— Uma rede, Fumaça?
— O leme levou farelo, doutor. Não tem o que fazer. Bora deitar e esperar passar uma embarcação pra avisar que estamos no prego.
Primeiro havia sido um barulho e logo o movimento de quando um carro passa por cima de um quebra-molas. O problema é que estávamos no rio. Daí, o barco varou para uma ilhota, levando pedaço de vegetação e galho de árvore.
O Fumaça, piloto experiente, logo pegou um cabo de corda e atou o barco num tronco forte. Depois, abriu o alçapão do motor, e quando achei que ele iria pegar ferramentas, pegou uma rede!
— Não se aborreça, doutor. Não tem o que fazer. Vamos esperar algum barco aparecer e pedimos pra avisar que deu prego.
Eu estava indo, junto com o Barganha, para uma comunidade mais distante, onde faríamos mutirão de causas de separação, alimentos e pequenas causas criminais. O Goela e a Tutela haviam ido na semana anterior, preparar tudo e providenciar as intimações.
Quanto deu o barulho de madeira estalando e o pinote do barco, o Barganha mal levantou a cabeça na rede, olhou um pouco o rastro que o barco estava deixando n’água, e disse:
— Farelo.
Voltou a dormir.
Havia mais umas dez pessoas no barco, todos em suas redes. Eu era o único angustiado, pelo jeito.
Não demorou muito, uma hora talvez, e, de fato, apareceu uma voadeira.
Havia possibilidade de levar duas pessoas, e todos no barco fizeram questão que eu fosse…
Preferi pensar que era por gentileza e respeito à autoridade que represento. Até o Barganha ficou, com o argumento não muito convincente que com menos peso na voadeira, eu chegaria mais rápido.
No fim, nem atrasei. Na voadeira, compensou o tempo. Mas cheguei todo molhado.
— Levou farelo na viagem, doutor? Deu prego no barco? Olha, pense numa fila de gente esperando audiência e pra falar com o senhor…
O Goela não me deu tempo nem de respirar e já foi dando mil informações, que era impossível eu assimilar, na velocidade em que ele falava
—… e tem uma separação do Chorão e da Gominha e muita audiência do Juizado Especial…
Do trapiche em que atracamos a lancha até a Escola em que seriam realizadas as audiências, dava uns 300 metros. O dia era daqueles com “um sol para cada um” como dizem aqui! Daí já não sabia se eu estava pingando porque ainda estava molhado da voadeira furando ondas, ou se já estava molhado de suor.
— … e o lanche vai chegar daqui a pouco…
Essa parte do lanche, lembro que prestei atenção, porque eram quase 15 horas e eu não havia almoçado.
Quando o Goela parou de falar, já estava na porta da escola que serviria de "Fórum" e realmente havia muita gente.
Começamos pela audiência de separação. O Goela, pelo jeito, já conhecia todo mundo e chamava a todos pelo apelido. Menos o rapaz que o Goela providenciou para datilografar as audiências, já que o Barganha havia ficado no barco. O nome dele era Nik. Isso. Nik. Nik Alex. O apelido já veio pronto de berço, e eu não resisti e comecei, espontaneamente, a chama-lo de “Nik Nêime” (quando me dei conta, acho que me veio um sorriso de dentro da alma).
— Chorão, Gominha, passar pra audiência!
O Goela me entregou o processo e soltou:
— Rock, doutor. Espera a choradeira…
E foi mesmo. A parte da separação e guarda dos filhos foi fácil. Mas na hora da divisão dos bens… Rock!
— Assim não dá, doutor! Como vou fazer ficando só com isso? Ela quer me tirar tudo, doutor! Ela tá ficando com o que vale mais! Vou ficar na miséria, doutor.
Mudávamos a proposta e lá vinha ele:
— Pior ainda, doutor! Não dá. Ela quer tudo. O que eu vou fazer só com isso que vai ficar pra mim, doutor?
O Chorão chorava e eu já estava para arrancar os poucos cabelos que me restam ao lado da cabeça.
Foi daí que a Goma, que passou o tempo todo quieta, apenas com o beiço esticado, falou:
— Inverte, doutor!
— Hein?
— Hein?
O primeiro “hein" foi meu, o segundo, dele!
— Inverte. Esse excomungado fica com esse tal “quase tudo” que disse que vai ficar pra mim e eu fico com esse quase nada que ia ficar pra ele!
— HEIN?!
Agora, o "HEIN" assim, maiúsculo, foi só dele!
— Não, doutor, mas isso não tá certo! Cada um tem que ficar com o que já tá escolhido…
Foi rapidinho que houve o acordo.
Depois de alguns casos mais simples de separação e alimentos, começaram os casos do Juizado Especial Criminal.
O primeiro caso foi do Sagüi e do Furunco.
O Furunco havia sido furado com faca, logo abaixo do ombro, e a faca atravessou que a ponta saiu do outro lado. O Promotor não havia ido. Se visse a foto da faca atravessada no Furunco que o pessoal da Unidade de Saúde fez, já ia denunciar por tentativa de homicídio! Mas por lá, quando levou para o delegado, voltou só como lesão corporal leve!
Quando o Goela chamou as partes, só o Furunco respondeu.
— Farelo, doutor. O Sagüi não respondeu.
— Ele já vai passar aqui, doutor. Ficou de me dar uma carona até a praia.
— Hein?
O Furunco ainda tinha as cicatrizes de um lado e outro do ombro. Como assim “vai me dar carona”?
— Ele tá vindo me buscar pra dar uma carona, doutor. Posso dizer pra ele entrar e falar com o senhor, se faz questão. Mas pra mim, esse caso tá resolvido. Pode deixar assim. Dá nada não!
— Mas não foi o Sagui que te furou, Furunco?
— Ah, doutor, mas isso foi quando ele ainda tava com a Raimunda. Depois que ela largou dele, ele parou de brigar comigo e já nos acertamos.
Não resisti e perguntei:
— Tu fizeste saliência com a mulher dele, Furunco?
— Vai saber, doutor?! Se fiz é porque tava porre. Não lembro.
Acabou que o Sagüi chegou e acertamos de ele pagar uma cesta básica para o Padre distribuir.
Várias audiências depois, o Goela pegou o último processo, que era, também uma briga onde, inclusive, os envolvidos passaram dois dias no xadrez da delegacia para “esfriar a cabeça”, segundo a informação que veio no expediente da polícia, assinado pelo Tonelada.
O Goela foi até a porta, e chamou:
— Fagulha, entra!
Estranhei. O Goela só chamou um (o “Fagulha”), que entrou, sentou e ficou olhando tranquilo pro Goela.
Eu falei:
— Chama o outro, Goela.
— Precisa não, doutor.
— Como não precisa?! Claro que precisa, chama lá esse tal José Filho, que tô até curioso para saber qual é o apelido.
— Precisa não, doutor. Esse apelido o senhor já sabe!
E o Goela sentou.
Por Luís Augusto Menna Barreto