O blog mennaempalavras não é simples literatura. É um ato de resistência. E é um refúgio! Aqui, não tem a rolagem infinita e tu podes ler com calma, sem ansiedade. Relaxa. Não tem a postagem de 3 segundos e a próxima e a próxima e a próxima que te gera ansiedade. Ninguém querendo vender mentoria ou pedindo pra clicar em "saiba mais", levando-te a menos. Vem. Entra. | |... e repetir, todos os dias da minha vida, que meu pequeno João será meu melhor amigão para sempre. (Luís Augusto Menna Barreto)
sábado, 29 de setembro de 2018
sábado, 15 de setembro de 2018
Eu, o Pilha e os Brinquedos de Deus - um contículo do Pilha
Eu não entendia direito. Desde que eu me conheço por gente, tudo que encontro pela rua, posso pegar. Daí, quando não quero mais, deixo na rua e outra pessoa pega. Ou fica ali, até sumir. Porque eu acho que “coisa” é como “gente”: quando fica jogada na rua, e ninguém se importa, vai sumindo até que morre...!
Um dia eu tinha chegado no parquinho antes do Pilha, e fui pra nossa árvore. E vi que o Ranho, um garoto que mora num prédio na frente do parquinho, tava brincando com alguns carrinhos, na areia. A mulher que sempre leva ele lá, tava sentada cutucando o celular, igual sempre faz. E o Ranho lá, sozinho. Daí, ele levantou e foi pegar biscoitos na bolsa que tava ao lado da cutucadora de celular.
Ele deixou os carrinhos jogados na areia, e tinha um amarelo, que eu tava olhando há um tempão. Daí, como ele deixou na areia e saiu, eu fui até lá e comecei a brincar com o carrinho.
Então, de repente, eu só senti a mão da cutucadora de celular no meu braço, pegando forte e mandando eu largar, me chamando de ladrãozinho.
Eu não entendi, eu não tava roubando nada! Fiquei assustado e comecei a gritar. Ela não me largava… daí, senti que alguém me puxou e nós dois caímos pra trás!
— Corre, mané!
Era o Pilha! Corremos pra nossa árvore! Eu fiquei muito assustado! Parece que eu ia vomitar meu coração, porque parecia que ele tava batendo no meu pescoço! Eu olhei pro Pilha e ele tava com um baita arranhão no braço! Aí ele foi naqueles galhos mais altos que eu tenho medo de subir! Ele olhou pra mim e disse:
— Por isso que eu gosto de brincar na árvore! Ela é um brinquedo feito por Deus! E nos brinquedos que Deus fez, ele nos deixa brincar!
Por Luís Augusto Menna Barreto
sexta-feira, 7 de setembro de 2018
A prisão do Rui Barbosa, do Merece e do Ruela
— … tu tens que ir lá, Goela, pelo amor de Deus! Só tu pode resolver isso, vai lá!
Era a Milagres chorando as pitangas para o Goela. O Merece, seu filho, havia sido preso… de novo! Por briga… de novo!
— Tá doida que eu vou lá, Milagres?! Tu já não pediste pro Ruela ir?
Ruela era o filho mais velho da Milagres. Merece, o mais novo. Entre os dois havia outros cinco!
Houve uma briga no campo de futebol, durante o campeonato da cidade… daí, o Merece, que sempre foi esquentado, foi um dos que puxou a briga. A PM fez o de sempre: como o efetivo total era de dois homens (50% do efetivo da cidade), ficaram só olhando. Viram quem começou e esperaram… quando os brigões começam a cansar, eles entraram com o cacetete na mão e pronto! O pessoal mais esperto saiu correndo. Eles foram direto em quem começou abriga e recolheram!
Daí que o Merece foi preso.
Quando chegou a notícia, à noitinha, para a Milagres, ela quase desmaiou, subiu a pressão, tiveram que abanar, dar água com açúcar, essas coisas… daí que a Milagres mandou o Ruela, filho mais velho, à noite mesmo, na delegacia, ver se fazia alguma coisa.
