domingo, 22 de fevereiro de 2026

Terceiro Micro Conto de Amor



Ele trabalhava muito… e sempre que chegava em casa, em seu Jaguar, a menininha via-o sair do carro usando aquele terno impecável e corria para ele. Antes que ela conseguisse abraçá-lo, ele lhe entregava um presente, tocava em sua cabeça e ia para o escritório que tinha também em casa, atender mil telefonemas e fazer videochamadas. 

Depois de algum tempo, ela notou que ele andava mais tenso nas suas video reuniões. 

Tempos depois, ele não apareceu mais naquele carro. Não usava mais ternos.

Ela o via em pé, rezando, pedindo para que Deus fizesse tudo voltar a ser como antes.

Até que um dia ela viu quando ele desceu de um ônibus, usando uma camisa comum com o nome de uma loja. Não trazia nenhum presente. Sem nada nas mãos, ele a abraçou.

Sem videochamadas, ele sentava no pátio da casa simples para onde se mudaram e ficava com ela até o sol pôr-se.

Algum tempo depois, ela passou a vê-lo ajoelhado, rezando. Agradecendo. 


Luís Augusto Menna Barreto

Texto original escrito em 12.1.2019


*Para ler a versão original, CLIQUE AQUI!


**Esse texto foi revisado e aprovado por Dona Grafos | Curadora











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não é leitura. é encontro.



sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Maria Sem Sossego, Mariposa e: Justiiiiiiiiiiça

“Justiiiiiiiiiiiça…" Assim, com um “i" bem longo! “Justiiiiiiiiça…”

Era minha segunda semana na cidade, eu ainda estava descobrindo como as coisas funcionavam por lá. 

“Justiiiiiiiiiça…”

A senhora que ficava gritando no meio da rua, na frente do fórum, não atraía muito a atenção, o que achei estranho. Chamei o servidor que estava escorado na porta do fórum, que depois fiquei sabendo que era chamado de “Goela".

— Tchê, sabes o que está acontecendo?

— Que eu saiba, nada, doutor! — Ele me respondeu distraído.

— Como nada?! E essa senhora gritando aí na frente?

— Ah, a Maria Sem Sossego? Nada não, doutor, quando cansar os braços ela para!

— Hein?

— O cartaz que ela segura, doutor. Ela vem toda terça, segura o cartaz e fica gritando. Quando cansa os braços ela para, o Alerta pega ela e vai embora.

De fato, ela gritava segurando, acima da cabeça um cartaz com um nome escrito. Conferi no calendário do celular: era terça-feira. E descobri que “Alerta" era o companheiro dela, que, enquanto ela gritava, ele tentava filar algum gole de cerveja no açougue do Retalho!

— Mas tem que saber o que ela quer, por que está gritando isso? — Falei.

— Ah, Doutor. Esquente não. Nem ela sabe.

— Mas ela deve ter algum processo pra estar aqui na frente gritando.

— Já teve um em que foi despejada.

O Goela contou-me a história (enquanto ela continuava ali gritando). 

Disse o Goela que ela havia perdido uma disputa judicial por uma pequena casa na cidade. E quem ganhou, era uma pessoa que, para os padrões locais, era pessoa abastada, pois possuía três casas e tinha um pequeno comércio, um “armarinho”. Já a Maria Sem Sossego, em companhia do Alerta, ficou sem ter onde morar.

— Desde aí, doutor — continuou o Goela — que ela vem toda a terça pra frente do fórum.

Enquanto o Goela contou-me a história, vi por duas vezes ela dar uma balançada no braço. Logo que o Goela terminou, ela baixou os braços e ficou gritando com o olhar perdido na direção do fórum: “Aleeeeeeeeerta” (ela adorava esticar as vogais no grito) “onde tu te metesse, imundíce” (assim como escrevi: “metesse” e “imundíce”).

E logo o Alerta veio correndo até ela, enrolou o cartaz, pegou-a pelo cotovelo, e a conduziu pela rua, indo embora dali. O Alerta parecia uma bengala, porque era miudinho e ela, alta e bem… espaçosa!

