segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O Labinho, o Branco e a Eleição



— Isso não vai ficar assim! É um roubo! Um disparate! 

Era o Labinho, gritando, aparentemente porre, para toda a comunidade do Piriá, na véspera da eleição!

— Se pra ele tem, eu exijo para mim também! 

A notícia do Labinho porre, reclamando de “roubalheira" na urna eletrônica, ficou confusa. Porque em 3 comunidades diferentes, todas no rio Piriá, houve a notícia, no mesmo dia, que o Labinho estava porre, reclamando de favorecimento para o Branco na urna eletrônica.

A notícia correu, mas o dia da eleição transcorreu sem maiores percalços…

… até o final da eleição:

— Doutor, o senhor vai ter de avisar pra ele!

— Olha, Camundongo, eu sou só o juiz. O boletim tá ali na frente.

— Mas doutor, tem mais de 600 votos no nome dele. Precisava de uns 300 pra se eleger. Tá a maior festa lá no comitê. 

O Camundongo não sabia ler direito. E aquele tipo de boletim de urna era novo, porque era a primeira eleição com urna eletrônica.

Mas eu estava cansado demais para conseguir explicar alguma coisa.

— O cabo eleitoral és tu. Vai lá e fala, que quanto mais tempo passar vai ser pior.

— Tá doido que vou, doutor. Vou é rasgar daqui pra bem longe.

Eram 4h30 da madrugada.

O promotor havia saído fazia pouco e no cartório eleitoral, Abinegre e a Boca de Urna estavam tentando ajeitar um pouco as coisas, contando com a ajuda da D. Boneca e do Goela que sempre auxiliavam na Justiça Eleitoral nas eleições. 

Na frente, havia diminuído muito a reunião de pessoas entre diretamente interessados e curiosos, e o movimento agora, era nos comitês eleitorais dos eleitos. Dava para ouvir festa para o lado da beira, no comitê do Labinho, vereador de muitos mandatos, e que se reelegera com segurança. 

Mais barulho ainda, vinha do outro comitê. A festa havia começado há pouco, porque a base eleitoral do Branco era justamente a comunidade do Piriá. O barco saiu de lá pouco depois das 18h e chegou perto de 3h da madrugada com o cartão de memória e os boletins de urna da zona eleitoral mais movimentada fora da sede do município. Atrás vários pô-pô-pôs com eleitores vindo para a festa no comitê do Branco na sede da cidade.

Depois de processados e atualizados os números de cada urna que o kit chegava, o Goela pregava o boletim no mural improvisado na frente do Cartório Eleitoral. 

— Esse é o último, Goela! Prega lá, e vamos começar a arrumar tudo.

— Ééééééégua! 

— Que foi Goela?

— Nada não, doutor… só acho que vai dar rock!

Não entendi. Mas não tinha mais força para tentar interpretar o Goela depois daquele dia tão intenso. “Amanhã pergunto para o Goela”, pensei.

Antes do Goela pregar o boletim no mural, havia uma pequena multidão, esperando, ansiosa os últimos números que decidiriam a eleição. 

O Recado, cabo eleitoral do Labinho foi o primeiro a ver e gritou!

— Égua do farelo! — e saiu sorrindo para o lado do comitê do Labinho, seguido por metade da multidão.

Depois o Camundongo olhou, e ali mesmo já espocou o primeiro foguete chamando a todos os demais para outro comitê. 

A eleição era municipal, mas a maior disputa deu-se no legislativo, e foi polarizada entre dois candidatos: o Labinho, que já tinha 5 mandatos e ia para o sexto, e o Branco, pai do Fechadura, que resolveu concorrer pela primeira vez. A campanha acabou sendo maior que disputa para prefeito. Todos os demais candidatos a vereadores eram coadjuvantes, e apoiavam-se num ou noutro dos dois principais candidatos.

O pai do Fechadura, figura muito popular na cidade, por ter por muitos anos mantido a ordem quando delegado não havia, já entrou com cara de vencedor. Pela primeira vez em 20 anos, a liderança do legislativo exercida pelo Labinho, estava ameaçada! 

Era certo que ambos seriam eleitos, e eleger-se nem era mais o objetivo: o que um lado e outro queriam, era superar em votos o adversário. 

