segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

pensamentos perdidos - O CIRCO - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo - parte 3 de 7

Pensamentos Perdidos: O Circo - um conto de Ana Isabel Rocha Macedo

O CIRCO
(Parte 3 de 7)

ANA ISABEL ROCHA MACEDO

*Respeitável público!!!! O blog “menna em palavras” orgulhosamente apresenta um circo! Um outro CIRCO! Desta vez, descortina-se o CIRCO de Ana Isabel Rocha Macedo, que brinda o blog e seus leitores com um conto inédito que será publicado em 7 partes! Venham! Comprem seus ingressos, a pipoca, a maçã do amor, as raspadinhas, o suco… venham todos!
Óh… shhhhh…… rufam os tambores… abre-se a cortina… sshhhhh…….
(Nota do “editor” Luís Augusto Menna Barreto)


III

Um dia, no entanto, reconheci que havia certa tristeza no olhar do domador. E quanto mais o tempo ia para frente, mais feras ele domava, e mais a tristeza saltava de seu olhar.
Horas havia em que ele desaparecia e, por mais que eu inventasse jeito de saber onde ele se escondia, meus intentos não apresentavam sucesso. 
Ele reaparecia, e eu lhe perguntava por onde andava, e a resposta vinha sempre como verso de cantiga: nas nuvens da alegria; nos tempos de antanho; nos risos dos insanos; nas gargantas das crianças...
Uma vez, depois do amor, eu lhe perguntei sobre a dor que enlanguescia seu olhar. Ele me respondeu que havia uma fera que desafiava seus poderes. Disse que estava quase a se dar por vencido, pois, por mais que tentasse, não conseguia domá-la.
Uma fera que desafiava os poderes do meu domador!? Como assim?! Eu nunca tinha visto uma que resistisse ao poder de mando daquele homem. Durante aqueles anos todos, eu entrava sempre junto com ele nas jaulas, e as feras lambiam meus pés, minhas mãos, se aconchegavam em mim. Eu sabia que o poder de domar o instinto daqueles animais estava nele. Era por ele que elas me aceitavam. Era pelo cheiro dele impregnado em mim que elas não me atacavam. Como então crer que havia uma fera que seus poderes não conseguiam domá-la?! Que fera seria esta?!
Mas com o passar do tempo, os súbitos desaparecimentos do meu domador ficaram mais amiúdes e mais demorados. E em certo dia, que entrou por noite a dentro, seu desaparecer se alongou e muito passou da hora de alimentar os animais.
Eu, então, confiante no cheiro que, há duas noites passadas, ele deixara em mim, quando me amara com sua voracidade contumaz, resolvi entrar sozinha na jaula primeira, a fim de alimentar os bichos ferozes.
Aí... Talvez não tivesse transcorrido ainda nem meio minuto que eu estava sozinha dentro da jaula, vez que nem a grade-porta dera tempo de eu fechar, quando o leão mais velho me atacou e jogou-me longe uns dois metros. Lembro-me do vermelho do meu sangue jorrando em minha frente, e das outras feras se aproximando e emitindo um som do qual jamais me esquecerei. Não sei se me recordo de tudo, mas o que retenho na memória não condiz com uma cena desta nossa realidade. O que guardo em mim é um acontecer típico de um universo fantasmagórico. As minhas lembranças desse momento são todas de várias imagens superpostas e moventes dentro de um mar de sangue. Dentre elas, há um rosto de palhaço.
Depois... Só depois, bem depois, fui dar por mim em um leito de hospital, toda enfaixada e com um grande curativo no rosto. Quando isso se deu, um mês já havia se passado desde que eu sofrera o ataque das feras.
Contaram-me então que, no instante em que o leão me atacou, o grito que eu dei ecoou em toda área do circo. Foi aí, sem titubear um segundo, que o mais novo palhaço do circo, arrancou, do torno, o ferro de tocaiar as feras, que o domador sempre usara no período em que as domava. Como um relâmpago, ele entrou na jaula e conseguiu me resgatar dos bichos sanguinários.
À medida em que eu me recuperava, sentia que algo havia mudado em mim. Não, não me refiro às mudanças físicas ocorridas, à grande cicatriz com a qual eu ficara no rosto, os queloides que atravessavam meu tronco e as marcas feias que ficaram em meus braços. Na verdade, eu sentia que dentro de mim, algo se apagara.
 Levei muito tempo no hospital. Quanto tempo? Não sei.
Às vezes, o domador aparecia para me visitar. Porém, a palavra nos faltava. Eu esperava que ele tocasse no assunto do acidente, mas ele nada falava. Talvez eu quisesse lhe culpar por ele não estar no circo, na hora de alimentar as feras. Talvez eu quisesse saber o porquê de ele desaparecer tanto.
 Como ele nada falava, eu me calava e acumulava o silêncio em meu coração.
Certo dia, quando ele já estava a se retirar, lhe fiz somente esta pergunta: 
- Por quê?
Ele apenas se voltou, olhou fundo para mim e nada respondeu. Só seu olhar me disse o que eu não esperava:
-Adeus!
Quando recebi alta do hospital e voltei ao circo, outro domador cuidava das feras. O meu domador eclipsara. Nem em seu nome alguém tocava.

