terça-feira, 14 de julho de 2026

Uma Carta Para Meu Velho Amigo Lico

 

— Já chegou? — Eu exalava ansiedade por todos os poros! Estava suado, apesar do mês de maio não ter sido nada quente na minha imensa  e pequena Santo Antônio da Patrulha. Acontece que a agência dos Correios era (e é até hoje), bem quando termina a parte mais íngreme subindo a lomba que separa a Cidade Baixa (onde eu morava, no Bairro das Pitangueiras) da Cidade Alta. E eu subi a lomba correndo!

— Ainda não.

A senhora que atendia sorriu com paciência para aquela criança ansiosa de 9 anos. Eram por volta de 15 horas. No dia anterior, eu havia ido com a mãe entregar o cupom que recortei na revista do Tio Patinhas, preenchi os dados à mão, com caneta Bic, e a mãe levou-me à agência dos Correios. Não precisava selar o cupom e o pagamento seria na retirada do Supermanual do Escoteiro Mirim.

Era incrível chegar na agência dos correios. Eu achava linda! Um prédio com o pé direito alto, a gente entrava e mesmo no verão vinha aquela sensação geladinha. E era silencioso! Parecia biblioteca! Tudo tão calmo, lá. 

O prédio continua igual, lindo. A agência dos Correios ainda é lá; mas agora, só as encomendas. Às vezes eu ia colocar uma carta para o programa dos Trapalhões, em que, no final, o Didi ia pra cima de uma imensa pilha de cartas, jogava algumas pra cima e pegava três, e os sorteados ganhavam uma bicicleta Calói. Daí, o Didi cantava a musiquinha: “pedalando, pedalando, pedalando com a Calói! Pedalando, pedalando, a poupança nunca dói!” Então ele colocava os quatro dedos em frente a boca, o polegar escondido por trás, passava em um movimento horizontal e estalava os dedos!  E que atire a primeira carta, quem nasceu nos anos 70 ou 80 e nunca imitou o gesto do Didi.

Na década de 80, a gente conhecia o carteiro. O que passava na nossa rua bem atrás do salão da Igreja, era um moreno forte! Eu achava o máximo. Por muito tempo quis ser carteiro, porque era sempre uma alegria quando ele pulava o muro baixinho que tinha na nossa casa, e ia até a janela entregar alguma correspondência. Se não havia ninguém, a correspondência era colocada embaixo da porta! As casas lá, todas tinham muro. Mas eram muros baixos e os portões nunca estavam trancados.

Quando o carteiro parava na nossa casa, era sempre uma alegria. Claro que mesmo naquele tempo, os Correios já entregavam contas. Mas não era como hoje. As contas eram da luz e da água. E só. Quando o carteiro vinha, era sempre algo bom: o pai recebia cartas, ou era alguma entrega da Avon que a mãe recebia, ou era carta de algum parente. A gente nem tinha telefone em casa! 

Ir na agência dos Correios era sempre muito legal! 

Desde o dia que a gente foi colocar o cupom da compra do Supermanual do Escoteiro Mirim, na agência dos Correios, eu passei a ir todos os dias pra perguntar se já  havia chegado! Meu Deus, o mundo havia parado! As horas na aula, na 5ª série na escola Estadual Espírito Santo, em 1980, não passavam. Eu lembro a alegria quando o carteiro chegou em casa com o papelzinho dizendo que o Supermanual havia chegado! Meu Deus, eu fiquei em polvorosa e depois de uns dois ou três ralhos que eu levei da mãe por conta da ansiedade, lá fomos nós, na nossa Belina 78, já com 12 anos de uso, eu no banco da frente, aqueles bancos baixinhos, sem encosto de cabeça, e sem cinto de segurança. Aos 9 anos de idade, a mãe já deixava eu passar a 3ª para a 4ª marcha. 