O Labinho mantinha e conquistava novos eleitores parando em cada bar, pagando uma cervejinha aqui e outra ali, e conquistando… na lábia!

Já o Branco não quis brigar com o Labinho em seu “território” e dedicou-se ao interior, visitando de lancha quase todas as comunidades ribeirinhas, distribuindo geradores, motores rabudinhos e promessas. Oriundo do Piriá, lá era sua principal base eleitoral. Se o Piriá unido votasse nele, já era suficiente.

Com o passar do tempo, a campanha do Branco foi encorpando, mas ainda estava acirrada a disputa:

— Ei, Retalho, hoje deixa a garrafa, que tô podendo!

— Ganhou na sena, Manobra? 

— Vai ser por conta do Candidato! — E apontou para a camiseta com a foto e número do Labinho!

— Vai tomar uma gelada, Goela?

— Serve duas, logo, Seu Nonô, que a Afrodite vem vindo! O Fechadura que tá pagando, por conta do pai dele.

Até na missa, o Padre passou a agradecer a oferta do candidato Labinho para trocar o sino da Igreja, e a ajuda do Branco na reforma da casa paroquial!

Na semana anterior à eleição, via-se muita preocupação no comitê do Labinho e cada vez mais confiança no comitê do Branco.

Faltando uns dois dias para a eleição, não se viu mais o Labinho na cidade. 

Apareceu na manhã do dia da eleição, exalando sorriso com confiança.

Em todo lugar, havia muita fila, e muita gente se atrapalhava com a novidade de ter que digitar os números na urna eletrônica. 

A notícia que veio do Piriá, dava conta de que por lá, tudo foi tranquilo, e a fila andava rápido. 

… estranho!

… Terminada a eleição, foi o que se viu.

Labinho eleito com folga. 

O Branco, que comemorava no comitê, não foi eleito.

Não precisou recontagem de votos. O Branco teve menos de 100 votos. 

No dia seguinte, houve muita confusão. O Branco, dizem, teve de ser levado de lancha, às pressas, para Belém, passando mal. Vários eleitores do Piriá, chegando na cidade para o resgate de promessas de campanha, e para as festas de comemoração, não entendiam o que aconteceu. 

Juraram que tinham votado no Branco. 

— Foi fácil! — Diziam.

Até o Labinho tinha explicado, porre: 

— Fizeram uma tecla só pro pai do Fechadura…

— … branca.


Luís Augusto Menna Barreto, em 3 julho de 2026.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A Criação da Criatura


Fez-se à Terra o Criador, tendo para si que o oitavo dia era, mesmo que milênios houvessem passado para sua criação; e, decidido a ter nova criatura, sobre essa não tinha idéia, quando idéia outra teve: daria à criatura já criada, a tarefa de uma nova criar.
Descendo ao universo que do nada criara, e descobrindo o jardim batizado por “Terra”, viu multiplicado, além do que esperava, a última criatura que criara. De uma dessas, multiplicada já em bilhões, escolheu uma chamada João e deu-lhe a tarefa.
De início desconfiado, argumentou João que tarefas já tinha demais, e havia trabalhado a semana toda, e …
“Perfeito”, interrompeu-lhe o Criador! Sua melhor criação fora depois de uma semana de trabalho, outras coisas criando para receber a obra prima criatura! E prometeu a João, o descanso no dia sétimo!
Relutou, João, argumentando que nem sabia se no no Criador acreditava. Poderia ser tudo um sonho, do qual ele acordaria entediado! Pois que irritou o Criador, afinal, como pensava, João - a criatura -, que tudo fora criado? De onde teria vindo, se antes só o Verbo, sequer luz havia-se feito. Depois, deixou sua irritação, como o pai que a tudo perdoa o filho. E também como pai, advertiu: Repousaria o tempo (seu) de um cochilo e, quando acordasse, queria ver apresentada, uma nova criação! Deitou-se, então, o Criador e divino sono adormeceu, pelo tempo de um breve sopro.
Despertou com som das orações que sempre escutava. Mas havia uma diferente, uma voz que jamais rezava. Aguçou o ouvido e notou que era João quem orava. Passado o torpor do sono, que às criaturas e ao Criador acomete, e foi conferir a tarefa infligida e o motivo da oração, o que lhe deixara curioso, porquanto era a primeira que de João se fazia ouvir: o que afinal, João, o descrente, estaria a pedir em oração? 
Não era pedido!
O joelho vergado ao chão, desculpava-se e agradecia. Envaidecido, apresentou ao Criador o filho recém nascido, erguido em braços orgulhoso: carne de sua carne. Sangue de seu sangue. Um amor que era a conseqüência, de outro amor que era a causa!
Finalmente, a criatura acreditou no Criador: a vida era generoso milagre, e o que, enfim, criou a criatura, fora a fé que lhe surgiu ao ver o amor transformado em vida!

