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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Bicicletas na Grama

 


— É esse aqui, pai.

— Filho… isso aí?

— É.

— Tem certeza que não preferes trocar a tua Caloi?

— Tenho, pai. É esse. Por favor.


Era década de 80. Estávamos na Mesbla. Eu tinha 14 anos.

Naquele tempo, tudo era no crediário, no carnê — e, pra isso, precisou o pai me levar até Porto Alegre.


Foi com o meu primeiro salário de empacotador no supermercado Nacional que dei a entrada no meu Atari.

Na verdade, não era um Atari. Era um similar. Mas os cartuchos eram compatíveis — e isso bastava.


Em casa, desconectei a antena da TV e liguei numa caixinha com um interruptor: “TV / videogame”.

A antena, em cima do aparelho, tinha Bombril na ponta. Mas quem não tinha?


Canal 2 ou 3. Cartucho do Enduro encaixado.


Pronto.


Como mágica, a imagem surgia — chuviscada, instável.

Os pixels eram enormes. O carro mal deixava de ser um triângulo.

Os sons, grosseiros.


Mas, pra nós, era um carro de corrida perfeito.

E o som… parecia até surround.


A notícia correu rápido.


Logo, quase toda tarde, havia um cemitério de bicicletas largadas na grama lá de casa —

e a sala cheia de moleques, gritos e ansiedade pela vez no joystick:

uma caixa quadrada, uma haste e um botão.


Nascia ali uma nova moeda: cartuchos.

Era o que se trocava. O que se apostava. O que se disputava.


De repente, presentes de Natal deixaram de ser brinquedos.

Viraram Odyssey. Atari.


Pouco tempo depois, vieram os CDs. E nós corremos atrás — de novo.


Depois… bem, sabemos: iPod, iPhone, iPad…

e foguete dando ré.


Que atire a primeira pedra quem nasceu antes de 1980

e nunca disse: “no meu tempo é que era bom”.


Ou quem nunca reclamou que “as crianças de hoje só ficam na tela”.


Não tenho sentença. Nem defesa. Nem ataque.


Sei que nasci no início dos anos 70

e que, quando vi uma tela pela primeira vez, deixei minha bicicleta no quintal.


E ela logo ganhou companhia —

outras bicicletas também abandonadas na grama,

mesmo nos dias mais quentes de verão.


Espero que as crianças de hoje cresçam com a mesma sensação que me acompanha até agora:

a de que foi bom.


Porque, se não for…


a culpa não é delas.


É nossa.


Da geração que perdeu a paciência,

que parou de levar ao parque,

de brincar de pega, de esconder, de roda.


Se a infância de hoje não for feliz,

eu sou responsável por ter preparado o mundo onde elas vivem.


Que sejam felizes desse jeito novo.


Mesmo que eu não entenda.


Que se divirtam tanto quanto — ou mais —

sem sujar as unhas de terra.


Que tenham amigos em quem confiar,

mesmo que sejam apenas um nickname

ou um @.


Porque, se deu errado…


a culpa foi minha.





Luís Augusto Menna Barreto, em 24 de março de 2026.

5 comentários:

  1. Crônica muito boa. Cada um em sua época foi feliz. Eu brinquei na rua, na vila onde meus pais moravam. Minha filha brincou no play do prédio e meu filho ja foi cria de shopping com os amigos. No meu tempo passear e fazer picnic no Alto da Boa Vista era um evento. Com a filha mais velha íamos no Tivoli Park, na piscina do clube e minha casa era local de reunião de crianças e depois de escoteiros. Iamos ao Teatro Infantil. Ja meu filho tinha o futebol em alguma praça ( o pai do amigo levava) e iam conversar em shopping. Fomos ao Teatro tb, mas menos. Cada um na sua época, sendo felizes como conheciam. Ahhh e os dois iam juntos no Rock in Rio. Eu em casa. Kkkk

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    1. É sobre isso: sobre não reivindicar para si a exclusividade de ser feliz! É entender o tempo e o caminho! E simplesmente permitir que sejam felizes no skroll, no feed, com @ e leads!

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  2. Meus pais nunca deram bicicletas aos filhos e como morávamos no meio rural, os vizinhos da redondeza também não possuíam esse tipo de locomoção, era tipo a pé.
    Enfim, o meio onde vivíamos era pobre e bicicleta era artigo de luxo para aquele ambiente de vida.
    Não restava outra alternativa de se brincar de forma coletiva: bolinha de gude, jogo de bola, pular corda, jogar pião, carrinhos de lomba e tantas outras brincadeiras.
    Nosso tempo muito antecede os anos 80 e foi sem bicicleta. As brincadeiras de crianças eram outras e nos enchiam de emoção.
    Que bom seria se voltassemos a ser crianças dos anos 40 e 50.

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    1. Ahhhhh!!!!!
      Que delícia de infância…!
      Que bom seria…
      …” que bom seria se voltássemos a ser crianças dos anos 40 e 50.”

      Que bom seria se voltássemos a ser crianças.

      Que bom seria se voltássemos.

      Que bom seria!

      Que bom!!!!!!

      Excluir
  3. Ahhhhh!!!!!
    Que delícia de infância…!
    Que bom seria…
    …” que bom seria se voltássemos a ser crianças dos anos 40 e 50.”

    Que bom seria se voltássemos a ser crianças.

    Que bom seria se voltássemos.

    Que bom seria!

    Que bom!!!!!!

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