sábado, 11 de março de 2017

crônica - O Promotor, o Torneio e as Fadas

O Promotor, o Torneio e as Fadas

“Ele roubou a banda do porco, doutor”.
“Não roubei nada! Tava morto peguei o que era meu!”
Não, eu não estava na sala de audiências. Nem no fórum! Estava pegando a mochila, ainda, saindo do barco, depois de mais de 4 horas navegando de uma cidade pra outra na região do Marajó. 
Os dois que estavam discutindo haviam ido até a sede do judiciário, muito exaltados. Lá procuraram o Promotor, mas este, que havia chegado dois dias antes, estava envolvido com o problema das “Fadas”, e pelo jeito iria demorar. Daí, que o Goela, que também estava por lá, disse, com o seu jeito inevitavelmente maroto, sabendo que iria dar pano pra manga:
“Olha, o juiz tá chegando daqui há pouco no municipal” (trapiche municipal). 
Foi só o que o Goela disse. Ele sabia que, dizendo isso, os dois iriam lá pro trapiche brigando, esperar eu chegar. E quando eu reclamasse, ele iria dizer que só avisou que eu chegaria, não que era pra eles irem até lá! Mas, enfim, é o Goela, né?!
A viagem havia sido tranquila e demoramos porque o Fumaça, piloto do barco, teve que dar voltas pra ir bem pelo canal, porque a “água não tava grande” e, se fôssemos por cima da praia, poderia encalhar. Quando a gente sai do “furo de Breves, no Marajó, para atravessar a baía para o lado do continente, atravessando o rio Pará, para ir até a parte de trás da pequena ilha que é onde fica a sede da cidade de Bagre, tem muita praia quando a maré do rio (sim, rio tem maré, no Marajó!) tá baixa. Quando a “água tá grande”, o barco passa por cima da praia e economizamos até quase 1 hora. Se a “água tá pequena”, tem que ir pelo canal, e aí, só quem conhece o local, porque as indicações são apenas umas poucas varas cravadas no rio, que só quem tem o olho acostumado a ver na lonjura da água sem fim que consegue identificar. 
Pois quando cheguei, estava pegando a mochila, ainda com uma perna o barco outra no trapiche, chegaram os dois discutindo, e falando como se estivessem falando comigo a manhã inteira!
“Ele roubou a banda do porco, doutor”.
“Não roubei nada! Tava morto peguei o que era meu!”
“Hein?! Bom dia pra vocês também!”, falei para ver se eles se tocavam que eu não estava entendendo nada e estava chegando agora!
“Bom dia!”
“Bom dia!”
"Pois ele roubou a banda do meu porco, doutor. Ele tem que devolver!”
“Roubei nada!”
Socorro!!!
Já havia saído do trapiche municipal, já estava na praça na frente da igreja indo para o judiciário, e os dois não paravam de falar, fazendo com que eu nem percebesse toda a calma da cidade!
Virei para os dois e falei: 
“Acalmem-se os dois!” (Tá bem, eu não falei “acalmem-se”, eu falei “se acalmem’”, mas não quis escrever errado). “Lá no judiciário a gente resolve!”
“Tá bem, doutor, lá o senhor vai mandar ele me devolver a banda do porco!”
“Devolvo nada, doutor, lá no judiciário o senhor vai ver que ele estava me devendo”!
E assim foi, não adiantou nada eu dizer para esperar chegar no judiciário.
Quando chegamos (sim, quando nós TRÊS chegamos), o Goela estava na porta, com um sorriso de quem está rindo por dentro, sabendo da confusão que havia aprontado!
Eu havia ido porque combinei com o promotor e com o defensor público, fazermos um mutirão de processos criminais do juizado especial, que são aqueles pequenos delitos que, na prática, não deixam ninguém preso, como brigas, rixas, e pequenas confusões entre vizinhos e amigos que bebem demais.
Eu estranhei os dois terem ido esperar-me desde o trapiche. Eu sabia que devia ser coisa do Goela, mas, mesmo assim, quando tem promotor ou mesmo defensor público na cidade (e os dois estavam lá há dois dias) as pessoas sempre correm para eles com qualquer problema. E o promotor que estava lá não era qualquer um e nem era do tipo que foge dos problemas. Já falei dele outro dia, e prometi que não ia dizer que o nome dele é Gerson!
Chegando no judiciário (eu esqueci de dizer que o pessoal de Bagre chama o local das audiências de “judiciário”), perguntei logo pelo promotor. Mas vocês tem que entender que todo o caminho do trapiche ao judiciário, e mesmo enquanto eu falava com o Goela perguntando pelo promotor, os dois continuavam num tal de “roubou banda do porco, não roubei, roubou sim, tu estavas me devendo”!
“Boa tarde, Goela! Foste tu que mandaste esses dois atrás de mim?”
“Claro que não doutor! Só falei que o senhor tava pra chegar!”
“E o promotor?”
“Tá com as “Fadas”, doutor”.
Enruguei a testa num universal gesto de “diga mais”.
“O torneio de futebol começa hoje, doutor, e a prefeitura não deixou o time das “Fadas" ser inscrito. Tá a maior onda lá na promotoria!”
As “Fadas" são os gays da cidade. Para uma população do tamanho de Bagre, até que tem bastante… mas fazem barulho como se fossem muito mais! O mais interessante é que convivem praticamente sem homofobia, com toda a população sabendo quem são, sem precisarem esconder-se, nada! Entre as “Fadas" tem professores, servidores públicos, pessoas inseridas na comunidade de maneira completamente normal. Apenas fazem parte das “Fadas” e pronto!