Fiquei curioso sobre o caso e fui dar uma olhada no processo. Tudo certinho. Pelo que havia registrado, ela morou cerca de quatro anos na casa, sem jamais pagar um centavo. Daí, chegou um dia que o dono resolveu pedir de volta, e ela não quis sair. Ele entrou na justiça e ela acabou “despejada”. 

Passou uma semana e eu nem lembrava mais da Sem Sossego. Estava eu, tranquilo em uma audiência:

— Sim, Talento, o que tu queres, afinal? — Era um daqueles divórcios que encrenca na separação de bens, e nada serve para o homem, tudo ele acha que é só dele!

— Ah doutor, eu quero o que é meu! 

Ai, meu Deus… como se eu soubesse o que é de um e o que é do outro afinal! 

— Então me digas tu, Querida. O que tu queres? — Não, não era um adjetivo que eu estava usando. “Querida" era o apelido da Marcela Augusta.

— Ah, doutor, ele sabe.

Não falei, mas pensei: “Dai-me paciência, Senhor, porque se me der coragem eu mato um desses dois”!

— Olha, pessoal. Se nenhum dos dois falar, a gente nunca vai chegar a um acordo. Afinal, o que vocês querem?

“Justiiiiiiiiiiiiça”.

— Hein?

“Justiiiiiiiiiiiça”.

Pois é: a Maria Sem Sossego estava no meio da rua, na frente do fórum, segurando o cartaz acima da cabeça e…

“Justiiiiiiiiiiiça”.

É, e gritando “justiça”!

Era terça-feira de novo!

E de novo, ninguém estava nem aí. Já se havia tornado algo que fazia parte da rotina da cidade. Terças-feiras, a Maria Sem Sossego iria para a frente do fórum gritar justiça. E o fato de estar no meio da rua não fazia a menor diferença, porque na cidade não havia nenhum carro. Havia o caminhão do lixo e uma ambulância, que quase nunca saía do hospital, porque era mais rápido levar o doente na maca até o trapiche. Fora isso, meia dúzia de “mototáxis. 

Enfim, lá estava ela, no meio da rua, com um cartaz na mão que até me pareceu diferente, com outro nome, que não prestei atenção: “justiiiiiiiiiça…!”

Eu confesso que me incomodei com aquilo e fui lá falar com ela:

— Fale, D. Maria. Eu sou o Juiz. Vamos conversar. Acompanhe-me até o…

“Justiiiiiiiiiiiiiça…!” 

No “tiiiiiiii" do “justiça”, eu que acho que senti uns pingos de saliva, o que já começou a retirar meu ânimo de resolver…

— Olha, D. Maria… a senhora não pode ficar gritando aqui na fren…

“Justiiiiiiiiiiiiça…!”

Ai ai ai…

— D. Maria, olhe, vou ver se ainda há alguma coisa pra fazer, mas a senhora tem que me prometer que…

“Justiiiiiiiça…!”

Em seguida ela baixou os braços e gritou ainda mais alto:

— Aleeeeeeeeerta, imundice! Onde tu te metesse?

E do nada surge o Alerta, limpando a boca na manga do ombro e já agarrando a Sem Sossego pelo braço. Ela saiu como se eu nem estivesse ali.

Olhei em volta, encabulado, e, pela primeira vez, tinha um bocado de gente olhando. Claro. A novidade não era a Maria Sem Sossego gritando. Era ela me fazendo de bobo! Quer melhor para uma manhã no Marajó, do que o juiz no meio da rua, tentando falar com a Maria Sem Sossego?!

Sem sossego fiquei eu!

Revisei o processo todo, mas achei que estava tudo bem certinho. 

Na terça-feira seguinte quando o “justiiiiiiiiiça…” começou, eu me irritei, chamei o Goela e pedi para ele chamar o dono da casa que despejou a Sem Sossego. Meia hora depois, o Goela bateu na porta do gabinete:

— Doutor, o Mariposa tá aqui. — (A história do apelido do Mariposa, eu conto outro dia). E sem eu ter tempo de falar nada, o Goela já fez ele entrar.

