Pela primeira vez em muitos anos, havia um vazio na calçada.
Centenas passaram sem notar. Alguns voltaram frustrados porque a vendedora de batatinhas (“como era mesmo o nome dela?”) não “veio hoje”. Mas houve muitos fregueses, como Armelinda, que se preocuparam.
Depois de tantos anos, não eram apenas batatinhas.
De tantas e tantas idas até ali, sorrisos e conselhos, conhecia aquele universo da calçada. Olhou para Socorro, a flanelinha, e esta moveu os ombros sem palavras, em um silêncio preocupado. Nazaré, da banca de revistas, também não sabia de nada.
A duas rotas de ônibus de distância, havia uma mãe que depois de certificar-se que o filho dormiu, lavava as roupas que chegaram imundas como ele. Odor de rua, de meses sendo usadas ininterruptamente. Odor que não foi suficiente para impedir o abraço.
Os olhos dele carregavam súplica e vergonha.
Havia culpa. A pior culpa: a que sabe que ela era seu único apoio, e mesmo assim, ele se sentir menor que seus erros…
Sabia que a magoaria novamente.
Ela também sabia. Mas permitiu-se invocar tão somente o instinto materno, o acolhimento… não queria nem mesmo ouvir conselhos de si mesma.
Ele levantou devagar, sem nem tentar sustentar o olhar. Entregou-se simplesmente e, se alguma dignidade lhe restava, entregou-a no silêncio.
Era apenas súplica. Não ousou justificar-se.
Deixou-se acolher no abraço.
Depois, foram apenas gestos:
O banho.
O alimento.
O descanso.
___
Finalmente, depois de todos os cuidados que sabia dar, depois de colocar a roupa de molho, permitiu-se sentar velando-lhe o sono.
Pegou o celular e procurou um nome que há muito não digitava. Enviou a mensagem:
“Francisco, nosso filho está aqui.”
(... continua)
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Luis Augusto Menna Barreto, em 1º de março de 2026
* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.
Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!
Ainda sem palavras, refletindo para escrever.
ResponderExcluirTem vezes que o texto pede apenas o aceno… e aceita o silêncio contemplativo!
ExcluirImagino o misto de alívio e dor de uma mãe ao resgatar seu filho. É um instinto visceral q nos leva a acolher, cuidar e alimentar. Sem questionamentos. Penso tb nas tantas mulheres violentadas que so precisam de cuidados, um abraço e o silêncio acolhedor. Suas histórias são sempre tocantes.
ResponderExcluirIsso não será tudo… há um motivo pelo qual Francisco não está com a Dora… talvez existam mais verdades doloridas…!
ExcluirPassou um filme na mente, quantas mães passam por isso!!
ResponderExcluirOutras os filhos nunca volta, pra ela abraçar novamente! 😢 Liu
Tenho recebido algumas manifestações de mães… e agora preciso tratar dos próximos eventos com muito cuidado… tenho visto que essa história está tocando bastante gente… e tocando em dores nunca resolvidas…!
ExcluirTem mães com lutas de anos a procura do filho que sumiu, ou simplesmente saiu de casa!! E nunca mais deu notícia, eu não sou mãe biologia, como mãe de 4 que amo como filhos, até eu fiquei com o coração apertado lendo, me coloquei no lugar de uma mãe dessas pelo mundo, continue mesmo na dor muitas mães nunca perderam a esperança um dia achar seu filho e poder abraçá-lo novamente!! Liu
ExcluirVou penhorar todo meu carinho e cuidado tratando desta história, Liuu... Pretendo ser o mais honesto e respeitoso possível. Tratar da dor, sem vitimiza-la, simplesmente, sem alarde. Tratar da dor como é: crua. Exata.
ExcluirTem coisas que não tem explicação lógica, como o amor de mãe, que trocaria fácil de lugar com o filho, para livrar, proteger dos perigos do mundo, colocaria ele dentro do útero de novo pra isso. Esse amor só é um pouco menor que o de Deus. Linda a história da Dora...
ResponderExcluirNice, eu não tenho dúvidas de que não exista amor maior que de uma mãe. Lido muitas vezes com isso no meu dia a dia. Comovo-me. Não há nada mais forte... e não há força que vença um amor de mãe!
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