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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

O Sonho do Abrelino



— Sabe o que eu sonho, olhando esse marzão lindo, Formiga?

— Lá vem tu com tuas viagens, Abrelino. Para de fumar porcaria!

— Tô fumando nada. Eu vejo uma morena linda, saindo nua das ondas, vindo pro meu lado…

— Eita, Abrelino! Pois eu tô vendo mesmo, olha lá! E tá vindo pra cá! Nuazinha!

— Tá maluco, Formiga? Quem tá fumando é tu! Só areia e onda. Quem dera…

— Ela tá vindo Abrelino. Olha ali!

— Não tem nada ali, maluco. Tá leso? Tô dizendo que era só sonho.

— Teu sonho tá andando na nossa direção, Abrelino! Tá vindo aqui! Como é o nome dela? Rápido o nome!

— Que nome, Formiga, nem pensei em nome era só…

— Qual nome, Abrelino, fala logo!

— Sei lá… Vanusa talvez?!

— Tá ótimo… — Oi. Vanusa, né?!

— É… a gente se conhece?

— Não, mas vai se conhecer!

— Pirou, Formiga? Com quem tu tá falando? Não tem ninguém aí! Bateste a cacholeta?

— Vanusa, desculpa meu amigo Abrelino. Ele não diz coisa com coisa. Vamos. Precisamos arrumar uma roupa. Pega minha toalha por enquanto. Tchau Abrelino. Ei… não me vai parar de sonhar agora!


…


— Fala, Abrelino! Senta aqui pra tomar uma.

— Grande Fagundes! Ei, tens visto o Formiga?

— Muito pouco. Desde que ele arrumou aquela morena, a turma vê pouco ele por aí. Também, um morenão daquele. Eu também sumiria com uma daquelas.

— Ela não existe, Fagundes. Eu que sonhei que ela tava saindo do mar, e o Formiga enlouqueceu.

— Ihhh… Já tá porre no primeiro copo, Abrelino? Ontem mesmo o Formiga postou no story. Olha aqui!

— Tô vendo nada. Só o Formiga. E a foto tá até mal enquadrada!

— Abrelino… tu tá bem? Tá dormindo bem, precisando conversar com alguém?

— Tá me estranhando, Fagundes? Vocês é que parece que combinaram de me sacanear! Bora beber que a gente não tá aqui pra conversar.


…


— Abrelino! Quanto tempo. Dá aqui um abraço!

— Flavinha, quanto tempo! Vai em alguma festa?

— Vim de uma. Primeira comunhão do Ricardinho, filho do Formiga! Ele perguntou por ti. A Vanusa tá tão linda!

— Que primeira comunhão, que Vanusa? Até tu, Flavinha? Essa mulher não existe, eu que sonhei com ela saindo da praia.

— Ahahah… tu e essa tua história, Abrelino. Continuas o mesmo!


…


— Olha, só assim para nos encontrarmos, né, Abrelino: no geriatra! 

— Ernesto, quanto tempo. O tempo passa, né?

— Nem fala. Ainda lembro de toda a turma na praia, e agora, até o filho da Vanusa e do Formiga tá casando. 

— Que filho do Formiga? A Vanusa não… ah, deixa pra lá.


…


— Oi, Formiga. Poxa que chato, na véspera do casamento do Ricardinho. Já soube?

— O que foi Ernesto?

— O Abrelino. Bateu as botas. Ainda outro dia encontrei ele no geriatra. Parecia bem.

— O quê? O Abrelino? Não pode ser! NÃO PODE!!!

— Calma, Formiga. Poxa, nem sabia que eram tão amigos assim. Ei… Formiga… onde tu vai?


…


— Renato! Renato, abre logo o portão…

— Nossa o que foi, Seu Formiga?

— Renato, a Vanusa ou o Ricardinho já saíram?

— Vanusa? Ricardinho? Quem são, Seu Formiga? Morador novo? A Síndica não passou nada aqui pra portaria, e no meu turno, não teve mudança.

— A minha Vanusa, Renato. O meu Ricardinho!

— Ãh… sua o quê? Seu o quê? Desculpa, Seu Formiga, não tô entendendo…

— Deixa pra lá! Eu mesmo vejo!

…

— Vanusa…? Ricardinho…? Vanusa… Vanusa…?


