sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

UM CONTO DE FÉ - parte 1

UM CONTO DE FÉ
Parte 1

Sil estava alguns bancos atrás. Observava com paciência, embora achando desconfortáveis os bancos em madeira da pequena Capela no hospital.
Olhava pra ele. Não entendia como ele podia ficar horas ajoelhado, imóvel, repetindo as mesmas frases. 
“Se adiantasse alguma coisa, não haveriam pobres, doentes, ninguém passando nenhuma necessidade”, Sil dizia-lhe. Mas não adiantava. Todo os dias, ao acordar, via-o ajoelhar; todos os dias, antes de dormir, via-o ajoelhar. Sil sabia que nunca adiantava chama-lo antes que terminasse de passar pelas 59 contas de seu rosário. Mas dessa vez, ele estava ajoelhado há muito tempo. E era a terceira vez que iria terminar de passar todas as contas.
Quando ele terminou o rosário completo, tirou os joelhos do aparador de madeira, sentou-se pesadamente no banco e ficou olhando a imagem do Cristo pregado na cruz. Era uma imagem sempre intrigante para Sil, porque a impressão que tinha, era a de que o Cristo, pregado, tinha menos sofrimento no olhar, do que quem rezava. 
“Ele está pregado! Como espera que alguém pregado possa fazer algo por você?”, Sil dizia-lhe.
“Não blasfeme”, ele respondia, sempre, sem qualquer irritação. “Você deveria tentar. Se você pedir com fé, terá seu pedido atendido.”
“Se eu passar horas ajoelhado e rezando, vou levar horas a mais para conseguir o que quero, porque terão sido horas perdidas. Você sabe que eu não acredito.”
“Não importa! Peça!”, ele insistia.
“Como assim não importa”?
“Não importa que você não acredite. Ele acredita em você! “
Eram discussões infrutíferas. Sil, sem acreditar; ele, com uma fé inabalável.
Ele credita sua fé, na mãe, que o ensinou, desde pequeno, a rezar, agradecendo por tudo de bom que o dia havia trazido. Falava-lhe, sempre que somente pedisse algo depois de refletir muito… porque se fosse pedido de coração, Deus atenderia. E é preciso cuidado com o que se pede, porque Deus não volta atrás, dizia-lhe. O pai também acreditava em Deus. Não da mesma forma e com mesmo fervor da mãe. Era militar. Rígido. Acreditava em disciplina antes de tudo. Poucas vezes, vira o pai rezar. 
“É difícil ver o pai num hospital. Sempre foi tão forte, tão enérgico”, ele falou quando Sil aproximou-se.
Sil envolveu-lhe com o braço em sua cintura: 
“Eu imagino… Ainda mais em uma situação assim…”.
Ele sabia o que Sil queria dizer. Os médicos retiraram qualquer esperança. O pai não voltaria para casa. Disseram para despedir-se dele, aproveitar que ainda estava lúcido. Desde então, da reunião com os médicos, ali no hospital, ele fora para a capela. 
“Obrigado, Sil.” Ele falou.
“Pelo quê?”
“Por haver ficado o tempo todo comigo, enquanto eu rezava. Por não ter ficado falando que não adianta. Obrigado por estar comigo!”
"Você vai contar pra ele?”, Sil perguntou.
“Vou.”
“Então você realmente pensa que ele não voltará para casa?”
“Isso, só Deus Pode responder”. 
“Os médicos já disseram”, Sil devolveu-lhe.
Ele ficou em silêncio. Mas havia pensado: “Médicos não são Deus”. Preferiu não falar. Foi Sil quem falou novamente:
“Posso perguntar pelo que você estava rezando?”
“Por um milagre”. 
“Imaginei", Sil respondeu. 
Porém, Sil não imaginava sobre qual milagre ele estava falando.


Por Luís Augusto Menna Barreto

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Poesia de ver: "... perda!"

Poesia de ver: “… perda!”




Eu vi a flor, e fiquei triste por haver, ela, perdido a beleza…
— Eu não perdi nada — ela me disse. — Foste tu que demoraste, e perdeste o tempo de ver-me bela.

Por Luís Augusto Menna Barreto

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

UM CONTO DE FÉ (uma prévia)

UM CONTO DE FÉ
(uma pequena prévia - estreará em breve no blog “menna em palavras").

… foram anos de angústia… mas não pode mais adiar. Talvez não tivesse mais a chance de falar. E não queria guardar essa culpa. Não culpa pelo que era, pelo que sentia. Não queria guardar a culpa de não haver falado para seu pai. 
Não sabia como dizer. Então, disse da única maneira que conseguiu:
(…)
… sim, foram anos de angústia imaginando aquele momento. 
Mil vezes, pensou em como seria. Imaginou mil reações diferentes. Quando ainda morava com os pais, esteve preparado até mesmo para ser expulso de casa. Esperou a bofetada. Castigos. Esperou até mesmo ser negado. 
… mas, definitivamente, ele não estava preparado para a intensidade da reação que recebeu:
(…) 


Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 10 de dezembro de 2017

O TEATRO - parte 5 - final

O TEATRO
Parte 5 - final

A risada do Conrado meio que me marcou… Ele ria com vontade enquanto tudo ia dando errado. Daí quando a parede de papelão caiu por cima do palco, ele apontava o dedo e ria… e todo mundo tava rindo!
Naquele momento, tudo o que eu queria era simplesmente sumir.
Pensei na Luísa que também tava rindo, pensei no que ela ia pensar de mim depois. Pensei na vó, xingando e me dizendo “eu disse pra parar com essas bobagens e estudar”.  Pensei em com eu iria para a escola no outro dia e fiquei imaginando todos rindo de mim…
Eu lembro que tinha sido a melhor semana da minha vida! Todos os dias, depois da escola, eu, o Juca e a Luísa saíamos e íamos direto pra casa do Juca, arrumar nosso “teatro" e ensaiar a peça. A Luísa, era uma princesa! Ficava presa num castelo. Daí, o vô do Juca emprestou uma escada e colocamos um papelão de geladeira na frente da escada e ela subia lá atrás. Eu era o mocinho, o cavaleiro que tinha que salvar a princesa, e o Juca era o dragão malvado! 
Eu queria que aquela semana durasse pra sempre! Mas a Luísa e o Juca estavam loucos pra apresentar a peça! Quando o Conrado ficou sabendo, quis participar, mas não dava mais tempo. Daí, ele falou que o pai dele ia alugar o Clube pra ser a peça de teatro dele, e ficou falando mal da nossa peça. Só não falava mal quando a Luísa estava perto.
A Luísa e o Juca contaram pra todos os professores e para os nossos colegas. Eu por mim, não queria que fosse muita gente. Eu nem ia contar na escola. Tava muito nervoso! Mas eles estavam empolgados.
Marcamos para quinta-feira, depois da escola. O dia amanheceu nublado, e foi ficando mais quente, aquele vento quente que vem antes das chuvas. Achei que ia chover e falei pra Luísa e para o Juca, pra gente adiar. Mas eles estavam empolgados demais. À tarde, depois da escola, fomos correndo pra casa do Juca. Tava tudo pronto! Os pais da Luísa estavam lá. A mãe dela fez uma saia linda, verde, e um chapéu de princesa. O Juca fez uma máscara de papelão e colou o desenho de um dragão na frente. E tava usando um macacão velho do trabalho do vô dele, que a mãe dele tingiu de verde, pra ser o dragão. Eu tava com uma espada de madeira, e peguei um lençol pra ser minha capa! 
A nossa professora foi lá ver o teatro. E tinha mais uns cinco colegas. E o Sabão do Conrado!
Eu estava apavorado! 
Achava que alguma coisa poderia dar errado. E tudo deu errado!
A peça até começou direitinho, com o dragão prendendo a princesa no castelo. Daí, eu entrava depois! Eu já tropecei na entrada, e as pessoas riram. Fiquei mais nervoso. Olhei pra Luísa e ela segurou um risinho. O Juca eu não sei, porque tava de máscara de papelão na cara. Daí, eu fui dizer minha fala e engasguei. Mais risadas! O Juca improvisou, porque eu tava congelado:
— Rrrrrrrooooooooaaaaaaauuuuuuuuuu… você não vai passar por mim, cavaleiro! (daí, eu lembrei o que tinha que dizer).
Meio gaguejando, falei:
— … eu vou casar com a Princesa! 
Casar? Meu Deus, eu disse casar? Eu nem sabia se disse ou não e fiquei mais apavorado ainda! Por que eu não escolhi ser o dragão, pelo menos ia estar de máscara!
Mais risadas!
Eu não sabia o que fazer… daí levantei a espada, gritei e parti pra cima do dragão. Mas tropecei no lençol que era minha capa e caí. Nossa, o pessoal começou a rir muito! O Sabão batia os pés no chão e apontava pra mim, dando gargalhadas, e dizendo: “não sabia que quem salvava a princesa era o palhaço!”
Eu ouvia todo mundo rindo… tentei sair correndo, mas tropecei de novo, e bati na parede de papelão que caiu no palco. 
É, eu lembro: a risada do Conrado meio que me marcou…
E eu só pensava em sumir dali. Mas daí, eu olhei a Luísa e o Juca… eles não estavam brabos! Estavam rindo! A professora tava rindo. Os pais da Luísa estavam rindo. Um riso gostoso! 
O Juca resolveu continuar improvisando, e a Luísa também! E, daí, de propósito, faziam tudo dar errado e cada vez mais as pessoas riam. E depois de alguns minutos, a Luísa pegou minha mão e a do Juca e nós nos abaixamos agradecendo. E todo mundo aplaudiu. 
Naquele dia, eu descobri que jamais poderia ser um bom ator de teatro…


… mas eu descobri que seria, pra sempre, um ótimo palhaço!
E descobri que tem coisas, que passam de pai pra filho. 
Aprendi, no palco, que um palhaço chorando de emoção, emociona a plateia. E foi o que aconteceu, quando pela primeira vez, minha filha, aos 6 anos, subiu no palco com o rostinho todo colorido, fazendo palhaçadas. Estreou na matinê, com lotação de meia casa.
Acho que por isso, lembrei de tudo. Mas tem coisas, que parece que foi ontem…outras, foram mesmo! Ontem, depois que minha garotinha estreou, senti uma das maiores emoções da minha vida! 
Emoção parecida de quando Luísa disse “sim”, anos depois… 
— Sim, — ela disse — eu quero ir com você, no seu teatro, para nos apresentarmos juntos pro resto da vida!