Eu abri a embalagem lá mesmo! Eu adorei tudo! O cheiro de novo, as páginas grossas, os desenhos… e não poderia haver melhor lugar, do que a agência dos Correios, na lomba da avenida!

Daí, o tempo foi passando, e a imagem que tive dos correios entre os anos 2010, até pouco tempo atrás, era a de um entregador de contas. Havia perdido o charme. Porque quase todos os dias, havia correspondência. Eu já não conhecia mais o carteiro, porque todas as casas tinham grades altas e portões trancados, e as cartas eram empurradas para dentro de um coletor junto às grades. E havia muitas agências dos Correios, sob modelo de franquias, espalhadas em todos os lugares. 

Chegava a conta da luz, da água, o IPTU, TV a cabo, cartão de crédito… nenhuma carta!

Mas, de uns tempos pra cá, acho que a magia tem retornado. Ao menos para mim!

A maioria das contas, já não são entregues pelos Correios. Vem diretamente por e-mail, ou mensagem de texto com anexo. É verdade que não recebo mais cartas. Mas todo o mês, eu espero ansioso o carteiro, quase com aquela alegria infantil. Ele me traz a revista National Geographic! Eu assino a versão digital, também. Mas nada supera o cheirinho das páginas e a maravilha de ver as fotos, às vezes em páginas duplas! 

Os Correios recuperaram, para mim, um pouco da magia. 

E não desisti de receber cartas: há poucos dias, nas férias, antes de viajar para o Rio Grande do Sul, postei uma carta no correio de Belém. O destino: Rua Plínio Flores de Jesus, em Santo Antônio a Patrulha, Rio Grande do Sul. O destinatário? Lico. Meu velho amigo de infância. Quis encontrar-me comigo, virar criança de novo na casa da mãe, e receber a carta de mim mesmo!

… na esperança que de alguma forma, aquela criança envie-me uma resposta.


Luís Augusto Menna Barreto

2.8.2019

domingo, 12 de julho de 2026

O Sapo e a Enforcada


A minha infância em Santo Antônio da Patrulha, no interior do Rio Grande do Sul, foi uma infância normal da época. Infância desplugada, com muito joelho ralado, mercúrio cromo pintando joelhos e cotovelos de vermelho, Kichutes amarrados nas canelas, Kongas, Bambas e Havaianas apenas azul claro ou pretas que nós, garotos mais descolados, virávamos ao contrário, para que a parte colorida ficasse pra cima.

Como todo o adulto na segunda metade da vida, eu adoraria voltar. E se pudesse escolher, mudaria algumas coisas. Sim, mesmo da minha maravilhosa infância em que uma tomada era suficiente em uma peça da casa, eu tenho alguns arrependimentos: eu encheria menos o saco da minha irmã (somos em dois e eu sou o caçula, aquele que fica com duas balas quando tem apenas três, aquele que chora e é defendido por ser o menor, aquele, enfim, que apareceu e roubou a atenção e os mimos que antes eram destinados ao mais velho). 

Mas afora o arrependimento de ter perturbado muito a mana, tem uma coisa que eu de jeito nenhum faria de novo: eu não atiraria pedras em sapos. Sim, isso mesmo. Eu não atiraria pedras em sapos!

É o seguinte: a gente morava atrás do salão da Igreja da cidade baixa. Naquela época, Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, era dividida entre cidade baixa e cidade alta. Morávamos na cidade baixa, atrás do salão de festas da "Igreja de baixo" (da cidade baixa). Quando vinham aquelas chuvas de verão, rápidas, mas de generosas águas, a mãe deixava a gente tomar banho de chuva. E nós (eu e a mana) e mais a gurizada da rua (os irmãos Cuca, César e Dico, o Christian, os então pequenos Suian e Beto) corríamos para as calçadas do salão, porque havia calhas que terminavam a aproximadamente 1 metro e meio de altura e jorravam água como se fosse uma cachoeira. Brigávamos pelas calhas, para ficar embaixo e levar aquele banho todo! 

