sábado, 14 de outubro de 2017

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 1

O Fila-Bóia, o Cara de Cuspe e o Júri - parte 1

Meus dias de “Odorico Paraguaçu” Haviam terminado!
Assim como o personagem da novela “O Bem Amado” que, sendo prefeito de Sucupira queria inaugurar o cemitério e ninguém morria, eu também estava há quase dois anos querendo inaugurar o salão do Tribunal do Júri sem que ninguém quisesse matar ninguém. O promotor estava mais ansioso do que eu, porque ele estava na comarca há quase dez anos e louco pra realizar um júri… e ninguém matava ninguém!
Reza o folclore popular que o promotor era apelidado à boca pequena, de Cava-Cova, porque nesses dez anos que ele estava lá, por três vezes ele denunciou alguém por homicídio… e os três morreram antes do júri. O Fatiado que matou um antigo desafeto que o havia legado o apelido, depois de cortá-lo várias vezes com um terçado, morreu no mato, dizem que picado por cobra. E dizem que havia matado seu desafeto menos pelos cortes que levou na briga anterior, e sim porque não gostou do apelido que recebeu por ter sido cortado. O Espoca-Bota morreu de cirrose um mês antes do júri. Ele havia matado o dono do bar do barco em que viajava, quando este disse que não venderia mais cerveja pra ele antes que ele pagasse o que já havia bebido. Com esses dois, o promotor ganhou o apelido de Cava-Cova. E espalhou-se a notícia de que se ele denunciava, o caboclo morria. Isso evidentemente contribuiu para evitar muitos homicídios. A população acreditava que o fato de ser denunciado, já era a pena de morte: o caboclo morreria antes do júri! O terceiro, apenas confirmou a fama do promotor: o Medida, assim que soube que tinha sido denunciado, resolveu abreviar a angustia, já que acreditava que, tendo sido denunciado a morte era certa, e se jogou de cima de uma árvore, com uma corda amarrada no pescoço. Dizem que queria enforcar-se, mas calculou errado a medida da corda e morreu mesmo foi da queda, levando a corda frouxa no pescoço. Ganhou o apelido de Medida depois da morte. Antes, era Sagüi.
Pois eu também estava ansioso.
Primeiro, eu pensava numa inauguração pomposa, em grande estilo, um homicídio desses de televisão, com cobertura da imprensa nacional, quem sabe uma notinha no The New York Times, ou no Le Monde… depois fui meio que perdendo as esperanças e pensei em um homicídio que fosse notícia na cidade, ao menos, com o pessoal da rádio local (aquela com caixas de som penduradas em postes de luz) gastando horas de programação com especulações…
… mas aqui numa das menores cidades do Marajó, depois de dois anos sem nem notícia de homicídio, acabei me contentando com a denúncia que o Promotor ofereceu afirmando que o  Cara de Cuspe tentou matar o Fila-Bóia.
Os motivos, o início não se sabia, mas a contenda terminou pelo Fila-Bóia sendo arremessado no leito do rio pelo Cara de Cuspe. Até aí, nenhum problema haveria, não fosse por dois motivos: o Fila-Bóia não caiu na água, mas por cima de um casco* que estava atracado ali. A queda foi de três metros, e o Fila-Bóia demorou um pouco a levantar. Quando se equilibrou no casco, nitidamente tonto, pulou no rio… mas a água estava pequena** e bateu a cabeça no fundo, tendo sido levado às pressas para a unidade de saúde.
Foi então que o promotor em vias de aposentar-se (e queria um júri mais que eu), decidiu por denunciar o Cara de Cuspe que empurrou o Fila-Bóia “com o nítido dolo de ceifar sua vida por meio cruel, empurrando covardemente a vítima para o abismo de modo que, caindo, desencadeou a série de nefastos eventos que colocaram em risco a sua vida, agindo de modo que impossibilitou a defesa do sacrificado, não obtendo o resultado morte por motivos alheios a sua vontade: cabeça dura da vítima”. Arrolou como testemunha, a Dona “Falo-Nada” que ganhou o apelido, porque normalmente começa a conversa com “ulha, nem falo nada, mana…"
O fato é que o caso ganhou um tamanho tal, que toda a cidade ficou ansiosa pelo “júri”, mesmo que quase ninguém soubesse o que era isso, ou como funcionava. 
Teve o dia que cheguei no fórum e tava uma agitação só: além da Maria Sem Sossego gritando "justiiiiiiiiiiiiiiiiça" na frente do fórum, segurando um cartaz onde estava escrito “Canhoto não pagou a pensão da Meia-Vaga”, havia uma fila imensa na frente fórum. 
Fui perguntar pro Goela o que era aquilo e ele disse que era tudo gente querendo ser jurado. A lista de jurados para o tribunal do júri é sempre feita no ano anterior, e mesmo sem nunca ter havido um júri por ali, a lista era feita todo o ano. Mas pelo jeito a população não sabia disso. Ainda assim, eu estranhei o número de pessoas querendo ser jurado, porque normalmente acontece o contrário: as pessoas querem é se livrar do encargo. Mas o Goela explicou:
“É que tão falando que tem almoço e lanche pra quem for jurado, doutor”! 
Esse era o clima na cidade, quando o júri foi marcado. Acho que nunca um processo de homicídio tinha corrido tão rápido. Mas o fato é que nem o promotor nem a advogada da prefeitura (única na cidade e que fazia as vezes da Defensoria Pública que naquele tempo não havia por lá) recorreram de nada e o caso foi a julgamento rapidinho.
O Cara de Cuspe não estava preso. No dia do fato foi levado em flagrante para a delegacia e foi atendido pelo Brédi-Piti, o preso que ajuda o delegado. Mas o Cara de Cuspe confessou que havia empurrado o Fila-Bóia no rio. Como o Delegado achou que era só um caso de pequenas causas, afinal, empurrar alguém no rio não era lá essas coisas, o Brédi-Piti fez o TCO*** e o Cara de Cuspe ficou solto. 
Surpresa foi quando o promotor denunciou o Cara de Cuspe. Mas nem o promotor pediu a prisão, nem eu decretei. O Cara de Cuspe foi em todas as audiências e sempre assumiu que empurrou o Fila-Bóia. O motivo é que ele nunca falou.
No bar do S. Nonô e no açougue do Retalho, as pessoas discutiam se o “Cara de Cuspe” deveria ou não ser condenado.
“O Deitado já até furou o Fila-Bóia e não deu nada! Que negócio é esse de júri, já?”
“Diz que pode ser preso pra sempre!”
“Acho que o Cara de Cuspe vai levar farelo. A mãe dele tá despombalecida na cama!”
E por aí, iam os comentários.
O dia do júri virou evento! Teve até foguetório pela manhã, tinha ambulante vendendo lanche na porta do fórum e a criançada toda na praça querendo ver alguma coisa. Sim, porque alguma coisa deveria estar acontecendo, né, e criança quer sempre ver e pronto!”
Daí que entrei no salão do júri, e senti cheiro de naftalina. Não, não era do salão… era da minha toga, que eu não usava desde a cerimônia em que tomei posse como juiz, e já fazia quase quatro anos, naquela época.
E tava tudo bonito, as pessoas todas arrumadas.
O Goela tava até com gel no cabelo, D. Boneca que cuida da copa do forum tava com vestido novo, o efetivo da polícia (dois policiais militares) com uniforme limpo. 
Na primeira fila, o prefeito, a primeira dama e (dizem!), na outra fileira, estavam a segunda e a terceira dama também! Os vereadores todos, e as figuras mais importantes da cidade. Os ventiladores de teto do salão não davam conta e as janelas estavam abertas com a criançada tentando espiar, disputando lugar com alguns curiosos.
O promotor chegou já suando na toga, todo sério, e com vários livros embaixo do braço e mais o assessor com duas outras sacolas de livros. A advogada da prefeitura entrou discreta e trazendo a toga em um cabide. Vestiu lá mesmo. 
Todo mundo por ali, aquele burburinho imenso, e começamos os trabalhos.
Pra quem não sabe a primeira coisa que acontece numa sessão é o sorteio dos sete jurados que comporão o que se chama de Conselho de Sentença (aqueles que, no fim, votam “sim” ou “não" para dizer se o réu é culpado ou inocente). Pois parecia bingo. Cada um torcendo pra ser sorteado. E, quando saía um nome, a pessoa era aplaudida como se tivesse ganhado uma rifa! 
Formado o conselho de sentença pelos sete sorteados, tomado o compromisso, foi lida a denúncia e a minha decisão que determinou pela realização do júri.
Confesso que foi emocionante! Lembro, ainda, de cada detalhe! 
… inclusive de um, que quase passou despercebido…: 
Onde, afinal, estava o réu?

