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quarta-feira, 22 de agosto de 2018

poesia de ver: ... crescer! /// poetry to see: ... grow up!


Naquele lugar sem vida, havia uma plantinha verde. 
… porque não havia nenhuma outra planta para dizer-lhe que ela não conseguiria.

In that lifeless place, there was a green little plant.
... because there was no other plant to tell her she could not.

Por Luís Augusto Menna Barreto

terça-feira, 21 de agosto de 2018

... descanso!

11.9.1979 - 20.08.2018

... é estranho:
na vida, primeiro produzimos frutos...
depois, somos plantados e regados com lágrimas...!

Descanse em paz, amigo...!


Em memória de André Miranda de Oliveira, que lutou até o fim... ... e ensinou que mesmo em lutas perdidas, podemos ser vencedores...!

domingo, 12 de agosto de 2018

Poesia de ver: ternura! // Poetry to see: ... tenderness!


Eu vi, quando entre todas as flores, vovô escolheu essa para dar para a vovó.
— Vovô porque você não pega uma mais bonita?
— Eu peguei a mais linda.
— Essa está velha, vovô, as pétalas estão enrugadas e caindo… 
Ele sorriu. E foi levar a flor para vovó. Quando a vovó recebeu a flor, vi os olhos dela brilharem e ela deu o sorriso mais lindo que já vi. 
E então eu vi que vovô sempre soube escolher a flor mais linda. 

//

I saw, when among all the flowers, Grandpa chose this one to give to Grandma.
— Grandpa why do not you get a prettier one?
— I got the prettiest.
— That’s old, Grandpa, the petals are wrinkled and falling ...
He smiled. And he went to take the flower to Grandma. When Grandma received the flower, I saw her eyes shine and she gave the most beautiful smile I've ever seen.
And then I saw that Grandpa always knew how to choose the most beautiful flower.


Por Luís Augusto Menna Barreto

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Um Micro Conto de Amor /// A Micro Tale of Love

Todos os dias, ele acordava cedo, muito antes do sol nascer e fazia o café. Escrevia um bilhete com poucas palavras de gentileza no guardanapo, ou desenhava um coração…  … e com cuidado, ele a acordava nos primeiros raios de sol. 
Só então, ele saia para trabalhar… e a deixava com cara de sono, mas com um sorriso.
Um dia ele teve de viajar… Não lhe faria o café.
Foi que no momento dos primeiros raios de sol, o telefone dela tocou. 
Ele lhe disse "bom dia”.
… e ficou na sua boca, por todo o dia, o gosto daquela conversa.


Ela descobriu mais tarde, que antes de viajar, ele desenhou corações em todos os guardanapos que ela usaria na ausência dele.

(Há quem chame isso de amor…!)


///


Every day he woke up early, long before the sun came up and made the coffee. He wrote a note with a few words of kindness on his napkin, or drew a heart ... ... and carefully, he woke her in the first rays of the sun.
Just then, he left to work ... and he left her with a sleepy face, but with a smile.
One day he had to travel ... He would not make her coffee.
It was that in the first rays of the sun, her phone rang.
He said, "Good morning."
... and it was in his mouth, for the whole day, the taste of that conversation.


She later discovered that before traveling, he drew hearts on all the napkins she would wear in his absence.
(Some call it love ...!)


Por Luís Augusto Menna Barreto



terça-feira, 7 de agosto de 2018

poesia de ver: ...iguais! // poetry to see: ... same!




A borboleta laranja estava ali, naquele galho, parada há horas.
As suas asas abertas não queriam voar. 
Queriam ficar ali.
Enquanto ninguém dissesse que ela era laranja, ela se acharia verde.
Enquanto ninguém dissesse que ela era borboleta, ela se acharia folha.
Enquanto ninguém dissesse que ela era diferente, ela seria igual.
Era uma borboleta. 
Era uma borboleta mais feliz quando estava entre as folhas.

The orange butterfly was there, on that branch, standing there for hours.
His wings were open, not wanting to fly.
They wanted to stay there.
Until no one said she was orange, she would look green.
As long as no one said she was a butterfly, she would look like a leaf.
As long as no one said she was different, she would be the same.
It was a butterfly.
She was a happier butterfly when she was among the leaves.

