quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

pensamentos perdidos - "Silêncio"

Pensamentos Perdidos:

Originalmente  publicado no antigo blog
"Menna Comentários", precursor deste.
Data da postagem original: 12.03.2016.
Comentários na postagem original:  2.
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Silêncio

Foi o juiz que mandou eu varrer a escola. Eu falei pra ele que não lembrava de muita coisa. Eu queria ver TV e a criança tava chorando, eu acho…
Ele nem ouviu direito. Tava falando qualquer coisa sobre uma tal “partida de tênis”, que eu nem sei direito o que é. Já ouvi muita gente falar sobre isso, tem até clube pra isso, mas não consigo imaginar como seja jogar tênis. Às vezes, imagino as pessoas desamarrando cadarços e atirando tênis tentando acertar o outro e quem é acertado tem que sair. Vai saber como rico se diverte? Sim, porque juiz é rico, não é? Ele mandou eu varrer a escola.
Eu não lembro de muita coisa mesmo… lembro que cheguei em casa e o bebê tava chorando. Daí ela gritou comigo, e o bebê não parava de chorar no colo dela… e eu sentei pra ver TV. Mas ela ficou gritando, e o bebê chorava… e tinha aTV que eu não conseguia escutar…
Era muita coisa. Muito barulho. Acho que empurrei ela. Depois ficou silêncio, porque acho que ela saiu com o bebê. A TV quebrou, disso eu lembro, porque eu tava tentando levantar a TV quando a polícia chegou. Não lembro direito se eu tava no chão com a TV…
Não entendi direito o que a polícia falou, quando me levou. Não lembro direito se falei com o Delegado, também. Fiquei preso uns dias e depois, quando fui levado para o juiz, ele mandou eu varrer a escola. 
A TV lá em casa, continua quebrada… mas acho que sinto mais falta do choro da criança…

Por Luís Augusto Menna Barreto




14 comentários:

  1. Na maioria dos casos de violência que a gente vê contar, é mais ou menos desse modelo aí, o agressor geralmente não viu nada, não sabe de nada e não é culpado de nada. Infelizmente, o número desses casos tem aumentado.

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    1. Infelizmente, amiga, o problema é realmente grande e maior do que simplesmente a violência haver acontecido... é a cultura de achar que isso seria normal...

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  2. Diante de tanta violência, as vezes me questiono se evoluímos mesmo da fera animal ao encontro do humanismo da relação harmônica com o próximo no contexto do mundo. Que pena. Estamos perdendo tempo da nossa vida pra tão pouco tempo de vida que temos para o nada !!!!.

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    1. Bora transformar nosso tempo de vida em "ganho" em vez de "perda", recuperando alguém que erra...
      Penso que uma pessoa recuperada, é uma vida salva!

      "Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lucas 15:7

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  3. Eu, particularmente, acredito muito na mudança de vida, e na recuperação do ser humano. Parabenizo as pessoas que se propõe a fazer esse tipo de trabalho. Já mencionei aqui a minha experiência com uma casa Terapêutica. Foi maravilhosa. É um trabalho como da formiguinha... mas muito gratificante.

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    1. Como eu disse: um recuperado, entre milhares, que seja, é uma vida a comemorar!!

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  4. Sempre assim,o culpado se fazendo de vítima pra se safar. Nunca lembra de nada. Esquecimento por conveniência.

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    1. É algo muito delicado...
      Difícil demais de decidir.. por isso apenas escrevi assim... porque muitas vezes é isso que chega... e é muito difícil de separar os que realmente não se lembram, com aqueles que não querem ser lembrados...!!!

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  5. Mas há uma ingenuidade e, ao mesmo tempo, uma ternura tão sutil, porém tão profunda, na personagem desse texto que, embora ele seja um "agressor", dá vontade de pegá-lo e trazê-lo pra o colo.

    Entendes o que sinto, escritor?

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    1. Acho que é o que reflete quando ele fala "A TV lá em casa, continua quebrada… mas acho que sinto mais falta do choro da criança…"

      Há casos em que o agressor, quando sóbrio, é francamente arrependido e, sóbrio, jamais pensaria em machucar quem ele ama...

      Enfim... é difícil demais... julgar... apenas expus... não me atrevo a julgar..!

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  6. Realmente difícil...Esquecimento involuntário ou esquecimento por conveniência como bem citou minha amiga Eunice...Em ambos os casos é sempre muito triste esses casos de violência...

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    1. Violência é sempre triste... ainda mais se a violência é apenas reprodução do que se aprendeu...!

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  7. Infelizmente ainda é assim.
    Quando morei em uma cidade do interior há um bom tempo atrás. Fiz um trabalho voluntário na AMA - Associação do menor abandonado da cidade. Em um dos dias eu estava acompanhando as crianças brincando no quintal da associação, e vi três delas, duas meninas de mais ou menos quatro anos e um menino de cinco anos.
    Estavam as três crianças sentadas numa calçadinha de frente a um salão dentro da instituição que devia ser uma lojinha ou um bar no passado, estava fechado com aquela porta corrediça normalmente vista em comércio.
    Uma das meninas com a cabeça entre as pernas chorava, com a outra menina agarrada ao pescoço da amiga chorando também. O Menino muito bravo chutava as permas das meninas e dava-lhes tapas na cabeça.
    Vendo isso, me aproximei e chamei delicadamente a atenção do menino, dizendo que não devia fazer isso com as amiguinhas. E então ele me disse :
    _Não tia, a gente não tá brigando, a gente tá brincando. Eu sou o marido dela. E ela é nossa filha. -Apontou para a menina agarrada no pescoço da amiga. _ A gente tá brincando que eu tinha vindo do bar e comecei a bater na minha mulher e ela que é minha filha, veio separar a gente, por isso ela tá apanhando também.
    Bom, não preciso dizer que contive as lágrimas e com meu jeito, sentei ao lado deles e tentei desfazer aquela imagem também orientando o que achei certo naquela época.
    Escritor Menna, perdoe minha petulância em invadir seus comentários para contar está história. Lendo seu texto, por sinal muito bem escrito e explicado, lembrei-me deste fato. Grata!

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  8. É sempre assim.. eu não vi nada.. não foi eu.. quando que horas.. na cara de pau..

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