(Continua…)

*“Cascos” são pequenas embarcações semelhantes a uma canoa, que pode ser movida a remos ou a um pequenino motor portátil acoplado na parte traseira, apelidado de “rabudinho”.
**Como o rio é diretamente influenciado pelas marés oceânicas, o povo daqui fala que a água “tá grande” quando a maré está alta, ou seja, quando o rio está cheio, e fala que a "água tá pequena” quando está raso.
*** “T.C.O. (abreviatura de “Termo Circunstanciado de Ocorrência) é o nome do expediente feito nas delegacias para casos de delitos de menor potencial ofensivo, em que o apontado agressor assume o compromisso de comparecer em juízo quando for chamado, e é liberado sem prisão em flagrante nem inquérito.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

FÉRIAS!

Olá pessoal!!
Com um mega abraço em cada um que gentilmente visita o blog, estou anunciando férias até o dia 4 de outubro!
Nesse tempo, aproveitarei, inclusive, para trabalhar em um outro projeto bem diferente, que espero que eu consiga realizar e, mais que isso, espero que possa ser algo bem legal para ser postado aqui!
Super obrigado a todos e perdoem se durante algum tempo, eu não responder aos comentários!
Em outubro, volto ao blog com TUDO!!!!

Um baaaaaaita abraço!

Luís Augusto Menna Barreto

terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Juiz, a Hora da Sesta e o Almoço