Por Luís Augusto Menna Barreto


domingo, 5 de agosto de 2018

A Fonte de Santo Antônio da Patrulha, o Torneira de Pia e o Gato


Vocês já sabem que eu não sou do norte. E em outra ocasião eu já contei que sou do Rio Grande do Sul, fui criado em uma cidade pequena do interior, minha bela, querida, saudosa, distante e lendária Santo Antônio da Patrulha. 
Pois lá na minha querida, bela, lendária, distante e saudosa Santo Antônio da Patrulha, tem uma fonte de água natural que foi construída para a passagem de D. Pedro II, quando ele foi do Rio de Janeiro para lutar na frente de batalha da Guerra do Paraguai. Ele passaria apenas uma noite ali, mas a fonte é uma grande construção pra homenagear o Imperador que ameaçou o congresso que, se não lhe dessem autorização para ir lutar, ele renunciaria ao trono e tornar-se-ia o primeiro voluntário da Pátria!
E não é que a fonte ainda está lá?! E ainda jorra água!!!! Mas o que tem de interessante nisso? Arrá! É a lenda que cerca essa fonte. Na verdade, as lendas (assim no plural)! Pois uma delas diz que quem bebe água da fonte não morre sem voltar àquela fonte uma segunda vez. Outra, diz que quem bebe água daquela fonte, acaba indo viver na lendária, bela, saudosa, distante e querida Santo Antônio da Patrulha. Mas a melhor, deixei pro final: diz que quem bebe água daquela fonte, acaba casando com quem ofereceu a água ou levou você até a fonte.
(Eu tinha uma garrafinha dessa água comigo, quando trabalhava como bancário, em Porto Alegre. Usei uma vez! E deu certo!)
Por que eu tô contando isso? Porque eu me lembrei da fonte, quando apareceu o quarto processo do Torneira de Pia (que antes era “Gato"). Quarto caso de agressão.
Quando eu cheguei na cidade, já havia tido três processos envolvendo o Torneira de Pia. Mas, em todos os casos, ele era a vítima!
Daí, que quando apareceu pra mim o processo (que era o quarto caso de agressão), o Goela me disse que já tinha mais três processos. Eu pedi pra trazer todos porque é no mínimo curioso. Se era verdade o que o Goela dizia, era a quarta vez que o Torneira de Pia apanhava de uma mulher e em nenhuma vez ele quis que o processo fosse pra frente, ele não representou contra a agressora em nenhuma das vezes. Daí que pensei: ele é muito apaixonado por essa mulher e ela deve ser muito braba.
Entraram os dois. Ela não me pareceu braba. Pequena, até. Bonita. Mas de pouca conversa.
Já ele, estava com um imenso roxo no olho. 
Na capa do processo estavam as iniciais do nome da vítima: “C. R. dos S., vulgos Gato" e “Torneira de Pia”. Na capa dos três processos anteriores só constava: “C. R. dos S., vulgo Gato”. 
Perguntei:
— Sim, Torneira…
— Gato! — Ele me interrompeu.
— Hein?
—Gato, doutor. Esse negócio de torneira de pia, é o pessoal me malinando.
Bem, eu compreendi mais ou menos, mas ficou claro que o caboclo não gostava do apelido de “Torneira de Pia”, o que é sempre um problema, porque todo mundo sabe que apelido que pega é o que a pessoa não gosta!
Retomei:
— Sim, Gato (eu acho desconfortável chamar alguém de “Gato”, ainda mais que sou gaúcho, mas, enfim, se fosse chamar pelo nome, ele nem ia saber que eu estava falando com ele) — o que houve que tu apareces como vítima e com um olho roxo?
— Nada não, doutor. Escorreguei e bati o olho na torneira da pia.
Hein? Esse "hein" eu não disse. Ficou só pra mim. Discretamente, enquanto ele falava, fui abrindo os outros três processos pra ver os depoimentos do Gato: 
“Não foi a Milagres, doutor, eu escorreguei e bati a testa na torneira da pia”.
“Eu sei que parece corte de faca, doutor, mas é que escorreguei e bati de lado na torneira da pia, que é daquelas velha, de ferro, e me cortei na bem na ponta da torneira, doutor”.
“Não, doutor, não foi ela não, o chão do banheiro tava molhado, e eu escorreguei e bati a cabeça na torneira da pia, daí, fui tentar levantar, escorreguei de novo e bati do outro lado”.
É… eu pensei a mesma coisa: sempre a torneira da pia!
Daquela vez não foi diferente, o Gato não representou e o processo acabou ali mesmo, porque quando é agressão leve, precisa a vítima querer que o agressor seja processado.
