terça-feira, 12 de setembro de 2017

O Juiz, a Hora da Sesta e o Almoço

O Juiz, a Hora da Sesta e o Almoço

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(Silêncio)…
É difícil descrever o silêncio! Fosse um roteiro, eu descreveria mais ou menos assim: “CENA 1. EXT: CIDADE ADORMECIDA. CACHORRO ENCOSTADO NA PORTA DO BAR DO S. NONÔ, SOB O TOLDO. CABOCLO ADORMECIDO NA REDE PENDURADA SOB A ÁRVORE. MESA DE BILHAR DO AÇOUGUE DO RETALHO COM AS BOLAS PARADAS SOBRE O FELTRO VERDE JÁ BASTANTE SURRADO E OS TACOS CRUZADOS SOBRE A MESA. FOLHA DAS ÁRVORES PARADAS. RIO PASSANDO LENTO.”
A cena acima rodaria sem trilha sonora alguma. As pessoas entenderiam que tudo estava em silêncio. Mas, como é uma crônica, fica difícil descrever o silêncio. Mas era assim que estava a cidade, na beira do rio. Até os pássaros estavam adormecidos. Nem barulho de pô-pô-pô havia! (Ah, pô-pô-pôs, são pequenos barquinhos que fazem um barulho bem alto, semelhante a… “pô-pô-pô”!!). Eu estava saindo do fórum, e só uns instantes de caminhada, já me deixaram suado. Não, não se tratava de uma noite quente e eu não estava trabalhando na madrugada. Eram 2 horas… da tarde! 
Isso mesmo! Tem lugares no Marajó, que entre 12 horas e 16 horas, nada funciona. Nem as pessoas. Não há notícia sequer de roubo, furto e, menos ainda de agressão e tentativa de homicídio, na cidade, nesse horário! (Sim, especialmente tentativa de homicídio ou mesmo homicídio, porque, como eu já falei outra vez, com o decorrer do tempo, eu cheguei a sentir-me uma espécie de “Odorico Paraguassu” do Fórum local: tinha um salão de júri bem bonito, mas ninguém tentava matar ninguém pra eu poder inaugurar!).
Eram meus primeiros dias ali, logo depois do episódio da “visagem" no fórum, onde eu acho que fui enrolado em cinquenta reais pela Socorro Benzedeira… mas isso eu também já contei em outra crônica!
Enfim, eu estava descobrindo que a cidade simplesmente adormecia entre 12 horas e 16 horas. O comércio realmente fechava! Depois, abria as 16h e ia direto até perto de 21 horas.  
Todos os dias anteriores, eu havia almoçado em uma pequena cozinha no fórum. Antes de eu ir para lá, assumir a titularidade da comarca, eu liguei para perguntar algumas coisas que eu achava importante saber. Daí, sobre comida, disseram-me que serviam almoço no bar do Seu Nonô, ou eu poderia comer no fórum, porque o pessoal recolhia dinheiro uma vez por semana e  havia duas servidoras responsáveis pela limpeza, que preparavam almoço.
O problema é que logo no terceiro dia, quiseram agradar-me, eu acho… e fizeram uma fritada enorme de camarão! E olha… enormes. Cheguei na cozinha e havia uma panela generosa de camarão e ao lado, uma jarra imensa com açaí. Arregalei os olhos. Estava linda a mesa. Eu tenho certeza que eu me esbaldaria comendo, se não fosse por um pequenino detalhe: tenho alergia à camarão. E ainda não me havia acostumado com o açaí. Daí, que inventei uma desculpa qualquer (que é sempre constrangedor) e pensei em conhecer o bar do S. Nonô.
Trabalhei até 14 horas e saí pra almoçar. No caminho de dois quarteirões pequenos, um ocupado pelo fórum e câmara municipal e o outro pela loja do Desconto que é colada ao bar do Seu Nonô, com a diferença que o bar, sendo na esquina, fica com a frente para a outra rua, tendo a Igreja na frente, não encontrei uma alma viva… quer dizer… uma encontrei, mas não sei se tava viva, porque o caboclo tava pendurado numa rede entre duas árvores na beira, de um jeito que parecia morto! 
O bar estava aberto, mas não tinha ninguém. Procurei algo pra chamar alguém e não encontrei nada, então usei o universal chamado da tosse falsa: 
“crrf, crrf"… Nada. 
“Oi…?”. Nada.
“OLÁ…” Assim, mais alto! Nada. 
Apelei: bati palmas, quase me sentindo culpado por fazer algum barulho naquele silêncio todo!
… esperei. Ouvi um barulhinho fraco, como que pés sendo enfiados em chinelos que depois se arrastaram. Apareceu, por trás da cortina de pano, com uma preguiça até no falar, o Seu Nonô (que naqueles dias, eu ainda nem sabia que era o Seu Nonô!). 
Ele me perguntou, sem palavras, com aquele gesto de levantar o queixo, o que eu queria.
“Boa tarde!”, eu disse faceiro!
… esperei uma resposta, mas veio um suspiro e um olho mais aberto que o outro, como se ele guardasse um dos olhos descansando, afinal, pra quê fazer os dois trabalharem naquela hora, né?
“Posso almoçar?” Falei, ainda empolgado e com um sorriso, daqueles que quem quer ser bem recebido nos primeiros dias em uma cidade nova, sempre faz!
