quinta-feira, 30 de abril de 2026

A Aliança Esquecida


Por Maria Carmem Martiniano

Cravo as unhas em sua perna. Sou muito orgulhosa para pedir que ele fique. Como se tentar detê-lo fisicamente não fosse ainda mais humilhante. Ele se levanta e se afasta.

Um calor pegajoso, mesclado ao pânico, se agarra à minha pele, e gotículas de suor escorrem entre os meus seios.

De repente, sua ira se aguça e objetos rasgam o ar. Uma mesinha redonda de canto, um abajur sustentado por pequena escultura, presente de casamento que eu amava.

Atordoada, vejo quando ele retira a aliança de casamento e a coloca sobre a prateleira mais alta da estante da sala de televisão. A custo, consigo me levantar. Digo que vou buscar as crianças, elas estão na casa de minha mãe. Ele não responde. Pego o carro e desapareço na escuridão.

Enquanto retiro a mesa do almoço, arrumo os lanches nas lancheiras. Uma caixinha de suco para cada um e pão com manteiga. Checo se os uniformes estão secos.

“Mãe, a gente deveria ter três conjuntos de uniforme cada um. Aí você não fica preocupada todo dia vendo se os uniformes já secaram” – pede minha filha de oito anos.

“Por enquanto, não temos condições, filha, já conversamos sobre isso. E dois são suficientes.”

“Nunca temos condições pra nada, mãe.”

“Vá ajudar seus irmãos a se trocarem, filha, senão vamos nos atrasar.”

À tarde, as crianças na escola, um vazio me envolve, minhas entranhas se reviram e o gosto amargo do medo se gruda à minha garganta. Há uma ausência constante ao meu lado, presente, concreta. Uma ausência que sufoca e persiste. Uma ausência que só existe no lastro da antiga presença. O braço que não me abraça, a mão que não me toca, os olhos que não me veem.

E no meio da dor, o litígio. Advogados. Juízes. Resta ainda uma audiência. Tenho horror às audiências e a todos aqueles termos jurídicos – “alimentos provisórios”, “alimentos definitivos”, “partilha de bens”.

Um casamento nunca poderia ser reduzido a esses termos.

A sentença final do juiz determina que a casa seja dividida entre os dois e que ele a deixe. Quando a audiência termina, ele me olha com raiva e me lembra: “foi você quem foi embora e levou as crianças.”

“Fui embora no dia em que você atirou e estilhaçou objetos.”

Na manhã seguinte, ligo para ele: “preciso pegar o restante das minhas coisas e das coisas das crianças. Seria melhor se eu não te encontrasse.”

Ele aquiesce.

Quando chego, não há ninguém na casa. Somente retalhos de lembranças. Vou com pequeno caminhão que faz frete, pego grande parte de minhas coisas e os pertences das crianças. Deixo para trás o que é dele e um pedaço da minha vida.

Já estou de saída quando uma lembrança vem à tona. Dou meia-volta e vou até a sala de televisão. Paro à frente da estante da TV, consigo sentir as batidas do meu coração nos meus ouvidos, fico nas pontas dos pés e tateio a beirada da prateleira mais alta. Mal consigo acreditar quando meus dedos tocam o pequeno arco. Ela continuava ali onde ele a havia deixado alguns meses antes. Ele nunca se dera ao trabalho de procurá-la, de guardá-la. Sinto-me nauseada. Respiro fundo, tento me controlar. Finalmente, consigo escapar dali.

Em casa, pego um saquinho de veludo azul onde está a minha aliança, tiro do bolso a outra aliança, bem mais larga, e deixo que ela deslize para o fundo do saquinho, onde se junta à minha. Eu as guardo como um lembrete das ilusões partidas.

Passados alguns meses, ele me liga: “Por acaso, você viu ou pegou a minha aliança?”

“Por que eu a teria visto? Você a perdeu?” – pergunto-lhe entre irônica e surpresa.

“Não a perdi, você a pegou” – vocifera ele.

Sem dar atenção à sua raiva, eu o questiono, um tanto esperançosa: “mas o que você faria com sua aliança a essa altura?”

“Estou precisando de dinheiro, iria vendê-la.”

Desligo o celular na cara dele.

