terça-feira, 25 de agosto de 2026

O Chorão, o Furunco e o José Filho


— Uma rede, Fumaça? 

— O leme levou farelo, doutor. Não tem o que fazer. Bora deitar e esperar passar uma embarcação pra avisar que estamos no prego.

Primeiro havia sido um barulho e logo o movimento de quando um carro passa por cima de um quebra-molas. O problema é que estávamos no rio. Daí, o barco varou para uma ilhota, levando pedaço de vegetação e galho de árvore. 

O Fumaça, piloto experiente, logo pegou um cabo de corda e atou o barco num tronco forte. Depois, abriu o alçapão do motor, e quando achei que ele iria pegar ferramentas, pegou uma rede!

— Não se aborreça, doutor. Não tem o que fazer. Vamos esperar algum barco aparecer e pedimos pra avisar que deu prego.

Eu estava indo, junto com o Barganha, para uma comunidade mais distante, onde faríamos mutirão de causas de separação, alimentos e pequenas causas criminais. O Goela e a Tutela haviam ido na semana anterior, preparar tudo e providenciar as intimações.

Quanto deu o barulho de madeira estalando e o pinote do barco, o Barganha mal levantou a cabeça na rede, olhou um pouco o rastro que o barco estava deixando n’água, e disse:

— Farelo. 

Voltou a dormir.

Havia mais umas dez pessoas no barco, todos em suas redes. Eu era o único angustiado, pelo jeito.

Não demorou muito, uma hora talvez, e, de fato, apareceu uma voadeira. 

Havia possibilidade de levar duas pessoas, e todos no barco fizeram questão que eu fosse…

Preferi pensar que era por gentileza e respeito à autoridade que represento. Até o Barganha ficou, com o argumento não muito convincente que com menos peso na voadeira, eu chegaria mais rápido.

No fim, nem atrasei. Na voadeira, compensou o tempo. Mas cheguei todo molhado.

— Levou farelo na viagem, doutor? Deu prego no barco? Olha, pense numa fila de gente esperando audiência e pra falar com o senhor…

O Goela não me deu tempo nem de respirar e já foi dando mil informações, que era impossível eu assimilar, na velocidade em que ele falava

—… e tem uma separação do Chorão e da Gominha e muita audiência do Juizado Especial…

Do trapiche em que atracamos a lancha até a Escola em que seriam realizadas as audiências, dava uns 300 metros. O dia era daqueles com “um sol para cada um” como dizem aqui! Daí já não sabia se eu estava pingando porque ainda estava molhado da voadeira furando ondas, ou se já estava molhado de suor.

— … e o lanche vai chegar daqui a pouco…

Essa parte do lanche, lembro que prestei atenção, porque eram quase 15 horas e eu não havia almoçado.

Quando o Goela parou de falar, já estava na porta da escola que serviria de "Fórum" e realmente havia muita gente.

Começamos pela audiência de separação. O Goela, pelo jeito, já conhecia todo mundo e chamava a todos pelo apelido. Menos o rapaz que o Goela providenciou para datilografar as audiências, já que o Barganha havia ficado no barco. O nome dele era Nik. Isso. Nik. Nik Alex. O apelido já veio pronto de berço, e eu não resisti e comecei, espontaneamente, a chama-lo de “Nik Nêime” (quando me dei conta, acho que me veio um sorriso de dentro da alma).

— Chorão, Gominha, passar pra audiência!

O Goela me entregou o processo e soltou:

— Rock, doutor. Espera a choradeira… 

E foi mesmo. A parte da separação e guarda dos filhos foi fácil. Mas na hora da divisão dos bens… Rock!

— Assim não dá, doutor! Como vou fazer ficando só com isso? Ela quer me tirar tudo, doutor! Ela tá ficando com o que vale mais! Vou ficar na miséria, doutor.

Mudávamos a proposta e lá vinha ele:

— Pior ainda, doutor! Não dá. Ela quer tudo. O que eu vou fazer só com isso que vai ficar pra mim, doutor?

O Chorão chorava e eu já estava para arrancar os poucos cabelos que me restam ao lado da cabeça.