Luís Augusto Menna Barreto
9.5.2019

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Que é o Que é... (Por Polyana Pimenta)

Numa segunda-feira chuvosa, estava indo para o trabalho de ônibus e, curiosamente, o transporte não estava lotado. Todos estavam sentados. 

Na cadeira da frente estava uma jovem senhora e sua filha, esta com aproximadamente 05 (cinco) anos de idade. A criança começou a brincar com a mãe de “o que é, o que é?”. Assim foi se desenvolvendo a conversa: 

- O que é o que é: vermelho por dentro e verde por fora? 

A mãe acertou logo: 

- Melancia. 

Em seguida, fez várias perguntas conhecidas, sempre alertando a mãe: 

- Essa a senhora não vai adivinhar.

Mas a última pergunta deixou a mãe perplexa.  A menina disse: 

- Essa a senhora não vai acertar... O que é o que é, é uma parte do corpo humano, vive de cabeça para baixo, é duro e está sempre molhado? 

A mãe se assustou e, sem saber o que dizer, respondeu: 

- Não sei, minha filha. 

Eu, sentada atrás, já comecei a rir e pensei no quanto a mãe devia estar constrangida. 

A garota sorriu com ar vitorioso e respondeu: 

- Mamãe, é o dente. 

A gargalhada foi geral entre todos que estavam por perto. 

Moral da história, nós lemos o mundo conforme as nossas lentes.

Polyana Pimenta.

Nota do blog: Polyana Pimenta é amiga do blog, é escritora, poetisa e leitora voraz, e faz um trabalho lindo nas redes sociais, "Degustando Escritos". 
Instagram @degustandoescritos

domingo, 26 de julho de 2026

-- Tânia

 


— Tânia.
(Mateus 25:40)


Primeiro passei reto. Ela estava na porta da padaria. Algo fez olhar para trás. Eu a vi, depois de te-la feito invisível.

Foi que Deus me perguntou:

— Tu não me pediste, hoje?

— Sim.

— E me negas quando eu te peço?

Comprei o lanche para ela. E perguntei seu nome.


Luís Augusto Menna Barreto
Em 24 de julho de 2026.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Uma Carta Para Meu Velho Amigo Lico

 

— Já chegou? — Eu exalava ansiedade por todos os poros! Estava suado, apesar do mês de maio não ter sido nada quente na minha imensa  e pequena Santo Antônio da Patrulha. Acontece que a agência dos Correios era (e é até hoje), bem quando termina a parte mais íngreme subindo a lomba que separa a Cidade Baixa (onde eu morava, no Bairro das Pitangueiras) da Cidade Alta. E eu subi a lomba correndo!

— Ainda não.

A senhora que atendia sorriu com paciência para aquela criança ansiosa de 9 anos. Eram por volta de 15 horas. No dia anterior, eu havia ido com a mãe entregar o cupom que recortei na revista do Tio Patinhas, preenchi os dados à mão, com caneta Bic, e a mãe levou-me à agência dos Correios. Não precisava selar o cupom e o pagamento seria na retirada do Supermanual do Escoteiro Mirim.

Era incrível chegar na agência dos correios. Eu achava linda! Um prédio com o pé direito alto, a gente entrava e mesmo no verão vinha aquela sensação geladinha. E era silencioso! Parecia biblioteca! Tudo tão calmo, lá. 

O prédio continua igual, lindo. A agência dos Correios ainda é lá; mas agora, só as encomendas. Às vezes eu ia colocar uma carta para o programa dos Trapalhões, em que, no final, o Didi ia pra cima de uma imensa pilha de cartas, jogava algumas pra cima e pegava três, e os sorteados ganhavam uma bicicleta Calói. Daí, o Didi cantava a musiquinha: “pedalando, pedalando, pedalando com a Calói! Pedalando, pedalando, a poupança nunca dói!” Então ele colocava os quatro dedos em frente a boca, o polegar escondido por trás, passava em um movimento horizontal e estalava os dedos!  E que atire a primeira carta, quem nasceu nos anos 70 ou 80 e nunca imitou o gesto do Didi.