Pouco tempo depois, viajo com meus filhos.

Durante um entardecer colorido, enquanto as crianças se divertem na piscina do hotel, desço para a praia sozinha. A linha do horizonte que separa céu e mar é tênue, e nuances rosa alaranjadas matizam os traços suaves das nuvens.

Paro em frente as ondas e deixo que cubram meus pés. Aperto o que trago na mão e, em seguida, atiro com força para lá da arrebentação. Vejo quando o saquinho azul afunda na água transparente. Respiro fundo, sorrio e dou as costas para o mar.


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Maria Carmem Martiniano está no Substack (@mariadesempoderadaoficial), e brinda aos seus assinantes com textos densos, que invariavelmente tem muitas camadas. Sentimos que as letras fizeram-se no papel com alma e sangue. 

Me Convida Pro Velório

 


Ela chegou desarrumada. 

Entrou de repente, sob olhares de cabeças baixas. Não cumprimentou ninguém, abriu caminho por entre as aproximadamente trinta pessoas e foi direto até ela, que estava no centro. Havia quatro pessoas próximas. Uma delas, com feições muito parecidas, segurava-lhe a mão.

Ela se aproximou e só quando estava muito perto, quando viu, foi que acreditou.

— Não! — Saiu assim, espontâneo, do fundo do peito. Começou a chorar. Soluçava! Rapidamente, fora amparada pelas quatro senhoras que estavam ali. 

Seu dia começara bem, com um raio de esperança como há muito não sentia. Finalmente, trabalho depois de tanto tempo. 

O casamento de quatro anos, que parece que haviam roubado todos os vinte e seis anos antes vividos, finalmente ruíra. Somente percebeu o quanto lhe fora tóxico quando finalmente viu-se só. Mas a sensação não fora de liberdade. Não parecia uma libertação. 

Ela sabia que nos quatro anos do casamento, fora, pouco a pouco, sendo diminuída (ou aceitando diminuir-se). Ele não quis festa. Apenas foram morar juntos e ele a levou para jantar em um restaurante até chique, mas de comida indiana que ela detestou, mas fingiu gostar, afinal, era o “jantar de casamento”. Não teve a festa que imaginou na adolescência, não jogou o bouquet, não dançou a valsa. Mas estava com ele e “era o que importava”. 

Depois, sem nem perceber, descobriu que nunca mais saíra com as amigas. E, em algum tempo, até mesmo as mensagens de WhatsApp tornaram-se raras. 

Ela não trabalharia. E demitiu-se da clínica em que era fisioterapeuta. Ele cuidaria de tudo, para que ela tivesse tempo para eles.

Um dia ele lhe dera um presente lindo: um iPhone novinho… que já veio com um outro número. E ela levou quase dois anos para descobrir que, o presente veio com um spyware aqueles programas espiões, em que tudo o que ela fazia no celular, era monitorado por ele.

Quando descobriu, conformou-se. Aceitou (?) o argumento de que era para a proteção dela.

Com o tempo, o celular tocava menos. Recebia menos mensagens. Tinha menos contatos de Instagram. Os poucos contatos ativos, eram os amigos dele. A família dele. Falava pouco com o irmão, e brigavam nas poucas tentativas que ele fez de dizer que ela estava perdendo o brilho. 

Então, o baque repentino: ele simplesmente saiu de casa, em uma manhã, dizendo que ela não o fazia mais sentir-se apaixonado, e que ele iria experimentar um novo relacionamento. Disse, também, que o aluguel estava pago até o final do mês. E simplesmente saiu da sua vida. 

Há um mês. 

A dona do apartamento fora compreensiva, mas sem qualquer intimidade. Deu-lhe quinze dias para pagar o aluguel… ou sair. 

Ligou para o irmão. Ele emprestou o dinheiro. Mas fez mais: indicou-lhe uma paciente. Uma senhora de 78 anos, que precisava de fisioterapeuta. Dona Amália. Gostou dela, e acolheu-a como se a conhecesse há anos. Estava indo para a quarta sessão:

— Bom dia, Rui. (O porteiro). 

— Bom dia.

— Vou na Dona Amália, posso subir?

— Morreu.

— O quê?

