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terça-feira, 24 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 7

 


Não que ela esperasse algo diferente. Mas a mensagem a Francisco ainda ecoava no vazio.


Bravo estava limpo. Alimentado. As feridas tratadas.  


A mãe desejava permanecer ali, velando o sono do filho. A vendedora de batatinhas sentia falta da calçada.  A provedora de si própria necessitava trabalhar. 


Com tempestade ou nos dias de sol escaldante, Dora nunca deixava de ir. E quando chegou com o carrinho, ainda que estivesse ausente um dia apenas, a sensação era a de que esteve longe e precisava atualizar-se. 


Viu Nazaré chegar e abrir a banca de revistas. Depois foi até Dora. 


— Bravo?


— Sim… 


— Francisco? 


— Não. — o “não” foi seco. Como quem encerra o assunto. 


Nazaré permitiu um instante de silêncio.

Então falou:


— Socorro está na UPA. 


— O de sempre? — Ela se referia à bebida.


— Não. Facada. No meio da tarde de ontem. Disputa com o Virado pela cachaça. Ele foi preso. 


— Como ela está?


— Não sei. No almoço vou lá.


Socorro na UPA. A menina do suco aguardava o resultado do ENEM no radinho de pilha.


Passaram conhecidos e desconhecidos. Batatinhas. Conselhos. Conversas. 


O universo em movimento. A calçada continuava viva. 


Com as esperanças.

Com as dores.


Com as Doras.




Luís Augusto Menna Barreto

23.03.2026







  1. Sim, a vida continua, com as dores e esperanças. Qdo olhamos pra alguém na rua não imaginamos a vida que leva. Há quem sempre sorri (e não demonstra), há a que ri feliz de verdade, há a que chora e visivelmente se sente perdida e há a que sente dor física, onde diz que esbarrou no armário da cozinha - olho roxo. Minha filha morou num prédio cuja janela dava para uma rua principal e outros prédios. Eu gostava de olhar a rua (sempre gostei) ver os carros, os ônibus, e observar os prédios. Fiquei curiosa com uma mulher que ficou no celular à janela e falava muito, quase não parava para ouvir a outra. Imaginei fofoca das boas. E as pessoas na rua passavam gesticulando ao telefone. Sempre pensava o que estariam falando? E criava na minha cabeça, histórias sobre elas. Só uma vez cruzei com uma moça chorando; não pude seguir sem me colocar à sua frente de dizer: menina, vai passar, vc é forte. Ela me olhou assustada, nada disse, mas tenho certeza de que fiz alguma coisa, um apoio.

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    1. A ideia desse capítulo é justamente essa: mostrar que o Mundo não para. Que tenhamos dores ou sorrisos, alguém ao nosso lado vai estar rindo ou chorando… e seguimos em frente…!
      Está chegando no final… mais duas partes, e o conto se resolverá!!!

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    1. Semana que vem…. Muitos desdobramentos importantes….

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  2. O dia sempre acaba e o próximo pode ser melhor! O mundo não para; ainda bem !

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    1. Acho que é isso! Exatamente isso: esse teu “ainda bem”! Precisamos ficar atentos a isso: AINDA BEM que amanhã tem a piscina do “Beach Park” de novo, tem a academia onde as amigas fazem um ou outro exercício no meio das séries de repetições de conversas… Ainda bem que a rua vai estar ali: esperando nossas passadas….!

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  3. O mundo continua a vida segue , mesmo com os problemas a gente segue firme! Nem todo mundo pode esperar que o amanhã traga grandes sorrisos, se vive o hoje o agora, entre lágrimas e coração magoado por aquele não dá apoio, continuamos seguindo! Que venha mais pra gente se ler , que as coisas pra Dora fique mais leve, que venha um sorriso pra essa mãe que não desiste de lutar! Liu

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    1. É preciso seguir andando… a vida sempre continua… conosco… sem nos. Com nossa alegria, nossa tristeza…!

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P

2 comentários:

  1. Essa é a vida em movimento. Cada um com seus perrengues e lutas diárias.

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    Respostas
    1. É exatamente assim, né?! Tem situações que passamos, que parece que o mundo inteiro vai parar, que tudo fica em suspenso...
      ... mas daí, saímos na rua e vemos o ônibus andando, as pessoas apressadas passando, o rapaz do posto de gasolina abastecendo os carros... nada parou para esperar por nós...
      Descobrimos que é o mesmo movimento que fazemos diante de tragédias alheias. Sentimos, talvez, enviamos uma mensagem, ficamos tristes por algum amigo... mas fazemos nossa vida seguir. Vamos no supermercado, no trabalho, no jogo... continuamos. E o problema do outro é isso: do outro... tanto quanto o nosso é isso: nosso, não do mundo...!

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