Fim.

Por Luís Augusto Menna Barreto



Pós escrito (Inserções):

Eu não cheguei a falar… mas aconteceu uma coisa curiosa, no dia: depois da peça, onde tudo deu certo porque deu errado, a professora comentou: “Os R$ 2,00 do ingresso valeram a pena”.
Mas a gente não tinha cobrado ingresso! 
O mais legal, foi ver o Sabão reclamar: 
“R$ 2,00 ??? Eu paguei R$ 10,00!”  Quero meu troco.”
Mas a gente não cobrou ingresso e todos acreditaram, até o Sabão, quando a Luísa falou que a gente não cobrou ingresso mesmo!
Daí, outro dia, quando a gente voltava da escola, o Conrado viu dois garotos na sinaleira, lavando vidro dos carros e pedindo dinheiro, e falou: 
“Lá, olha! Aqueles dois que estavam na frente da casa do Juca, cobrando ingresso!”
Os garotos viram o Conrado e dispararam. Só deu pra ouvir um dos dois gritando:
“… corre, Pilha!!!


sábado, 2 de dezembro de 2017

O TEATRO - parte 4 - romance


O TEATRO
Parte 4 - romance

A maça-do-amor, foi uma das melhores que já comi! Descobri que comer maçã-do-amor com alguém que você gosta muito, é uma das melhores coisas da vida! E, no fim das contas, o dinheiro deu até pra comprar um saquinho de suco de groselha, que nós dividimos.  
Ficamos com a cara toda melada daquele caramelo vermelho da maçã, e ainda lambuzada do suco de groselha. Demos muitas risadas. E, no fim das contas, eu estava muito mais feliz. E eu sabia que tinha feito a escolha certa! 
Com o dinheiro do Juca na mão, eu caminhei até a entrada do teatro. Da porta, dava pra ver o Conrado sentado ao lado da Luísa. Ele tinha acabado o algodão doce dele e pegava pedaços do da Luísa que ainda tava quase inteiro.
Foi aí que eu decidi!
No dia seguinte, eu tive uma idéia! E, é claro, chamei o Juca! Fomos até o armazém  São Luís e dessa vez, não foi pra vender nada. Achamos lá atrás umas caixas de papelão. Depois, fomos até as Lojas Colombo e conseguimos mais caixas. Tivemos muita sorte, conseguimos duas caixas de geladeira! Passamos a tarde toda arrumando. Mas, perto das quatro da tarde tava quase pronto. Atrás do galpãozinho onde o vô do Juca fazia seus trabalhos em ferro, nós montamos o nosso teatro!
Só faltava a gente conseguir inventar uma peça e convencer a Luísa a assistir!
Eu sabia que não ia conseguir arrumar dinheiro pra ir no teatro da praça todos os dias. E muito menos dinheiro pra comprar doces pra Luísa. Então, pensei: e se a gente tiver o nosso teatro? Daí, do jeito que a Luísa gostou do teatro, ela vai querer assistir o nosso também, e eu vou poder olhar direto pra ela, quando eu estiver atuando!
O problema agora era que a gente já tinha o nosso teatro. A mãe do Juca até emprestou um lençol mais velho pra ser a cortina! Mas faltava muita coisa: uma peça, mais atores… e convencer a Luísa a assistir! 
O Juca fez um cartaz com um pedaço de papelão e escreveu com carvão: “Tiatro Irmãos Bróder - Vem pra istréia”
— Juca, ficou muito legal!
—Ei, olha lá! A Luísa tá vindo! 
— Ai meu Deus! E agora, Juca? Esconde aí!
O Juca colocou o cartaz atrás dele. 
— Oi! 
Ai ai ai… ela me disse “oi”. E agora? 
— Oi, Luísa! — Foi o Juca que disse!
— Eu senti falta de você no teatro, ontem!
Quase desmaiei! Ela sentiu minha falta!
— Eu… eu…
— A gente não entrou — Disse o Juca, mais uma vez! — Nós ficamos planejando nosso teatro! Olha! — e ele mostrou o cartaz!
Os olhinhos da Luísa brilharam! 
— Deixa eu participar?
Ela disse isso dando uns pulinhos…! 
— Claro! — O Juca de novo, me salvando, porque eu nem conseguia falar!
— Você tá engraçado — ela disse pro Juca — com a boca vermelha!
— Ah, foi que comemos maçã-do-amor, ontem! Ainda não saiu.
— Eu adoro maçã-do-amor!
E ela disse isso olhando pra mim…!

Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 26 de novembro de 2017

O TEATRO - parte 3 - suspense

O TEATRO
Parte 3 - suspense

O cartaz do terceiro dia, dizia “suspense”. Já não tava tão cheio… havia algumas cadeiras vazias… e ficou muito difícil convencer a vó a me deixar ir. Eu fiz toda a tarefa da escola, comi toda a comida do prato, não arrotei na mesa, não fiquei correndo pela casa, e até arrumei minha cama (a vó foi lá e arrumou de novo, quando eu não tava vendo, mas ela nem me disse nada). Depois disso tudo, ela deixou eu ir. Mas disse que não ia me dar dinheiro, porque eu já tinha ido no circo dois dias, e que não ia ter nada diferente.
Eu sabia que não adiantava insistir. E nem ia adiantar explicar que teatro era diferente de circo. Mas eu tinha que conseguir o dinheiro!
Daí eu fui correndo pro Juca, porque às vezes a gente conseguia dinheiro vendendo garrafas pras bancas de cachaça da rodoviária e vendendo jornal velho pro armazém São Luiz. O problema era que eu e o Juca já tínhamos catado todo o jornal velho da vizinhança pra vender na semana passada, ninguém tinha mais jornal velho guardado pra dar pra gente. E garrafa é mais difícil, porque o pessoal usa pra trocar no supermercado quando compra garrafa cheia.
— Vamos cortar grama! 
— Como? A gente nunca cortou, Juca. E a gente nem tem máquina.
— É fácil. E o vô tem uma máquina daquelas de empurrar, sem motor.
Daí, nós fomos. Só carregar a máquina em cima do carrinho de mão de madeira que o Juca arrumou com o pai dele na construção que o pai dele tava trabalhando já era pesado e um trabalhão. Quando conseguimos finalmente, um quintal pra cortar, antes da metade, a gente já tava morto de cansado e a grama tava horrível. O dono chegou e brigou com a gente. Passamos toda a tarde tentando terminar e nem ficou muito bom. Daí o dono da casa só nos pagou a metade. Mas dava justamente as duas entradas, porque a gente só paga meia entrada!
Daí, quando a gente terminou, devolveu a máquina e o carrinho de mão, só deu tempo de tomar banho correndo, e ir pra praça. Eu queria estar lá quando a Luísa chegasse. 
E eu vi quando ela apareceu vindo por trás da igreja, na direção da praça. Ela vinha pulando na frente da mãe dela. Eu meio que me escondi, porque queria ficar só olhando e entrar assim que ela entrasse na parte do teatro. Mas daí, lá veio o gosmento do Conrado e falou com ela e a mãe dela, e a Luísa saiu com ele pra barraca de algodão doce. E eu vi o Conrado pagando um pra Luísa. 
— Ihhh. Olha lá o “Sabão”. E agora? O que você vai fazer?
— Não sei, Juca… não tenho dinheiro pra comprar um doce pra ela como o metido do "Sabão". 
— Tem sim…!
O Juca estendeu a mão dele sorrindo, com o dinheiro do ingresso dele.
—… e eu nem sei o que é “suspense”, mesmo! Amanhã você me conta como foi. Vai lá recuperar sua garota.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 18 de novembro de 2017

O TEATRO - parte 2 - drama

O TEATRO
Parte 2 - drama

— … óh!, Alberto… por que você nunca está junto quando quero você ao meu lado? — E Carolina afastou-se com um dramático movimento encostando o punho na testa, girando sobre si mesma e antes de cair, fora amparada por Frederico.
— Carolina! — Gritou Frederico, e, depois, repetiu mais baixo: — Carolina… — Pegou-a nos braços, olhou desafiadoramente para Alberto: — Desapareça, covarde! — Alberto deixou cair os ombros, baixou a cabeça e caminhou para fora do palco, sumindo por entre panos que traziam o desenho de uma estrada. 
Primeiro, silêncio. Em seguida, aplausos. Muitos aplausos.
Fechou-se a cortina. Panos vermelhos apareceram de um lado e de outro, movendo-se em direção ao centro. 
O teatro foi na praça, na frente da igreja. A missa tava cheia. Terminou a missa, e todo mundo parece que foi no teatro. O teatro tava mais cheio que a missa. Lá no lugar em que a gente joga bola na praça, cercaram com uma lona. Daí, tinham aquelas cadeiras de metal, com propaganda de cerveja. Muitas mesmo, tudo em fila, bem lindo. Na frente das cadeiras, o caminhãozinho, todo enfeitado. Em cima dizia “Paris” e no fundo, tinha uma torre pintada, parecida com a torre da antena da repetidora da TV. Na caçamba, que era o palco, dois bancos iguais aos da praça. 
E toda a peça foi ali em cima do caminhãozinho.
Eu não era muito ligado nessas coisas de teatro. Na verdade, eu nunca tinha visto um. Nunca tinha assistido. Pra mim, pareceu gente falando de um jeito que a gente não fala na rua. Porque mexiam muito os braços, e pra qualquer coisa falavam “óh”, “ah”… e andavam de um lado pro outro. As pessoas que eu vejo conversando, ficam paradas, não ficam andando assim, como os atores. E eu não sabia direito quando era pra rir, ou pra ficar com “cara de óóóóhhh”… mas daí, eu ficava cuidando a Luísa. Ela não parou quieta! Ela ria, ia pra frente na cadeira, quase levantava, depois sentava, ficava assustada… e fazia “cara de óóóhhh”. 
Eu lembro que no cartaz, lá na entrada dizia “Grande Drama”. Eu não sabia o que era “drama”. Quando fui perguntar pra vó, ela perguntou se eu já tinha feito a lição de casa da escola. Daí eu disse que ainda não, e ela respondeu que eu ia aprender o que era drama se eu não fizesse a lição naquela mesma hora! A vó é meio braba. Preferi não aprender com ela o que era drama. 
Quando eu tava indo, encontrei o Conrado. Ele é muito metido. Eu e o Juca apelidamos o Conrado de “Sabão”… porque ele acha que sabe tudo! Daí, perguntei pra ele o que era drama. E ele me disse que era quando a gente via alguma coisa e ficava “óóóhhh”. Eu acho é que ele nem sabia nada. Mas eu queria descobrir, porque tava com medo que a Luísa me perguntasse e eu não soubesse dizer. Mas ela não perguntou. No fim, passou a peça inteira, e eu não descobri o que era drama. Mas seja lá o que for, eu adorei. Porque cada vez que todo mundo fazia “óóóóhhh”, a Luísa segurava no meu braço e apertava. Ela nem olhava pra mim, acho que ela nem sabia que tava apertando meu braço… mas eu sabia uma coisa: não queria que a peça terminasse… E drama, pra mim, podia ser “óóóóhhh pro resto da vida…


