terça-feira, 8 de novembro de 2016

crônica - O Presidente, o Manobra e a Ambulância - Parte 2

O Presidente, o Manobra e a Ambulância - Parte 2

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 6.5.2016.
Comentários na postagem original:  15.
Visualizações até ser retirado:  290.

A ambulância sacolejava. Um pouco pelo caminho esburacado, outro pouco por conta da falta de habilidade do Manobra. Eu estava preocupado em como o presidente chegaria depois de tanto pular na ambulância. 
Não, o presidente não estava doente nem acidentado. Estava sentado ao lado do Manobra, que conduzia a ambulância, no caminho da pista (não regularizada) de pouso até o fórum! Estava indo de ambulância, porque era uma das três únicas possibilidades de transporte terrestre motorizado em Curralinho, no Marajó, naquela época. Ou eu buscava o presidente do Tribunal de Justiça de ambulância, ou buscava com o caminhão do lixo, ou ele viria na garupa de um “mototáxi" sem habilitação, sem capacete, em uma motocicleta sem placa! Optei pela ambulância!
Acomodei o pessoal da seguinte maneira: ao lado do Manobra, o presidente. Na parte de trás, os demais: eu, o padre (sim, veio um padre junto!), mais um desembargador e dois assessores. O desembargador e o padre sentados na maca, eu e os assessores em pé tentando segurar na parede. Na parte de trás da ambulância não havia nada além da maca. Há quem diga que quando o município de Curralinho recebeu a ambulância, esta era, na verdade, uma UTI móvel, cheia de aparelhos. Daí o que o prefeito não teve duvidas: os aparelhos que vieram com a ambulância faltavam no hospital. “Depena a ambulância”, teria dito. E os aparelhos foram para o hospital. 
Não, não precisa ninguém ficar preocupado ou indignado. Quem conhece Curralinho, sabe que a decisão foi a acertada! Além da estrada que leva para a pista, não há mais que três ruas paralelas ao rio e algumas transversais. Depois, é só ponte (de madeira, na largura de três tábuas), por sobre o rio numa espécie de “Veneza" marajoara, em direção ao “Bairro do Cafezal”. Resumindo: aquela era a primeira vez que a ambulância andava mais que os duzentos metros que separam o hospital do trapiche municipal! 
Quando chegamos no fórum, depois de muito sacolejar, discretamente perguntei ao Manobra:
“Pelo amor de Deus, Manobra! Onde tu tiraste tua carteira de motorista?”
“Ah, doutor! Tenho não!”
“Hein?”
“Aqui não tem carro, ninguém sabe dirigir! Fiquei sabendo que a ambulância tava parada dois meses desde que tinha chegado, fui lá e disse que eu sabia. Agora sou contratado da prefeitura, doutor.” E chegou mais perto pra falar baixinho: “Mas não tem nada assinado, porque sou cadastrado na colônia de pescadores e recebo o seguro defeso”!
Arregalei os olhos torcendo para o presidente não ter escutado aquela conversa! Não escutou. Ou achou melhor não escutar!
Entrando no fórum, o presidente até achou bonito. É uma construção muito antiga e alta! Entrou no gabinete onde faço as audiências e onde despacho os processos (uma peça única, bem ampla, com uma mesa grande e várias cadeiras em volta) e perguntou:
“O que é isso?”
Apontou para a máquina de escrever! 
“A máquina em que trabalho! Fazemos audiências e despachos nesta máquina, presidente!”
A elegância que o cargo impõe fez com que o presidente mantivesse o mesmo tom: 
“Onde está o telefone?”
Esse eu tinha! Com fio, ainda, fixo, lembram? Pois é, era assim. Tinha um disco no meio em que a gente colocava o dedo no furo correspondente ao número e rodava o disco até uma trava de metal. Um numero com oito dígitos tinha que rodar oito vezes o disco.
Ele o fez com alguma ansiedade. Não sei com quem falou, mas era alguém que certamente estava de prontidão para um eventual telefonema:
“Anote aí: Em um mês quero a internet instalada em Curralinho…”
Eu me espantei. Mas sorri!
“… quero duas motocicletas para os oficiais de justiça…”
Barbaridade! Fiquei mais faceiro que pinto no lixo!
“… e uma L 200!”
Opa! Isso não! Uma caminhonete não, pelo amor de Deus! Não que fosse muito prudente, mas interrompi o presidente:
“Não, presidente. Não faça isso!”, exclamei.
Ele segurou o telefone perto do peito, sem desligar e me interrogou com o olhar.
“Não tenho onde guardar. Não tenho onde dirigir. Não tenho nem quem dirigir!” E lembrei do Manobra, que dirigia ambulância sem habilitação. Deus me livre!
“Muito mais necessário seria uma lancha, senhor presidente.”
Ele me olhou um segundo e tomou a decisão:
“Tira a L 200, coloca uma lancha!”
Simples assim.
Daí para diante, a visita foi tranquila. Ele foi até o salão do júri, completamente vazio, com visível pó nas pás dos ventiladores de teto, sem nem ao menos uma cadeira no local. 
“Por que está vazio assim”?
“Quando cheguei aqui, oito meses atrás, já estava vazio, presidente.”
“E onde tu fazes os júris?”
“Não faço. Ninguém se mata. Nem mesmo tentam matar por aqui! Quero inaugurar o salão, mas não tenho freguesia”.
O presidente deixou escapar um quase sorriso.
Depois disso foi embora com a comitiva. A ambulância estava na frente do fórum, mas onde estava o Manobra?
“Onde está o motorista?” Perguntou o presidente, que não estava acostumado a esperar.
“Um momento, presidente. Vou chamá-lo.”
Saí nervoso. Pelo amor de Deus, onde estava o Manobra? Foi com certo medo que fui até o açougue. Estava fechado. O Retalho ficou com medo de abrir o açougue, já que era quem detinha o jogo de bicho na cidade (dizem!). 
Fui correndo até o bar do Seu Nonô. Pois o Manobra estava lá… com um copo de cerveja na mão!
“Manobra! Tu estás louco?! Bebendo? O homem está lá impaciente pra ir embora e tu bebendo, Manobra?!”
“Ah, doutor. Fiquei nervoso com o presidente do meu lado. Precisava tomar umazinha pra parar de tremer!”
Com cara de poucos amigos, levei o Manobra. 
Todos na ambulância, e a viagem até a pista pareceu outra! O Manobra desviou de praticamente todos os buracos! Uma viagem muito tranqüila!
Para a decolagem não houve problemas.
O pessoal da instalação da internet veio mesmo. Ficaram dois dias em Curralinho, instalaram uma antena parabólica enorme no pátio ao lado do fórum (que não sei a quem pertence, mas nunca ninguém reclamou), fizeram todos os testes e foram embora.
Um mês depois, recebi a ligação:
“Um momento, o presidente vai falar.”
(espera, espera, espera….)
“Por que eu não estou vendo nenhum relatório de Curralinho no sistema?"
“Não coloquei ainda, senhor Presidente!”, respondi com honestidade.
Ele pareceu ficar irritado:
“Mas não mandei colocar internet?”
“Mandou!”
“O pessoal não foi instalar aí a internet, não levaram antena e equipamento?”
“Vieram!”
“E não tá funcionando a internet?”
“Pelo que sei está, senhor presidente, eles fizeram todos os testes e deixaram tudo funcionando”.
“E por que tu não estás fazendo os relatórios?”
“Porque, senhor presidente, o fio que deixaram instalado aqui no fórum, não conecta na máquina de escrever!"
...

