segunda-feira, 13 de abril de 2026

Sem Rede

 



Levei 1 hora na voadeira, para chegar em Bagre. 

Já tinha fila para o mutirão de ações de alimentos que acontecia na Câmara de Vereadores, na falta, ainda, de um Fórum.

No intervalo entre uma audiência e outra, o Loteria não levantou. Estranhei:

— Já podes ir, Loteria! É só pagar a pensão direitinho e a vida segue.

— A próxima é comigo de novo, doutor.

Lá fora, cada um se escondia do sol como dava: árvores da beira, marquises e lonas das barracas dos vendedores. O Goela ia até a porta, e todos ouviam o pregão!

No tempo do Goela ir apregoar, o Loteria falou-me da história:

Depois de umas 4 uniões fracassadas, havia encontrado uma morena que imaginou ser a definitiva: linda, dez centímetros mais alta que ele (o que não queria dizer muita coisa, diante do seu 1 metro e 60 centímetros de altura), e rica. Rica! Trabalhava na secretaria de saúde e ganhava quase três mil por mês! Na época, mais de três salários mínimos! Rica!

Mas eis que um dia, o Loteria tinha de ir em Breves. O barco estava lá, esperando as redes serem atadas. O Loteria despediu-se da sua morena, rede embaixo do braço e já dormiria o sono inteiro no barco.

Mas no caminho, viu os amigos no trapiche municipal. Uma cervejinha. Duas… Quando deu conta, entre potocas e cantorias, ouviu o apito do barco já desatracado e indo para o meio do furo de rio na frente da cidade. 

— E aí, Loteria?

— E aí, doutor, que a culpa foi minha. É lei: se disse que vai viajar, viaja!

Mas qual foi o problema?

Ele continuou, falando em um ritmo calmo. Disse que voltou para casa. Mas ao passar pelo lado da casa, para entrar pela porta dos fundos, que está sempre destrancada, ouviu alguns sussurros vindo pela janela do quarto. “Espichou o ouvido” e não teve dúvida: havia saliência no quarto! Sua morena rica, estaria deleitando-se (ou sendo “deleitada") com outro.

— E então, Loteria? Pé na porta e deu o flagrante?

— Não, doutor. Não ia fazer uma coisa dessas! Morena rica, doutor. Minha preocupação era só uma: não ser corno.

— Mas parece que era tarde, não acha?

Foi daí que ele me explicou tranquilamente que não. Corno, só se os amigos soubessem que ele saberia da traição!  Então, ele disse que enrolou a rede por cima da cabeça e gritou: “larga a mulher dos outros, seu otário”!

E nisso, saiu rápido para a frente da casa, porque o dito, assustando, sairia pelos fundos, certamente. 

— E tu não foste ver quem era? Não ficaste cuidando pra pegar o Dom Juan marajoara?

— Nem pensar, doutor. Não ia fazer uma coisa dessa. E se o caboclo é meu amigo? Eu vou perder uma amizade por uma bobagem dessas? Não vale a pena, doutor. E depois, não podia perder aquela morena rica!

— Mas tu voltaste pra casa? 

Ele então, contou que voltou para o trapiche, tomou mais umas e foi para casa. Disse que, chegando, a Morena estava de banho tomado, perfumada, na rede. E não negou fogo naquela noite!

O Goela estava voltando, já com a autora do próximo processo, e mais um filho do Loteria. Ainda perguntei apressado.

— Mas acabaste perdendo, a morena. Como foi?

— Vacilei, doutor. Ela me pegou meio de saliência com outra no Festival do Açaí. E ela não usou rede pra esconder a cara!


Luís Augusto Menna Barreto

11.4.2026

Amores

 


Luís Augusto Menna Barreto em 11 de abril de 2026

sábado, 11 de abril de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - Capítulo Final

 


— Desgraçado.

Nazaré não escondia o ressentimento. 

— Nem três meses. Justiça imunda!


Virado ia apressado para perto da porta de um carro que iria partir. Mancava. Tinha algumas marcas das surras na prisão. 


Socorro não voltaria. Nunca mais. 


Dora não disse nada. Absorveu. A despedida havia sido no hospital. Apenas ela e Nazaré. Sem lágrimas. Só uma dor vazia. 


— Aquele desgraçado deu a primeira facada. Agora, os estudantes vão fatiar.


Sem família, sem registros. Nazaré não seria enterrada. Indigente, o corpo ficaria ali mesmo, no hospital universitário.


Dora pensou em Bravo. “Eu quero enterra-lo”. Então deu-se conta do pensamento. Mas não se assustou. Bravo estava pelas ruas. Talvez aparecesse novamente. Mas algo nela pensava que um dia iria enterra-lo. Uma auto-defesa, talvez. O inconsciente preparando o coração.


A menina dos sucos continuava na esquina. A nota do ENEM não bastou. 


Ônibus tinham menos Franciscos na catraca. 


Um deles trocava por cachaça as últimas notas do seguro desemprego, depois que todas as notas que ainda tinham algum grão de arroz acabaram. 


