— Não sou filho de chocadeira, doutor! — Disse, e franziu a testa.
— Hein?
— Só tenho um pai e o nome dele é Ioséfi.
Não entendi nada. Revisei mentalmente se eu o havia destratado ou ofendido, e não consegui achar nada pra isso. Continuei, meio desconfiado, confesso:
— Nome da mãe?
Ele olhou para o lado, onde estava sentada a mãe, que estava com cara de poucos amigos e perguntou:
— Como é o nome da senhora, mãe?
— Hein?” — Meu “hein" não deixou que a senhora falasse. — Mas tu não sabes o nome da tua mãe?
— Olha, doutor, chamam pra ela de Catá. (“Chamam pra ela" é uma expressão corrente aqui no Marajó que é a forma como dizem “chamam-na de…”!).
Aquilo me surpreendeu. O caboclo não sabia o nome da mãe!
A história é a seguinte: o “Fotochópi” foi preso em flagrante delito, segundo o auto de flagrante, porque havia furtado dois cordões de ouro da joalheria do Seu Dunga. Havia entrado pelo telhado da lojinha de chaves e fechaduras do “Cadeado" e, dali, passou para a joalheria por dentro mesmo, porque quando falo “joalheria”, quero dizer o “box" onde Seu Dunga vende alguma coisa de outro, prata e muita bijuteria, e fica no conjunto de 10 boxes no canteiro central da avenida perto da beira.
Cada box tem uma pequena ligação entre eles, como se fosse a metade de baixo de uma porta. Não, não me pergunte por quê isso, porque não faço ideia. Quando eu descobrir, eu conto. Daí, que a loja do Cadeado fica ao lado da joalheria do Seu Dunga… que namora a Branca de Neve! … e há quem diga que existam outros “anões” que dividiriam essa Branca de Neve Marajoara… Mas isso é outra história!.
Pois diz que o Fotochópi achou de entrar pelo telhado da loja do Cadeado, arrombou a portinhola de ligação entre os dois boxes, e pegou dois cordões de ouro. Segundo o delegado, o Fotochópi foi preso em fuga e, dos dois cordões, um apenas foi recuperado!
Mas esse caso marcou-me porque foi cheio de peculiaridades. Como estava tudo muito tranqüilo e só havia uma audiência marcada para aquela manhã, o caso da separação da Jussemira com o Deitado, determinei que trouxessem o preso para encaminhar logo o caso.
O Fechadura, que cuida da delegacia, trouxe o preso e explicou que o flagrante ainda não estava pronto, porque faltou tinta na impressora e estavam atrás de alguém para carregar o cartucho. Daí que foi o Fechadura que me contou o caso:
— “Ispia”, doutor, a PM disse que o Fotochópi entrou na joalheria e pegou dois cordões. Mas só entregaram um. Disseram que o outro ele jogou no mato na fuga.”
— E esse Fotochópi aí? É nó cego? — Fui logo perguntando, porque eu ainda era relativamente novo na cidade e o Fechadura foi nascido e criado na beira do rio, ali mesmo no Marajó.
— Não doutor. Diz que só rouba quando arruma namorada. Quer dar presente, mas é liso, então apronta umas. — Explicou-me o Fechadura. Foi daí que comecei a interrogar o caboclo.
Mas já no nome eu me surpreendi:
— Teu mome?
— Máicou Diéquisson.
Olhei para o Goela, o meirinho, e ele só levantou os ombros e colocou a cabeça pro lado na universal expressão “pois é, fazer o quê?!”
Terminada a primeira parte do interrogatório, que é a qualificação, fui perguntar sobre o crime e o flagrante.
— E aí, Fotochópi?
— Entrei na joalheria, doutor, mas não foi flagrante. Eles me pegaram dormindo.
— Hein? Mas aqui diz que foste pego fugindo!
— Mentira, doutor! Botaram aí no flagrante porque entrei pela loja do pai do Fechadura e quebrei duas telhas. O Fechadura que foi lá em casa com o Tonelada e me pegaram. Eu tava até na rede, dormindo, doutor.
Claro… tudo começava a fazer sentido: o Cadeado era pai do Fechadura, teve a loja de chaves arrombada, com telhas quebradas, e o Fechadura foi atrás pra pegar o larápio!
Como eu havia dito, o caso era cheio de peculiaridades.
Vou tentar resumir:
Descobri que o apelido "Fotochópi" era porque o Máicou não era nem de longe parecido com o Michael Jackson. E um dia, no time de futebol, quando ele disse o nome, alguém gritou: “só se tu és um fotoshop mal feito do Michael Jackson”. Pronto, pegou! Na hora, virou “Fotochópi do Michael Jackson", depois reduzido pra "Fotochópi", e, dizem, os mais íntimos chamam-no de "Foto"!
Acabei soltando o Fotochópi, nascido Máicou Diéquisson Pereira… afinal, o flagrante não foi flagrante… e era dia 25 de junho de 2009! Adivinha o astro famoso que morreu nesse dia?
Antes de soltar, não me aguentei e perguntei:
— Fotochópi, porque tu ficaste brabo comigo no interrogatório?
— Porque eu sou ladrão, mas tenho família e minha mãe é direita, doutor.
— Mas como eu ofendi tua família?
— Eras, doutor. O senhor perguntou o nome dos meus pais. Só tenho um pai, doutor.
…
Dias depois, chegou um procedimento de violência domestica: o Seu Dunga bateu na Branca de Neve. Ela, que não é lá tão antenada nas coisas, apareceu, justo para o Seu Dunga, com o outro cordão que o Fotochópi havia furtado da joalheria e não haviam achado…
… ao menos um outro dos sete anões dessa Branca de Neve Marajoara foi descoberto!
*Texto revisado e aprovado pela curadoria!
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Publicado originalmente em 19 de julho de 2016.
Luís Augusto Menna Barreto
em 19 de fevereiro de 2026