Luís Augusto Menna Barreto

20.09.2026

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Dor Nas Costas, a Jussemira e a Tonha Puxa-Ferro

 

A impressão que tive era que todos na sala de audiências ouviram o barulho! Pareceu um “nhééééééé” de porta quando as dobradiças estão velhas…. e foi um “nhéééééé" bem forte.

Ninguém se mexeu… nem eu. 

Mas logo descobri que ninguém tinha se mexido porque não ouviram nada do “nhéééé”… e eu não havia me mexido, porque o “nhééééééé" foi em mim! Eram as minhas costas. E só eu escutava. Ou, pior: só eu sentia!

Disfarcei como pude, dei graças a Deus que era a última audiência da manhã, e fiquei ali, discreto, tentando mexer só o pescoço e passando a usar o universal vocabulário do “ã-ã…; ãrrã”.

Quando a audiência acabou, pensei quase em desespero: e agora?

Preciso de um médico! 

Tomei alguns analgésicos, repousei um pouco, e tentei ir levando.

No dia seguinte, eu estava despachando o processo de uma tal Jussemira Antônia, que estava em processo de separação. Ela pedia a casa, a moto, os dois filhos, pensão de um salário para cada um dos dois filhos e para ela. Queria a separação porque só ela trabalhava, e o marido ficava o dia na rede, debaixo do ventilador. Seria uma decisão longa… e minhas costas doíam. Resolvi deixar para outra hora.

Depois, chamei o Goela.

— Goela preciso de um médico. Minhas costas estavam me matando.

— Médico não tem doutor… mas tem a “Tonha Puxa-Ferro”.

— Enfermeira ou massagista?

— É dessas que faz exercício com a gente doutor.

— Personal?

— Acho que é isso aí que o senhor falou!

Pois o Goela chamou a tal “Tonha Puxa-Ferro”, e dali combinamos para iniciar alguns exercícios. 

Passado quase um mês, fazendo alongamentos com a Tonha, senti uma melhora incrível!

Quase esquecia da dor. 

Eu estava me sentindo tão bem que resolvi decidir aquele processo de separação! Examinei com calma, me debrucei no processo, estudei, e destilei todos os meus anos de faculdade naquela decisão! Coloquei latim e tudo! No fim, sorte da Jussemira o marido não ter pedido pensão. 

Terminei a decisão, e pedi para o Goela levar o processo para o Barganha fazer as intimações do que eu havia decidido e para a audiência que acabei marcando. Assim que terminei, dei o expediente do dia por encerrado e fui trocar de roupa para fazer o treino com a Tonha.

Quando eu saí do gabinete, vi o Goela parado na porta da secretaria, espiando a decisão:

— Égua! … rock! Quero bem é estar perto quando ela souber! Pense numa mulher braba! 

Eu já estava saindo e ainda ouvi a voz do Goela:

— Ei, Tutela, olha essa decisão que o Dr. deu na separação da…

Em menos de 1 hora, eu já estava na beira alongando com a Tonha! E notei que ela estava com a "corda toda”. Foi muito puxado.

Daquele dia em diante, cada vez mais puxados os exercícios!

Passados dois ou três dias, algo estava estranho. Demorei para entender o que era: o “nhéééé" estava voltando. E só eu ouvia. De novo.

Ai meu Deus!

Comentei com a Tonha! Ela mudou os exercícios e nada. Os dias foram passando e cada vez doía mais. 

Parece mentira, mas no dia da audiência da Jussemira, eu estava quase sem poder me virar. Voltei ao vocabulário “ã-ã…; ãrrã”. 

Mas audiência estava marcada, todos lá, e eu teria de realizar. Mandei o Goela chamar as partes para audiência. 

Estranho. 

O Goela chamou pelo nome a mulher e por apelido somente o marido:

— Jussemira Antônia e Deitado, passar pra audiência”!

Entrou um caboclo quase em câmera lenta… pense num sujeito sem pressa!

E entrou a Jussemira Antônia!

— Tonha Puxa-Ferro??? Tu que és a Jussemira?!

…

Pois é… descobri porque minhas costas voltaram a doer!


Luís Augusto Menna Barreto

15.2.2019 (original)
2.9.2026 (esta versão)