Isso mesmo: veio tudo... mas não veio computador!

Por Luís Augusto Menna Barreto




11 comentários:

  1. Ķkkkkkkkķ kkkkkk mais uma vez começo meu comentário rindo muito,só de imaginar a situação toda é impossível não gargalhar. Posso imaginar tbm o tamanho da sua tensão poeta,tendo que ajeitar tudo da melhor forma possível, com a precariedade do lugar, da locomoção e seu condutor. O bom é que no final tudo deu certo e para nosso deleite rendeu uma crônica maravilhosa.AMEI.

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    1. E ainda tem o desfecho de tudo isso... Vem aí, "O Presidente, o Manobra e a Ambulância - Parte 3"...
      Ah, como eu gostei de haver escrito estas...!!

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  2. Pobre do manobra, de tão nervoso precisou tomar "umasinha"!!! Ôh visita tensa!!! O bom é que rendeu muitas gargalhadas... que venham outras, similares. Muito boa!!!!!

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    1. Acho que era essa "umazinha" que deixava o Manobra firme!!!
      Pense num caboclo desdobrado!!

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  3. Muito bom, eu dou cada passo junto com você nestas crônica, vejo os detalhes, dou risada, sinto o nervosismo e sua indignação! kkkkk O presidente manda tudo menos o mais importante para que a coisa funcione, afinal, o presidente mandou entregar um computador depois Poeta Menna?

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    1. Ah, sim... depois recebemos os computadores... mas foi engraçado o silêncio do outro lado, quando eu falei que a internet estava instalada e só não tínhamos é computador...!!!!!
      Ah, que saudade desse tempo... essas aventuras foram nos idos de 2007.....

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  4. Quando o presidente pegou o telefone para ligar e providenciar tudo, já imaginava que o PC não ia vim.
    Dito e feito.

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  5. Nossa!! ! . . . Rsrsrs. . . Quanta aventura? ? ? Daria até um filme. É interessante, perceber que o rítimo do lugar, parecia não ter pressa. O bom é que não tinha violência pelo jeito. Mas você ficou em alguns momento(no dizer popular) em saia justa, não??? Muito legal isso...

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  6. Ei 🙌! Certo dia, li sobre a chegada do avião numa aldeia. Amei a esperteza do garoto, só que não sei onde tá, pois já procurei e não encontrei.

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