Era um sujeito baixinho e gordo, mas com um rosto simpático. Um bigode antigo para compensar a calvície. Falei do problema da Maria Sem Sossego meio que com pouca esperança porque afinal, ela morou lá um tempão sem pagar nada, mas ele me surpreendeu:

— Ah, doutor. Mas ela já voltou!

— Hein?

— Doutor, a casa ia cair na cabeça dela e ainda iam me culpar. Eu queria arrumar a casa, fazer uma reforminha. Mas ela não deixava por nada, doutor. Foi o único jeito. Faz mais de ano que aprontei a casa e ela voltou.

Vontade de esgoelar o Goela!

— Bem, doutor, — me disse o Goela, escorado na porta da cozinha do fórum — o senhor me perguntou se ela tinha algum processo aqui. Eu falei do único processo que ela teve.

— Sim, caramba, mas tu não me falaste que ela já tinha voltado pra mesma casa.

— Isso o doutor não perguntou.

— E tu sabe por que ela fica gritando desse jeito, então?

— Peraí, doutor. — E o Goela saiu sem dar tempo de eu falar nada. Voltou em menos de um minuto e falou: 

— Por causa do processo da Verinha Perna Oca, doutor. Parece que é uma execução de alimentos.

— Mas a Maria Sem Sossego falou contigo?

— Não doutor. Tá escrito no cartaz!

— Hein?

— No cartaz, doutor. Ela escreve o nome de quem paga ela.

Como não tem advogado na cidade, quem tem uma causa lá, dá um trocado para a Sem Sossego, e toda a terça-feira ela escreve o nome da pessoa no cartaz e vem gritar “justiiiiiiiiça" para o juiz despachar. O pessoal fala que funciona melhor que com advogado e é mais barato!

Ah… e a Maria Sem Sossego, enxerga bem pouquinho. 

E é surda!


*Para ler a versão original, CLIQUE AQUI!


**Esse texto foi revisado e aprovado por Dona Grafos | Curadora







Luís Augusto Menna Barreto

Texto original publicado em 20 de maio de 2016

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Máicou Diéquisson, Fotochopi, Seu Dunga e o Cadeado


— Não sou filho de chocadeira, doutor! — Disse, e franziu a testa.

— Hein?

— Só tenho um pai e o nome dele é Ioséfi.

Não entendi nada. Revisei mentalmente se eu o havia destratado ou ofendido, e não consegui achar nada pra isso. Continuei, meio desconfiado, confesso:

— Nome da mãe?

Ele olhou para o lado, onde estava sentada a mãe, que estava com cara de poucos amigos e perguntou:

— Como é o nome da senhora, mãe?

— Hein?” — Meu “hein" não deixou que a senhora falasse. — Mas tu não sabes o nome da tua mãe?

— Olha, doutor, chamam pra ela de Catá. (“Chamam pra ela" é uma expressão corrente aqui no Marajó que é a forma como dizem “chamam-na de…”!).

Aquilo me surpreendeu. O caboclo não sabia o nome da mãe! 

A história é a seguinte: o “Fotochópi” foi preso em flagrante delito, segundo o auto de flagrante, porque havia furtado dois cordões de ouro da joalheria do Seu Dunga. Havia entrado pelo telhado da lojinha de chaves e fechaduras do “Cadeado" e, dali, passou para a joalheria por dentro mesmo, porque quando falo “joalheria”, quero dizer o “box" onde Seu Dunga vende alguma coisa de outro, prata e muita bijuteria, e fica no conjunto de 10 boxes no canteiro central da avenida perto da beira. 

Cada box tem uma pequena ligação entre eles, como se fosse a metade de baixo de uma porta. Não, não me pergunte por quê isso, porque não faço ideia. Quando eu descobrir, eu conto. Daí, que a loja do Cadeado fica ao lado da joalheria do Seu Dunga… que namora a Branca de Neve! … e há quem diga que existam outros “anões” que dividiriam essa Branca de Neve Marajoara… Mas isso é outra história!.

