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quarta-feira, 29 de abril de 2026

Um Conto Sobre Um Amor Guardado - parte 2

    Ele acordou, e sorriu ao ver o copo do drink, vazio em cima da mesinha da sala. Lavou a louça.

    — Hoje, eu vou comprar mais cointreau, não se preocupe.

    Estava feliz. Planejara sair do trabalho e, novamente, passar no supermercado. O dinheiro que ganhava não era muito folgado, mas abria mão de várias coisas para poder ter sempre o cointreau, e as batatinhas compradas no carrinho da esquina.

    Na parte nobre da cidade, ela acordou cedo, levantou-se quieta para não acordar o marido que dormia pesado ao seu lado. Quando foi vestir-se para o trabalho, por um instante puxou uma caixa de sapatos que mantinha no fundo do closet, onde ainda guardava o velho All Star da faculdade, e lembranças de quando sonhava com romances e viagens de mochila nas costas. Suspirou, e pegou o scarpin Yves Saint Lourent preto, comprado na Galleria Vittorio Emanuele II, Piazza del Duomo, em Milão, por € 850,00, que combinava com o tailleur escolhido para o dia de trabalho.

    Naquele fim de tarde, depois de um dia em que se viu ansiosa sem aparente razão, decidiu ir, novamente, até o mesmo supermercado onde encontrara aquele estranho que lhe parecera familiar. Controlando para estar no supermercado mais ou menos no mesmo horário do dia anterior, ela ficou longe, mas observando discretamente, o corredor onde estavam as bebidas. Sem esperar muito, ela o avistou, pegando uma garrafa de cointreau, e depois, escolhendo laranjas. Viu-o pesas as laranjas, olhar a etiqueta, pegar a carteira do bolso de trás da calça e fazer contas… viu-o retirar duas laranjas de dentro do saco, pesar novamente, olhar a etiqueta do valor e então se dirigir ao caixa. 

    Decidiu que o seguiria. Estava intrigada.

    Viu-o sair a pé do supermercado e então ela deixou seu carro no estacionamento e seguiu-o.

    A dois quarteirões dali, havia uma banca de revistas próximo à esquina, onde havia um carrinho vendendo alguma espécie de lanches. Tomou coragem e aproximou-se, fingindo ver as revistas da banca, quando ele parou no carrinho de comida da esquina. Uma senhora morena e com um grande sorriso cumprimentou-o como quem já o conhece de muito tempo.

    Ela fingiu interessar-se por uma revista e tentou ouvir o que diziam:

    — O de sempre?
    — Isso mesmo!
    — Pra viagem?
    — Sim, bem embaladinho, porque ainda tenho 40 minutos no ônibus.
    — Você nunca come na viagem?
    — Não! Só quando chego em casa! Ela adora essas batatinhas com o… Ei é o meu ônibus. Até amanhã!
    — Até amanhã. Mande um abraço pra ela!

    Ele saiu correndo e entrou no ônibus. Ela não o seguiria mais. Decidiu ir até o carrinho de lanches. Viu que eram batatas fritas na hora, em uma imensa panela com um óleo já amarelado. Parou bem próximo.

    — Olá, querida! Quer as batatinhas da Dora?

    Ela hesitou… em silêncio balançou a cabeça e saiu em direção ao estacionamento do supermercado.

    …

    Ao chegar em casa, ouviu o barulho da TV na ESPN, e viu o prato, já quase no fim, dos tomatinhos com boursin.

    — Amor, já que você chegou, poderia pegar outra cerveja para mim? Não quero perder nenhum lance desse jogo. Combinei de irmos à casa do Olavo no final de semana. Ele quer que joguemos uma partida de tênis. Tudo bem pra você?
    — Sim… — ela respondeu sem convicção. De repente, olhando sua geladeira, e o armário, sentiu vontade de ficar descalça e comer batatinhas… Tirou o sapato ali na cozinha mesmo. Pegou uma frigideira. Batatas. Teria batatas em casa…….?
    — Amor?! A cerveja, por favor? Meu dia foi muito duro na corretora.

    …

    Naquela noite, em um outro apartamento, muito mais simples, longe do bairro nobre, bem mais tarde, ele dormia sentado no sofá, com o menu de Shakespeare Apaixonado na tela, e o leve zunido do antigo aparelho de DVD que terminara todos os créditos do filme e voltara ao menu. O saco de batatinhas estava vazio e a taça de vidro, com o drink de cointreau e laranjas, jazia com o canudinho pendente… Se é possível sorrir dormindo, aquilo era um sorriso…

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Por Luís Augusto Menna Barreto

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