— Morreu, ué! Já. Tava de “hora extra” ela, né - que Deus a tenha. Tá na capela do Jardim da Paz. 

Agora estava ali: olhando para Dona Amália, tão pequenina, tão branquinha. Chorou.

As quatro irmãs vivas (duas já haviam morrido, de um total de sete mulheres e dois homens) estavam, agora, amparando-a. 

Depois, vieram algumas primas. Umas com dificuldade de locomover-se. 

Consolaram-na. Falaram de dores. Da alma. Do corpo. As irmãs de Amália, dando-lhe receitas para as dores da alma. Ela, lhes dando receitas para as dores do corpo.

Ela ficou por ali. Acompanhou o velório. Ganhou carona no cortejo até o cemitério. Assistiu ao enterro. 

Saiu dali com duas novas clientes.

Em pouco tempo, sua rede de amigas ampliou-se. Sua clientela aumentou. 

Algumas morriam. Era natural na nova conformação de seus relacionamentos. 

Mas a cada cliente que morria, novas oportunidades se abriam, e normalmente, aumentava sua clientela. 

Afinal, era sempre convidada para os velórios.*



Luís Augusto Menna Barreto, em 30 de abril de 2027


*Esse texto foi aprovado com ressalvas da curadora. Não aprovou o final, dizendo que eu o apressei. Insisti. Publiquei como eu o escrevi. (Não gahei o selo de aprovação desta vez).

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Um Conto Sobre Um Amor Guardado - parte 2

    Ele acordou, e sorriu ao ver o copo do drink, vazio em cima da mesinha da sala. Lavou a louça.

    — Hoje, eu vou comprar mais cointreau, não se preocupe.

    Estava feliz. Planejara sair do trabalho e, novamente, passar no supermercado. O dinheiro que ganhava não era muito folgado, mas abria mão de várias coisas para poder ter sempre o cointreau, e as batatinhas compradas no carrinho da esquina.

    Na parte nobre da cidade, ela acordou cedo, levantou-se quieta para não acordar o marido que dormia pesado ao seu lado. Quando foi vestir-se para o trabalho, por um instante puxou uma caixa de sapatos que mantinha no fundo do closet, onde ainda guardava o velho All Star da faculdade, e lembranças de quando sonhava com romances e viagens de mochila nas costas. Suspirou, e pegou o scarpin Yves Saint Lourent preto, comprado na Galleria Vittorio Emanuele II, Piazza del Duomo, em Milão, por € 850,00, que combinava com o tailleur escolhido para o dia de trabalho.

    Naquele fim de tarde, depois de um dia em que se viu ansiosa sem aparente razão, decidiu ir, novamente, até o mesmo supermercado onde encontrara aquele estranho que lhe parecera familiar. Controlando para estar no supermercado mais ou menos no mesmo horário do dia anterior, ela ficou longe, mas observando discretamente, o corredor onde estavam as bebidas. Sem esperar muito, ela o avistou, pegando uma garrafa de cointreau, e depois, escolhendo laranjas. Viu-o pesas as laranjas, olhar a etiqueta, pegar a carteira do bolso de trás da calça e fazer contas… viu-o retirar duas laranjas de dentro do saco, pesar novamente, olhar a etiqueta do valor e então se dirigir ao caixa. 

    Decidiu que o seguiria. Estava intrigada.

    Viu-o sair a pé do supermercado e então ela deixou seu carro no estacionamento e seguiu-o.

    A dois quarteirões dali, havia uma banca de revistas próximo à esquina, onde havia um carrinho vendendo alguma espécie de lanches. Tomou coragem e aproximou-se, fingindo ver as revistas da banca, quando ele parou no carrinho de comida da esquina. Uma senhora morena e com um grande sorriso cumprimentou-o como quem já o conhece de muito tempo.

    Ela fingiu interessar-se por uma revista e tentou ouvir o que diziam:

    — O de sempre?
    — Isso mesmo!
    — Pra viagem?
    — Sim, bem embaladinho, porque ainda tenho 40 minutos no ônibus.
    — Você nunca come na viagem?
    — Não! Só quando chego em casa! Ela adora essas batatinhas com o… Ei é o meu ônibus. Até amanhã!
    — Até amanhã. Mande um abraço pra ela!

