Ameaça pra ser ameaça, tem que meter medo.
Sem “tu vai ver só”…
Pois a Tonha era uma mulher grande. Não era apenas gorda. Era grande! E tinha cara de braba. Já a Augustinha era chamada assim, no diminutivo porque era uma mulher pequena, franzina. Vi que o caso era ameaça, e, assim que as duas sentaram uma em cada lado da mesa, fui logo me dirigindo à Tonha:
— O que houve, D. Tonha, que a senhora andou proferindo ameaças?
— Não ameacei ninguém, doutor. Foi ela (e apontou com o beiço para a Augustinha) que me ameaçou encher de porrada.
— Hein?
— Pois não foi, doutor? Ela me disse que se me pegar olhando pro marido dela de novo, vou pegar muita porrada.
Augustinha quieta, não falava nada. Ficava ali, olhando para a mesa, com uma expressão de “isso nem é comigo”.
Perguntei para a Tonha:
— E a senhora está com medo de que lhe aconteça alguma coisa?
— Mas doutor! E isso aí (apontou com o beiço para a Augustinha) vai bater em alguém?! Medo nada! Tô é com pena dessa infeliz!
Ora, ali mesmo, encerrei o processo!
Mas tem os que são bons de ameaça!
O “Botóquis” (estava escrito assim no Termo Circunstanciado) era o tipo de sujeito que não levava desaforo pra casa. E desaforo grande era algum caboclo dançar com uma morena que tivesse recusado a dança com o Botóquis. E como no Marajó, apelido não é por acaso, o Botóquis estava muito longe de ser um deus grego. Era fácil ser recusado.
Daí que, na festa, o pessoal cuidava: se a mulher chegou perto do Botóquis e saiu, ainda que pra ir no banheiro, nenhum homem mais falava com a pobre moça... Mas tinha sempre um desavisado qualquer, que não sabia da história ou que ja tinha bebido o tanto necessário para não lembrar mais de quem o Botóquis tinha levado o fora! Daí, coitado do caboclo! Se o Botóquis pegava, batia. Mas batia muuuuuito! Só o jeito de olhar, por baixo da aba do boné, já causava temor.
Outra que era boa de ameaça era D. Mocinha, que de mocinha não tinha nada.
Pois assim foi o caso: Feito o pregão, entrou D. Mocinha como autora do fato (quem fez a ameaça). E “Mocinha” era mesmo o primeiro nome daquela senhora. Eu me assustei. Acho que nunca tinha visto um rosto tão enrugado! O passo era firme, mas estava curvada para frente, pensei que tivesse já beirando os 70 anos. A vítima aparentava uns 40.
D. Mocinha tinha uma pequena fruteira e empregava seu neto, a quem prometera fazer Padre. A mãe morreu antes do parto e a criança no ventre foi dada por perdida. Mas nasceu da mãe morta e foi tido por milagre. Ia ser devolvido ao santo, fazendo-se Padre por promessa de D. Mocinha. Daí, quando alguma mulher demorava mais que um instante de comprar uma fruta, falando com o neto, D. Mocinha já achava que era o diabo em forma de mulher querendo desencaminhar o futuro santo. Pegava um terçado e corria atrás da dita, ameaçando furar.
Pois a vítima que estava ali era mais uma entre tantas que dizem que D. Mocinha ameaçava. Confesso que estava torcendo para não ser verdade; ou para que houvesse uma proposta leve do Ministério Público que D. Mocinha acatasse e se visse livre.
— Mas a senhora ameaçou mesmo a vítima, D. Mocinha?
— Ameacei não, doutor! Prometi! Vou furar essa rapariga que quer saliência com meu neto santo.
Não teve jeito. D. Mocinha não aceitou nada do que propôs o Ministério Público, por mais brando que fosse!
— Mas D. Mocinha, a essa altura da sua vida, a senhora ainda vai querer se incomodar com um processo? Por que não aceita a proposta do Ministério Público?
— Não sou mulher de aceitar favor, doutor. Vivi até aqui, com o suor do meu trabalho!