Foi daí que a Goma, que passou o tempo todo quieta, apenas com o beiço esticado, falou:

— Inverte, doutor!

— Hein?

— Hein?

O primeiro “hein" foi meu, o segundo, dele!

— Inverte. Esse excomungado fica com esse tal “quase tudo” que disse que vai ficar pra mim e eu fico com esse quase nada que ia ficar pra ele!

— HEIN?! 

Agora, o "HEIN" assim, maiúsculo, foi só dele!

— Não, doutor, mas isso não tá certo! Cada um tem que ficar com o que já tá escolhido…

Foi rapidinho que houve o acordo. 

Depois de alguns casos mais simples de separação e alimentos, começaram os casos do Juizado Especial Criminal.

O primeiro caso foi do Sagüi e do Furunco. 

O Furunco havia sido furado com faca, logo abaixo do ombro, e a faca atravessou que a ponta saiu do outro lado. O Promotor não havia ido. Se visse a foto da faca atravessada no Furunco que o pessoal da Unidade de Saúde fez, já ia denunciar por tentativa de homicídio! Mas por lá, quando levou para o delegado, voltou só como lesão corporal leve!

Quando o Goela chamou as partes, só o Furunco respondeu.

— Farelo, doutor. O Sagüi não respondeu.

— Ele já vai passar aqui, doutor. Ficou de me dar uma carona até a praia.

— Hein?

O Furunco ainda tinha as cicatrizes de um lado e outro do ombro. Como assim “vai me dar carona”?

— Ele tá vindo me buscar pra dar uma carona, doutor. Posso dizer pra ele entrar e falar com o senhor, se faz questão. Mas pra mim, esse caso tá resolvido. Pode deixar assim. Dá nada não!

— Mas não foi o Sagui que te furou, Furunco?

— Ah, doutor, mas isso foi quando ele ainda tava com a Raimunda. Depois que ela largou dele, ele parou de brigar comigo e já nos acertamos.

Não resisti e perguntei:

— Tu fizeste saliência com a mulher dele, Furunco?

— Vai saber, doutor?! Se fiz é porque tava porre. Não lembro.

Acabou que o Sagüi chegou e acertamos de ele pagar uma cesta básica para o Padre distribuir.

Várias audiências depois, o Goela pegou o último processo, que era, também uma briga onde, inclusive, os envolvidos passaram dois dias no xadrez da delegacia para “esfriar a cabeça”, segundo a informação que veio no expediente da polícia, assinado pelo Tonelada.

O Goela foi até a porta, e chamou: 

— Fagulha, entra!

Estranhei. O Goela só chamou um (o “Fagulha”), que entrou, sentou e ficou olhando tranquilo pro Goela.

Eu falei:

— Chama o outro, Goela.

— Precisa não, doutor.

— Como não precisa?! Claro que precisa, chama lá esse tal José Filho, que tô até curioso para saber qual é o apelido.

— Precisa não, doutor. Esse apelido o senhor já sabe!

E o Goela sentou.


Por Luís Augusto Menna Barreto

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O Jesus, Jesus e o Sonrisal

 


— … é que eu encontrei Jesus, doutor.

— Ai, meu Deus…

— Não, doutor, Deus é outro. O que eu encontrei foi Jesus!

Eu até tenho paciência para as histórias mais absurdas que me contam para escaparem de uma condenação, para ganharem liberdade condicional ou mesmo escapar de um flagrante. Mas tem duas lorotas que me irritam demais:

Quando o caboclo me fala “não lembro, doutor, eu tava porre”; e quando o caboclo vai preso e na primeira audiência já chega me dizendo que agora encontrou Jesus!

Vamos deixar claro que sou cristão, vou à missa, faço minhas orações… mas não aguento quando chegam com a bíblia embaixo do braço e já querem logo me ler uma passagem e me dizendo que querem uma outra chance, porque agora encontraram Jesus.

Eu tento começar o interrogatório, pergunto o nome do mal acabado, e ele já vem com essa:

— Doutor, eu sou um servo de Deus, encontrei Jesus e gostaria de ler uns versículos…

Já pergunto mais alto e com cara de poucos amigos:

— Teu nome?