Daí, que foi um reboliço a proibição do time das “Fadas" ser inscrito no torneio. E foram todas, ou quase todas falar com o promotor (vou usar o gênero feminino porque estou usando o termo “Fadas”, sem qualquer conotação pejorativa!).
Como o promotor não é de meias soluções, quando começou o falatório todo, ele não teve dúvidas: bateu na mesa, pediu silêncio, e chamou o Goela (viram que o Goela é um “faz-tudo”, né?!)
“Goela, chama agora o secretário de educação aqui!” No município, o secretário de educação cuida, também, do esporte e cultura. 
O Goela nem disse nada, e se mandou para a prefeitura!
Ele sabia que quando o promotor chamava, era sério. Teve uma vez que um ex-vereador estava sendo processado, e houve várias audiências frustradas, porque ele nunca comparecia, apresentando sempre atestado médico. Numa dessas, em que a audiência era pela manhã, quando o promotor estava indo para o judiciário, viu o ex-vereador na frente de uma loja na beira. Daí, quando chegou na hora da audiência, o Goela chamou o ex-vereador e ele não apareceu, enviando um atestado médico.
Acho que era o terceiro atestado médico no mesmo processo. Olhei, e alcancei o atestado para o promotor. O promotor, na hora:
“Goela, vem aqui. Pega esse atestado, leva lá na casa dele agora e fala que ele tem três opções. Mas presta atenção pra decorar as três, que vou falar só uma vez: ou ele vem, ou ele vem, ou ele vem!”
Menos de dez minutos depois, o ex-vereador apareceu lá, com um cabide de soro e a agulha no braço!
Daí que quando o promotor falou para chamar o secretário de educação, o Goela foi faceiro!
Em seguida, o secretário chegou na salinha da promotoria, e entrou sob vaia das “Fadas”.
No meio do “bom dia” que o secretário tentou falar, o promotor já foi dizendo:
“Ou as “Fadas" jogam, ou não tem torneio. Obrigado. Bom dia.”
Simples assim!
Enquanto isso, eu finalmente conseguia sentar-me para dar ouvidos aos dois brigando pelo porco.
“Sim, explica o que houve, Tesoura”. O Tesoura era o dono do porco, e tinha esse apelido, não porque era criador de porco, claro, mas porque era cabeleireiro!
“Doutor, o "Papel de Xerox” roubou meia banda do meu porco!, e eu quero de volta”.
“Roubei nada, doutor. Ele tava me devendo a meia banda, pode perguntar pra ele”
Não cheguei a perguntar, mas o Tesoura foi logo falando:
“Eu devia, doutor, mas o combinado não era esse. Eu perdi na aposta da bola, mas eu ia dar só quando o porco morresse”.
“Mas ele morreu, doutor”.
“Morreu nada, tu que mataste!”
“Eras! Pois se eu matei, ele morreu. Doutor, eu lhe juro que matei ele primeiro, e depois tirei minha banda. Não ia fazer isso com o bicho vivo!”
“Hein”?
Pois é… mas enfim, o dia estava animado! Ouvi os dois mais um pouco e ficou por isso mesmo. O porco já tava morto mesmo, fazer o quê?!
Depois de mais um tempo entre problemas de porcos, galinhas e vizinhos, não necessariamente nesta ordem, chegaram as “Fadas" pra falar comigo.
Fiquei estranhando, porque dificilmente um problema levado até o promotor, não era resolvido.
Mas o assunto era outro:
“Doutor, tem o nosso baile na semana que vem. Podemos contar com a sua ajuda?”
Fiz minha cara de “hein”, sem dizer nenhuma palavra.
“A gente sempre pede colaboração pra todos. Nosso ídolo, o doutor promotor, já ajudou”.
Bem, acabei contribuindo.
Depois disso o dia correu normal, fizemos as audiências, resolvemos o que dava para resolver e, no final do dia, estávamos indo para o hotel, eu, o promotor e o defensor público, que resolveu parar numa banca de DVD’s piratas. Eu fiquei uns passos afastado, e o promotor ficou conversando comigo. Depois, o promotor saiu e foi em direção à banca. O atendente, já sabendo que o promotor havia resolvido o problema das “Fadas" quis agradar o promotor (o vendedor da banca era do time das “Fadas” também).
“Ô doutor, nem tem como agradecer. Obrigado pelo que o senhor fez por nós. Olhe, para o senhor, eu ofereço pelo mesmo preço qualquer um desses filmes aqui, que são especiais”. E tirou de baixo da banca uma caixinha com DVD’s que não estavam expostos. De longe eu não vi nada. Mas só vi o promotor saindo xingando o vendedor. Estranhei! Depois fiquei sabendo: o vendedor achou que o promotor fosse uma das “Fadas”, por ter ajudado, e queria oferecer filmes especiais… na verdade eram filmes pornôs gays!!
Báh, foi quase uma semana que eu e o defensor público ficamos tirando onda com o promotor. Mas o problema foi na semana seguinte, quando voltamos na cidade e era o dia do baile das “Fadas”.
Eu notei que o pessoal da cidade estava me olhando um pouco mais do que de costume e quando eu passava o pessoal olhava e cochichava entre si alguma coisa.
Pois quando passamos à tarde na frente do local onde seria o baile das “Fadas" estava lá a faixa e o cartaz:
“Baile das Fadas. etc, etc, etc… apoio, Doutor…” Meu nome!
Dá pra imaginar a onda que o promotor tirou? Juiz gaúcho, apoiando o baile das “Fadas”? 