Quando o Ruela chegou lá, o delegado não estava. Estava só o Brédi-Piti (que é um preso que toma conta da delegacia quando tá respondendo algum processo) e o Tonelada, um dos policiais que prenderam o Merece. O carcereiro Fechadura tinha ido para o Canaticu*, numa diligência. Daí que o Tonelada resolveu ficar ali, esperando, porque não confia em preso cuidando de preso.
Quando o Ruela chegou, pediu pra falar com o Merece, pra ver o que tinha acontecido. O Tonelada, foi estranhamente gentil:
— Ah, pois não, podes vir. — E foi entrando na carceragem, na ala das duas celas da delegacia, uma de frente para outra com um corredorzinho no meio. O Tonelada foi na frente, abriu a cela e o Merece tava lá, com o rosto inchado, deitado no papelão que é a “cama" daquela cela. O Ruela, vendo o irmão, foi entrando. Quando estava bem na porta, o Tonelada colocou a mão nas costas do Ruela, deu um empurrão nele e trancou a cela!
— Tá pensando que é colegial?, vindo buscar o irmãozinho que brigou? Vai ficar aí, pra aprender!
— Mas Tonelada, eu não fiz nada, abre aqui!
— Espera o delegado chegar!
O delegado só voltaria na quarta-feira, e era domingo, ainda!.
Quando chegou a notícia que o Ruela ficou preso com o Merece, a Milagres foi levada para o hospital. Chamaram até a ambulância, mas o tempo que o Manobra, motorista da ambulância, levou para achar a chave, já haviam levado a Milagres num “carro de mão” (daqueles que os carregadores da beira usam para fazer os fretes do navio até os comércios!
Pois foi lá no hospital que apareceu o Rui Barbosa. Rui Barbosa não era nome, era apelido. Filho do Mariposa, um homem abastado na cidade, o Rui Barbosa, nascido João Paulo de Deus, resolveu que iria estudar direito. E foi-se pra capital. Em Belém, cursa direito e fica durante todo o período letivo por lá, voltando pro Marajó nas férias. Na primeira vez que voltou, já veio com um livro embaixo do braço: “Oração aos Moços” de Riu Barbosa. E inventou de querer ler para os amigos. Na terceira linha o pessoal começou a bocejar e no meio da primeira página alguém gritou: “cala a boca, Rui Barbosa”. Pronto. Virou Rui Barbosa. Estava já no sexto semestre de direito. E era sobrinho da Milagres. Foi ver a tia no hospital e ela logo pediu para ele ver se fazia alguma coisa pelo Merece. Lá foi o Rui Barbosa.
— Boa noite, Policial.
— Tá de onda comigo, Rui? Te conheço desde moleque e tu sempre me chamaste de Tonelada. O que é que tu queres?
— Falar com meu cliente.
— Teu o quê?
— Meu cliente, seu Policial! O cidadão que está com a liberdade cerceada por ato arbitrário encontrando-se ilegalmente segregado.
O Tonelada não entendeu coisa nenhuma:
Tu estás querendo falar com o Merece?
— Isso, com o cidadão Virgílio Augusto de Deus Filho! (Era o nome do Merece).
O Brédi deu uma risadinha discreta. O Tonelada ficou gentil de novo!
— Pois não, doutor, por aqui!
Ter sido chamado de “doutor" arrepiou o Rui Barbosa que sentiu uma indescritível emoção! Entrou garboso pelo corredor da carceragem. Tonelada abriu a Cela. Colocou a mão nas costas do Rui Barbosa…
…
… isso! Exatamente. Estavam presos, agora, o Merece, o Ruela e o Rui Barbosa. E a Milagres chorando para o Goela.
— … mas tu não mandaste também o Rui Barbosa lá na delegacia, Milagres?
— Foi, Goela… E agora estão os três presos Por lá. Faz alguma coisa pelo amor de Deus!
— Vou fazer sim: vou é ficar longe da delegacia! Tu tá é doida de pensar que eu vou lá! Se o Tonelada já prendeu três, pra prender quatro é um instantinho!.
Mas enfim… Milagres incomodou tanto o Goela, foi segurando a manga dele até o fórum, que o Goela disse:
— Tá, Milagres, vou fazer o seguinte: vou falar com o doutor. Ele que veja o que vai fazer!