— É que eu encontrei Jesus, doutor…

Algumas vezes eu não aguento e eu que pergunto:

— E Jesus fez o quê pra estar preso?

Sim, porque quando estão soltos, belos e faceiros, nunca encontram Jesus. Mas basta irem presos e O encontram. Jesus deve estar preso. E no Marajó! (Aliás, eu não duvidaria que na próxima vinda, Jesus começasse pelo Marajó, e acabasse por escolher os novos discípulos justamente pelo açougue do Retalho!)

Mas o fato é que só encontram Jesus lá, na cadeia! Porque depois que saem, esquecem de Jesus. Nem ao menos vão visitá-lo por lá, pelo jeito.  … tá, tô sendo injusto. Na verdade, tem vários que parecem sentir tanta falta de Jesus que acabam por voltar pra cadeia. Daí, encontram de novo! E o crime de Jesus deve ter sido muito grave, porque é só lá dentro que Ele é encontrado pelos presos; e eles saem e Jesus pelo jeito, fica!

Pois agora, o Sonrisal que me vem com essa! De todos, o Sonrisal era um dos que eu menos esperava que encontrasse Jesus. Era o típico malandro. Várias prisões e sempre tinha uma boa história pra contar e tentar desviar-se da responsabilidade. Normalmente praticava furtos, quase nunca sozinho. E era hábil em sempre colocar a culpa nos outros. A audiência era para ver a possibilidade de ele passar do regime semi-aberto para o aberto. O Sonrisal, numa ida em Belém, foi preso por lá, e acabou parando na Colônia Penal. Como era Marajoara mandaram para cá para cumprir a pena, e já chegou com pedido para trocar a pena de prisão por serviços à comunidade.

O que estranhei foi logo ele, sempre tão articulado e esperto, vir com essa história de “encontrei Jesus”. Foi daí que me irritei logo de cara.

— Caramba, Sonrisal! Até tu vais querer aplicar essa, agora: ‘encontrei Jesus’? Achei que tu eras mais inteligente que isso! E cadê tua Bíblia? Qual passagem tu vais querer ler para mim? Deixa eu adivinhar: a do filho pródigo? Ou a passagem que Jesus está crucificado e tem o ladrão bom e o ladrão ruim falando com ele? O que tu vais ler pra mim?”

— sssssssssss….sssss…sssssssss. 

Ah, eu não havia falado ainda? O Sonrisal tem esse apelido, porque ele ri assim: parece um monte de “s”; daí que deram o apelido de Sonrisal, porque parece o barulhinho da pastilha de sonrisal dissolvendo na água! 

— ssss…sssssss… ssssss. 

A risada dele me deixou ainda mais irritado!

— Tá rindo do quê, Sonrisal?

— Sssss…. tenho Bíblia não, doutor…sssss…ssssss.

Não disse nada. Esperei, pronto para, em vez de fazer o Sonrisal ir do regime semi-aberto para o aberto, mandar ele direto pra forca!

— O Jesus, doutor! Seu estagiário! Ele se formou. Já tem anel (já é advogado!), foi ele que fez meu pedido. Encontrei ele lá na Colônia Penal, e ele mandou abraço, doutor!”

Pois é! Jesus. Eu também havia esquecido dele! Foi estagiário alguns meses, e foi estudar direito em Macapá. Há anos eu não vejo mais Jesus. Mas ele não me esqueceu!


Por Luís Augusto Menna Barreto

Em 16 de agosto de 2016.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Eu, o Pilha e os Brinquedos de Deus

 


"(...) Porque eu acho que “coisa” é como “gente”: quando fica jogada na rua, e ninguém se importa, vai sumindo até que morre...! (...)"


Eu não entendia direito. Desde que eu me conheço por gente, tudo que encontro pela rua, posso pegar. Quando não quero mais, deixo na rua e outra pessoa pega. Ou fica ali, até sumir. Porque eu acho que “coisa” é como “gente”: quando fica jogada na rua, e ninguém se importa, vai sumindo até que morre...!