Na década de 80, a gente conhecia o carteiro. O que passava na nossa rua bem atrás do salão da Igreja, era um moreno forte! Eu achava o máximo. Por muito tempo quis ser carteiro, porque era sempre uma alegria quando ele pulava o muro baixinho que tinha na nossa casa, e ia até a janela entregar alguma correspondência. Se não havia ninguém, a correspondência era colocada embaixo da porta! As casas lá, todas tinham muro. Mas eram muros baixos e os portões nunca estavam trancados.

Quando o carteiro parava na nossa casa, era sempre uma alegria. Claro que mesmo naquele tempo, os Correios já entregavam contas. Mas não era como hoje. As contas eram da luz e da água. E só. Quando o carteiro vinha, era sempre algo bom: o pai recebia cartas, ou era alguma entrega da Avon que a mãe recebia, ou era carta de algum parente. A gente nem tinha telefone em casa! 

Ir na agência dos Correios era sempre muito legal! 

Desde o dia que a gente foi colocar o cupom da compra do Supermanual do Escoteiro Mirim, na agência dos Correios, eu passei a ir todos os dias pra perguntar se já  havia chegado! Meu Deus, o mundo havia parado! As horas na aula, na 5ª série na escola Estadual Espírito Santo, em 1980, não passavam. Eu lembro a alegria quando o carteiro chegou em casa com o papelzinho dizendo que o Supermanual havia chegado! Meu Deus, eu fiquei em polvorosa e depois de uns dois ou três ralhos que eu levei da mãe por conta da ansiedade, lá fomos nós, na nossa Belina 78, já com 12 anos de uso, eu no banco da frente, aqueles bancos baixinhos, sem encosto de cabeça, e sem cinto de segurança. Aos 9 anos de idade, a mãe já deixava eu passar a 3ª para a 4ª marcha. 

Eu abri a embalagem lá mesmo! Eu adorei tudo! O cheiro de novo, as páginas grossas, os desenhos… e não poderia haver melhor lugar, do que a agência dos Correios, na lomba da avenida!

Daí, o tempo foi passando, e a imagem que tive dos correios entre os anos 2010, até pouco tempo atrás, era a de um entregador de contas. Havia perdido o charme. Porque quase todos os dias, havia correspondência. Eu já não conhecia mais o carteiro, porque todas as casas tinham grades altas e portões trancados, e as cartas eram empurradas para dentro de um coletor junto às grades. E havia muitas agências dos Correios, sob modelo de franquias, espalhadas em todos os lugares. 

Chegava a conta da luz, da água, o IPTU, TV a cabo, cartão de crédito… nenhuma carta!

Mas, de uns tempos pra cá, acho que a magia tem retornado. Ao menos para mim!

A maioria das contas, já não são entregues pelos Correios. Vem diretamente por e-mail, ou mensagem de texto com anexo. É verdade que não recebo mais cartas. Mas todo o mês, eu espero ansioso o carteiro, quase com aquela alegria infantil. Ele me traz a revista National Geographic! Eu assino a versão digital, também. Mas nada supera o cheirinho das páginas e a maravilha de ver as fotos, às vezes em páginas duplas! 

Os Correios recuperaram, para mim, um pouco da magia. 

E não desisti de receber cartas: há poucos dias, nas férias, antes de viajar para o Rio Grande do Sul, postei uma carta no correio de Belém. O destino: Rua Plínio Flores de Jesus, em Santo Antônio a Patrulha, Rio Grande do Sul. O destinatário? Lico. Meu velho amigo de infância. Quis encontrar-me comigo, virar criança de novo na casa da mãe, e receber a carta de mim mesmo!

… na esperança que de alguma forma, aquela criança envie-me uma resposta.