Depois, quando a chuva passava, a gente entrava em casa como um “pinto molhado” e o pai fazia a gente tomar um “martelinho” com vermute, uma bebida bem forte. A mãe reclamava, mas o pai dizia que tinha que tomar pra não ficar gripado! 

Acho que funcionava. E, naquele tempo em que nem tudo era politicamente incorreto, e nem havia extremismos legais, não virei alcoólatra por tomar um martelinho de vermute depois das chuvas, aos dez anos de idade. E meu pai nunca foi preso por isso! O incrível é que, nesses dias de chuva, quando começava a cair a noite, acontecia uma reunião de sapos ali na calçada da parte de trás do salão da Igreja. Eu não faço a mínima ideia de por que os sapos reuniam-se ali, mas que era uma espécie de point para os sapos, era! E o que nós, fazíamos? Depois do banho (quente, de chuveiro), voltávamos todos para a rua pra jogar pedras nos sapos sem que aparecesse alguém para dizer-nos “quem nunca coaxou sob as calhas em dia de chuva, que atire a primeira pedra”. 

E tantos sapos sucumbiram ante nossa crueldade infantil. Pois esse arrependimento eu tenho. Se pudesse voltar, não atiraria pedras nos sapos. E mais: tentaria convencer meus amigos a não atirarem também. Pobres sapos.

Pois dias atrás, lá em Santo Antônio da Patrulha, uma amiga da Maria Júlia, minha sobrinha havia tido um desentendimento com os pais, e foi dormir lá na casa da mana. Dormiu no quarto da Maria Júlia. Daí que no meio da madrugada, a mana acordou com gritos desesperados da Maria Júlia, à porta do banheiro. Como a mana ainda estava naquele instante em que o brusco acordar mistura-se ao torpor do sonho, ela disse que ficou paralisada de medo! Pelo tom desesperado dos gritos, a mana chegou a pensar que a amiga havia-se enforcado no banheiro e a Maria Júlia, ao levantar-se, deparou-se com a cena e estava, agora, em desespero, gritando! Como os gritos não cessaram, a mana, em um arroubo de coragem, foi lá para arrancar da visão de sua prole, a horrível cena da garota pendurada pelo pescoço. Quando chegou no banheiro, também veio Milena, a amiga, ver o que estava acontecendo, acordada também pelos gritos! Ora, se Milena, Maria Júlia e ela própria estavam ali, quem se havia enforcado no banheiro? Ninguém!

Havia um sapo no banheiro! Isso, um sapo. E Maria Júlia tem pânico de sapos. 

Nos tempos de criança, não teríamos dúvida: correríamos e pegaríamos uma pedra. Mas mana pegou uma toalha, colocou sobre o coaxante e calmo anfíbio, pegou-o e colocou-o no pátio de casa, com toda a delicadeza. 

Ela também se arrepende de ter atirado pedras em sapos: eles voltam para assombrar nossa descendência…


Luís Augusto Menna Barreto

27.3.2019


 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Virada - parte 2

 

Eu não gosto de escândalo.

Sei que pode não parecer, mas detesto. Com todas as merdas do pai, nunca vi a mãe dar escândalo. Acho que isso, de alguma forma dignificou ela. Ela mandou ele embora de casa, sem escândalo. Ela enterrou ele sem escândalo quando nenhuma das putas dele apareceu no velório.

Acho que isso herdei dela, não dele. Que bom. Dele, já tenho muita merda na minha herança genética.

Daí, quando disse pra D. Carmem, na frente do chefe, que ele tinha me despedido, acho que me arrependi na mesma hora. Foi na frente da sala de audiência. Corredor do Fórum com bastante gente. Vi a veia do pescoço dele saltar. E fiquei com medo que D. Carmem também desse um piti, porque ela tem grana, mas não é exatamente um exemplo de elegância e comportamento. É perua. Mas do tipo que esteve lado a lado com o marido construindo a fortuna, tendo de gritar com muita gente.