O Juiz, a Hora da Sesta e o Almoço

…   …   …
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(Silêncio)…
É difícil descrever o silêncio! Fosse um roteiro, eu descreveria mais ou menos assim: “CENA 1. EXT: CIDADE ADORMECIDA. CACHORRO ENCOSTADO NA PORTA DO BAR DO S. NONÔ, SOB O TOLDO. CABOCLO ADORMECIDO NA REDE PENDURADA SOB A ÁRVORE. MESA DE BILHAR DO AÇOUGUE DO RETALHO COM AS BOLAS PARADAS SOBRE O FELTRO VERDE JÁ BASTANTE SURRADO E OS TACOS CRUZADOS SOBRE A MESA. FOLHA DAS ÁRVORES PARADAS. RIO PASSANDO LENTO.”
A cena acima rodaria sem trilha sonora alguma. As pessoas entenderiam que tudo estava em silêncio. Mas, como é uma crônica, fica difícil descrever o silêncio. Mas era assim que estava a cidade, na beira do rio. Até os pássaros estavam adormecidos. Nem barulho de pô-pô-pô havia! (Ah, pô-pô-pôs, são pequenos barquinhos que fazem um barulho bem alto, semelhante a… “pô-pô-pô”!!). Eu estava saindo do fórum, e só uns instantes de caminhada, já me deixaram suado. Não, não se tratava de uma noite quente e eu não estava trabalhando na madrugada. Eram 2 horas… da tarde! 
Isso mesmo! Tem lugares no Marajó, que entre 12 horas e 16 horas, nada funciona. Nem as pessoas. Não há notícia sequer de roubo, furto e, menos ainda de agressão e tentativa de homicídio, na cidade, nesse horário! (Sim, especialmente tentativa de homicídio ou mesmo homicídio, porque, como eu já falei outra vez, com o decorrer do tempo, eu cheguei a sentir-me uma espécie de “Odorico Paraguassu” do Fórum local: tinha um salão de júri bem bonito, mas ninguém tentava matar ninguém pra eu poder inaugurar!).
Eram meus primeiros dias ali, logo depois do episódio da “visagem" no fórum, onde eu acho que fui enrolado em cinquenta reais pela Socorro Benzedeira… mas isso eu também já contei em outra crônica!
Enfim, eu estava descobrindo que a cidade simplesmente adormecia entre 12 horas e 16 horas. O comércio realmente fechava! Depois, abria as 16h e ia direto até perto de 21 horas.  
Todos os dias anteriores, eu havia almoçado em uma pequena cozinha no fórum. Antes de eu ir para lá, assumir a titularidade da comarca, eu liguei para perguntar algumas coisas que eu achava importante saber. Daí, sobre comida, disseram-me que serviam almoço no bar do Seu Nonô, ou eu poderia comer no fórum, porque o pessoal recolhia dinheiro uma vez por semana e  havia duas servidoras responsáveis pela limpeza, que preparavam almoço.
O problema é que logo no terceiro dia, quiseram agradar-me, eu acho… e fizeram uma fritada enorme de camarão! E olha… enormes. Cheguei na cozinha e havia uma panela generosa de camarão e ao lado, uma jarra imensa com açaí. Arregalei os olhos. Estava linda a mesa. Eu tenho certeza que eu me esbaldaria comendo, se não fosse por um pequenino detalhe: tenho alergia à camarão. E ainda não me havia acostumado com o açaí. Daí, que inventei uma desculpa qualquer (que é sempre constrangedor) e pensei em conhecer o bar do S. Nonô.
Trabalhei até 14 horas e saí pra almoçar. No caminho de dois quarteirões pequenos, um ocupado pelo fórum e câmara municipal e o outro pela loja do Desconto que é colada ao bar do Seu Nonô, com a diferença que o bar, sendo na esquina, fica com a frente para a outra rua, tendo a Igreja na frente, não encontrei uma alma viva… quer dizer… uma encontrei, mas não sei se tava viva, porque o caboclo tava pendurado numa rede entre duas árvores na beira, de um jeito que parecia morto! 
O bar estava aberto, mas não tinha ninguém. Procurei algo pra chamar alguém e não encontrei nada, então usei o universal chamado da tosse falsa: 
“crrf, crrf"… Nada. 
“Oi…?”. Nada.
“OLÁ…” Assim, mais alto! Nada. 
Apelei: bati palmas, quase me sentindo culpado por fazer algum barulho naquele silêncio todo!
… esperei. Ouvi um barulhinho fraco, como que pés sendo enfiados em chinelos que depois se arrastaram. Apareceu, por trás da cortina de pano, com uma preguiça até no falar, o Seu Nonô (que naqueles dias, eu ainda nem sabia que era o Seu Nonô!). 
Ele me perguntou, sem palavras, com aquele gesto de levantar o queixo, o que eu queria.
“Boa tarde!”, eu disse faceiro!
… esperei uma resposta, mas veio um suspiro e um olho mais aberto que o outro, como se ele guardasse um dos olhos descansando, afinal, pra quê fazer os dois trabalharem naquela hora, né?
“Posso almoçar?” Falei, ainda empolgado e com um sorriso, daqueles que quem quer ser bem recebido nos primeiros dias em uma cidade nova, sempre faz!
O olho que estava mais fechado abriu, e, quando ficaram ambos abertos do mesmo tamanho, a testa dele enrugou e o rosto virou um pouco pro lado. Na hora, entendi que aquele gesto era o mais perto do que seria meu “hein?”.