    Ele saiu correndo e entrou no ônibus. Ela não o seguiria mais. Decidiu ir até o carrinho de lanches. Viu que eram batatas fritas na hora, em uma imensa panela com um óleo já amarelado. Parou bem próximo.

    — Olá, querida! Quer as batatinhas da Dora?

    Ela hesitou… em silêncio balançou a cabeça e saiu em direção ao estacionamento do supermercado.

    …

    Ao chegar em casa, ouviu o barulho da TV na ESPN, e viu o prato, já quase no fim, dos tomatinhos com boursin.

    — Amor, já que você chegou, poderia pegar outra cerveja para mim? Não quero perder nenhum lance desse jogo. Combinei de irmos à casa do Olavo no final de semana. Ele quer que joguemos uma partida de tênis. Tudo bem pra você?
    — Sim… — ela respondeu sem convicção. De repente, olhando sua geladeira, e o armário, sentiu vontade de ficar descalça e comer batatinhas… Tirou o sapato ali na cozinha mesmo. Pegou uma frigideira. Batatas. Teria batatas em casa…….?
    — Amor?! A cerveja, por favor? Meu dia foi muito duro na corretora.

    …

    Naquela noite, em um outro apartamento, muito mais simples, longe do bairro nobre, bem mais tarde, ele dormia sentado no sofá, com o menu de Shakespeare Apaixonado na tela, e o leve zunido do antigo aparelho de DVD que terminara todos os créditos do filme e voltara ao menu. O saco de batatinhas estava vazio e a taça de vidro, com o drink de cointreau e laranjas, jazia com o canudinho pendente… Se é possível sorrir dormindo, aquilo era um sorriso…

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Por Luís Augusto Menna Barreto

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Divisão de Bens


O homem não quer dividir nada. A mulher, quer justiça.

Mudam nomes, mudam lugares. Mas é igual. Até em Novo Progresso, Amazônia raiz, 400 km de floresta para qualquer lado. Minha primeira comarca onde fui titular.

O caso era o mais simples possível de entender: divórcio. Dois filhos já maiores de idade e capazes de se sustentar. A mulher tinha perto de 50 anos de idade. O marido diz que sempre viveu às suas custas, e sempre a sustentou. Não contou as fraldas trocadas. Os almoços prontos. A casa arrumada e a geladeira sempre abastecida.

O marido tinha quase 60 e, pelo que entendi, aconteceu o óbvio: envolvera-se com uma menina da idade dos filhos, perto de 20 anos de idade. O casal havia ido morar em Novo Progresso quando o governo brasileiro incentivava e prometia terras e facilidades para quem fosse para aqueles lados da Amazônia. “Integrar para não entregar” era o slogan. 

Novo Progresso era pródigo em madeira que era retirada em modo extrativista, sem qualquer cuidado na conservação da mata, o que tornava o custo muito baixo e o lucro muito alto, considerando que a mão de obra era quase escrava. E havia os garimpos, quase todos ilegais, que também faziam muitas fortunas e matava muita gente. A circulação de ouro ainda era grande quando fui trabalhar lá, nos idos de 2005, e ainda me lembro de um dia em que um cidadão ingressou com uma ação de reintegração de posse e queria pagar as custas judiciais com ouro em pó (mas isso é outra história, e fica para outro dia).

Pois o homem que estava se divorciando havia feito relativa fortuna com negócio de táxi aéreo. Não é bem isso que vocês estão imaginando. Em muitos garimpos só se chegava de avião em pistas clandestinas que não passavam de uma picada aberta a fação no meio da mata. No negócio do garimpo, quem tinha um avião retirava todos os bancos e tudo o que pudesse fazer peso deixando apenas o banco do piloto. Então em um avião projetado para 4 pessoas, viajavam quase 10, agachados nos espaços dos bancos! Os garimpeiros pagavam em ouro. Vários pilotos fizeram fortunas. O aeroporto da cidade de Itaituba, acima de Novo Progresso que não tinha aeroporto, chegou a ser o mais movimentado do mundo em número de pousos e decolagens… todos de aviões pequenos!