Eu poderia ter evitado tudo. Mas eu tava com isso engasgado. Daí foi meio que uma vingança. Fiz de propósito. Não deveria. Pensando bem, em retrospectiva, fiz por merecer. Mas foda-se. Não sou de ferro.

Mas assim que soltei minha frase afiada, senti o peso da tensão. Daí, usei uma arma que só os fumantes tem: acendi um cigarro. Pronto. não deu tempo do barraco se formar, e veio o segurança dizer que eu não poderia fumar ali!

Os minutos entre ir até o elevador, descer e sair do Fórum foram suficientes. Não teve barraco. Acho que deu tempo para todos pensarem. D. Carmem olhou para ele e disse:

— A Dra. Zoe é minha advogada!

O chefe tava a ponto de explodir. Mas ele não é do tipo que rasga dinheiro. Não com uma separação em que a fortuna envolvida pode chegar em muito milhões.

Antes que ele falasse alguma coisa, D. Carmem virou pra mim e disse:

— Segunda, no Pobre Juan do Barra Sul, meio dia.

D. Carmem saiu para a frente do Fórum, onde algum motorista devia estar esperando. O chefe me olhou com olhos injetados de quem diz: “precisamos conversar”. Mas manteve alguma elegância e não disse nada. Ninguém se mantém rico por acaso. Mas eu vi o esforço que ele fez pra não explodir.

Fiquei sozinha, com sol e o vento frio. Resolvi não desperdiçar o cigarro que acendi e apaguei lá dentro do Fórum: naquele momento, não tinha emprego. Não tinha compromisso. Fumei. Depois fui pro ponto de ônibus.


(Se você perdeu ou quer ler novamente a parte 1, CLIQUE AQUI: VIRADA - parte 1

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Zoe. Escrevendo no balcão do bar no iPad do Espinha (não sei o nome dele).


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Olá, pessoal. 

Demorou, mas Zoe Ferraz acabou enviando a segunda parte do texto,

Eu adoro o jeito tão autêntico como ela escreve, como ela se auto-escreve, sem medo de falar o que pensa, sem medo de expor-se, inclusive nos medos e nas falhas. Isso é raro e eu tenho por virtude (dela). Eu certamente escreveria sem os palavrões, vocês me conhecem...! Mas acho que no caso dos textos da Zoe, cada palavrão tem uma função expressiva no texto, que não é um xingamento, ou algo vulgar. É a Zoe. Despida de pudores para falar das coisas como ela enxerga. 

Que bom que ela me enviou este. 

Desejo que degustem. Que vejam além do texto. E que possam cada um dos amigos e amigas do blog, registrar suas próprias interpretações.


Luís Augusto Menna Barreto, em 6 de julho de 2026.

sábado, 6 de junho de 2026

Dabliuvê, Jabuti, e o Título de Eleitor Penhorado

 

— Tu já votaste Dabliuvê.

— Tá doido, Jabuti?

— Mas tá aqui dizendo aqui que já.

— Tu me viste aqui votando? Quando votei?

— Isso não sei, mas essa maquininha não erra! Se aqui tá dizendo que votaste, é porque votaste!

— Votei nada!

— Não complica, Dabliuvê! Sai da fila, rasga!

— Saio nada! Quero votar!

— Ai meu pai… égua, Dabliuvê. Vou te mostrar! Olha aqui! Olha aqui tua assinatura no livro! 

— Que assinatura já, que não sei nem escrever, Jabuti? 

— Daí, não sei. Mas tá aqui: Wanderlei Veridiano! É tu, não é?

— Vou saber como meu nome, se nem ler eu sei, Jabuti? Tá de sacanagem?

— Empresta aí teu título de eleitor pra eu conferir.

— Tá com o Agarrado!

— E outro documento qualquer. 

— Tô sem nenhum.