Luís Augusto Menna Barreto

2.8.2019

domingo, 12 de julho de 2026

O Sapo e a Enforcada


A minha infância em Santo Antônio da Patrulha, no interior do Rio Grande do Sul, foi uma infância normal da época. Infância desplugada, com muito joelho ralado, mercúrio cromo pintando joelhos e cotovelos de vermelho, Kichutes amarrados nas canelas, Kongas, Bambas e Havaianas apenas azul claro ou pretas que nós, garotos mais descolados, virávamos ao contrário, para que a parte colorida ficasse pra cima.

Como todo o adulto na segunda metade da vida, eu adoraria voltar. E se pudesse escolher, mudaria algumas coisas. Sim, mesmo da minha maravilhosa infância em que uma tomada era suficiente em uma peça da casa, eu tenho alguns arrependimentos: eu encheria menos o saco da minha irmã (somos em dois e eu sou o caçula, aquele que fica com duas balas quando tem apenas três, aquele que chora e é defendido por ser o menor, aquele, enfim, que apareceu e roubou a atenção e os mimos que antes eram destinados ao mais velho). 

Mas afora o arrependimento de ter perturbado muito a mana, tem uma coisa que eu de jeito nenhum faria de novo: eu não atiraria pedras em sapos. Sim, isso mesmo. Eu não atiraria pedras em sapos!

É o seguinte: a gente morava atrás do salão da Igreja da cidade baixa. Naquela época, Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande do Sul, era dividida entre cidade baixa e cidade alta. Morávamos na cidade baixa, atrás do salão de festas da "Igreja de baixo" (da cidade baixa). Quando vinham aquelas chuvas de verão, rápidas, mas de generosas águas, a mãe deixava a gente tomar banho de chuva. E nós (eu e a mana) e mais a gurizada da rua (os irmãos Cuca, César e Dico, o Christian, os então pequenos Suian e Beto) corríamos para as calçadas do salão, porque havia calhas que terminavam a aproximadamente 1 metro e meio de altura e jorravam água como se fosse uma cachoeira. Brigávamos pelas calhas, para ficar embaixo e levar aquele banho todo! 

Depois, quando a chuva passava, a gente entrava em casa como um “pinto molhado” e o pai fazia a gente tomar um “martelinho” com vermute, uma bebida bem forte. A mãe reclamava, mas o pai dizia que tinha que tomar pra não ficar gripado! 

Acho que funcionava. E, naquele tempo em que nem tudo era politicamente incorreto, e nem havia extremismos legais, não virei alcoólatra por tomar um martelinho de vermute depois das chuvas, aos dez anos de idade. E meu pai nunca foi preso por isso! O incrível é que, nesses dias de chuva, quando começava a cair a noite, acontecia uma reunião de sapos ali na calçada da parte de trás do salão da Igreja. Eu não faço a mínima ideia de por que os sapos reuniam-se ali, mas que era uma espécie de point para os sapos, era! E o que nós, fazíamos? Depois do banho (quente, de chuveiro), voltávamos todos para a rua pra jogar pedras nos sapos sem que aparecesse alguém para dizer-nos “quem nunca coaxou sob as calhas em dia de chuva, que atire a primeira pedra”. 

E tantos sapos sucumbiram ante nossa crueldade infantil. Pois esse arrependimento eu tenho. Se pudesse voltar, não atiraria pedras nos sapos. E mais: tentaria convencer meus amigos a não atirarem também. Pobres sapos.

Pois dias atrás, lá em Santo Antônio da Patrulha, uma amiga da Maria Júlia, minha sobrinha havia tido um desentendimento com os pais, e foi dormir lá na casa da mana. Dormiu no quarto da Maria Júlia. Daí que no meio da madrugada, a mana acordou com gritos desesperados da Maria Júlia, à porta do banheiro. Como a mana ainda estava naquele instante em que o brusco acordar mistura-se ao torpor do sonho, ela disse que ficou paralisada de medo! Pelo tom desesperado dos gritos, a mana chegou a pensar que a amiga havia-se enforcado no banheiro e a Maria Júlia, ao levantar-se, deparou-se com a cena e estava, agora, em desespero, gritando! Como os gritos não cessaram, a mana, em um arroubo de coragem, foi lá para arrancar da visão de sua prole, a horrível cena da garota pendurada pelo pescoço. Quando chegou no banheiro, também veio Milena, a amiga, ver o que estava acontecendo, acordada também pelos gritos! Ora, se Milena, Maria Júlia e ela própria estavam ali, quem se havia enforcado no banheiro? Ninguém!