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 11 de novembro de 2017

O TEATRO - parte 1

O TEATRO
Parte 1

… foi de repente… 
Jamais vou esquecer. Faz um tempo, já. Nem sei quanto. Sempre que a gente lembra que era menor, parece que o tempo some… e tem coisas que parece que foi ontem. Outras, foram mesmo.
Eu estava com a Luísa, e ela estava me mostrando umas figurinhas novas do álbum. Eu nem sei direito que figurinhas eram ou como eram as figurinhas. Eu lembro dos olhos da Luísa… E daquele sorriso de lábios finos… Ah!, mas não era isso que eu queria contar. 
Eu estava ali, com a Luísa e, de repente, virou na esquina, uma Kombi toda colorida, cheia de cartaz colado. E tinha auto-falantes:
… venham ver esta incrível história de amor! Frederico terá coragem para largar tudo e ir com Carolina? E Alberto, que secretamente nutre seu amor, abandonaria sua mãe doente para disputar com Frederico o amor de Carolina?…
E atrás da Kombi, veio uma espécie de caminhãozinho, todo velho e barulhento, e em cima do caminhão quatro atores iam e voltavam, quase perdendo o equilíbrio, ora a moça abraçava um, ora, repudiava outro, ora dois deles parece que pegavam em facas pra lutar… e logo a Kombi e o caminhãozinho passaram por nós, deixando só fumaça e aquele resto de barulho, que parece poeira de ouvir…
Eu tava louco que passassem, porque eu queria conversar com a Luísa. Eles estavam me atrapalhando, porque não é sempre que eu conseguia falar com a Luísa sem o grudento do Conrado se exibindo pra ela. 
Daí, quando passaram e a poeira de barulho e a fumaça foram ficando menores, a Luísa estava diferente: parecia que estava e que não estava ali ao mesmo tempo. Umas figurinhas até caíram no chão. Eu comecei a juntar todinhas pra ela e ela continuava ali, paradinha. Eu achei que deveria até chamar ela, fazer algo pra ela se mexer de novo. Mas ela tinha paralisado com um sorriso tão lindo, que já não sabia se queria que ela se mexesse, ou ficasse ali, paradinha e sorrindo daquele jeito pra sempre. Porque eu ficaria pra sempre olhando…
… hoje à noite, na praça, depois da missa, não percam a estréia do Grand Teatro Ranulfo Penha! Toda noite, uma peça diferente, que vai fazer você”. Era o restinho da poeira do barulho…
Quanto eu levantei com as figurinhas que caíram ela se mexeu, mas os olhinhos ainda acompanhavam a Kombi… daí, quando a Kombi e o caminhãozinho viraram a outra esquina, ela olhou pra mim, e me disse segurando meu pulso! 
— Eu quero ir!
Ela segurou meu pulso!


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pensamentos perdidos - ... fotografia!

Pensamentos perdidos - … fotografia!

Revirando as gavetas, onde tanto de mim deixei, achei essa foto da minha juventude… 
É bom ver fotos antigas… fazem-nos lembrar como éramos…
Essa foto, é como eu era: 
… porque sempre me soube em palavras!




“Um rock’n'roll
na mesa da avenida
a cerveja
o futebol, a vida
não é política…
é a embriaguez da poesia
n’uma noite quase dia
da mesa de um bar
… a velha turma
não tão velha
belo par.

verão-93”  

Do tempo em que eu ainda usava o velho caderno e uma caneta “pilot”…
(Tu ainda tens tuas canetas…?)