— E cartão do bolsa família?

— Tá  penhorado com o Mariposa.

Descobri como era, logo que cheguei por lá em 2005 e já em 2006 era ano de eleição. 

Funciona assim: o cartão do Bolsa Família é o “cartão de crédito” do caboclo, mas normalmente funciona em um só comércio. O comércio Mariposa era o maior do local, então, para o caboclo comprar fiado (e o Mariposa garantir que será lá que ele vai gastar seu dinheiro), ele vende fiado, mas fica com o cartão do Bolsa Família "penhorado". No dia do pagamento do Bolsa Família, o Pingado, que trabalha para o Mariposa, vai com uns 80 cartões para a frente do posto da CAIXA, e naquela muvuca toda, vai sacando um por um, e já separando o dinheiro do Mariposa. O caboclo leva a diferença, se tiver, e o Pingado vai riscando a conta do caderninho. E recomeça tudo de novo para o mês. 

Eventualmente, um ou outro vai lá no Mariposa para “despenhorar" o cartão porque precisa para alguma outra compra fiado. O Mariposa só libera se o caboclo pagar a conta. 

O Retalho é um dos poucos que não segura cartão penhorado, porque, afinal, ninguém vai querer ficar devendo para um açougueiro!

E, descobri, com o título de eleitor funciona mais ou menos da mesma maneira. Na época de eleição, o candidato (ou o cabo eleitoral) vai até a comunidade, e faz o acerto com o líder local: ou um gerador pra comunidade toda, ou alguns motores rabudinhos; invariavelmente, muitos litros de óleo, camisetas (naquele tempo podia) e, claro, cestas básicas. Evidentemente, que a garantia é o título de eleitor! 

Só que diferente do bolsa família, o candidato não tem como ir junto no caixa automático (na urna). Então, o que acontece de verdade, é que o cabo eleitoral chega na Zona, com todos os títulos que arrecadou, e ele mesmo vota e “assina” por todos! 

— Ah, mas e os mesários, e os fiscais? — Você, meu caro leitor urbano, perguntará!

Bem, no Marajó há urnas eleitorais a distâncias de seis HORAS de barco, em comunidades que muitas vezes contam com não mais de cem pessoas. Os próprios mesários são membros da comunidade e também tem os títulos “penhorados" muitas vezes.

Pois a confusão se deu, porque foi a Tapioca, esposa do Dabliuvê, que penhorou o título dele, com o Cobra D’Água, que era o líder da comunidade, sem ele saber. 

Só resolveu tudo, quando a Tapioca apareceu e falou que tinha penhorado. 

O Dabliuvê, saiu com cara de brabo pra falar com o Cobra D’Água e pegar o título de volta.

— Que história é essa de tu pegar meu título, Cobra?

— Tu é leso? Não recebeste tua cesta e os 20 litros de óleo, que entregamos pra Tapioca?

É… recebido ele tinha mesmo. E o certo é certo! Não dá pra reclamar.

Conformou-se.

— Tá certo então, Cobra, mas me fala uma coisa…

— Quié?

— Em quem eu votei?

O Cobra D’Água deu uma olhada demorada, e sabendo que o Dabliuvê faz confusão por qualquer coisa, não teve dúvida:

— Larga de ser besta! Não sabes que o voto é secreto?


Luís Augusto Menna Barreto

6 de junho de 2026

… e vem eleição por aí…

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Virada - parte 1

 

Um texto de Zoe Ferraz

“Consegue fazer as contra razões do XXXX até sexta?”

Isso ficou martelando na minha cabeça. Eu tinha ficado muito puta. Não respondi. Não diminuí o passo.