Pois é. Eu fiquei até curioso pra saber a idade daquela coleção de rugas que D. Mocinha trazia na pele. Para matar minha curiosidade, pedi a célula de identidade de D. Mocinha, que logo pegou uma sacola plástica toda enroladinha e de dentro tirou a célula e estendeu-me! Não consegui disfarçar o susto:
— Mas a senhora tem 51 anos, D. Mocinha?
— Pois é doutor. Sei que não parece.
Até hoje eu agradeço por nesse momento ter falado apenas:
— … é…
Porque D. Mocinha arrematou:
— Mas isso é porque me cuido, doutor, não sou como essas raparigas de hoje que experimentam tudo que é porcaria e se estragam cedo!
Luis Augusto Menna Barreto, em 9 de maio de 2026.
Data da postagem e texto original: 15 de julho de 2016
As X as pessoas mais magrinhas é que são mais ágeis, tanto pra dar uma voadora, qto pra correr da outra grandona. Adorei a "promessa" da D. Mocinha que não faz ameaça.. o Botóquis um bobalhão, leva pro xadrez pra "tomar tenência",
ResponderExcluirO Botóquis era "freguês" do Tonelada (policial militar) e do Fechadura (carcereiro). Acho que em número de prisões, ele só perdia pro Brédi Piti, que até ajudava na limpeza da delegacia, de tão acostumado que tava em ir passar temporadas por lá. Da Dona Mocinha, até eu tinha medo... sendo gaúcho e com a fama que levo por questões de territorialidade, não me demorava na fruteira. Vai que ela pensasse que eu tava querendo saliência com o neto?
ExcluirFinalmente, pra não deixar passar em branco... levei um tempo para entender teu escrever moderninho e compreender o que era o "X"... rsrsrsr
kkkkkk preguiça de escrever. Imagino vc, novinho na área, aprender a organizar seu tribunal.
ExcluirAcho que nunca aprendi, na verdade. E muito fui enrolado pelo Goela, Barganha, o Nik, e tantos outros maravilhosos servidores que me ensinaram, muito mais do que qualquer "Marajó Way Of Life" ensinaram sobre humanidade, sobre VIDA, sobre GENTE...!
ExcluirAchei que ia ver tanto bicho por lá, e me vi bicho eu, arisco, estranhando... aprendendo... e quanto mais me vi bicho, mais aprendi sobre ser gente!
Eita qta confusão no Marajó!!! Um povo tão valente, briguento rsrsrsrs
ResponderExcluirDia de audiências no fórum era um espetáculo com os casos apresentados né? Bom demais que cada crônica é diversão pura.
Nice!!!
ExcluirComo é incrivelmente bom encontrar-te por aqui!
No Marajó era sempre uma surpresa em cada audiência! E as melhores eram as de "pequenas causas": tanto no cível quanto no crime"... mas quase me atrevo a dizer que as do Juizado Especial Criminal eram mais... animadas! Esses casos de ameaças eram sempre mais pitorescos! Tinham amigos que chegavam abraçados no Fórum e, quando eu via, eram o autor do fato e a vítima. E ambos diziam que a briga, a ameaça, a furada de faca, foi coisa de "porre", que não tinha que levar pra frente!
Nada tira de mim, a saudade do Marajó!
Que delícia de crônica, daquelas que a gente quer encompridar pra não acabar. Porque a gente quer mais, mais dessa realidade brasileira, cotidiana, que mostra com comicidade a vida dura do povo brasileiro.
ResponderExcluirAmei! Parabéns! Traga mais…
Pobre d. Mocinha, se achando moça ainda, mesmo debaixo de todas as rugas.
Eu fico pensando em quanta coisa vc testemunhou no Marajó com seu ofício de juiz! É uma riqueza!
Eu tento justamente trazer pra cá... mostrar um pouquinho de um pedaço do Brasil, que o Brasil não conhece...
ExcluirComo tem a caatinga nordestina, os pampas gaudérios, as histórias de pantanal...somos muitos em um só.
Eu gosto de pensar no Marajó, como a "Macondo" Marajoara, porque muito de lá, faz parte de algo fantástico, para o qual não teho a explicação (e nem preciso)... deixa ser só história, deixa ser o boto, a visagem, a Matinta Pereira.... A vida fica tão melhor...!