Pois diz que o Fotochópi achou de entrar pelo telhado da loja do Cadeado, arrombou a portinhola de ligação entre os dois boxes, e pegou dois cordões de ouro. Segundo o delegado, o Fotochópi foi preso em fuga e, dos dois cordões, um apenas foi recuperado!

Mas esse caso marcou-me porque foi cheio de peculiaridades. Como estava tudo muito tranqüilo e só havia uma audiência marcada para aquela manhã, o caso da separação da Jussemira com o Deitado, determinei que trouxessem o preso para encaminhar logo o caso. 

O Fechadura, que cuida da delegacia, trouxe o preso e explicou que o flagrante ainda não estava pronto, porque faltou tinta na impressora e estavam atrás de alguém para carregar o cartucho. Daí que foi o Fechadura que me contou o caso:

— “Ispia”, doutor, a PM disse que o Fotochópi entrou na joalheria e pegou dois cordões. Mas só entregaram um. Disseram que o outro ele jogou no mato na fuga.”

— E esse Fotochópi aí? É nó cego? — Fui logo perguntando, porque eu ainda era relativamente novo na cidade e o Fechadura foi nascido e criado na beira do rio, ali mesmo no Marajó.

— Não doutor. Diz que só rouba quando arruma namorada. Quer dar presente, mas é liso, então apronta umas. — Explicou-me o Fechadura. Foi daí que comecei a interrogar o caboclo.

Mas já no nome eu me surpreendi: 

— Teu mome?

— Máicou Diéquisson.

Olhei para o Goela, o meirinho, e ele só levantou os ombros e colocou a cabeça pro lado na universal expressão “pois é, fazer o quê?!”

Terminada a primeira parte do interrogatório, que é a qualificação, fui perguntar sobre o crime e o flagrante.

— E aí, Fotochópi?

— Entrei na joalheria, doutor, mas não foi flagrante. Eles me pegaram dormindo.

— Hein? Mas aqui diz que foste pego fugindo!

— Mentira, doutor! Botaram aí no flagrante porque entrei pela loja do pai do Fechadura e quebrei duas telhas. O Fechadura que foi lá em casa com o Tonelada e me pegaram. Eu tava até na rede, dormindo, doutor.

Claro… tudo começava a fazer sentido: o Cadeado era pai do Fechadura, teve a loja de chaves arrombada, com telhas quebradas, e o Fechadura foi atrás pra pegar o larápio!

Como eu havia dito, o caso era cheio de peculiaridades.

Vou tentar resumir:

Descobri que o apelido "Fotochópi" era porque o Máicou não era nem de longe parecido com o Michael Jackson. E um dia, no time de futebol, quando ele disse o nome, alguém gritou: “só se tu és um fotoshop mal feito do Michael Jackson”. Pronto, pegou! Na hora, virou “Fotochópi do Michael Jackson", depois reduzido pra "Fotochópi", e, dizem, os mais íntimos chamam-no de "Foto"!

Acabei soltando o Fotochópi, nascido Máicou Diéquisson Pereira… afinal, o flagrante não foi flagrante… e era dia 25 de junho de 2009! Adivinha o astro famoso que morreu nesse dia? 

Antes de soltar, não me aguentei e perguntei: 

— Fotochópi, porque tu ficaste brabo comigo no interrogatório?

— Porque eu sou ladrão, mas tenho família e minha mãe é direita, doutor.

— Mas como eu ofendi tua família?

— Eras, doutor. O senhor perguntou o nome dos meus pais. Só tenho um pai, doutor.

Dias depois, chegou um procedimento de violência domestica: o Seu Dunga bateu na Branca de Neve. Ela, que não é lá tão antenada nas coisas, apareceu, justo para o Seu Dunga, com o outro cordão que o Fotochópi havia furtado da joalheria e não haviam achado… 

… ao menos um outro dos sete anões dessa Branca de Neve Marajoara foi descoberto!


*Texto revisado e aprovado pela curadoria!



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Publicado originalmente em 19 de julho de 2016.


Luís Augusto Menna Barreto

em 19 de fevereiro de 2026