Com a empolgação francamente diminuída, ainda tentei num fio de voz:
“… posso almoçar…?”
E a resposta veio franca, simples, quase direta: 
“Pode… amanhã!”. Nem esperou mais nada, virou-se num movimento quase em câmera lenta e o único barulho que se podia ouvir era o do arrastar dos chinelos sumindo atrás da cortina de pano, novamente. Fiquei ali, com minha cara de “e agora?”, e lembrei que havia visto um pequeno comércio com uns pacotes de bolachas quase solitários em uma prateleira que, embora pequena, ficava grande demais com poucos produtos espalhados aqui e ali. Prometi a mim mesmo que voltaria lá, iria comprar as bolachas e resistiria à tentação de olhar o prazo de validade!
Mais três pequenos quarteirões de suor no sentido contrário… e fechado! 
Olhei em volta. Parecia madrugada… só que com sol!
Desisti. Decidi ir pra casa que aluguei e tentar dormir um pouco, também. 
Eram perto de 15 horas quando cheguei em casa, depois das tentativas frustradas de almoçar. Tive de tomar um banho, e a água estava quente… muito quente! Saí mais suado e descobri que banho naquele horário também era proibitivo.
Coloquei o ventilador no mais forte e me deitei na frente dele… e o vento era quente! Quando finalmente comecei a relaxar:
“AMÉM?” (Assim, em maiúsculas porque foi meio gritado mesmo!). 
“Hein?”. O amém não foi meu; o "hein", foi!
“VOCÊ QUE TÁ ACORDANDO AGORA, VOCÊ QUE TÁ COM PROBLEMA, VOCÊ QUE TÁ COM DÍVIDA, VEM! É HOJE O CULTO DO MILAGRE! VEM PRA CURA…” O barulho parecia de uma caixa de som meio velha. Tomei um susto. Mas estava claro que era alguma caixa de som. Daí que achei que era alguém passando na rua de bicicleta, ou coisa assim. Nem bicicleta, nem passando, nem coisa assim!
“… TRAGA SUA ANGÚSTIA, TRAGA SUA DOR, TRAGA SEU PEDIDO…”
A voz era rasgada e aflita. Parecia de alguém que estava narrando um jogo muito movimentado.
Fiquei irritado. Mas achei que ninguém ia conseguir gritar daquele jeito por muito tempo.  Não com o calor que fazia. Daí, resolvi esperar um pouco. Quando passou de meia hora, não aguentei mais. Comecei a vestir-me novamente, e decidi procurar o gritador. Quando eu estava a caminho da porta, silêncio de repente.
Olhei para um lado e outro, e nada. Não vi ninguém. Nem uma caixa de som pelas calçadas, nem uma porta aberta que parecesse um templo. Fiquei intrigado, mas, enfim, eu já havia perdido meu momento de descanso e estava com fome. Daí que notei que parecia que começava algum movimento pela rua. 
Tive a impressão que estava amanhecendo, porque as pessoas estavam como que despertando com preguiça e até o sol estava baixo, perto do rio… só que era uma amanhecer à tarde! 
Comprei os dois únicos pacotes de bolacha que encontrei, e, com eu havia prometido a mim mesmo, não olhei a data de validade. Foram meu almoço e jantar daquele dia.
No dia seguinte, fiquei esperto. Cedo quando cheguei, pedi para o Goela ver qual seria o almoço.
“Camarão com açaí, doutor. Sobrou de ontem.”
Novamente com uma desculpa, dispensei o almoço e fiquei controlando o horário. Sairia pouco antes do meio dia para almoçar e compensaria voltando à tarde.
Assim eu fiz. Saí uns dez minutos antes do meio dia. Dava pra ver uma certa agitação na rua, tanto quanto existe na hora do fechamento do comércio em qualquer cidade. Só que com a diferença que ali era meio dia e só abriria novamente 16 horas. Vi o caboclo atando a rede na árvore na beira do rio. Acho que era o mesmo que tava como morto no dia anterior, quando saí e não consegui comer. 
Mas agora… ah, agora eu tava me sentindo esperto! Verifiquei com antecedência o almoço no fórum e saí a tempo de almoçar no bar do S. Nonô.
Entrei no bar e cumprimentei o S. Nonô como se fosse um velho conhecido, afinal, no dia anterior nós nos conhecemos e ele chegou a me dizer duas palavras. Já me sentia íntimo!
“Hoje tem almoço, S. Nonô?”
“Tem. Mas só o prato do dia.”
“Pois traga. E uma garrafa de água com gás”.
Na parte do “com gás”, ele subiu uma sobrancelha. E eu refiz o pedido:
“Uma água. Com ou sem gás”.
Foram dois dias sem almoço. Mas uma semana de precioso aprendizado. Quando fui em Belém, no final de semana seguinte (10 horas de barco pra ir e 10 horas de barco pra voltar), eu trouxe um bom abastecimento de mantimentos, incluindo muitos enlatados e gêneros para microondas.
O prato do dia, no S. Nonô, era camarão.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 9 de setembro de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 8 - final

