quinta-feira, 13 de outubro de 2016

crônica - Vangógui, a Juíza e as Bolsas

Vangógui, a Juíza e as Bolsas 

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 22.04.2016.
Comentários na postagem original:  17.
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“Tu, um rapaz bonito… fazer isso?!”. Não, isso não foi eu quem disse. Não costumo falar assim com presos com cara de muito mau!
“Tu és um frouxo”. Isso a juíza diria depois. Mas já vou adiantando, porque definitivamente, eu não diria isso com o preso soltando faíscas de raiva pelos olhos!
Pois essa não foi comigo que aconteceu. Quem me contou foi o investigador Aragão! 
Finalmente haviam prendido o “Vangógui”. O apelido não é porque o homem pintava. Era por causa das orelhas, mesmo. Não as dele. As das vítimas. Ele simplesmente arrancava uma orelha da vítima! Ninguém sabia o porquê. Há quem diga que quando era criança e frequentou a escola, o Vangógui era muito arteiro. E a professora vivia puxando a orelha dele. Pois é: naquele tempo podia puxar a orelha e quem dava aula não era “tia”, era Professora. Assim, com “P" maiúsculo!
Pois o Vangógui estava aterrorizando a região das ilhas, na parte sul do Marajó. Havia crimes que eram atribuídos ao Vangógui em quase todas as cidades da parte sul do arquipélago, e foi justamente na pequena cidade daquela juiza valente que ele foi preso. 
A juíza já tinha a sua fama. Contam que na capital, tentaram assaltá-la quando saía do salão de beleza! O malandro passou correndo e puxou a bolsa Prada da juíza. Ela não teve duvidas: ficou com uma alça da bolsa na mão e segurou firme enquanto o malandro tentava correr puxando na outra alça. Com a perícia que só as mulheres tem para abrir e fechar bolsas, e numa perícia maior ainda que as mulheres tem de pegar exatamente o que querem numa bolsa cheia, no tempo de um piscar de olhos, pegou a arma que sempre levava. Vendo a arma, o malandro saiu em disparada. No tempo de dois passos, a arma foi destravada, engatilhada e disparada na perna do gatuno.
“Imbecil! Imbecil", gritava a juíza para o rapaz caído no chão e gemendo… a bolsa estava com as tiras rasgadas… uma marca de sujeira na antes branca e bela bolsa que combinava com os sapatos Christian Louboutin… mas não era por isso que a juíza estava tão furiosa:
“Imbecil! Estragou minha unha e eu acabei de sair do salão! Sabe o quanto a gente tem que esperar para ser atendida, seu Imbecil?!”.
E assim foi ganhando fama a juíza. A notícia da arma na bolsa espalhou-se rápido. Os jornais noticiaram o fato, e a juíza somente permitiu ser fotografada, depois de ter voltado ao salão e aproveitado para fazer uma escova!
Na cidade, a juíza, que já era respeitada e tinha fama de “braba”, ficou mais respeitada ainda. O pessoal mudava de calçada quando ela andava, e, quando ela chegava no único restaurante (o do Seu Nonô), tinha gente que levantava. Na entrada do restaurante, fica o bar, onde é comum os caboclos sentarem, sem camisa, tomando uma (ou quinze!) cerveja. Pois quando a juíza dobrava na esquina, os sem-camisa ou vestiam, ou saíam dali ligeirinho! A própria fama da juíza apaziguou em muito a cidade. Principalmente os adolescentes. Porque ela não aliviava!