O olho que estava mais fechado abriu, e, quando ficaram ambos abertos do mesmo tamanho, a testa dele enrugou e o rosto virou um pouco pro lado. Na hora, entendi que aquele gesto era o mais perto do que seria meu “hein?”.
Com a empolgação francamente diminuída, ainda tentei num fio de voz:
“… posso almoçar…?”
E a resposta veio franca, simples, quase direta: 
“Pode… amanhã!”. Nem esperou mais nada, virou-se num movimento quase em câmera lenta e o único barulho que se podia ouvir era o do arrastar dos chinelos sumindo atrás da cortina de pano, novamente. Fiquei ali, com minha cara de “e agora?”, e lembrei que havia visto um pequeno comércio com uns pacotes de bolachas quase solitários em uma prateleira que, embora pequena, ficava grande demais com poucos produtos espalhados aqui e ali. Prometi a mim mesmo que voltaria lá, iria comprar as bolachas e resistiria à tentação de olhar o prazo de validade!
Mais três pequenos quarteirões de suor no sentido contrário… e fechado! 
Olhei em volta. Parecia madrugada… só que com sol!
Desisti. Decidi ir pra casa que aluguei e tentar dormir um pouco, também. 
Eram perto de 15 horas quando cheguei em casa, depois das tentativas frustradas de almoçar. Tive de tomar um banho, e a água estava quente… muito quente! Saí mais suado e descobri que banho naquele horário também era proibitivo.
Coloquei o ventilador no mais forte e me deitei na frente dele… e o vento era quente! Quando finalmente comecei a relaxar:
“AMÉM?” (Assim, em maiúsculas porque foi meio gritado mesmo!). 
“Hein?”. O amém não foi meu; o "hein", foi!
“VOCÊ QUE TÁ ACORDANDO AGORA, VOCÊ QUE TÁ COM PROBLEMA, VOCÊ QUE TÁ COM DÍVIDA, VEM! É HOJE O CULTO DO MILAGRE! VEM PRA CURA…” O barulho parecia de uma caixa de som meio velha. Tomei um susto. Mas estava claro que era alguma caixa de som. Daí que achei que era alguém passando na rua de bicicleta, ou coisa assim. Nem bicicleta, nem passando, nem coisa assim!
“… TRAGA SUA ANGÚSTIA, TRAGA SUA DOR, TRAGA SEU PEDIDO…”
A voz era rasgada e aflita. Parecia de alguém que estava narrando um jogo muito movimentado.
Fiquei irritado. Mas achei que ninguém ia conseguir gritar daquele jeito por muito tempo.  Não com o calor que fazia. Daí, resolvi esperar um pouco. Quando passou de meia hora, não aguentei mais. Comecei a vestir-me novamente, e decidi procurar o gritador. Quando eu estava a caminho da porta, silêncio de repente.
Olhei para um lado e outro, e nada. Não vi ninguém. Nem uma caixa de som pelas calçadas, nem uma porta aberta que parecesse um templo. Fiquei intrigado, mas, enfim, eu já havia perdido meu momento de descanso e estava com fome. Daí que notei que parecia que começava algum movimento pela rua. 
Tive a impressão que estava amanhecendo, porque as pessoas estavam como que despertando com preguiça e até o sol estava baixo, perto do rio… só que era uma amanhecer à tarde! 
Comprei os dois únicos pacotes de bolacha que encontrei, e, com eu havia prometido a mim mesmo, não olhei a data de validade. Foram meu almoço e jantar daquele dia.
No dia seguinte, fiquei esperto. Cedo quando cheguei, pedi para o Goela ver qual seria o almoço.
“Camarão com açaí, doutor. Sobrou de ontem.”
Novamente com uma desculpa, dispensei o almoço e fiquei controlando o horário. Sairia pouco antes do meio dia para almoçar e compensaria voltando à tarde.
Assim eu fiz. Saí uns dez minutos antes do meio dia. Dava pra ver uma certa agitação na rua, tanto quanto existe na hora do fechamento do comércio em qualquer cidade. Só que com a diferença que ali era meio dia e só abriria novamente 16 horas. Vi o caboclo atando a rede na árvore na beira do rio. Acho que era o mesmo que tava como morto no dia anterior, quando saí e não consegui comer. 
Mas agora… ah, agora eu tava me sentindo esperto! Verifiquei com antecedência o almoço no fórum e saí a tempo de almoçar no bar do S. Nonô.
Entrei no bar e cumprimentei o S. Nonô como se fosse um velho conhecido, afinal, no dia anterior nós nos conhecemos e ele chegou a me dizer duas palavras. Já me sentia íntimo!
“Hoje tem almoço, S. Nonô?”
“Tem. Mas só o prato do dia.”
“Pois traga. E uma garrafa de água com gás”.
Na parte do “com gás”, ele subiu uma sobrancelha. E eu refiz o pedido:
“Uma água. Com ou sem gás”.
Foram dois dias sem almoço. Mas uma semana de precioso aprendizado. Quando fui em Belém, no final de semana seguinte (10 horas de barco pra ir e 10 horas de barco pra voltar), eu trouxe um bom abastecimento de mantimentos, incluindo muitos enlatados e gêneros para microondas.
O prato do dia, no S. Nonô, era camarão.