Conto Della
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Decisões - parte 8 - final

Ela estava sozinha na mesa do restaurante. 
Estava tranquila. Não havia tristeza ou solidão. Ela esperava. Havia dois pratos na mesa. Duas taças. Como sempre.
De repente, enquanto o garçom servia-lhe mais uma taça de vinho branco, que ela saboreava com uma salada niçoise, veio-lhe um quase sorriso, ao lembrar que há vinte e cinco anos, tomava também vinho branco, comia a mesma salada e estava no mesmo restaurante… e, naquela oportunidade vinte e cinco anos antes, esperava por ele.
Foram três meses intensos naquela época. Vários encontros. Ela já o acompanhava por noticiários, jamais perdera o contato dele. Sempre torcera por ele, mesmo depois que ela rompera o noivado. Ficara surpresa com a ascensão e crescimento dele. Por algum motivo que não sabia explicar, sempre ficou atenta sobre ele ter um novo relacionamento ou não, e as notícias jamais o colocavam com qualquer relacionamento sério. Pensa que, de algum modo, naquela época, era ciúmes… e viu-se sorrindo, ainda sozinha à mesa, pensando nisso.
Lembrou-se de como ele a surpreendera naqueles três meses. Parecia que ele sempre antecipara suas orientações. E foi em um golpe de mero acaso, que tudo ficara claro para ela: encontrara-se com uma assistente de sua amiga Constanza Pascolato, em plena Milão, Itália, no chamado Quadrilátero da Moda (as ruas Via Manzoni, Montenapoleone, della Spiga e Corso Venezia), saindo da loja da grife Ermenegildo Zegna. Embora muito discreta, a assistente, também sua amiga, deixou escapar, apenas, que eram compras para um cliente muito especial de Constanza, um “novo rico” do mundo da tecnologia, em ascensão e que queria impressionar alguém. 
— Deve ser alguém muito especial, porque além da Constanza, para moda, contratou sessões, também, com a Cláudia para etiqueta. — Disse-lhe a assistente.
No dia seguinte, ela recebera um telefonema da própria Constanza, pedindo desculpas pela inaceitável indiscrição de sua assistente, e colocando-se à disposição para qualquer eventualidade que poderia, a improvável conversa, ter causado.
Com aquele acaso, soubera, duas semanas antes da viagem a Singapura, que ele havia tido a assessoria das mulheres que eram, para ela, ídolos e, quando estava à altura, fora recebida como amiga. “Constanza Pascolato para moda, e Cláudia Matarazzo para etiqueta… por isso ele estava tão perfeito”, pensara. A partir de então, fora simples demais refazer os passos dele e entender que tudo aquilo não seria para uma reunião de negócios. 
Daí, que quando recebera o recado dele, para o encontro no restaurante do hotel, soube muito bem o que vestir. E soube o que esperar:
— Parabéns! — Disse a ele, que interrompeu, por um instante, os passos e sem perceber franziu a testa. Naquele momento, ele sentira um calafrio. Como um aviso de que tudo que planejara durante meses, poderia ruir. 
— Como você soube? — E, enquanto ela o olhava nos olhos, ele ainda disse: — Você sempre soube, não é? 
E, de repente, ele não era mais o homem seguro que durante quase três meses encontrara-se com ela. Era, novamente o garoto que não sabia o que pensar quando estava na frente dela. Teve o ímpeto de beijar-lhe, porque era o que fazia quando ainda namoravam, e ele não sabia o que dizer. Mas nem isso conseguiu. 
— Não… só descobri há poucos dias, por um golpe de sorte. Você esteve perfeito. Não fez absolutamente nada de errado.
Ele forçou um sorriso:
— Então você sabe sobre qual proposta eu me referia…
— Agora eu sei.
— E…? 
Ela o olhou com ternura. E, por esse olhar, ele soube a resposta.
— Está no meu bolso. Você nem ao menos quer vê-lo? — Ele perguntou.
— Não… — Ela sorriu. — Tenho medo de que eu aceite, apenas para ter esse anel.
Ele também sorriu. Não chegou a tirar o anel do bolso. 
Aquela foi a última vez que haviam conversado. Vinte e cinco anos atrás. Mas mesmo assim, ambos continuaram seguindo um ao outro pelos noticiários. Ambos sorriam com o sucesso um do outro. 
E, agora, ela estava ali. No mesmo restaurante. Pedira o mesmo vinho. A mesma mesa. A mesma salada. Vinte e cinco anos depois daquele encontro, recebera um bilhete dele. Entregue por um mensageiro. Um bilionário aposentado do mundo da tecnologia, usara um mensageiro para levar-lhe um bilhete escrito à mão, com um pedido para um encontro. 
Então, ela fez questão de que tudo fosse absolutamente perfeito. E, embora há alguns anos também ela não atendesse mais, limitando-se às colunas que passara a escrever, e palestras para seletas empresas, aceitou mais uma vez atender pessoalmente um cliente… que se sentou a sua frente, aceitou a salada e pegou o talher errado (pegou o de fora), ela sorriu e pensou: “ele não a enviou a ninguém primeiro”.
A menina de vinte anos sentada a sua frente pediu desculpas, trocou o talher como indicado por ela, e sorriu com o canto da boca.
— Você tem o mesmo sorriso de seu pai. 
… e pela primeira vez, ela aceitou uma cliente mulher.


Fim.


Por Luís Augusto Menna Barreto 

terça-feira, 5 de setembro de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 7

Conto Della
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Decisões - parte 7