Um dia eu cheguei no parquinho antes do Pilha, e fui “pra” nossa árvore. E vi que o Ranho “tava” brincando na areia com uns carrinhos. A mulher que sempre leva ele lá, “tava” sentada cutucando o celular, igual sempre faz. E o Ranho lá, sozinho. 

Daí, ele levantou e foi pegar biscoitos na bolsa que “tava” ao lado da cutucadora de celular. 

Os carrinhos ficaram jogados na areia, e tinha um amarelo, que eu “tava” olhando há um tempão. Fui lá e comecei a brincar com o carrinho.

De repente senti a mão da cutucadora de celular agarrando forte meu braço e gritando:

— Larga isso, ladrãozinho!

Eu não entendi, eu não “tava” roubando nada! Fiquei assustado e comecei a gritar também, mas ela não me largava.

Então eu senti alguém me dando um baita puxão pra trás, e foi tão forte que fez a cutucada de celular soltar meu braço e caí “pra” trás.

— Corre, mané!

Era o Pilha! 

A gente correu “pra” nossa árvore! Eu tava apavorado! Parecia que eu ia vomitar meu coração, porque eu sentia ele batendo lá no pescoço. 

Quando olhei pro Pilha, vi que ele “tava” com um baita arranhão no braço! 

Aí ele foi naqueles galhos mais altos que eu tenho medo de subir! 

Depois olhou pra mim e disse:

— Por isso que eu gosto de brincar na árvore! 

Ele demorou um pouco pra falar de novo:

— Ela é um brinquedo feito por Deus! 

Ele olhou pro parquinho lá embaixo.

— E nos brinquedos que Deus fez, Ele nos deixa brincar!


Luís Augusto Menna Barreto

15 de setembro de 2018

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eu, o Pilha e o Circo


 

"(...) A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho… (...)"


A minha perna ainda “tava” com gesso. Só na canela, porque a parte que descia “pro” pé, eu mesmo fui arrancando. Queria era tirar tudo, mas o Pilha disse “pra” não tirar porque rico fica com pena de criança quebrada!

Faz tempo que eu “tô” com esse gesso. Nem lembro quanto. E também não sei se já tinha que ter tirado ou não, porque eu e o Pilha saímos fugidos do hospital. “Tava” com medo que me levassem para o juizado e o Pilha me salvou! Ele arranjou uma cadeira de rodas e saiu empurrando à toda velocidade; mas os homens do hospital correram atrás de nós. O Pilha disse que eram os “polícias” do juizado disfarçados… daí, ele jogou a cadeira na frente de um carro e me levou na cacunda!

Depois, nunca mais voltamos no hospital e “tô” com o gesso na perna, ainda!

Anda muito quente de novo… por isso que viemos pro parquinho, ficar na nossa árvore.

— Eu queria voar, um dia…

Eu “tava”  olhando o céu, pelo meio das folhas da árvore… eu achei que tinha só pensado, mas acho que eu falei alto… porque o Pilha falou:

— E eu, às vezes, eu queria ser ator…

Eu fiquei meio sem saber o que dizer. O Pilha nunca falava assim… mas achei que eu tinha que dizer alguma coisa!

— … iiihhh… cheirou cola vencida? Ficou doido, Pilha?

— Doido “é tu”, que quer voar. Até por cima de carro já voou, mané!

— Não sei que graça tem em ser ator, Pilha… ficar vivendo a vida dos outros!

— A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho…

Eu não entendi muito bem… Mas achei engraçado imaginar o Pilha, todo pequeno, numa roupa de gente grande e fazendo biquinho pra falar…! Porque é assim que ator faz, né?!

Mas depois, achei estranho que o Pilha passou o dia mais quieto. Parece que “tava” com o pensamento longe.

No domingo, normalmente o Pilha vai “pro” centro ajudar o irmão dele vender DVD que eles pegam com um chinês. Mas nesse domingo, o Pilha chegou cedo no muro onde a mãe tinha arrumado “pra” gente dormir. 

— Bora mané! 

— Onde Pilha?