Por Luís Augusto Menna Barreto

domingo, 22 de outubro de 2017

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 2

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 2

Coisa difícil é não arregalar os olhos!
Alguém aí já parou pra pensar nisso? A gente tá ali, tranquilo, ou eventualmente concentrado em algo, daí vem alguém conta uma coisa inesperada, baixinho, bem no ouvido… e quero ver conseguir não arregalar os olhos. Na verdade, a gente nem pensa: vem a notícia e parece que no caminho do ouvido pro cérebro, ela passa pelos olhos e vai levantando pálpebras e sobrancelha, de um jeito tão ligeiro, que chega a enrugar a testa!
E outra coisa: por mais que seja um movimento relativamente pequeno e absolutamente silencioso, parece que tem um “imã de olhares”… porque é a gente arregalar os olhos, e alguém nota! 
Pois quando a Dona Boneca veio quietinha no meu ouvido perguntar, sussurrando “Doutor… mas cadê o Cara de Cuspe?”, lá foi: olhos arregalados, testa enrugada, e aquele arrepio que antecede um palavrão.
Consegui segurar o “hein?”, mas não adiantou: parece até que meus olhos arregalados fizeram barulho! Quando vi que todos estavam olhando para meus olhos arregalados, fiquei arrependido de segurar o “hein?”, porque estava fazendo como que um “bolo" na minha garganta!
E, de repente, cheguei a desconfiar que, em vez de sussurrado, a Dona Boneca tivesse gritado no meu ouvido, porque o pessoal começou a se olhar no salão do júri, e aquele burburinho de gente falando com o vizinho ao lado, atrás, na frente, tomou conta do salão.
Os dois policiais se olharam, a advogada levantou os ombros, era um tal de um-olha-pro-outro-que-olha-pro-um, e balança a cabeça, e sobe os ombros… 
O promotor estava branco. Suava bicas e com aquela cara de “não é possível… de novo?!” Foi levado pelo assessor e pelo Goela para o seu gabinete e a Dona Boneca já providenciou um copo de água com açúcar, que tudo cura!
Até existe situações em que é permitido fazer o júri sem o réu. Mas de jeito nenhum se pensava nisso naquele momento. Depois de toda a expectativa, depois do envolvimento de toda a cidade, ninguém cogitava em um júri sem o réu.
O efetivo da Polícia Militar saiu em busca, o Branco, carcereiro, acionou o delegado, que até liberou o Brédi-Piti, que tava preso, pra ajudar na busca pelo Cara de Cuspe. O burburinho no salão do júri estava impossível de conter. Mas com os minutos, que viraram "meias horas”, que virou hora, os ânimos no salão foram arrefecendo, e o salão começando a esvaziar, com as pessoas preferindo o vento que vinha do rio, concentrando-se na praça na frente do fórum.
Pois não levou nem meia hora pra começarem a surgir as mais variadas notícias da morte do Cara de Cuspe… ou “das mortes”:
“Ouvi dizer que se jogou na baía, com uma pedra no pescoço”, comentavam no bar do Seu Nonô.
“O Fagulha disse que viu ele indo pro mato, só de bermuda, sem sandália nem nada, dizendo que ia pegar a cobra grande à unha”, alguém falou na praça!
“… comeu pão com chumbinho”, alguém disse na porta do fórum!
“… pois eu falei com ele e ele disse que tinha se matado comendo manga com leite”, disse o Manobra, já com um copo na mão, no açougue do Retalho.
E por aí, iam os comentários.
Rebuliço deu mesmo, quando a mãe do Cara de Cuspe apareceu com uma sombrinha em punho e tom de ameaça, procurando pelo promotor! 
“Cadê aquele excomungado que matou meu filho?… o que vai ser de mim sem meu Geodésio?! A culpa é desse promotor, que meu Geodésiozinho levou farelo, Cava-Cova do cão!”
A rádio da cidade (aquela com caixa de som nos postes, e que liga todo dia das 16h até 19h) estava transmitindo em jornada excepcional às 10 horas da manhã e, claro, contribuindo para aumentar a agitação. 
Pois não deu muito mais tempo e atraca um “pô-pô-pô”* de onde sai um tranquilo Cara de Cuspe, com uma vara cheia de peixes! E tava formado novamente o rebuliço! 
Rapidinho anunciaram na rádio que o finado Cara de Cuspe ressuscitou pra enfrentar o Cava-Cova na justiça. A mãe do Cara de Cuspe teve que ser atendida e levada pra unidade de saúde, ao ver o filho voltar dos mortos! 
Por onde ia passando, tinha gente fazendo o sinal da cruz! Os policiais militares iam abrindo caminho no meio do povo e conduzindo o Cara de Cuspe para o salão do júri, do jeito que ele tava, com cheiro de peixe e tudo, pra não deixar escapar de novo: 
“Saiam da frente! Ninguém toca no morto, que ele tem que ir pro júri”, iam gritando!
Os lugares rapidinho foram preenchidos novamente, toga recolocada, ventiladores ligados, gente nas janelas… tinha jurado que nem olhava para o Cara de Cuspe, convencido que era visagem, não parava de se benzer e achava que seria sacrilégio condenar um morto!
De qualquer forma, entrei de novo no salão, respirando aliviado. Conferi: o réu tava lá, de bermuda, camiseta, chinelo de dedo e cheirando a peixe! 
Quando pensei em recomeçar, veio discretamente, a Dona Boneca, abaixou-se do meu lado e perguntou baixinho…
“Doutor…”
Frio na barriga.
“… onde está…”
Arregalei os olhos antes de terminar a pergunta.
“… o promotor?”
Não segurei: 
“HEIN?!”