O paladar era de café da manhã… mas no Summer Pavilion, restaurante do hotel, os pratos eram os de jantar. 
Assim que chegaram no hotel, depois de um dia e duas horas de viagem via Doha, esgotados embora o conforto da 1ª classe no Qatar Airways, ele providenciou o check in de ambos e disse que a aguardaria no restaurante. Mesmo acostumados a viagens, era sempre estranho viajar a noite toda e chegar ainda no início de uma próxima noite, conseqüência do fuso horário de 11 horas a mais da cidade-estado de Singapura em relação ao Brasil. Quando ela chegou, ele havia pedido Dal Tadka, um prato indiano com Lentilhas amarelas, cebolas, tomates e especiarias indianas.
— Ainda não entendo por que você fez questão que eu viesse. — Ela lhe disse, talvez para quebrar o silêncio. — Você está perfeito. Nem o reconheço mais. Não tem mais nada do universitário relaxado, o nerd de computadores que você era.
Ele sorriu. Olhou nos olhos dela:
— Algumas coisas conseguimos mudar. 
— Comportamento é uma delas. — Ela respondeu.
— Eu perdi você pelo meu comportamento. Não entendia o quanto era importante pra você as coisas que eu falava, ou que eu vestia.
— Você sempre foi alguém interessante. Sempre teve um jeito diferente e único de ver o mundo. Foi esse jeito que fez você desenvolver o aplicativo que hoje vale essa disputa de milhões. Não eram as coisas que você falava ou o que vestia… era como você falava, quando você falava, e como se vestia. 
Ele ficou um instante parado, olhando pra ela. Até que falou:
— Outras coisas, não conseguimos mudar… — E, propositadamente, deixou a frase no ar. 
Ela disse:
— “Jack Campbell”.
E, como no passado, ele não entendeu o que ela queria dizer.
— “Jack Campbell”! Você é meu "Jack Campbell”!
— O quê? Quem é esse cara? — Ele perguntou intrigado.
— Você não vê esses filmes! — Ela respondeu. Ela se referia ao personagem de Nicolas Cage no filme "Um Homem de Família", de 2000, em que numa determinada cena, “Jack Campbell” olhava para “Kate" (personagem de Tea Leoni) e ela perguntava como podia, depois de tantos anos, ele olhar para ela como se fizesse anos que não a tivesse visto.
Quando ainda namoravam e, depois, como noivos, ela às vezes tinha a impressão que ele a olhava assim! Então quando ela sentia esse olhar, chamava-o de “Jack Campbell”, ainda que ele nunca entendesse a quem ela se referia.
A reunião dele com a poderosa CEO do grupo que iria realizar a fusão e incorporar a rede de hotéis que ele representava, seria no dia seguinte.
— Nós temos de descansar. Preciso de você pronta amanhã, 21 horas. Não repare se eu estiver nervoso. Mas você pode ter certeza que eu saberei muito bem o que tenho de fazer.
Despediram-se. Durante o dia, não se viram nem se encontraram. 
Por volta de 14 horas, um mensageiro deixou para ela um recado de que a reunião seria na ala privada do Restaurante.
Às 21 horas, ela desceu. Pontualmente. Foi recebida por um maître impecável que disse que o vinho havia sido escolhido pelo anfitrião, um tinto São José de Pêra Manca "Pêra-Grave" Reserva 2013 Sexteto.
A reunião da fusão já havia acontecido às 15 horas, no "The Fullerton Hotel Singapore”, no centro financeiro de Singapura, sem que ela tivesse sido avisada. Não foi para essa reunião que ele a trouxe. Fora um sucesso. Há algumas horas, ele se tornara um bilionário. E achou que fora até bem simples lidar com a representante do grupo europeu que adquiriu o grupo que ele representava. Os valores superaram o ágio que ele previa, e o fechamento do negócio decorreu mais tranquilo do que imaginava.
A grande proposta, porém, pela qual a ansiedade dele atrapalhava seu normal ritmo cardíaco, viria desse novo encontro:
21 horas e 3 minutos. Ela esperou menos de três minutos. O tempo suficiente para uma pequena ansiedade, mas não exagerado a ponto de causar qualquer irritação pela demora. Fora calculado por ele. O que ele não calculou, é que ela estaria vestida daquela forma: um vestido longo, Versace, na cor creme em um tom levemente mais forte do que a pele dela. Ele hesitou o passo um instante quase imperceptível. Definitivamente, aquele vestido não estava adequado para a reunião de negócios que ele havia há meses sugerido para ela que aconteceria.
“Então, ela também erra!”, ele pensou. 
Sorriu com o canto da boca, retomou o controle, e aproximou-se em passos decididos.

 (continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 2 de setembro de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 6

Conto Della
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Decisões - parte 6

Eles se encontraram várias outras vezes nos sessenta dias seguintes, enquanto as negociações da fusão prosseguiam em várias trocas de e-mails e algumas teleconferências. 
Em algumas vezes, ele recebia um e-mail da assistente dela, dizendo que ela queria encontrá-lo, mas era para que ele escolhesse o local. Ele entendeu que era para que ele tentasse surpreendê-la, e, também, entendeu que ele deveria tomar a iniciativa das conversas. Em um dos encontros, ele sugeriu um restaurante de beira de estrada, em que pediria uma das especialidades da casa: gigot d’agneau, acompanhado de vinho branco, e servido no ponto ideal, ou seja, cozido por fora e rosado por dentro, depois de sete horas no forno em baixa temperatura. Ela ficou surpresa pela escolha e achou que ele acertou ao escolher este restaurante e marcar o encontro para um sábado, eis que seria inadequado o encontro em um local distante se não fosse em um dia livre. 
Quando ela chegou, ele já estava lá. E assim que ela sentou, um garçom serviu um clericot de vinho branco. Ela se sentou de costas para a porta e foi surpreendida, ao final da refeição principal, quando uma garotinha parou ao lado da mesa e perguntou se eles estavam bem servidos. 
— Não poderia ter sido melhor! — Ele falou, sorrindo. E, em seguida: — Diga ao seu pai, que o atendimento é ótimo, e você, uma excelente maître!
A menininha saiu sorridente e parou em uma mesa adiante onde a sobremesa estava sendo servida para um casal com dois meninos.
— Como você sabe que a garotinha é filha de alguém do restaurante? — Ela perguntou.
— Você está de costas, mas eu vi quando ela entrou acompanhada por uma senhora que deduzo que seja sua mãe. Como a mãe largou sua mão assim que entrou no restaurante, e ela cumprimentou o hostess e o garçom, e passou a perguntar se as mesas estão bem servidas, deduzi que ela deva ser filha do dono ou gerente. Como entrou com a mãe, que não está vestida para trabalhar, deduzi que o dono ou gerente deve ser o pai. 
E ela quase deixou escapar um sorriso. “Como ele havia mudado”, ela pensou!
“Eu juro que vou entrar sozinha!”, ela pensava, nervosa, na calçada em frente à bilheteria do cinema. Estreava “Orgulho e Preconceito”, e ele que a havia convidado! Aparecera com dois ingressos já comprados e deixou no meio de um dos livros de estudo dela, “Negócios Negócios, Etiqueta Faz Parte” de Cláudia Matarazzo, junto com um bilhete: “espero você em frente à bilheteria. Não se atrase”. Ela não se atrasou. Ele estava atrasado.
Já naquele tempo, ela havia explicado que se ele convidasse alguém para qualquer coisa, se ele marcasse qualquer encontro, jamais (“JAMAIS”, ela enfatizava) poderia atrasar-se. De outro modo, se alguém o convidasse para qualquer coisa, não deveria chegar antes da hora. Nem atrasar. Deveria ser pontual. Se chegasse antes, ela dizia, que desse uma volta no quarteirão, que fosse em algum lugar discreto e próximo, mas não espere o anfitrião no local do encontro. 
— Ora, mas chegar cedo não é bom? Se eu chego cedo, mostro que estou interessado para aquilo que me convidaram. — Ele afirmava.
— Você não entende nada! Se o encontro é na casa do anfitrião, por exemplo, e você chega cedo, ele pode não estar pronto, e isso causará constrangimento. Imagine se ele estiver no banho?! Se for em um outro lugar qualquer, é o anfitrião que deve reservar a mesa e recebê-lo pronto, ou com os ingressos ou convites, se essa for a ocasião. Se você chegar cedo, pode atrapalhar o que lhe planejaram e ser frustrante para o anfitrião. Se chegar atrasado, será um sinal de que não se importou com o convite a ponto de programar-se corretamente. Chegue no horário.
Ela assistiu a “Orgulho e Preconceito” sozinha. Furiosa. 
Ele ficara no lado de fora. Naqueles tempos de início de pós faculdade, tudo era difícil. Não havia dinheiro para comprar outro ingresso. E ele esperou no lado de fora. 
Terminada a sobremesa, ele lhe entregou um envelope:
— Aqui está.
— O que é isso? 
— Sua passagem e a reserva no The Ritz-Carlton, Millenia Singapore.
Ela se limitou a levantar os olhos para ele e ele entendeu que era uma pergunta.
— Eu já lhe disse. Não vou conseguir sem você. Preciso que esteja comigo. Não posso errar. Será a proposta que pode mudar toda minha vida. E antes que você diga qualquer coisa, eu contatei sua assistente e escolhi uma data em que não prejudicará nenhum de seus clientes. 
Ela não respondeu diretamente. Disse-lhe:
— Este hotel é em Marina Bay. Um maravilhoso hotel para turistas. Seria mais adequado o The Fullerton Hotel Singapore. Você não vai a lazer. Deveria ter escolhido o hotel no centro financeiro. 
— Você que me disse que eu deveria surpreender! — Ele respondeu com o meio sorriso que tanto a fascinou no passado. 
De fato, ela estava surpresa. “Ele está pronto”, ela pensou.

(continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto

terça-feira, 29 de agosto de 2017

CONTO DELLA - Decisões - parte 5

Conto Della
Decisões - parte 5

— Você sabe de tudo o que eu possa falar a respeito da mulher que tenho de impressionar. Não vou cometer o erro de subestimar você, contando coisas que você já sabe.
— Você não tem cometido muitos erros, pra dizer a verdade. E, sim, eu já sei a respeito da fusão das empresas. E sei por quem é dirigido o grupo europeu que pretende a fusão. E sei, evidentemente, que é uma mulher que vem ganhando o respeito no machista mundo dos negócios, o que exige dela muito mais talento e agressividade para que não estar à sombra de algum homem.  
— Bem… a mulher que pretendo impressionar é considerada a “Miranda Priestly”* de seu ramo.
— Anda logo! Vamos perder a sessão!
O ano era 2006 e ela estava ansiosa demais para a pré-estréia de “O Diabo Veste Prada”. Ele, despreocupadamente, estava, ainda, colocando a roupa. 
— Corre! Meu Deus! Como você demora! 
— Calma. Temos muito tempo ainda. E você ja comprou os ingressos! Não sei porque tanta ansiedade por um filme que você já leu o livro uma mil vezes!
Ele saiu do quarto. Ela segurou um ataque de fúria:
— Nem sonhando você vai assim comigo no cinema para este filme! 
Ele se olhou. Tudo normal: O tênis que sempre usava, a calça jeans desbotada, a camisa do clube de futebol. 
— O que há de errado?
— Tudo! — Ela esbravejou. Demoraria demais brigar com ele. Ela estava ansiosa demais para perder o cinema ou arriscar-se a demorar brigando. Entrou no quarto, abriu com pressa as portas do guarda-roupas dele, pegou uma camiseta branca, básica, uma camisa xadrez vermelha, e um sapato estilo “dock side”. — Veste! Rápido!
Ele também optou por não discutir. Ela estava furiosa. O jeito desleixado dele a incomodava. haviam terminado a faculdade, já. Ela estava estudando para concursos públicos, na área do cerimonial. Ele passava o tempo todo na frente do computador. Aquilo a cansava demais: toda vez, ter de pedir para ele se arrumar melhor… Estava a ponto de explodir. Mas não seria hoje. Hoje, era a estréia do filme que ela mais esperara desde que se lembra de ter ido pela primeira vez em um cinema! 
Ela ainda iria no cinema ver o filme mais oito vezes. Apenas duas com ele. As outras, sozinha, para poder observar cada detalhe.
Por um segundo, ela havia parado no tempo. Ele notara. Não a queria constrangida. Nem queria que ela percebesse que ele notou sua hesitação. Então, falou:
— A mulher é elegante e não deixa passar nenhum detalhe. E eu não posso errar na proposta. Preciso estar perfeito. Por isso, preciso de você. Preciso saber como me vestir sem deixar nenhum detalhe. Preciso saber como introduzir o assunto que preciso abordar, preciso saber o momento exato em que ela estará mais vulnerável à proposta… preciso saber a forma exata de propor.
— Você tem aparentado muita segurança, e, até agora, não tem cometido muito erros. 
— Eu preciso estar perfeito. Impecável. Acho que não terei outra chance.
— E onde será a reunião?
— Não está marcado ainda. Ela deve sinalizar onde deseja que aconteça.
— Não! Tome você a iniciativa. Decida você onde vai ser e avise-a, surpreendendo-a. Se você conseguir que ela vá, você já terá a vantagem da iniciativa sobre a negociação, e, por conta de você ter proposto o local, ela estará curiosa em ouvi-lo, e você poderá tomar as rédeas das propostas.
Ele a olhou nos olhos. Ficou pensativo. Ela não conseguiu decifrar aquele olhar. 
… mas ele pensava em como fazer a proposta.