— Shhh! Bora. Vamos ganhar uma grana dos ricos!

Eu fui com o Pilha. Ele sempre sabe o que fazer. Acho que caminhamos umas duas ou três horas, atravessando a cidade, até que lá, depois de uma curva na Zona Norte, apareceu uma baita barraca de lona. Era um Circo!

— Vai trabalhar no circo? Virou palhaço, Pilha?

— Cala a boca, mané! “Tu é” muito burro!

O Pilha é mesmo esperto: o ingresso “pro” circo “tava” trinta pilas. O Pilha descobriu um lugar meio escondido, que dava “pra” passar embaixo da lona. Daí, que ele começou a passar umas crianças por baixo da lona, por 2 pilas cada. Eu ficava cuidando, enquanto ele passava as crianças! Mas eu só podia olhar de um lado, né? E o circo é redondo, então, não tinha como cuidar os dois lados! Daí, que um palhaço chegou pelo outro lado e pegou o Pilha! Ouvi ele gritar! 

Eu saí correndo desesperado. Tinha que dar um jeito de salvar o Pilha! Mas como é que se salva quem vive salvando a gente? Quando cheguei correndo, vi o Pilha sendo arrastado pelo braço “pra” trás de um caminhão. Corri o mais que pude, mas quando cheguei não vi mais eles, e nem ouvi os gritos do Pilha!

Fiquei desesperado! Comecei a procurar por tudo que era lugar.

Quando eu “tava” olhando um domador dar comida para dois leões que pareciam mais magros que eu, tomei um susto com uma mão no meu ombro! Era o Pilha!

— Bora, Mané! Ainda dá “pra” ganhar mais uns pilas.

— Mas Pilha, o que houve? Como "tu te livrou” do palhaço?

O braço dele “tava” meio vermelho, mas era só. Eu nem imaginava o que ele fez, mas o Pilha sempre dá jeito em tudo!

— Depois te conto, bora!

— E se o Palhaço volta?

— Não vai voltar!

E o Pilha logo logo arranjou mais crianças “pra” passar por baixo da lona! Eu fiquei cuidando de novo. Mas “tava”  apavorado!

Depois, começou um barulhão. Parou de chegar gente! Ia começar o Circo. Eu “tava” louco pra ver. Mas o Pilha disse que a gente tinha que conseguir mais dinheiro. Não entendi muito bem, porque o Pilha não era louco por dinheiro. A gente sempre conseguia só “pro” que tava precisando! O Pilha nunca foi de juntar e ficar guardando. Ele sempre fala que dinheiro que a gente não usa é só papel velho que não serve “pra” nada!

Mas fui com ele. E não sei de onde, ele conseguiu um isopor cheio de refrigerante. Era enorme, a gente quase nem podia carregar!

— Bora vender que fica mais leve! — Ele falou.

Entramos no Circo e começamos a andar pelo meio das pessoas. No começo não vendemos nada, mas, depois da metade, começamos a vender muito. Quando dava, eu espiava um pouco. Mas o Pilha ficava o tempo todo contando o dinheiro e dizendo “pra” gente vender mais.

Antes de terminar, o Pilha me falou pra ficar com a caixa perto da saída que ele já voltava. Eu fiquei. Terminou o circo e ele não voltava. Comecei a ficar com medo, e me escondi com a caixa vazia atrás de uma arquibancada. Vi quando uma menina pouco maior que nós começou a subir lá no alto. Não acreditei quando ela pegou o balanço e começou a se balançar lá em cima! Só num circo, mesmo, “pra” ter um balanço tão alto! Vi que ela caiu e meu coração quase saltou! Mas tinha uma rede… e depois que eu vi que ela começou a pular na rede, achei até bonito. 

Ela saiu, depois, com o cara que deu comida para os leões. E eu tomei outro susto, com outra mão em meu ombro! Quase morri. Era o Pilha de novo! Mas “tava” muito diferente! “Tava” engraçado demais. E ele “tava” muito alegre! A cara toda pintada de palhaço e com uma roupa colorida! E o palhaço que tinha pego o Pilha “tava” logo atrás, com cara de brabo. Mas não correu a gente dali. Chamou:

“Vem moleque. Anda logo, senão não vai dar!”

