Parte 2 de... (vamos ver de quantas)
O dia transcorrera como tantos outros… a perna e quadril machucados doía quando ela parava para lembrar-se. Mas a todo momento alguém chegava, com dores próprias, buscando, na compra das batatinhas, o pretexto para contar à Dora sobre sua vida, esperando, sempre, que ela os aliviasse com algum conselho, ou, ao menos, com um sorriso acolhedor que parecia inderrotável.
Havia os clientes de sempre, como Jorge S., que sempre comprava batatinhas depois do jogo de damas na praça, e sempre propunha à Dora trocar um poema por um conselho:
— … “o tempo amansa pelo assédio / gastar é o melhor remédio / no repecho e na descida / porque na conta da vida / não adianta saldo médio.”
Dora sempre aplaudia. E ele perguntava, pegando suas batatinhas:
— E o meu conselho?
— Não pare de jogar damas, Jorge!
— Algum motivo especial?
— Claro! Se você parar, não virá mais na praça e não passará mais por aqui.
— E você não me venderia as batatinhas! — Disse Jorge com um meio sorriso.
— Não, Jorge! Se você parar de jogar, não declamará mais os poemas! E você precisa continuar.
— Desse jeito, vou começar a repetir os poemas. Eu não tenho tantos.
— Eu vejo o sol nascer todos os dias… Se o mundo se repete, por que você não poderia repetir poemas para mm?
Quase no fim do dia, Marcos passou por lá e logo depois, uma mulher chique, que não era exatamente como a clientela da Dora, perguntou por ele. Aquilo foi o que de mais diferente houvera no seu dia. E algo dizia que aquela mulher voltaria. De resto, as conversas triviais com a flanelinha Socorro, que todos os dias trazia uma garrafa com cachaça para ir bebendo ao longo do dia. Dora já havia desistido de aconselha-la a não beber, mas ela sempre respondia:
— Eu reparo os carros, não dirijo nenhum deles!
E Nazaré, que cuidava da banca de revistas que a cada dia que passava vendia menos. Ninguém mais queria jornais ou revistas impressos. Ela se mantinha, ainda, com o ofício de fazer cópias de chaves e trocar pilhas de relogios, o que fazia em uma minúscula mesa atrás das revistas, onde tinha a máquina de cópias de chaves.
No final do dia, a mesma rotina: o sol já se havia posto há tempo, o comércio fechou suas portas e os últimos clientes que saíram de seus empregos já haviam comprado seus pacotes de batatinhas. Alguns ainda comiam as últimas batatinhas no ponto de ônibus próximo. Dora ainda empurraria o carrinho por dois quarteirões até o depósito onde o deixava e, depois, seriam quase 50 minutos de ônibus até o conjunto de apartamentos populares onde morava.
A dor em sua perna pareceu aumentar a medida que se aproximava de casa. Ela subiu, cansada, as escadas até o terceiro pavimento e suspirou quando viu luz pela fresta da parte de baixo da porta. Dora abriu devagar:
— Filho? Você está em casa?
Não houve resposta, mas ela ouviu o barulho de um copo ser devolvido à mesa. Quando entrou na pequena cozinha, viu Francisco, a quem nunca chamou de “Chico" como todos que o conheciam, sentado à pequena mesa, com uma garrafa aberta e o rosto de quem se sentia derrotado.
Os armários e gavetas estavam abertos. E ela viu o pote de vidro, onde ela guardava todo o dinheiro que tinha em um saco plástico no meio de arroz, para tentar encobrir. O pote de vidro estava virado no armário. Aberto. Vazio.
Olhou para Francisco. Ele a encarou com uma expressão indefinida.
— Ele não está aqui.
(… continua).
Luís Augusto Menna Barreto
07.01.2026
* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.
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