Por Luís Augusto Menna Barreto



43 comentários:

  1. Kkkkkk
    Nossa!!!!Que dia!!!!
    Mas que foi engraçado foi Doutor!!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, bom... depois tudo fica engraçado... rsrsrsrs

      ... mas na hora......!!!!!

      Excluir
  2. Ah! Que maravilha!!! Estava com saudade das tuas peripécias no Marajó!
    Muitíssimo engraçada!! Dei muitas risadas!!!
    Fechou com chave de ouro meu sábado!!!
    Aguardando a próxima...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Super obrigado, Armelinda!!!!!!!
      Também gosto demais de escrever as aventuras do Marajó!!!

      Excluir
  3. kkkkkkkkkkk IMPOSSÍVEL não começar rindo dessas situações todas. Até visualizei os dois briguentos te seguindo e discutindo, vc só ouvindo sério. Amei tudo, esse burburinho todo, tava com saudade do Marajó e seus acontecimentos.Muito bom mesmo. Sem falar na "fadas", fãs desses homens da lei... rsrs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. E até hoje sou amigo de várias Fadas!!! Saudades do Marajó!!!!

      Excluir
  4. O bom de tudo poeta, é saber que lá não existe homofobia, vivem todos na paz, com relação a isso. E afinal, foi na festa das "fadas" ou não?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Na verdade, não fui...! Mas é uma das festas mais animadas, ano a ano!!!!!!

      Excluir
  5. Não entendi a frase seguinte, meu cronista maior:

    "Juiz gaúcho, apoiando o baile das “Fadas”?"

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, essa é como o Segundo Sol de Nando Reis: não tem explicação...!!!

      Excluir
    2. Não tem explicação mesmo.

      Porque há juízes heterossexuais como há juízes homossexuais; há gaúchos heterossexuais como juízes homossexuais.

      E o que tem isso?

      Nada demais. São apenas diferenças de orientação sexual. Não são critérios para avaliar profissional algum nem tampouco cidadão qualquer.

      Portanto se a personagem-promotor "tirou onda" com a personagem-juiz que era gaúcho, pela razão em questão, havia um tanto de preconceito homofóbico subjacente às suas "brincadeiras".

      De, qualquer forma, meu cronista predileto, PARABÉNS, por você suscitar com sua crônica este assunto, que é de importância fundamental em nossos dias.

      Ou nós combatemos com veemência os preconceitos que estão entranhados em nossa formação ou nós, disfarçadamente, os alimentamos.

      Excluir
    3. Corrigindo: há gaúchos heterossexuais como gaúchos homossexuais.