Por Luís Augusto Menna Barreto

31 comentários:

  1. Por isso a geladeira sempre abarrotada de coisas... Quem se dava bem era o estagiário que sempre comia alguma coisa quando entrava na sala... Kkkk

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    1. Rsrsrsrsrs......
      Mas era um bom estagiário!!! Ele podia!!!!!

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  2. Adorei!!!
    Como sempre tuas crônicas são muito boas para alegrar o dia que está começando.
    Fiquei com pena de teres ficado sem almoço.
    E a propósito, não sabia que éras alérgico a camarão.
    Será que nossa mãe sabe?
    Saudades...

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    1. É o jeito poético de dizer: "nunca experimentei e não gosto"!!!! Rsrsrsrsrsrs

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  3. Que sofrido seus primeiros dias nesse lugar de hábitos tão diferentes né poeta? Fiquei com pena de você, sem comer por dois dias, só a base de bolachas rsrsrs. Mas valeu pelo aprendizado. Estava com saudade das suas crônicas, tão ricas em detalhes, que parecia que eu estava lá (descrevendo, maravilhosamente bem, até o silêncio, parabéns.

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    1. Saudade de escrever estas aventuras marajoaras!!!!!!
      Saudades de trazer humor ao blog, também!!!!!!!
      Um imenso abraço..... antes da hora da sesta!!!!!

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    2. Estive nessa cidade, escaldante, tenho boas lembranças dela, foi uma passagem interessante. Abraço a todos.

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    3. Oi amigão Valdo, obrigado pela recepção em POA, foi jóia. Valeu. Fique com Deus. Um fraterno abraço. Esperamos vcs em Dezembro.

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    4. Amigo Luís, Santo Antônio da Patrulha realmente é uma linda cidade, igual a Paris como você falava. Gostei dos detalhes da sua história. Vc deve ter levado umas boas surras da Dona Zélia. Obrigado pela atenção e carinho. Valeu. Vou voltar. Um fraterno abraço.

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    5. Pois amigão, eu sempre disse: só dá pra falar realmente de Santo Antônio, pra quem conhece Paris, porque aí tenho com o quê comparar!!