* Miranda Priestly foi interpretada por Meryl Streep no filme homônimo da adaptação do livro “O Diabo Veste Prada de Lauren Weisberger, e era a elegante, poderosa, mas rigorosíssima editora chefe da principal revista de moda.

(Continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto

sábado, 26 de agosto de 2017

CONTO DELLA - Decisões - Parte 4

CONTO DELLA
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Decisões - parte 4

— Meu Deus! Essa camisa além de horrível, é enorme!
Ele atravessara o campus inteiro da universidade para ir até onde sabia que ela estaria: sentada em uma pequena elevação na grama, à sombra de um arbusto, com caderno na mão, fingindo estudar. Estava observando! Simplesmente observando. A universidade era um imenso laboratório para observações. Estudantes de todas as classes, de todos os estilos. 
Havia os que cultuavam o estilo hippie, com roupas folgadas e floridas. Outros eram esportivos, e usavam um tênis confortável, calça jeans e uma camisa qualquer. Os nerds que naquela época eram chamados de “CDF’s”, e que aparentemente não se importavam com o que vestiam. Os que trabalhavam antes ou depois das aulas e vestiam-se já pensando no trabalho. Enfim, todo o tipo.   … e ele! Que aparecera com uma camisa de um time americano de hóquei no gelo, que era grande demais. 
— Tem que ser grande! — Ele respondeu. — É de hóquei! Você já viu um jogo de hóquei? Os uniformes são enormes! — Envolveu-a, deu-lhe um beijo, e sentou-se ao lado dela. — O que temos hoje? 
— Olhe aquele grupo hippie. — E ela moveu o queixo discretamente na direção de um grupo de quatro meninas vestidas com roupas coloridas, que conversavam de maneira descontraída.
Hippies, o que tem? 
— Aquela da esquerda. É rebelde, não é hippie. Enquanto todas vestem sandálias de couro compradas na feira livre da praça, ela usa uma sandália que custa mais que a roupa inteira de qualquer uma das amigas. Está vendo aquele pequeno brilho no lado da sandália? É um metal dourado característico de uma marca badalada de uma grife gaúcha que está ganhando o país. Não é hippie. Faz isso por rebeldia, mas não fica sem o cartão de crédito dos pais. Olhe: as outras usam pulseiras de couro e crochê; ela usa um relógio Michael Kors. — Depois apontou para outro lado: — Vê a menina de azul? Está se esforçando para inserir-se em um meio social além do seu. 
— Como você pode saber?
— Olhe o sapato. Elegante. Fino. Mas olha como há poeira no salto. Sugere que ela mora mais na periferia, onde não há calçamento, onde o ônibus faz poeira ao parar…
Fora interrompida por um beijo. Ele adorava fazer isso. Ele simplesmente adorava vê-la falar, o movimento da boca, dos lábios… estava apaixonado. Achava-a perfeita. 
Ela primeiro deixava-se beijar. Depois, fingia que relutava, empurrando-o com os punhos em seu peito. 
— E troque essa camisa se você quiser me beijar de novo! — Disse com uma falsa raiva!
— Não preciso trocar! Você disse que sou seu "amor pra sempre".
— Você, sim. Essa camisa horrorosa, não!
Ela estava lembrando disso, enquanto olhava o Renoir, esperando-o. Ela gostava de ver a dedicação que o pintor francês emprestava aos detalhes das roupas em suas obras. Ele chegou no horário. Ela já estava lá. 
Ela quase sorriu a vê-lo em um look arriscado. Homens em sapatos claros são sempre um convite para gafes. Mas ele chegou usando um Sérgio Rossi italiano, estilo casual, em um tom creme, quase cru, e optou por uma calça azul marinho, destacando o contraste. Vestia uma camisa com xadrez muito pequeno, em um tom mais claro que a calça e, por cima, um blazer no mesmo tom do sapato. No bolso da lapela, um lenço azul, do tom da calça, colocado de forma casual. 
A assistente dela havia enviado, pela manhã, o recado para que ele a encontrasse, naquele mesmo dia. O encontro fora marcado propositadamente no meio da tarde, em horário de expediente. Também de forma proposital fora naquela galeria com a exposição de Renoir. Havia uma cafeteria de ambiente agradável, e tudo ali, sugeria um tom casual. Seria um erro paletó e gravata, que haveria de sugerir, então, que o local fora decidido por conveniência e não para apreciar a arte, ou sugeriria que a conversa deveria ser breve, porque estaria com outras ocupações. Ele também não foi traído por isso, e, embora antes estivesse cumprindo seus compromissos da maneira mais formal a ser exigida, surpreendeu-a ao haver optado por tal vestimenta. 
Desta vez, ele beijou sua mão em frente à tela “Rosa e Azul”, e dirigiram-se ao café.
— Fale-me da mulher que você precisa impressionar.
… e ele sorriu com o canto da boca.

(continua…)


Por Luís Augusto Menna Barreto