O problema é que apareceu um quinto processo! Mais ou menos dois meses depois.
Lá foi:
— … na torneira da pia, doutor!
— Gato, vou dizer uma coisa: tu tens que trocar o piso do teu banheiro, ou comprar uma torneira de plástico!
Eu não resisti. Afinal de contas, era o quinto processo. Mas uma coisa tem de registrar. Pelo jeito, era só ele que tropeçava no banheiro e batia na pia, porque as meninas nunca apareceram machucadas.
Ah!, eu não falei? Era sempre uma mulher diferente que constava como agressora!
Pois é. A história da torneira da pia é tão impressionante, que a gente até esquece esse detalhe: era o quinto caso, e sempre com uma mulher diferente!
E… vocês adivinharam: apareceu, sim, o sexto caso.
Até eu já estava chamando o Gato de Torneira de Pia! 
— Deixa eu ver se adivinho: bateste as costas, quase na bunda, na torneira da pia, foi isso?
A lesão era nas costas, logo acima da bunda, quase na cintura. Eu meio que tinha perdido a paciência, e antes que o Gato falasse, eu perguntei pra moça (que dessa vez se chamava Megassena):
— Antes que ele conte mentira, me diga a senhora o que aconteceu.
— Olhe, doutor, eu vou dizer a verdade: fui eu que bati nele com um pedaço de perna manca, porque esse desgraçado tava de saliência com a Milagres!
A Milagres, era a agressora de um dos outros cinco casos e que eu soube depois, cortou o Gato com uma faca, porque pegou ele “de saliência”  com a Cabrita.
A Cabrita era a agressora de… bem, vocês já devem ter imaginado a seqüência!
Fiquei curioso! Porque embora o apelido "Gato" (o primeiro, porque depois de todas essas batidas na torneira da pia, ele virou mesmo o Torneira de Pia), o caboclo não era essas coisas. Na verdade era até feio, faltava um dos dentes caninos.
— Diga-me uma coisa, Megassena: tu não sabias dos casos anteriores dele?
— Doutor, saber eu sabia, né?! Mas é que ele vem com uma conversa macia, doutor, chega de mansinho, daí a gente acaba se emaranhando, né, doutor?
Bem, chegar de mansinho e ir conquistando devagar, talvez fosse a origem do apelido, porque os gatos, quando querem conquistar o dono, chegam de mansinho, roçando na perna da gente e ronronando. Daí eles fazem aqueles olhinhos de gatinho de botas, e a gente não resiste.
O resultado é que aquele processo também não deu em nada.
Terminou a audiência, a Megassena saiu e antes que o Torneira de Pia saísse eu o chamei. Estava curioso:
— Por que tu nunca representas, Tornei…
— Gato, doutor.
— Tá bem, então, antes, me diz: por que esse apelido? 
— Porque já afundei em três embarcações na maré grande, já peguei uma mordida de cobra e duas ferroadas de arraia e tô vivo, doutor. O pessoal dizia que tenho vidas como um gato. Daí, pegou.
Bem, fazia sentido.
O que não fazia sentido era que feio como ele, arrumasse tanta mulher. Daí porque comecei falando sobre minha saudosa, lendária, querida, bela e inesquecível Santo Antônio da Patrulha. Achei que ele por qualquer coincidência da vida, dessas que só acontece em Marajó City, tivesse uma garrafinha com uma água da fonte imperial, e ficasse dando para as moças. Não tinha. Ele não sabia nem que o Rio Grande do Sul ficava no Brasil.
Mas retomei o raciocínio:
— Sim, Gato? E por que tu não representaste? Por que nunca representas?
— Porque a Megassena é a mulher da minha vida, doutor. Eu disse isso pra ela!
— E a Milagres? 
— Ah, doutor, é a mulher da minha vida!
Hein? Achei que ou eu ou ele tinha confundido o nome, porque ele falou a mesma coisa das duas.
Fiz mais uma tentativa:
— E a Cabrita?
— Mulher mais ajeitada do que essa não tem, doutor. É a mulher da minha vida!
O pior é que ele parecia sincero falando de cada uma. Mas desisti de entender. 
Quando ele saiu, eu notei que o Goela ria contido. Como quem já conhece a história.
— Ele tá falando a verdade, doutor. 
— Hein?
— Ele é gato, doutor. Tem sete vidas. E cada uma das vidas, ele tem a mulher da vida dele. Elas é que não concordam, quando descobrem.
Eu fiz as contas… ainda teria mais um processo!


Por Luís Augusto Menna Barreto