Dora olhou um momento o movimento tão intenso na rua que pulsava, viva, ávida para consumir vidas que se esqueciam. 


Um velho com muleta, que todo dia passava no outro lado da calçada, seguido de longe por um cachorro com a pata torta. 


Dois garotos  que começaram a vir todos os dias, pedir nas janelas dos carros, quando paravam no sinal.


A menina dos sucos que ainda teria um tempo antes de desistir dos sonhos.


Nazaré, que se ressentia da falta da Socorro, vez ou outra ainda útil por algum distraído que perdia chaves. 


Uma mulher que vendia batatinhas.


— … ora Michele. Coloque este aluno na última carteira da sala. E chame-o sempre para apagar o quadro. Ao menos ele largará o celular uns minutos, e fará algum exercício caminhando até a frente da turma!


Fim.


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Para ler desde o começo, CLIQUE AQUI!


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua simpatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, CLIQUE AQUI!





Luís Augusto Menna Barreto, em 7 de abril de 2026



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Amontoadora de Palavras (@AmontoadoraP)

 


"Cuide bem dos abraços que você não precisou pedir."

11.3.2024 (no twitter)


"Me agrada não ter uma imagem falsa para manter. O que você vê é o que está disponível. Alguns dias sou incrível, outros dias sou uma bagunça, mas todos os dias sou eu."

3.6.2023 (no twitter)


"Sempre que o telefone não tocava, eu sabia que era você"

17.1.2023 (no twitter)


"Não vou te forçar a ficar comigo se você não me ama...

A porta está ai: 

arrebente o cadeado, as correntes, dope os cães, 

fuja dos seguranças, pule a cerca elétrica e vá embora."

7.8.2022 (no twitter)



Nota do blog: Amontoadora de palavras (@AmontoadoraP) é uma das contas mais inteligentes e sagazes que vi entre as redes sociais que já acessei.  Não a encontrei mais... ... enfim, coisas boas acabam. 

A conta ainda está o "X"... ela postava no tempo bom do twitter. 

Vale a pena. 

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Bicicletas na Grama

 


— É esse aqui, pai.

— Filho… isso aí?

— É.

— Tem certeza que não preferes trocar a tua Caloi?

— Tenho, pai. É esse. Por favor.


Era década de 80. Estávamos na Mesbla. Eu tinha 14 anos.

Naquele tempo, tudo era no crediário, no carnê — e, pra isso, precisou o pai me levar até Porto Alegre.


Foi com o meu primeiro salário de empacotador no supermercado Nacional que dei a entrada no meu Atari.

Na verdade, não era um Atari. Era um similar. Mas os cartuchos eram compatíveis — e isso bastava.


Em casa, desconectei a antena da TV e liguei numa caixinha com um interruptor: “TV / videogame”.

A antena, em cima do aparelho, tinha Bombril na ponta. Mas quem não tinha?


Canal 2 ou 3. Cartucho do Enduro encaixado.


Pronto.


Como mágica, a imagem surgia — chuviscada, instável.

Os pixels eram enormes. O carro mal deixava de ser um triângulo.

Os sons, grosseiros.


Mas, pra nós, era um carro de corrida perfeito.

E o som… parecia até surround.


A notícia correu rápido.


Logo, quase toda tarde, havia um cemitério de bicicletas largadas na grama lá de casa —

e a sala cheia de moleques, gritos e ansiedade pela vez no joystick:

uma caixa quadrada, uma haste e um botão.


Nascia ali uma nova moeda: cartuchos.

Era o que se trocava. O que se apostava. O que se disputava.


De repente, presentes de Natal deixaram de ser brinquedos.

Viraram Odyssey. Atari.


Pouco tempo depois, vieram os CDs. E nós corremos atrás — de novo.


Depois… bem, sabemos: iPod, iPhone, iPad…

e foguete dando ré.


Que atire a primeira pedra quem nasceu antes de 1980

e nunca disse: “no meu tempo é que era bom”.


Ou quem nunca reclamou que “as crianças de hoje só ficam na tela”.


Não tenho sentença. Nem defesa. Nem ataque.


Sei que nasci no início dos anos 70

e que, quando vi uma tela pela primeira vez, deixei minha bicicleta no quintal.


E ela logo ganhou companhia —

outras bicicletas também abandonadas na grama,

mesmo nos dias mais quentes de verão.


Espero que as crianças de hoje cresçam com a mesma sensação que me acompanha até agora:

a de que foi bom.


Porque, se não for…


a culpa não é delas.


É nossa.


Da geração que perdeu a paciência,

que parou de levar ao parque,

de brincar de pega, de esconder, de roda.


Se a infância de hoje não for feliz,

eu sou responsável por ter preparado o mundo onde elas vivem.


Que sejam felizes desse jeito novo.


Mesmo que eu não entenda.


Que se divirtam tanto quanto — ou mais —

sem sujar as unhas de terra.


Que tenham amigos em quem confiar,

mesmo que sejam apenas um nickname

ou um @.


Porque, se deu errado…


a culpa foi minha.





Luís Augusto Menna Barreto, em 24 de março de 2026.