Foda-se. Ele que me mandou ir pra casa. Não teve a coragem nem de dizer se eu estava ou não demitida. Eu sei que as “Emilys” ficaram sorrindo. Mas eu também sei que era um sorriso nervoso. O tipo de sorriso que gostariam que eu visse na cara delas, porque era o sorriso “bem feito sua vadia”. Mas eu sei que nem isso se sustentava, porque elas poderiam estar sorrindo, mas as duas sabem que bastaria eu dar meia volta e o chefe não ia ter colhão pra aguentar a situação. Nenhum chefe que fica sonhando em te comer tem colhão pra te mandar embora de verdade.

Quando ele gritou “consegue fazer as contra razões do XXXX até sexta?”, foi a maneira menos humilhante que ele achou de tentar fazer eu voltar. Eu podia sentir o peso da angústia dele, quando eu nem diminuí o passo.

Ele não ia dar o caso para nenhuma das Emilys. São advogadas medíocres. Não são ruins. São medíocres: conseguem fazer apenas o que todo mundo faria, o que tem na internet, o que o chat GPT faz. Se fossem melhores que isso, não estariam ali.

Por que então, eu estava ali? Porque sou uma porra louca, porque não posso ter um escritório meu e ser a responsável por captar clientes e mantê-los felizes, enquanto arranco o couro deles e cometo o assalto de fazerem eles pagarem mais em honorários, do que perderiam com a causa se não me contratassem.

Eu sei que ele ia passar o caso pro Gravata de Crochê. É o mais competente. Mas é gago. A porra de um advogado gago!

Mas a verdade é que na sexta-feira, eu fui na sede da cidade, e pedi pra usar o computador da lojinha de xerox. O garoto que cuida de lá tem uns 19 anos, e espinhas na cara. Nem precisei me esforçar. Eu levei umas duas horas fazendo as contra razões. Conhecia todo o caso e já tinha baixado o PDF com a sentença e a apelação no meu celular e tinha enviado para mim mesma por e-mail. Acho que o guri fez umas trinta fotos minhas, disfarçando que tava fazendo selfie dele. Um frio gostoso e eu fui de saia e legging.

Eu fiz e enviei pro Gravata de Crochê:

“__________ Tudo bem?

Taí as contra razões. Não precisa dizer que fui eu que fiz."

Esperei por uns 20 minutos de propósito. Eu sabia que o Gravata de Croché iria mostrar correndo pro chefe. E chegariam e-mails.

Passei 20 minutos lendo site que eu achava que seriam sérios e virou só site de fofoca. Li sobre a Virgínia e o Vini Jr. A gente nota que o mundo tá uma merda, quando repara que isso vira notícia. No fim, parece menos pior do que ler qualquer coisa do Alexandre de Morais e Gilmar Mendes.

Quando abri o e-mail novamente, além de dois e-mails de amigos do Substack, tinha 3 do chefe e uma resposta do Gravata de Crochê.

Li primeiro os do Luís (Substack) e depois do Gravata de Crochê:

“Zoe

Ficou ótimo. Porque você mesma não protocola?

Mostrei para o Dr. XXXXX. Ele parece irritado por você não responder às mensagens dele no WhatsApp.

Tá surtando por causa da audiência da D. XXXXX no dia 3. Ela disse que exige que você esteja com ela na audiência.

Você poderia responder para o Dr. XXXXX?

Você voltará quando?

Dr. Gravata de Crochê”

Tudo bem, ele assinou o nome dele, mas eu gosto de Gravata de Crochê, por isso troquei.

O que aconteceu? Eu fui. Me despedi da tia e de todo mundo, tomei dois martelinhos (“shots”, mas lá ainda falam “martelinho”) da cachaça do alambique, e peguei o ônibus de volta.

Quanto mais o ônibus ia descendo a serra, mais eu sentia que voltava pra merda.

Passei em casa. Banho. Salto alto.

Cheguei na hora da audiência. O chefe tava lá em pessoa. Dava pra sentir o cheiro podre de suor dele, dentro do paletó da Hugo Boss. Suor de nervoso.

Sorriu pra mim como só os advogados sabem fazer, como se nada tivesse acontecido, mas era visível como o cu dele tava relaxando.