O “Fabinho Pula-Cerca” era conhecido pelo atrevimento! Não respeitava o alheio nem com os donos da casa presente. Num instante pulava a cerca, pegava o que encontrava, pulava a cerca de volta e fugia com a destreza dos seus dezesseis anos. Entrava e saía da delegacia. 
Pois numa dessas, depois da notícia do assalto na juíza, o Fabinho foi preso e apresentado à juiza:
“Deixa ele aqui, e sai da sala, Aragão”, falou a juíza para o policial civil que conduzia o Pula-Cerca”.
“Mas doutora…” O Aragão nem conseguiu terminar! 
“Agora”!
O Aragão saiu.
O Fabinho Pula-Cerca foi logo sentando, com cara de malandro, achando que ela ficaria com pena, coisa e tal…
“Não falei prá sentar”. Só o olhar já induzia um certo respeito. Ela colocou a bolsa Gucci em cima da mesa.
“A bolsa”, pensou Fabinho. E lembrou da história que todos contavam. Arregalou os olhos!
“Só vou te fazer uma pergunta, senhor “Pula-Cerca”, falou a juíza, abrindo devagar a bolsa e mexendo em algo ali dentro. “Vou precisar me incomodar contigo?”
Fabinho Pula-Cerca respondeu com uma universal balançada de cabeça de um lado a outro. Ninguém viu, mas foi a primeira vez que ele tremeu!
E assim a fama da doutora foi sendo construída. O Fabinho endireitou-se. Deixou até de ser o “Pula-Cerca” e ficou apenas “Fabinho”. Começaram a surgir histórias da juíza que nem se sabe se aconteceram ou não, mas ninguém questionava. 
Os presos ou os menores infratores (hoje, "adolescentes em conflito com a Lei", como manda o politicamente correto) eram, todos, mandados ficar a sós na sala. E ninguém sabia o que a juíza conversava com eles. Eles não falavam, porque ficavam com vergonha de admitir que foram intimidados por uma mulher vestida de Dolce&Gabbana com os óculos Chanel em cima da mesa. Mas há quem diga que a conversa limitava-se em ela perguntar se iria se incomodar com o preso. Nos casos mais difíceis ela pegava a bolsa e começava a mexer lá dentro. Sem nem levantar os olhos, perguntava: “Vou precisar pegar alguma coisa na minha bolsa prá parar de me incomodar contigo?”
E assim ia.
Pois chegou o dia do Vangógui.
“Tu, um rapaz bonito… fazer isso? Isso é coisa de monstro, não de gente!”
Mas o Vangógui não era qualquer um. Pensa que se intimidou?
“A senhora tá falando isso, porque tô algemado e tem polícia aqui”.
Era um enfrentamento de egos. Uma guerra de nervos. Um combate surdo entre o atrevimento, e o representar da ordem. 
“Tira as algemas dele e sai da sala, Aragão”.
“Mas doutora…”
“Agora”.
O Aragão obedeceu. Mas não ficou tranqüilo… Assim que saiu da sala, passou um radio e pediu reforço. Abriu o coldre e destravou a arma. Estava apreensivo.
Dali uns segundos, o Aragão foi chamado. Tudo aparentemente normal. Mas viu a juíza suando. Isso não era normal!
O Vangógui tava ali. A juíza com uma bolsa Jimmy Choo no colo. Mão dentro da bolsa. 
Ela nem terminou a audiência. Disse apenas para levarem o Vangógui. O reforço chegou e levaram. O Aragão ficou porque achou que havia algo de errado. 
Perguntou:
“Tudo certo, doutora”?
“Arrã…”
Não estava. Mas como ela não deu conversa, ele foi embora assim mesmo.
O pessoal conta que ela ficou na sala por alguns instantes e depois levantou e foi embora com a mão dentro da bolsa.
Quando chegou em casa, a juiza sentou-se na cama. Tirou a mão da bolsa. Apertado em seus dedos, um estojo Dior de maquiagem. Olhou para a cômoda e viu a bolsa Louis Vuitton que havia ficado aberta em casa… com a arma dentro!