      E, se me permites: "mutatis mutandis", o Marajó é a Veneza Paraense!!

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  4. Salve amigão, como sempre, sua narrativa encanta pelos detalhes parece que estou lá acompanhando a cena. Muito legal. Quanto a alergia ao camarão, se vc nunca comeu, não vale. Você não sabe o que tá perdendo.
    Oi amiga Eliza, fico feliz de falar no blog com vc, obrigado pela recepção em Santo Antônio da Patrulha. Gostei muito. Agradeça a Dona Zélia pelo excelente almoço, ficamos muito emocionados pelo carinho e atenção. Que sonho imenso. Fiquem com Deus e um fraterno abraço. Esperamos vcs aqui em dezembro.

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    1. Bah, a mana entregou-me publicamente!!!! Rsrsrsrsrs!!!!
      Hoje em dia, como um ou outro, mas ainda não aprendi a apreciar como merece, essa iguaria tão paraense!!!!!

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    2. Querido Tio Izamir
      Foi um prazer enorme recebê-los em
      nossa casa, na Doce Terra.
      Tornaram nosso dia muito mais feliz!!!
      Pena ter passado tão depressa.
      Mas é sempre assim: tudo que é muito bom dura muito pouco.
      Só seremos mais felizes quando nos derem o prazer de estarem aqui novamente.
      Falo por mim, pela mãe e pela Júlia.
      Obrigada pelo carinho e amizade de vocês.
      Sintam-se abraçados por nós.
      Até breve!

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    3. Muito obrigado querida Elisa pelas palavras e carinho. Fique com Deus e até breve. Izamir

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  5. Ah...estava com muitas saudades das crônicas do Marajó! E você discorre sobre esses episódios de uma forma tão deliciosa que, ficamos querendo mais...

    Mais uma vez...PARABÉNS, Poeta!!! Maravilhosa!!!!!

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    1. Adoro as aventuras em "Marajó City"!!!
      Foram anos deliciosos é uma aprendizagem sobre GENTE que vou carregar pra sempre no coração!
      Depois de 11 anos, eu saí do Marajó.... mas acho (é espero!!) que o Marajó jamais saia de mim!!!!

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    2. Também acho que jamais sairá de você...! Foi uma relação muito longa e intensa...

      Olha...só pra registrar...: amo camarão...caranguejo...um catado de siri também é muito bom...! Meu Deus...!!!!

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    3. Pelo Marajo, é quase um sacrilégio não gostar de camarão!!! E aqui no Estado, esses frutos do mar (e rio) são muito apreciados!!!!!

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    1. Mas bah!!!!!!!!
      Suuuuuuper obrigado!!!
      Tu falas que as crônicas são minha "melhor mão"... pois eu estava com muita saudade de revisitar o Marajó por elas!!!!
      Mil obrigados!!!!

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  7. Excelente crônica, muito instrutiva, principalmente para conhercermos os costumes locais...

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    1. Vem com tua onda, Rob!!!😂
      ... tu estavas lá antes de eu chegar!!!!
      Um baita abraço!!!!!

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  8. Muito bom mesmo. Dei algumas risadas, porque eu vivi praticamente a mesma coisa, quando estive por lá para uma audiência! Não comprei biscoitos pois os tinha, levei-os para a viagem de mais de 10hs de barco! Bravo Poeta!

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    1. Ah, o Marajó...!!!!
      Somente o vivendo para compreendê-lo... e, depois, não sai mais de nós!!!!!

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    2. Verdade Poeta! Foi amor a primeira vista!

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  9. Boa tarde, incrível como você consegue me levar á conhecer o lugar, as pessoas, imaginar cada ambiente. Posso ter ideia de quanto não tenha sido fácil se adaptar. Porém, de todo o aprendizado que cita em sua crônica, um deles é o mais evidente, o seu amor pelo Marajó!
    Amo ler suas crônicas!

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    1. Super obrigado, de coração...
      como já falei algumas vezes, ainda que tenha saído de lá, acho que o Marajó vai em mim pra vida toda!!!!!

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  10. Fiz uma pergunta a ti, escritor.
    Tua resposta será definitiva.

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  11. Conheço essa alergia... O Henrique, por exemplo, tem alergia a beringela!
    Surreal imaginar essa noite com sol!

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