Dona XXXXXX me abraçou. A partir dali, ignorou completamente o chefe, mas acho que ele deu Graças à Deus por isso.

Entramos os três na audiência.

Não teve acordo. Quanto mais grana, menos acordo. Sempre assim. A promotora é uma lésbica de cabelo militar. Não dava pra saber pra que lado ia. O Juiz eu já conheço: separado e com fama de comer as estagiárias. Juiz da Vara de Família. Quase piada. Foi só eu deixar o óculos começar a cair pra ponta do nariz e olhar pouco pra ele, e pronto: ele deve ter me comido umas três vezes em pensamento. No fim, deferiu todas as antecipações de tutela que pedimos. A pensão de trinta mil e mais ele ficar pagando o básico: condomínio da cobertura e planos de saúde. Nova audiência marcada para agosto. Temos de arrolar os bens, descobrir a situação dos bens que descobrirmos e irmos prontas para a Guerra.

Ainda na frente da sala de audiência, eu me despedi.

— Zoe! Nada disso, vamos almoçar.

Era minha hora. Dei a facada:

— Não posso. Ele me demitiu. Hoje foi nossa última audiência juntas.


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(puta que pariu, tem mais pra contar… mas cansei, vou parar aqui e colocar “parte 1” no título e quando tiver saco, escrevo a “parte 2".)


Zoe. Tô sem celular. Não me aporrinhem.


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Olá pessoal.

É a primeira vez que publico Zoe Ferraz. 

Como vocês podem notar, a escrita da Zoe é... peculiar! 

Zoe publica no Substack (que eu não recomendo rsrsrsrsr) e tenho lido tudo que ela publica.  

Ao ler a Zoe, parece que estamos em uma série de TV, dessas que a advocacia é o pano de fundo para os dramas que acontecem. Mas ao interagir com a Zoe e outra amiga muito queria (que também já publiquei aqui - Maria Carmem Martiniano - "A Aliança Esquecida"), a gente descobre que ela tem uma autenticidade enorme, não gosta de hipocrisia e não tem meias-palavras (às vezes eu gostaria que tivesse). 

Mas os textos sempre são fortes. 

Não resisti e publiquei esse. Acho que o ideal teria sido pedir a permissão da Zoe para publicar desde o primeiro que ela postou no substack. Mas decidi começar pelo atual e pronto. 

Quem sabe, se gostarem, eu publico outros. 

Espero que os amigos do blog curtam esse texto. 

Zoe, não sei se tu visitarás o blog para ver teu texto... mas obrigado! 


Luís Augusto Menna Barreto, em 4 de junho de 2026.


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Homens de Preto (o progresso de São Paulo)


Por Renilda Viana


Juvenal, homem simples, acabara de desembarcar no tumultuado terminal rodoviário do Tietê-SP, vindo do "norte". Assustado, percorre os saguões, observa os painéis, letreiros, um coral que se apresenta no meio do salão, o vai e vem das pessoas apressadas... “Quanta novidade! Uma escada que sobe e desce sem precisar que ninguém gire a manivela; coisa do outro mundo!” Admirava Juvenal!

Puxando sua pequena bagagem, segue o fluxo. Retira do bolso um pequeno papel; ali está anotado o endereço do seu destino: "Rua da Paz, 50 - Jd. São Jorge". Juvenal, simplicidade em pessoa, mestre do campo, matuto em cima da escada que rola. Tomado de coragem, sai em busca de ajuda. "Povo atencioso!" Admirava Juvenal.

Já de bilhete na mão, segue rumo às “borboletas". Observa, desconfia, fica nervoso, mas segue o fluxo. Homem esperto! “O metrô... Grande invenção... Quanto progresso! Como é grande! Como corre! Quanta gente!”  Era o Juvenal maravilhado. Passa um, dois, três. Muitos trens... Juvenal ali, encantado com tanta modernidade. Finalmente, resolve seguir viagem.