É… tem coisas que a gente não explica. 
O promotor anterior fez jus ao apelido até o final: era o Cava Cova e, enquanto esteve lá, ninguém foi julgado no tribunal do júri. Pois aconteceu que cavou a sua própria cova. Infartou de toga, no seu gabinete, quando o assessor falou que "o Cara de Cuspe  desmorreu pra ser julgado."
Depois daquele dia, não deu muito tempo e conseguimos realizar vários júris. Inclusive o do Cara de Cuspe, que foi absolvido, principalmente depois que a vítima, o Fila Bóia, deu o depoimento de que estava na pescaria junto com o Cara de Cuspe, e que a briga já tinha ficado pra trás. 
Com a morte do promotor, o pessoal da cidade acreditou que terminou a maldição. 
Daí, tudo voltou ao normal: começaram a se matar de novo! 


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 14 de outubro de 2017

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 1

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 1

Meus dias de “Odorico Paraguaçu” Haviam terminado!
Assim como o personagem da novela “O Bem Amado” que, sendo prefeito de Sucupira queria inaugurar o cemitério e ninguém morria, eu também estava há quase dois anos querendo inaugurar o salão do Tribunal do Júri sem que ninguém quisesse matar ninguém. O promotor estava mais ansioso do que eu, porque ele estava na comarca há quase dez anos e louco pra realizar um júri… e ninguém matava ninguém!
Reza o folclore popular que o promotor era apelidado à boca pequena, de Cava-Cova, porque nesses dez anos que ele estava lá, por três vezes ele denunciou alguém por homicídio… e os três morreram antes do júri. O Fatiado que matou um antigo desafeto que o havia legado o apelido, depois de cortá-lo várias vezes com um terçado, morreu no mato, dizem que picado por cobra. E dizem que havia matado seu desafeto menos pelos cortes que levou na briga anterior, e sim porque não gostou do apelido que recebeu por ter sido cortado. O Espoca-Bota morreu de cirrose um mês antes do júri. Ele havia matado o dono do bar do barco em que viajava, quando este disse que não venderia mais cerveja pra ele antes que ele pagasse o que já havia bebido. Com esses dois, o promotor ganhou o apelido de Cava-Cova. E espalhou-se a notícia de que se ele denunciava, o caboclo morria. Isso evidentemente contribuiu para evitar muitos homicídios. A população acreditava que o fato de ser denunciado, já era a pena de morte: o caboclo morreria antes do júri! O terceiro, apenas confirmou a fama do promotor: o Medida, assim que soube que tinha sido denunciado, resolveu abreviar a angustia, já que acreditava que, tendo sido denunciado a morte era certa, e se jogou de cima de uma árvore, com uma corda amarrada no pescoço. Dizem que queria enforcar-se, mas calculou errado a medida da corda e morreu mesmo foi da queda, levando a corda frouxa no pescoço. Ganhou o apelido de Medida depois da morte. Antes, era Sagüi.
Pois eu também estava ansioso.
Primeiro, eu pensava numa inauguração pomposa, em grande estilo, um homicídio desses de televisão, com cobertura da imprensa nacional, quem sabe uma notinha no The New York Times, ou no Le Monde… depois fui meio que perdendo as esperanças e pensei em um homicídio que fosse notícia na cidade, ao menos, com o pessoal da rádio local (aquela com caixas de som penduradas em postes de luz) gastando horas de programação com especulações…
… mas aqui numa das menores cidades do Marajó, depois de dois anos sem nem notícia de homicídio, acabei me contentando com a denúncia que o Promotor ofereceu afirmando que o  Cara de Cuspe tentou matar o Fila-Bóia.
Os motivos, o início não se sabia, mas a contenda terminou pelo Fila-Bóia sendo arremessado no leito do rio pelo Cara de Cuspe. Até aí, nenhum problema haveria, não fosse por dois motivos: o Fila-Bóia não caiu na água, mas por cima de um casco* que estava atracado ali. A queda foi de três metros, e o Fila-Bóia demorou um pouco a levantar. Quando se equilibrou no casco, nitidamente tonto, pulou no rio… mas a água estava pequena** e bateu a cabeça no fundo, tendo sido levado às pressas para a unidade de saúde.
Foi então que o promotor em vias de aposentar-se (e queria um júri mais que eu), decidiu por denunciar o Cara de Cuspe que empurrou o Fila-Bóia “com o nítido dolo de ceifar sua vida por meio cruel, empurrando covardemente a vítima para o abismo de modo que, caindo, desencadeou a série de nefastos eventos que colocaram em risco a sua vida, agindo de modo que impossibilitou a defesa do sacrificado, não obtendo o resultado morte por motivos alheios a sua vontade: cabeça dura da vítima”. Arrolou como testemunha, a Dona “Falo-Nada” que ganhou o apelido, porque normalmente começa a conversa com “ulha, nem falo nada, mana…"
O fato é que o caso ganhou um tamanho tal, que toda a cidade ficou ansiosa pelo “júri”, mesmo que quase ninguém soubesse o que era isso, ou como funcionava. 
