segunda-feira, 6 de julho de 2026

Virada - parte 2

 

Eu não gosto de escândalo.

Sei que pode não parecer, mas detesto. Com todas as merdas do pai, nunca vi a mãe dar escândalo. Acho que isso, de alguma forma dignificou ela. Ela mandou ele embora de casa, sem escândalo. Ela enterrou ele sem escândalo quando nenhuma das putas dele apareceu no velório.

Acho que isso herdei dela, não dele. Que bom. Dele, já tenho muita merda na minha herança genética.

Daí, quando disse pra D. Carmem, na frente do chefe, que ele tinha me despedido, acho que me arrependi na mesma hora. Foi na frente da sala de audiência. Corredor do Fórum com bastante gente. Vi a veia do pescoço dele saltar. E fiquei com medo que D. Carmem também desse um piti, porque ela tem grana, mas não é exatamente um exemplo de elegância e comportamento. É perua. Mas do tipo que esteve lado a lado com o marido construindo a fortuna, tendo de gritar com muita gente.

Eu poderia ter evitado tudo. Mas eu tava com isso engasgado. Daí foi meio que uma vingança. Fiz de propósito. Não deveria. Pensando bem, em retrospectiva, fiz por merecer. Mas foda-se. Não sou de ferro.

Mas assim que soltei minha frase afiada, senti o peso da tensão. Daí, usei uma arma que só os fumantes tem: acendi um cigarro. Pronto. não deu tempo do barraco se formar, e veio o segurança dizer que eu não poderia fumar ali!

Os minutos entre ir até o elevador, descer e sair do Fórum foram suficientes. Não teve barraco. Acho que deu tempo para todos pensarem. D. Carmem olhou para ele e disse:

— A Dra. Zoe é minha advogada!

O chefe tava a ponto de explodir. Mas ele não é do tipo que rasga dinheiro. Não com uma separação em que a fortuna envolvida pode chegar em muito milhões.

Antes que ele falasse alguma coisa, D. Carmem virou pra mim e disse:

— Segunda, no Pobre Juan do Barra Sul, meio dia.

D. Carmem saiu para a frente do Fórum, onde algum motorista devia estar esperando. O chefe me olhou com olhos injetados de quem diz: “precisamos conversar”. Mas manteve alguma elegância e não disse nada. Ninguém se mantém rico por acaso. Mas eu vi o esforço que ele fez pra não explodir.

Fiquei sozinha, com sol e o vento frio. Resolvi não desperdiçar o cigarro que acendi e apaguei lá dentro do Fórum: naquele momento, não tinha emprego. Não tinha compromisso. Fumei. Depois fui pro ponto de ônibus.


(Se você perdeu ou quer ler novamente a parte 1, CLIQUE AQUI: VIRADA - parte 1

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Zoe. Escrevendo no balcão do bar no iPad do Espinha (não sei o nome dele).


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Olá, pessoal. 

Demorou, mas Zoe Ferraz acabou enviando a segunda parte do texto,

Eu adoro o jeito tão autêntico como ela escreve, como ela se auto-escreve, sem medo de falar o que pensa, sem medo de expor-se, inclusive nos medos e nas falhas. Isso é raro e eu tenho por virtude (dela). Eu certamente escreveria sem os palavrões, vocês me conhecem...! Mas acho que no caso dos textos da Zoe, cada palavrão tem uma função expressiva no texto, que não é um xingamento, ou algo vulgar. É a Zoe. Despida de pudores para falar das coisas como ela enxerga. 

Que bom que ela me enviou este. 

Desejo que degustem. Que vejam além do texto. E que possam cada um dos amigos e amigas do blog, registrar suas próprias interpretações.


Luís Augusto Menna Barreto, em 6 de julho de 2026.