“Ponto final, tenho que desembarcar no ponto final", pensava. De repente, a cidade desaparece. Juvenal se desespera; busca nas pequenas janelas a cidade que estava ali há poucos minutos; observa nas pessoas; percebe que está tudo tranquilo, então relaxa. Uma moça muito simpática lhe oferece o assento. "Povo atencioso!" Admira.

Uma voz: “Senhores passageiros, desculpe incomodar a viagem de vocês. Tenho minha mãe doente, meu pai desempregado, necessito da ajuda de vocês, pode ser um passe ou qualquer quantia. Que Deus abençoe vocês!" Juvenal ouve com atenção. "Coitado, darei-lhe um trocado", pensou, e assim fez. Sentindo-se orgulhoso, útil, ajeitou-se no banco e fechou os olhos para agradecer.

Estação Sé. "Senhores passageiros, desembarquem pelo lado esquerdo do trem!" dizia uma voz rouca. Juvenal apressa-se:  

— É o final, é o final?  

Perguntava desesperado, sem se dirigir a ninguém.  

— Não, senhor. Responde uma voz no meio da multidão.  

Juvenal se acomoda novamente. Um garoto aproxima-se e joga um pequeno pacote no seu colo; assustado, olha desconfiado, mas logo entende e paga para o garoto. “Que gente estranha”, pensa. A viagem segue. A cada estação, uma surpresa, mais uma ajuda, mais uma compra, mais gentilezas, mais novidades... Os mundos se misturam. O simples Juvenal já não se sentia mais tão deslocado.

Alguns minutos depois:  

“Senhores passageiros, solicitamos a todos que desembarquem nesta estação!”  

Todos se levantam.  

Que aflição! Pobre Juvenal! Com os bolsos cheios de balinhas de goma, chicletes, lixas de unhas, canetas, adesivos, retoma a bagagem no ombro e desembarca. Segue o fluxo. Novamente diante das escadas que rolam. De repente, um tumulto toma conta do espaço. Pessoas correm de um lado para o outro, gritam. Juvenal, assustado, pergunta no vazio:  

 Meus Deus, o que está acontecendo? O que é isso? Homens de preto?!  

Sem resposta, encosta na mureta e passa a observar tudo em sua volta. Homens gritam sem parar:  

 Litoral, litoral, por aqui. Maresias, Praia Grande, litoral, litoral!!  

São os “puxadores” de passageiros para os “perueiros”. Logo entende a razão do tumulto. Lá estavam os “homens de preto” tentando manter a ordem.

Juvenal ficou por ali muito tempo, observando as pessoas apressadas que cruzavam as “borboletas”, para entrarem, para saírem; bem-vestidas, mal-vestidas, bonitas, feias, alegres, tristes, pedindo, vendendo... E os “homens de preto” ali, atentos; espantando os “puxadores”, encaminhando deficientes visuais, ajudando cadeirantes, expulsando pedintes dos saguões do metrô, circulando na multidão. Juvenal ali, três horas se passaram. Meio atormentado com tanto movimento, puxa do bolso o papel que traz o endereço do seu destino. Olha e guarda novamente. Num impulso, pega sua bagagem e segue rumo à escada que leva de volta ao subsolo. Decidido, toma o primeiro trem que encosta na plataforma. Acomoda-se e inicia sua viagem de volta.

“Que grandeza!” pensava enquanto seguia. “Conheci São Paulo. Já posso voltar para minha terra. Que progresso! Sem sair do tal metrô, conheci todo o progresso da cidade: a modernidade, a beleza, a cultura, o sucesso, o companheirismo, a solidariedade, a miséria, o desemprego, a concorrência e os “homens de preto”. E seguiu seu caminho de volta à rodoviária, decidido a voltar para sua terra natal. Descobrira que não existe melhor lugar para viver, o campo. 

Grande Juvenal!