Então é fácil de imaginar como estava difícil a divisão dos bens, neste divórcio. Havia vários caminhões, depósitos, casas, aviões e até barcos. Como de praxe, o marido não admitia que a mulher pudesse ter direito a quase nada, afinal, fora “apenas ele” que trabalhara para conseguir tudo. Não admitia ter de dar pensão, se ela “bem podia trabalhar” e nunca tinha feito nada. 

Haviam casado com separação parcial de bens e ficou demonstrado que todos os bens foram adquiridos na constância do casamento. Assim, todos os bens deveriam ser divididos.

Pois o processo se arrastava porque nunca conseguiam chegar a uma divisão e sempre pediam uma nova audiência. Eu, que havia chegado há pouco em Novo Progresso, decidi que aquela seria a última audiência e pronto! Não importa quantas horas levássemos, aquilo teria fim (todo juiz novo, ainda carrega um pouco desse espírito de realmente decidir)!

A mulher estava acompanhada por uma advogada muito incisiva, muito enérgica, que era residente de Novo Progresso. Também fora para lá “integrar para não entregar". O homem, acompanhado de um advogado experiente, dono de um grande escritório em Mato Grosso, cuja estratégia era, justamente, deixar o processo tramitando enquanto ele faria os bens irem-se dissipando com manobras que beiravam a ilegalidade. 

Foi assim que depois de quase quatro horas de audiência, e várias propostas de divisão de bens, todas recusadas pelo homem, eu lembrei de uma história que um colega, Dr. Miguel, havia contado. Acho que em outras histórias já falei do Dr. Miguel, e não foi por acaso: ele é realmente perspicaz e tem um jeito muito particular de olhar a Lei e, especialmente, de olhar a aplicação da Lei. Tendo nascido em uma família muito numerosa, certa feita contou-me como era o café da manhã em sua casa. Pois foi com o café da manhã da infância do Dr. Miguel que resolvi o caso!

Quase perdendo a paciência, bati na mesa e disse:

— Cansei! Vamos resolver isso. — Dirigi-me ao homem e seu advogado: — Dr., farei um recesso de 1 hora. O senhor e seu cliente ficam responsáveis por fazer a divisão dos bens de forma justa, concordam?

Evidentemente que concordaram. 

Já a advogada quase pulou no meu pescoço, dizendo que aquilo era um absurdo, que eu estava sendo parcial, que ela me denunciaria no Conselho Nacional da Magistratura e na Corregedoria, que aquilo não iria ficar assim… … e mais um monte de coisas que nem me lembro!

Se fosse nos Estados Unidos e eu tivesse um martelo, bateria naquela hora, mas como é o Brasil, eu simplesmente disse que ela poderia consignar o que quisesse, e recorrer como fosse, mas seria assim e pronto!

Ela ficou quase mais uma hora ditando os protestos e ameaças. 

Depois, consignei a decisão, imprimi (naquele tempo se imprimia e levava tempo esperando a impressora matricial com o irritante ruído compor linha por linha), e fiz com que todos assinassem.

Recesso de 1 hora. Saí da sala sob o olhar arregalado do servidor que digitava, e a mulher e sua advogada quase me bateram. Fui almoçar.

Passada 1 hora, voltei para o Fórum. Todos os advogados da cidade estavam em frente ao Fórum e já havia faixa com dizeres nada simpáticos sobre “justiça comprada”. Reparei fundo, e entrei sem mostrar os dentes.

Abri a continuação da audiência sob olhar furioso da advogada da mulher, sob o rosto incrédulo da esposa e sob os olhares acusatórios do presidente local da OAB e o advogado presidente do Conselho de Ética local.

Depois de mais de 15 minutos de “manifestações oficiosas”, consegui retomar a audiência:

— E então, Dr., o senhor conseguiu fazer a divisão justa dos bens?

— Fizemos, Excelência! — Disse-me o advogado, passando-me dois blocos de folhas de papel escritas à mão. — Nestas primeiras folhas estão arrolados os bens que ficarão com o meu cliente e nestas outras, os bens que ficarão para a ex-esposa.

Eu peguei ambos os blocos de páginas escritas e, propositadamente, fiz uma pausa, mas sem tirar os olhos do advogado.