O Pilha me puxou e foi me levando até o meio, lá no poste com escada. E disse “pra” eu subir. Eu “tava” tão espantado que nem perguntei nada, fui subindo. O Pilha também! Mas ele “tava” numa alegria que era bonito de ver. Daí, eu não sabia se ficava com medo da altura ou feliz com o Pilha. Misturei os dois, e fui subindo. Quando vi, “tava” lá onde tinha o balanço da menina que eu tinha visto. O Pilha disse “pra” eu segurar. Eu “tava” me pelando de medo, mas segurei. E não é que o doido do Pilha me empurrou? 

Acho que dei o grito mais forte da minha vida. E foi tudo muito louco: acho que no circo, as coisas ficam mágicas, porque parece que o tempo começou a ficar devagar, porque eu sei que pensei num montão de coisas, enquanto o balanço foi até o meio, não aguentei o peso de me segurar, e caí… deu tempo de ver o Pilha rindo numa alegria que eu nunca tinha visto, deu tempo de lembrar do dia que eu tinha voado por cima do carro, e lembrei que eu me achei o super-homem… e pensei que eu era o super-homem de novo! Deu tempo de pensar que eu ia morrer quando chegasse lá embaixo, porque nem lembrei da rede… e quando achei que eu ia morrer fiquei feliz de saber que a última coisa que eu ia ver era meu melhor amigo feliz, porque ele “tava” rindo tão gostoso, com cara de palhaço!

… mas daí, parece que bati numa coisa mole. Era como se Deus tivesse me pegando no colo de um jeito bom e me jogando pra cima de novo! Então, parece que eu acordei e vi que eu “tava” balançando na rede! E Vivo! Foi ali que eu vi que o circo era mágico, porque hoje, cada vez que penso em tudo, levo um tempão lembrando! Não dava “pra” pensar em tudo no tempo só de cair! Eu sei que de algum jeito o mundo tinha dado uma freada!

Depois, quando saí da rede e o Pilha desceu, ele tirou a roupa engraçada que tinha colocado e devolveu “pro” palhaço que ficou o tempo todo com a cara fechada, olhando a gente da porta do circo. E o Pilha também deu todo o dinheiro “pra” ele. 

— Tá faltando dez “real”.

— Mas é só o que consegui."

— Tá. Vazem, moleques. 

Quando voltamos lá no muro, a mãe “tava” furiosa. Eu “tava” com medo. Mas o Pilha tirou um saquinho da cueca. Tinha dez pilas. 

— Toma, não vai apanhar no dia que “tu voou”!

Era verdade! Eu disse que queria voar, e o Pilha me fez voar! 

Nossa! Eu tinha voado! 

Não sei o que deu em mim, mas dei um abraço no Pilha!

— Tá doido, mané?! — … mas deixou eu abraçar.

E enquanto me abraçava, ele falou: 

— Acho que se não fosse tu, eu não ia ter sido um palhaço, hoje… foi tão bom não ser eu.

Daí, ele me largou de repente e saiu correndo:

— Tchau, mané. Chega cedo amanhã no trabalho, que tu “tá” me devendo dez pilas!

Fiquei pensando depois, em como o Pilha ficou diferente e feliz vestido de palhaço. Parecia que ele tinha ficado triste quando voltou a ser ele de novo.

Daí, eu não ri mais. Acho que fiquei triste… porque eu adoro minha vida… e quando ficar mais velho, tudo o que quero, é ser sabido como o Pilha…!


Luís Augusto Menna Barreto


N.A.: O Pilha é meu personagem mais caro... sempre sinto vontade de pegá-lo no colo. Quero conversar mais com ele... protege-lo... 

Sinto vergonha por saber que passo por tantos Pilhas e não faço nada... sou um dos "ricos" que o tem por invisível...


O Pilha tem várias aventuras publicadas no blog, tem um livro publicado, e tem dois contos em capítulos. Procure-os... ou deixe comentário que eu envio diretamente para você.