A Milagres aparentemente se conformou com aquilo. Mas não foi embora. Foi pra praça e ficou no banco que fica de frente para a entrada do fórum.
— Doutor…? — Foi abrindo a porta e já falando sem pedir licença.
Eu estava lendo um processo. Nem levantei a cabeça, mas levantei os olhos por cima do óculos.
— Doutor, a Milagres vai fazer onda.
— Hein?
— Seguinte, doutor: o Merece brigou na bola e o Tonelada prendeu, daí a Milagres disse pro Ruela ir buscar e o Tonelada Prendeu, daí a Milagres falou com o Rui Barbosa, e o Tonelada prendeu… ela vai vir aqui fazer onda.
Eu confesso que não entendi nada. Fiquei um instante olhando pro Goela.
— Diz que a Milagres tá vindo aí, doutor. Diz que tá sentada na praça esperando a Maria Sem Sossego pra ficar gritando “justiiiiiiiça" na frente do fórum, até o senhor fazer alguma coisa.
Ai, ai, ai… Eu lembro que o dia estava bem calmo no forum. Mal se ouvia as conversas da Tutela com a D. Boneca, na cozinha do fórum, não tinha nenhuma audiência para aquela manhã… enfim, era um dia tranquilo. Daí fiquei imaginando a Maria Sem Sossego gritando na frente do fórum, no sol, a manhã inteira, segurando um cartaz de alguém que deu um litro de açaí pra ela ficar gritando e fiquei com os cabelos da nuca arrepiado! Daí pensei que ter que aguentar duas gritando na frente do forum seria demais!
— Chama o delegado!
— Tá em Belém, doutor!
— Chama o Fechadura!
— Tá pro Canaticu!
— Chama o Tonelada!
— Doutor, o senhor me desculpe: o Tonelada prendeu o Merece; o Ruela foi lá, ele prendeu o Ruela; o Rui foi lá, ele prendeu o Rui… vô nada, doutor!
Ai, ai, ai….
Pensei na calma da manhã… imaginei a Maria Sem Sossego e a Milagres gritando na frente do fórum…
— Bora! Mas tu vais comigo!
Resolvi levantar e ir até a delegacia que ficava uns trezentos metros de distância.
O Goela caminhou todo percurso ao meu lado, com a cabeça toda em pé, cumprimentando quase todos com gritos… mas quando chegamos no portão da delegacia, ele foi ficando pra trás, e não deu nem um pio.
Reconheci o Brédi Piti, que eu havia determinado a prisão por uma briga, varrendo a frente da delegacia. O Tonelada tava sentado, de olho no Brédi. Quando me viu, ficou em pé da maneira mais rápida que seus 120 quilos permitem!
— Doutor, ele está varrendo, mas estou de olho nele!
— Relaxa, Tonelada. Vim ver os outros. O…
— Merece, Ruela e Rui Barbosa! — O Goela falou por cima do meu ombro. Achei que o Tonelada fuzilou ele com os olhos.
— Tão presos, doutor!
— Eu sei, Tonelada. Quero falar com eles!
Foi então que o Tonelada mudou de atitude! Ficou gentil de repente:
— Ah, doutor, pois não, venha por aqui! — O Tonelada tirou a cadeira da frente e abriu passagem indicando onde era pra eu ir.
O Brédi Piti arregalou os olhos. O Goela nem passou da porta da ala da carceragem!
Quando o Tonelada pegou a chave da cela, os três começaram a falar ao mesmo tempo.
— CALA A BOCA! — Assim, gritado. Até o silêncio ficou quieto!
O Tonelada abriu a porta, e eu fui entrando! Os olhos do Brédi Piti quase saltaram das órbitas. Nunca vi o Goela em silêncio por tanto tempo.
…
Aquele dia foi estranho! Por um momento, eu podia jurar que senti a mão do tonelada em minhas costas, quando eu estava na porta da cela!
E nunca vi presos saírem da cadeia em tanto silêncio.
Por Luís Augusto Menna Barreto
*Canaticu é um rio do arquipélago do Marajó, que leva a comunidades distantes até 12 horas de viagem de barco, da sede do Município de Curralinho.
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