Então falei, o que eu havia pensado, lembrando da história que Dr. Miguel contou-me: 

— Um momento, Dr. — Eu disse ao advogado. — Eu determinei, e os senhores expressamente aceitaram e ASSINARAM a ata a qual todos temos uma cópia, que o autor, seu cliente, faria a divisão justa dos bens. Agora que os bens estão divididos, quem escolhe com qual metade quer ficar será a esposa! — E passei as duas listas à advogada, que finalmente entendeu o que eu havia feito!

O homem quase infartou ali mesmo e o advogado tentou esboçar um veemente protesto, ao quê eu interrompi:

— Eu disse para que fizessem uma divisão justa, não para escolher os bens. Se a divisão foi justa, qualquer metade há de servir. Qualquer coisa diferente disso, significa que ou os senhores não foram justos como se comprometeram, ou deliberadamente mentiram em juízo. Qualquer das duas opções parece-me por demais grave.

Podem imaginar o rebuliço! A divisão, no fim das contas, não ficou como estavam naqueles papéis. Mas depois do susto, o caso resolveu-se no mesmo dia, tendo a ex-esposa ficado muito bem atendida de bens.

—— —

O Dr. Miguel contou-me que na sua casa eram 10 irmãos ao todo. O pai comprava 5 pães para sanduíches. Cada 2 irmãos deveriam dividir 1 pão. E o pai avisava: um divide, o outro escolhe! 


Luís Augusto Menna Barreto, em 28 de abril de 2026

Texto original publicado no blog em 15.2.2019


Para ler o texto original, é só CLICAR AQUI!


domingo, 19 de abril de 2026

Um Conto Sobre Um Amor Guardado - Parte 1 - (remix)

 


Parte 1


Um dia, enquanto pegava uma garrafa de Cointreau na prateleira do supermercado, ele a encontrou. 

A menina pelo qual se apaixonara na escola. Depois, a vida seguiu, dispersando a turma. O Coração dele, não. 

Todos os dias, quando chegava em casa sozinho, não via o vazio. Contava a ela seu dia, enquanto lavava a louça, perguntava se ela tinha tido um dia bom.  Sentava no sofá para ver qualquer filme escolhido por ela, até adormecerem, e ele a levar para a cama.

Imaginava-a nas cenas mais triviais, todos os dias de sua vida. O que dela não sabia, construiu no seu coração. 

No supermercado, cumprimentou-a como se houvesse falado com ela pela manhã. Ela o olhou em silêncio, surpresa, sem entender. Ele sorriu:

— Você está estranha... teve um dia difícil no trabalho? ... laranjas! Precisamos de laranjas. Deixa que eu pego. Vou fazer o drink com Cointreau que você gosta, pra relaxar! 

Ele largou a garrafa de Cointreau no carrinho de compras dela. Quando se dirigia para a sessão das frutas, ele se virou e disse:

— Você parece cansada. Vá para casa! Eu faço o restante das compras, e, quando chegar, vou preparar o jantar e hoje a louça será toda minha!

Ela continuava sem entender. Mas havia algo. Não era o quê… era como ele falava. De repente, comprar laranjas não era sobre frutas… era sobre atenção.

Ela saiu devagar, pensativa. Talvez houvesse algo distante e familiar naqueles olhos... 

Lembrou-se de que tinha laranjas em casa. E decidiu que levaria a garrafa de Cointreau que aquele estranho largara em seu carrinho de compras... 

... 

Quando ele chegou em casa, guardou as compras, e começou a descascar as laranjas... e procurou a garrafa de Cointreau...

— Você esqueceu o Cointreau... mas não há problema; ainda há um pouco que dará para um drink para você! Eu faço sem Cointreau para mim. Você está precisando mais do que eu!

...

Em um condomínio de luxo, no outro lado da cidade, enquanto ela abria o MacBook, ouviu a voz indiferente do marido:

-- Você colocou a cerveja na geladeira? Hoje tem jogo! Cointreau? Você comprou Cointreau? Pra quê? Você sabe que eu prefiro cerveja!

Neste mesmo instante, ela digitava no site de busca: “cointreau laranja drinks”.


(continua...)


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Luís Augusto Menna Barreto, em 15 de abril de 2026

o conto original escrito em 9 de abril de 2020.