Passei então a não ter uma função certa no circo. Apenas ajudava em alguns afazeres aqui e ali. Com aquele aspecto, não seria conveniente para o circo me exibir no picadeiro. E eu, que todos me diziam ser tão bonita, com a nova aparência, fiquei tão feia... Com um rosto quase assombroso.




34 comentários:

  1. Muito triste, mas o que será que atormentava o domador? Onde ele estava na hora de alimentar as feras? Por que ele a abandonou?

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    1. ... entrar na jaula fãs feras...? Sem o domador.....? Ave palhaços que salvam vidas e almas.....!

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    2. Sim, Tel, também me pergunto: por quê???

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    3. Muito curiosa pra saber o que aconteceu com esse amor tão intenso deles. O que será????

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  2. Forte... Intenso... Triste...
    Mas ave ao palhaço ...

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  3. Muita ousadia, excesso de confiança por parte da moçoila né? E esse mistério do domador e suas escapadas? Talvez saísse pra cuidar de outra mulher, não? E eis que surge um palhaço "salvador"!!! Pressinto novo amor no ar.... aguardemos.

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    1. Talvez saísse para domar outras feras.... talvez saísse por não domar a si próprio....!!!

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    2. Verdade,POETA, essa é a fera mais rebelde. Concordo contigo, "talvez ele saísse por não domar a si próprio...!!!"

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    3. Nice, moça querida, talvez tenhas razão! Quem sabe se ele não saiu porque estava envolvido com outra mulher?! Ou com outro homem, por que não?! Quem sabe?!

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  4. Que triste! Penso que o domador, passou da hora de alimentar os animais pois fora vestir-se de palhaço. Talvez para surpreender a moça. Creio que o domador era também um palhaço!

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    1. Quem sabe, Instinto de Águia?! (Acho tão sugestivo teu cognome!)

      São tantas as vezes que temos de nos vestir de palhaço, né...?

      Já foste "palhaço" alguma vez? E tu POETA, já?

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  5. Opa!!! Mistério...! Essas saídas do domador...!!! Sei não...!!! Aíaiai... precisamos descobrir.

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  6. Muito triste Ana, não consigo acreditar, mas só o amor provoca estas loucuras, dela em preencher o espaço do amado e ele por não saber amar de verdade se aumentava aos poucos pra tirar o time de campo mais tarde. E agora com as cicatrizes da vida ela caminhava em pequenas rodas para aliviar seu sofrer. E aí o palhaço aparece e no seu ato de heroísmo, talvez seja o verdadeiro amor de sua vida.

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    1. ... ou quantos mais artistas serão necessários para domar a protagonista...??

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  7. Domar essa menina aí?! Será que algum artista vai conseguir?! Sei não, viu POETA... Ela é uma mulher que ama. E engano de quem pensa que uma mulher que ama é domável. Muito pelo contrário! O amor tem o poder de exacerbar e por em alerta a ferocidade que dormita no universo subjetivo da mulher.

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    1. Será que um bom chicote não resolve..???😆

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    2. Juro que agora me assustei contigo poeta uuuiii

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    3. Não é com esse instrumento que os domadores domam as feras??

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  8. Tu não tens medo da Maria da Penha, não, POETA?!

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  9. Respostas
    1. Ah, mas eu não disse nem pra quem nem pra quê o chicote...!!

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    2. Aaaahhhh bom, menos mal poeta kkkkkkkkk agora vc que se assustou com a reação da mulherada né? Conseguiu contornarkkkkkkk

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  10. O domador usava uma vara de tocaiar, POETA.

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Este circo cada dia mais "animado"...
    Adoro!

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