      Excluir
    4. Essa coisa de "fazer de conta" que é brincadeira, tirar onda, nada mais é que homofobia disfarçada. Não devemos zombar de ninguém que tem uma orientação sexual diferente da nossa ou permitir usos de termos pejorativos conosco e com os homosexuais pq apoiamos a causa gay. A crônica é muito boa e engraçada exceto pelo que pareceu nas entrelinhas um pouco de homofobia nas "brincadeiras" do colega promotor com o senhor juiz.

      Excluir
    5. Tô fumado....!!! Acho que eu tirei mais onda com ele do que ele comigo!!!!!!!!!

      Excluir
    6. Amigão, tu perguntaste ao amigo Izamir o que eu te pedi para perguntares?

      Excluir
  6. Amiga Ana, explicação. Juiz gaúcho porque dizem que é machão. Há, há, há. Machão no baile das fadas ia dar no que falar.
    Quanto ao Marajó, estamos esperando o livro do amigão em forma de crônicas, com estas histórias, que só ele sabe contar. Muito legal.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mais algumas, pra poder ter conteúdo num livro, e penso forte no assunto!!!!
      Valeu, amigão!!

      Excluir
    2. Eu também não vejo a hora de tê-lo em mãos, Dr. Izamir!!!! Ainda bem, que agora, a fumaça parece que está virando fogo!! Que bom!!!

      Excluir
  7. Demais!!!
    Para um domingo friozinho e muito chuvoso, foi tudo que precisava para rir muito.
    Como queria ter visto tua expressão ao ver teu nome! kkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Rsrsrsrsrsrs...... foi ... inusitado!!! Mas levei tudo na esportiva e até me diverti com todo o episódio!!!!

      Excluir
  8. Comentando as histórias de Breves/bagre/Marajo o ilustre contador de história sempre nos mostra um pouco de tudo e de tudo um pouco que ele vivenciou ao longo de sua trajetória pelas aquelas plagas e cinematograficamente nos coloca em nossa retina e nossa mente (e a imaginação é fértil ) num colorido maravilhoso que dá gosto de ver novamente. Eu vi alguma coisa, alguma vez, andei por lá. Pois muito bem, todos os protagonistas são artistas e donos de dons que a cada um, por direito é opção, fazem o que querem é assim e a vida, cada um faz o que melhor lhe aprouver, até participar em torneio de futebol. O autor dessa história, meu querido genro, ao seu final, não era merecedor de tal homenagem, sei o quanto ele jogou futebol é muito bem, e, com faixa escrita não ganha jogo, o jogo se ganha no campo, há que se batalhar para ganhar. Os comentários finais dos seus pares mostra o quanto ele (o juiz) é admirado pelos seus parceiros. Um bom domingo para vocês. É isso aí.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. ah... mas levei tri numa boa...!!! E a festa, pelo que soube, foi super animada!!!

      Excluir
  9. Isso é o que chamo de direito vivo, apesar da morte do suíno! Parabéns pela leveza do texto! Abraço fraterno!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sei que tu também tiveste histórias parecidas, com "semoventes"....!!!!!

      Excluir
  10. Oxente!! Mas que coisa é essa de promotor comprando DVDs piratas? E ainda com gracinhas homofóbicas? "Tá todo mundo louco,opa!!" Só faltou ter degustado a pururuca da banda do porco, presenteada por "Papel de Xerox" É muita criatividade!!! Kkkkk Te liga, bico!! Abração.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. No almoço, pra não me complicar, pedi peixe!!!!!!! ... será que foi pescado no período do defeso????

      Excluir
  11. Viu só?!!Rsrsrs Lá vem outra boa crônica!!! Êta, Marajó fértil! Rs

    ResponderExcluir
  12. Boooooooaaaa noooooooiiiite amigos queridos!!!!!
    BEEEEEEEIIIIIIIJOS!!!

    ResponderExcluir
  13. Muito boa... Dei várias risadas KKKKKKKKKKKKKK...

    ResponderExcluir
  14. Kkkkkkk, muito boa a crônica. Parabéns!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, guria!!!!!
      Super obrigado!!!!!!!!!
      Bem-vinda!!!

      Excluir
  15. Faltou apenas mencionar que as fadas não usavam nomes nas camisas do time de futebol para identificá-lad , elas usavam os poderes que cada uma tinha: felicidade, amor, sinceridade, alegria, simpatia, entre outros que não lembro, e claro a fada atacante chamava-se luz. O nome do time era Sapato Alto Futebol Clube as Fadas. Excelente lembrança. Rimos um monte.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mas báh... é verdade!!!!
      Nem tinha lembrado!!!!!!!!!!!!!

      Excluir