Aqui em casa eu converso com a geladeira.
Não é exagero. Ela estala, canta baixinho e às vezes solta uns gemidos compridos.
No começo achei que fosse defeito. Cheguei a encostar o ouvido na porta, desconfiada, tentando descobrir de onde vinha aquele pequeno sarau diário.
Com o tempo percebi que não era defeito. Era apenas o jeito dela.
De madrugada, quando a casa ficava quieta, ela começava seu repertório: um tec, tec , depois um nhãa intermitente, às vezes um estalo seco. Havia momentos em que eu jurava que aquilo eram passos. Pequenos, cautelosas, como se alguém estivesse andando pela cozinha sem querer fazer barulho.
Mais de uma vez pensei que um ladrão tivesse invadido o apartamento.
Eu parava no corredor, raquete de matar mosquito em punho, prendia a respiração e ficava escutando. Não sei o que eu faria com a raquete se fosse um ladrão de verdade.
Talvez um choque educado.
Então me aproximava devagar. E, curiosamente, quando eu chegava perto... silêncio absoluto. A cozinha inteira ficava muda. Os demais aparelhos, certamente coniventes com a geladeira.
Porém, acabei me acostumando. Pior: comecei a responder.
— Eu sei, eu sei... também acho que comprei demais — digo, abrindo a porta enquanto a luz se acende, iluminando potes, frutas e sobras.
Se eu colocar um frango pequeno no freezer, ela logo geme. Parece chiar, reclamando.
Acho que até o frango se sente apertado e constrangido lá.
Ela continua com seus comentários: um suspiro frio do motor, um brir na tomada, um clique curto. E assim seguimos conversando, cada uma na sua língua.
Minha geladeira falante, já guardou de tudo: doces misteriosos, bolos de aniversário, frutas que amadureceram rápido demais... e até minha carteira.
Sim, coloquei a carteira e a alface na mesma gaveta. Depois fiquei meia hora pela casa procurando a carteira — enquanto ela descansava tranquilamente ao lado da alface.
Nesses dezoito anos de convivência, posso dizer que ela sempre foi uma geladeira exemplar.
Teve apenas uma doença.
Um dia resolveu congelar tudo. Não só no congelador — tudo mesmo. Queijo, leite, açúcar, ovos, maionese, legumes.
Fiquei preocupada, claro. Chamei o Dr. Técnico, formado na Consul, para examiná-la.
Mandei consertar.
Ela melhorou, ainda bem! Voltou ao seu temperamento normal: estala daqui, suspira dali, mas trabalha direitinho.
Hoje, quando ela "fala", não penso mais em defeito. Penso em resposta.
Talvez seja só o metal dilatando ou o motor cansado fazendo seu trabalho. Mas prefiro acreditar que é companhia.
No fundo, acho que ela quer conversar comigo.
O problema é que às vezes me responde.
Sinceramente, minha geladeira já virou personagem da casa.
E personagem antigo a gente não conserta — a gente escuta.
Eliane Seixas
Rio de Janeiro
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