Por Luís Augusto Menna Barreto


(Um especial agradecimento ao Investigador de Polícia ARAGÃO, muito atuante no arquipélago do Marajó, que em uma ímpar gentileza, enviou-me os relatos que deram origem a esta crônica!)




19 comentários:

  1. A fama da juíza bastou para intimidar o Vangógui, ainda bem que o marginal não fez nenhuma loucura e descobriria que não havia arma alguma e a durona ia passar o maior vexame e virar motivo de riso...
    Acho que depois dessa ela nunca mais esquecerá sua arma...

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    1. Que susto!!!!
      Oi isso, ou deve diminuir as bolsas...!!!

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  2. Que sufoco(JAMAIS admitido) da doutora hein?ao perceber que estava desarmada suou frio a pobre rsrsrsrs. Gostei da braveza dela qdo percebeu que tinha estragado a unha que acabara de arrumar, talvez tenha sido o motivo pelo qual tenha atirado kkkkkk. Show demais essa crônica, amei cada detalhe descrito. Parabéns! arrasou poeta!! Boa noite todos vocês amigos!

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    1. Pois é.... dizem que poucas coisas irrita tanto uma mulher do que sair da manicure e estragar uma unha!!!!!!

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    2. Como profissional da área lhe asseguro que não é nada agradável pra ambas as partes, normalmente nunca se conserta só uma vez uma unha amarrotada rsrsrsrs. Nada mais irritante mesmo.

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  3. Sou fã!
    (da juiza e do policial...)
    rsrsrs
    Adoro essa!!!

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  4. Que MULHER valente e corajosa!!! E nem por isso deixou de ser feminina e além de tudo, muito vaidosa. A bronca dela por causa das unhas que tinha acabado de fazer foi demais!! E no final com o dedo preso no estojo de maquiagem e o vangógui achando que ela segurava o revólver já conhecido por todos... foi bárbaro...tirei meu chapéu pra ela.
    Estamos precisando de uma dessas aqui em Goiânia rs.

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    1. Essa, todo mundo respeita!!!!!!!
      .... e depois de ter atirado no malandro saindo da manicure, eu me cuido demais para cumprimentar essa mulher!!!!!!!

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  5. Mais interessante ainda do que o dito aparente é o que tu disseste no texto de fundo.

    Disseste, por exemplo, que o salário da "juíza braba" era um salário e tanto. Quanto era mesmo?! Ou disseste que ela já era muito rica, antes mesmo de ser juíza? Não sei! Mas que disseste que a "juíza braba" era endinheirada disseste.

    Pode até ser que ela tenha tido uma infância muito pobre e que, por isso, tivesse essa fixação em grifes. Isso não disseste. Contudo, eu tenho todo o direito de imaginar.

    Todavia, que disseste, também, que a "juíza braba" era destemperada, disseste com certeza.

    Sabes de uma coisa?! Fiquei foi com pena do Vangógui.

    Xxxxxxxxxx

    Ótima crônica, escritor! Principalmente em se tratando de um texto grávido de ironias. E desta vez tu escolheste como foco delas a mulher, não foi? Achei ótima a ideia! Fiquei zangada, não. Mulher é um bicho doido mesmo.

    Sim, agora, na maior seriedade: eu imagino que tu sejas um excelente juiz; todavia, que és um excelente cronista, eu não imagino, não; isso eu tenho certeza, eu provo.

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    1. Dando aula Professora Ana...

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    2. Mas bah!!!!
      A história foi mais ou menos assim mesmo, segundo o Policial Aragão.
      .... mas confesso que as grifes são por MINHA conta!
      Na verdade, eu REALMENTE gosto de grifes como quem gosta de arte! Acho a alta costura uma arte!
      Assim como apreciadores de quadros retiram mensagens das pinturas e, por elas, interpretam a época, a vida, o cotidiano e contexto político, penso que pela arte da moda, da alta costura, pode-se também, retirar muita coisa!
      Tu, por exemplo, escritora, sempre retiras tanta coisa das crônicas que interpretas... e tu me lês por meio delas, lês a realidade na qual estou inserido, lês a vida no Marajo, muito mais do que coloco no texto!
      Assim pode ser feito pela alta costura!
      Eu admiro profundamente Coco Charbel, Yves Saint Laurent, Ralph Laurent, Giorgio Armani, Donna Karan, Valentino, Dior e tantos outros, porque os tenho por artistas! Ditam tendências, CRIAM desejos, interpretam a alma mesmo de tantas pessoas e plantam sonhos...!
      Não precisamos viver para as marcas, mas podemos tê-las como quem tem um Picasso, um Frida Kahló, um Van Gogh...
      ... ou como quem lê Saramago, Eco, Garcia Marquez, Rocha Macedo....!!!

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  6. E, com tudo isso...o livro sai ou não sai...!!!?

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  7. Eita juíza "arretada" como se fala aqui no Ceará.... Rsrs

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    1. Essa aí, eu também troco de calçada quando ela passa!!!!

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