Teve o dia que cheguei no fórum e tava uma agitação só: além da Maria Sem Sossego gritando "justiiiiiiiiiiiiiiiiça" na frente do fórum, segurando um cartaz onde estava escrito “Canhoto não pagou a pensão da Meia-Vaga”, havia uma fila imensa na frente fórum. 
Fui perguntar pro Goela o que era aquilo e ele disse que era tudo gente querendo ser jurado. A lista de jurados para o tribunal do júri é sempre feita no ano anterior, e mesmo sem nunca ter havido um júri por ali, a lista era feita todo o ano. Mas pelo jeito a população não sabia disso. Ainda assim, eu estranhei o número de pessoas querendo ser jurado, porque normalmente acontece o contrário: as pessoas querem é se livrar do encargo. Mas o Goela explicou:
“É que tão falando que tem almoço e lanche pra quem for jurado, doutor”! 
Esse era o clima na cidade, quando o júri foi marcado. Acho que nunca um processo de homicídio tinha corrido tão rápido. Mas o fato é que nem o promotor nem a advogada da prefeitura (única na cidade e que fazia as vezes da Defensoria Pública que naquele tempo não havia por lá) recorreram de nada e o caso foi a julgamento rapidinho.
O Cara de Cuspe não estava preso. No dia do fato foi levado em flagrante para a delegacia e foi atendido pelo Brédi-Piti, o preso que ajuda o delegado. Mas o Cara de Cuspe confessou que havia empurrado o Fila-Bóia no rio. Como o Delegado achou que era só um caso de pequenas causas, afinal, empurrar alguém no rio não era lá essas coisas, o Brédi-Piti fez o TCO*** e o Cara de Cuspe ficou solto. 
Surpresa foi quando o promotor denunciou o Cara de Cuspe. Mas nem o promotor pediu a prisão, nem eu decretei. O Cara de Cuspe foi em todas as audiências e sempre assumiu que empurrou o Fila-Bóia. O motivo é que ele nunca falou.
No bar do S. Nonô e no açougue do Retalho, as pessoas discutiam se o “Cara de Cuspe” deveria ou não ser condenado.
“O Deitado já até furou o Fila-Bóia e não deu nada! Que negócio é esse de júri, já?”
“Diz que pode ser preso pra sempre!”
“Acho que o Cara de Cuspe vai levar farelo. A mãe dele tá despombalecida na cama!”
E por aí, iam os comentários.
O dia do júri virou evento! Teve até foguetório pela manhã, tinha ambulante vendendo lanche na porta do fórum e a criançada toda na praça querendo ver alguma coisa. Sim, porque alguma coisa deveria estar acontecendo, né, e criança quer sempre ver e pronto!”
Daí que entrei no salão do júri, e senti cheiro de naftalina. Não, não era do salão… era da minha toga, que eu não usava desde a cerimônia em que tomei posse como juiz, e já fazia quase quatro anos, naquela época.
E tava tudo bonito, as pessoas todas arrumadas.
O Goela tava até com gel no cabelo, D. Boneca que cuida da copa do forum tava com vestido novo, o efetivo da polícia (dois policiais militares) com uniforme limpo. 
Na primeira fila, o prefeito, a primeira dama e (dizem!), na outra fileira, estavam a segunda e a terceira dama também! Os vereadores todos, e as figuras mais importantes da cidade. Os ventiladores de teto do salão não davam conta e as janelas estavam abertas com a criançada tentando espiar, disputando lugar com alguns curiosos.
O promotor chegou já suando na toga, todo sério, e com vários livros embaixo do braço e mais o assessor com duas outras sacolas de livros. A advogada da prefeitura entrou discreta e trazendo a toga em um cabide. Vestiu lá mesmo. 
Todo mundo por ali, aquele burburinho imenso, e começamos os trabalhos.
Pra quem não sabe a primeira coisa que acontece numa sessão é o sorteio dos sete jurados que comporão o que se chama de Conselho de Sentença (aqueles que, no fim, votam “sim” ou “não" para dizer se o réu é culpado ou inocente). Pois parecia bingo. Cada um torcendo pra ser sorteado. E, quando saía um nome, a pessoa era aplaudida como se tivesse ganhado uma rifa! 
Formado o conselho de sentença pelos sete sorteados, tomado o compromisso, foi lida a denúncia e a minha decisão que determinou pela realização do júri.
Confesso que foi emocionante! Lembro, ainda, de cada detalhe! 
… inclusive de um, que quase passou despercebido…: 
Onde, afinal, estava o réu?

(Continua…)

*“Cascos” são pequenas embarcações semelhantes a uma canoa, que pode ser movida a remos ou a um pequenino motor portátil acoplado na parte traseira, apelidado de “rabudinho”.
**Como o rio é diretamente influenciado pelas marés oceânicas, o povo daqui fala que a água “tá grande” quando a maré está alta, ou seja, quando o rio está cheio, e fala que a "água tá pequena” quando está raso.
*** “T.C.O. (abreviatura de “Termo Circunstanciado de Ocorrência) é o nome do expediente feito nas delegacias para casos de delitos de menor potencial ofensivo, em que o apontado agressor assume o compromisso de comparecer em juízo quando for chamado, e é liberado sem prisão em flagrante nem inquérito.


Por Luís Augusto Menna Barreto