Havia um sapo no banheiro! Isso, um sapo. E Maria Júlia tem pânico de sapos. 

Nos tempos de criança, não teríamos dúvida: correríamos e pegaríamos uma pedra. Mas mana pegou uma toalha, colocou sobre o coaxante e calmo anfíbio, pegou-o e colocou-o no pátio de casa, com toda a delicadeza. 

Ela também se arrepende de ter atirado pedras em sapos: eles voltam para assombrar nossa descendência…


Luís Augusto Menna Barreto

27.3.2019


 

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Virada - parte 2

 

Eu não gosto de escândalo.

Sei que pode não parecer, mas detesto. Com todas as merdas do pai, nunca vi a mãe dar escândalo. Acho que isso, de alguma forma dignificou ela. Ela mandou ele embora de casa, sem escândalo. Ela enterrou ele sem escândalo quando nenhuma das putas dele apareceu no velório.

Acho que isso herdei dela, não dele. Que bom. Dele, já tenho muita merda na minha herança genética.

Daí, quando disse pra D. Carmem, na frente do chefe, que ele tinha me despedido, acho que me arrependi na mesma hora. Foi na frente da sala de audiência. Corredor do Fórum com bastante gente. Vi a veia do pescoço dele saltar. E fiquei com medo que D. Carmem também desse um piti, porque ela tem grana, mas não é exatamente um exemplo de elegância e comportamento. É perua. Mas do tipo que esteve lado a lado com o marido construindo a fortuna, tendo de gritar com muita gente.

Eu poderia ter evitado tudo. Mas eu tava com isso engasgado. Daí foi meio que uma vingança. Fiz de propósito. Não deveria. Pensando bem, em retrospectiva, fiz por merecer. Mas foda-se. Não sou de ferro.

Mas assim que soltei minha frase afiada, senti o peso da tensão. Daí, usei uma arma que só os fumantes tem: acendi um cigarro. Pronto. não deu tempo do barraco se formar, e veio o segurança dizer que eu não poderia fumar ali!

Os minutos entre ir até o elevador, descer e sair do Fórum foram suficientes. Não teve barraco. Acho que deu tempo para todos pensarem. D. Carmem olhou para ele e disse:

— A Dra. Zoe é minha advogada!

O chefe tava a ponto de explodir. Mas ele não é do tipo que rasga dinheiro. Não com uma separação em que a fortuna envolvida pode chegar em muito milhões.

Antes que ele falasse alguma coisa, D. Carmem virou pra mim e disse:

— Segunda, no Pobre Juan do Barra Sul, meio dia.

D. Carmem saiu para a frente do Fórum, onde algum motorista devia estar esperando. O chefe me olhou com olhos injetados de quem diz: “precisamos conversar”. Mas manteve alguma elegância e não disse nada. Ninguém se mantém rico por acaso. Mas eu vi o esforço que ele fez pra não explodir.

Fiquei sozinha, com sol e o vento frio. Resolvi não desperdiçar o cigarro que acendi e apaguei lá dentro do Fórum: naquele momento, não tinha emprego. Não tinha compromisso. Fumei. Depois fui pro ponto de ônibus.


(Se você perdeu ou quer ler novamente a parte 1, CLIQUE AQUI: VIRADA - parte 1

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Zoe. Escrevendo no balcão do bar no iPad do Espinha (não sei o nome dele).


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Olá, pessoal. 

Demorou, mas Zoe Ferraz acabou enviando a segunda parte do texto,

Eu adoro o jeito tão autêntico como ela escreve, como ela se auto-escreve, sem medo de falar o que pensa, sem medo de expor-se, inclusive nos medos e nas falhas. Isso é raro e eu tenho por virtude (dela). Eu certamente escreveria sem os palavrões, vocês me conhecem...! Mas acho que no caso dos textos da Zoe, cada palavrão tem uma função expressiva no texto, que não é um xingamento, ou algo vulgar. É a Zoe. Despida de pudores para falar das coisas como ela enxerga. 

Que bom que ela me enviou este. 

Desejo que degustem. Que vejam além do texto. E que possam cada um dos amigos e amigas do blog, registrar suas próprias interpretações.


Luís Augusto Menna Barreto, em 6 de julho de 2026.