito para liberar a ambulância…”
“Ah, doutor, deixa comigo! Que horas o senhor precisa?”
“Hein?” Olhei pra trás e um rapaz franzino, com um copo de cerveja na mão, (às 10h da manhã!!) levantou-se e veio na minha direção.
“É só marcar o horário e eu tô lá, doutor”. Estendeu a mão molhada do copo suado de cerveja. Apertei a mão, desconfiado e olhei para o Retalho, como quem diz: 'e quem é esse, Retalho?’
“Pois está, resolvido, doutor”, falou o Retalho. “Esse é o Manobra, o motorista da ambulância!”
Pois é! Nem administradora do hospital, nem Secretário de Saúde, nem Prefeito! Resolvi foi direto com o Manobra!
… 
E foi lindo de se ver! No sábado, desceu aquele avião grande demais pra pista! Veio direto e deu uma pancada no solo, que achei que fosse se espatifar todo! Meses e anos depois, ainda damos risada de tudo, mas, na hora, foi tenso!
De qualquer forma, estava tranqüilo: estávamos de ambulância e comigo estava quem resolvia: o Manobra!

Por Luís Augusto Menna Barreto






12 comentários:

  1. Poeta, Poeta... você me arruma cada confusão...!!! Mas, no fim você costura tão bem, que fica incrível!!!
    Fiquei pensando cá com meus botões: se pra um Juiz já é difícil conseguir uma ambulância, imagina pra um cidadão comum!!?
    E depois de tanto vai e vem, e como surpresa é o que não falta em suas maravilhosas crônicas, você encontra ninguém menos que o manobra (mais um apelido que nunca mais vou esquecer como todos os outros que vi aqui. Vivo contando suas crônicas pra familiares e amigos, muitas vezes abro o blog pra ler pra alguém.) O motorista da "complicada" ambulância!!! Ótima...ótima...ótima!!! Amei!!!

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    1. Obrigado, obrigado, obrigado!
      Fico francamente lisonjeado!!!!
      Ah, o Marajó é sempre MARAVILHOSO!!!!

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  2. Primeiramente, bom dia poeta,é muito hilária essa situação rsrsrs (dá pra rir AGORA né?)imagino o qto foi tenso pra ti na época, mas o melhor de tudo foi que a solução surgiu de onde/quem menos esperava.Ah mais uma vez eu digo, chego a "ver"sua expressão facial de surpresa e dúvida ao mesmo tempo qdo diz HEIN? kkkkkkkk ADOOOORO!!!!

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    1. Ah, pois é! O pessoal que me conhece tá bem acostumado! Já sabem que esse "hein?" significa: "para tudo, começa de novo, devagar, e explica tudo direitinho!"

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  3. Uma aventura!!
    Esse é clássico. Adoooro!!!!

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  4. Esperando a próxima parte... Só melhora!

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  5. Sim!!! Isso é o mais divertido...

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  6. Ai como é bom ler tuas crônicas e como nos diverte essas "aventuras" que tu já passastes!!!

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    1. Rsrsrsrs ..... mas a verdade é que também me divirto muito!!!!!!

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  7. Nossa... !!! Que coisa pra lá de boa, ler as crônicas e idealizar tudo acontecendo... Meu Deus!!!! Realmente é uma fonte de riqueza. Hora eu fico tensa, hora eu acho graça, na verdade eu fico muito curiosa pra saber o resultado, rsrsrs. Sinceramente é muito divertido. Obrigada poeta Menna por compartilhar tuas aventuras. O mais interessante é que eu não canso de revisar a leitura. Muito agradável! Parabéns!!! 👏👏👏👏👏

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