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domingo, 1 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 4

 


Pela primeira vez em muitos anos, havia um vazio na calçada. 

Centenas passaram sem notar. Alguns voltaram frustrados porque a vendedora de batatinhas (“como era mesmo o nome dela?”) não “veio hoje”. Mas houve muitos fregueses, como Armelinda, que se preocuparam. 

Depois de tantos anos, não eram apenas batatinhas. 

De tantas e tantas idas até ali, sorrisos e conselhos, conhecia aquele universo da calçada. Olhou para Socorro, a flanelinha, e esta moveu os ombros sem palavras, em um silêncio preocupado. Nazaré, da banca de revistas, também não sabia de nada.

A duas rotas de ônibus de distância, havia uma mãe que depois de certificar-se que o filho dormiu, lavava as roupas que chegaram imundas como ele. Odor de rua, de meses sendo usadas ininterruptamente. Odor que não foi suficiente para impedir o abraço.

Os olhos dele carregavam súplica e vergonha. 

Havia culpa. A pior culpa: a que sabe que ela era seu único apoio, e mesmo assim, ele se sentir menor que seus erros… 

Sabia que a magoaria novamente. 

Ela também sabia. Mas permitiu-se invocar tão somente o instinto materno, o acolhimento… não queria nem mesmo ouvir conselhos de si mesma.

Ele levantou devagar, sem nem tentar sustentar o olhar. Entregou-se simplesmente e, se alguma dignidade lhe restava, entregou-a no silêncio. 

Era apenas súplica. Não ousou justificar-se. 

Deixou-se acolher no abraço.

Depois, foram apenas gestos: 

O banho. 

O alimento. 

O descanso. 


___


Finalmente, depois de todos os cuidados que sabia dar, depois de colocar a roupa de molho, permitiu-se sentar velando-lhe o sono. 

Pegou o celular e procurou um nome que há muito não digitava. Enviou a mensagem:

“Francisco, nosso filho está aqui.”


(... continua) 


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Luis Augusto Menna Barreto, em 1º de março de 2026


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!

10 comentários:

  1. Ainda sem palavras, refletindo para escrever.

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    1. Tem vezes que o texto pede apenas o aceno… e aceita o silêncio contemplativo!

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  2. Imagino o misto de alívio e dor de uma mãe ao resgatar seu filho. É um instinto visceral q nos leva a acolher, cuidar e alimentar. Sem questionamentos. Penso tb nas tantas mulheres violentadas que so precisam de cuidados, um abraço e o silêncio acolhedor. Suas histórias são sempre tocantes.

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    1. Isso não será tudo… há um motivo pelo qual Francisco não está com a Dora… talvez existam mais verdades doloridas…!

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  3. Passou um filme na mente, quantas mães passam por isso!!
    Outras os filhos nunca volta, pra ela abraçar novamente! 😢 Liu

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    1. Tenho recebido algumas manifestações de mães… e agora preciso tratar dos próximos eventos com muito cuidado… tenho visto que essa história está tocando bastante gente… e tocando em dores nunca resolvidas…!

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    2. Tem mães com lutas de anos a procura do filho que sumiu, ou simplesmente saiu de casa!! E nunca mais deu notícia, eu não sou mãe biologia, como mãe de 4 que amo como filhos, até eu fiquei com o coração apertado lendo, me coloquei no lugar de uma mãe dessas pelo mundo, continue mesmo na dor muitas mães nunca perderam a esperança um dia achar seu filho e poder abraçá-lo novamente!! Liu

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    3. Vou penhorar todo meu carinho e cuidado tratando desta história, Liuu... Pretendo ser o mais honesto e respeitoso possível. Tratar da dor, sem vitimiza-la, simplesmente, sem alarde. Tratar da dor como é: crua. Exata.

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  4. Tem coisas que não tem explicação lógica, como o amor de mãe, que trocaria fácil de lugar com o filho, para livrar, proteger dos perigos do mundo, colocaria ele dentro do útero de novo pra isso. Esse amor só é um pouco menor que o de Deus. Linda a história da Dora...

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    1. Nice, eu não tenho dúvidas de que não exista amor maior que de uma mãe. Lido muitas vezes com isso no meu dia a dia. Comovo-me. Não há nada mais forte... e não há força que vença um amor de mãe!

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