terça-feira, 11 de agosto de 2026

Eu, o Pilha e o Circo


 

"(...) A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho… (...)"


A minha perna ainda “tava” com gesso. Só na canela, porque a parte que descia “pro” pé, eu mesmo fui arrancando. Queria era tirar tudo, mas o Pilha disse “pra” não tirar porque rico fica com pena de criança quebrada!

Faz tempo que eu “tô” com esse gesso. Nem lembro quanto. E também não sei se já tinha que ter tirado ou não, porque eu e o Pilha saímos fugidos do hospital. “Tava” com medo que me levassem para o juizado e o Pilha me salvou! Ele arranjou uma cadeira de rodas e saiu empurrando à toda velocidade; mas os homens do hospital correram atrás de nós. O Pilha disse que eram os “polícias” do juizado disfarçados… daí, ele jogou a cadeira na frente de um carro e me levou na cacunda!

Depois, nunca mais voltamos no hospital e “tô” com o gesso na perna, ainda!

Anda muito quente de novo… por isso que viemos pro parquinho, ficar na nossa árvore.

— Eu queria voar, um dia…

Eu “tava”  olhando o céu, pelo meio das folhas da árvore… eu achei que tinha só pensado, mas acho que eu falei alto… porque o Pilha falou:

— E eu, às vezes, eu queria ser ator…

Eu fiquei meio sem saber o que dizer. O Pilha nunca falava assim… mas achei que eu tinha que dizer alguma coisa!

— … iiihhh… cheirou cola vencida? Ficou doido, Pilha?

— Doido “é tu”, que quer voar. Até por cima de carro já voou, mané!

— Não sei que graça tem em ser ator, Pilha… ficar vivendo a vida dos outros!

— A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho…

Eu não entendi muito bem… Mas achei engraçado imaginar o Pilha, todo pequeno, numa roupa de gente grande e fazendo biquinho pra falar…! Porque é assim que ator faz, né?!

Mas depois, achei estranho que o Pilha passou o dia mais quieto. Parece que “tava” com o pensamento longe.

No domingo, normalmente o Pilha vai “pro” centro ajudar o irmão dele vender DVD que eles pegam com um chinês. Mas nesse domingo, o Pilha chegou cedo no muro onde a mãe tinha arrumado “pra” gente dormir. 

— Bora mané! 

— Onde Pilha?

— Shhh! Bora. Vamos ganhar uma grana dos ricos!

Eu fui com o Pilha. Ele sempre sabe o que fazer. Acho que caminhamos umas duas ou três horas, atravessando a cidade, até que lá, depois de uma curva na Zona Norte, apareceu uma baita barraca de lona. Era um Circo!

— Vai trabalhar no circo? Virou palhaço, Pilha?

— Cala a boca, mané! “Tu é” muito burro!

O Pilha é mesmo esperto: o ingresso “pro” circo “tava” trinta pilas. O Pilha descobriu um lugar meio escondido, que dava “pra” passar embaixo da lona. Daí, que ele começou a passar umas crianças por baixo da lona, por 2 pilas cada. Eu ficava cuidando, enquanto ele passava as crianças! Mas eu só podia olhar de um lado, né? E o circo é redondo, então, não tinha como cuidar os dois lados! Daí, que um palhaço chegou pelo outro lado e pegou o Pilha! Ouvi ele gritar! 

Eu saí correndo desesperado. Tinha que dar um jeito de salvar o Pilha! Mas como é que se salva quem vive salvando a gente? Quando cheguei correndo, vi o Pilha sendo arrastado pelo braço “pra” trás de um caminhão. Corri o mais que pude, mas quando cheguei não vi mais eles, e nem ouvi os gritos do Pilha!

Fiquei desesperado! Comecei a procurar por tudo que era lugar.

Quando eu “tava” olhando um domador dar comida para dois leões que pareciam mais magros que eu, tomei um susto com uma mão no meu ombro! Era o Pilha!

— Bora, Mané! Ainda dá “pra” ganhar mais uns pilas.

— Mas Pilha, o que houve? Como "tu te livrou” do palhaço?

O braço dele “tava” meio vermelho, mas era só. Eu nem imaginava o que ele fez, mas o Pilha sempre dá jeito em tudo!

— Depois te conto, bora!

— E se o Palhaço volta?

— Não vai voltar!

E o Pilha logo logo arranjou mais crianças “pra” passar por baixo da lona! Eu fiquei cuidando de novo. Mas “tava”  apavorado!

Depois, começou um barulhão. Parou de chegar gente! Ia começar o Circo. Eu “tava” louco pra ver. Mas o Pilha disse que a gente tinha que conseguir mais dinheiro. Não entendi muito bem, porque o Pilha não era louco por dinheiro. A gente sempre conseguia só “pro” que tava precisando! O Pilha nunca foi de juntar e ficar guardando. Ele sempre fala que dinheiro que a gente não usa é só papel velho que não serve “pra” nada!

Mas fui com ele. E não sei de onde, ele conseguiu um isopor cheio de refrigerante. Era enorme, a gente quase nem podia carregar!

— Bora vender que fica mais leve! — Ele falou.

Entramos no Circo e começamos a andar pelo meio das pessoas. No começo não vendemos nada, mas, depois da metade, começamos a vender muito. Quando dava, eu espiava um pouco. Mas o Pilha ficava o tempo todo contando o dinheiro e dizendo “pra” gente vender mais.

Antes de terminar, o Pilha me falou pra ficar com a caixa perto da saída que ele já voltava. Eu fiquei. Terminou o circo e ele não voltava. Comecei a ficar com medo, e me escondi com a caixa vazia atrás de uma arquibancada. Vi quando uma menina pouco maior que nós começou a subir lá no alto. Não acreditei quando ela pegou o balanço e começou a se balançar lá em cima! Só num circo, mesmo, “pra” ter um balanço tão alto! Vi que ela caiu e meu coração quase saltou! Mas tinha uma rede… e depois que eu vi que ela começou a pular na rede, achei até bonito. 

Ela saiu, depois, com o cara que deu comida para os leões. E eu tomei outro susto, com outra mão em meu ombro! Quase morri. Era o Pilha de novo! Mas “tava” muito diferente! “Tava” engraçado demais. E ele “tava” muito alegre! A cara toda pintada de palhaço e com uma roupa colorida! E o palhaço que tinha pego o Pilha “tava” logo atrás, com cara de brabo. Mas não correu a gente dali. Chamou:

“Vem moleque. Anda logo, senão não vai dar!”

O Pilha me puxou e foi me levando até o meio, lá no poste com escada. E disse “pra” eu subir. Eu “tava” tão espantado que nem perguntei nada, fui subindo. O Pilha também! Mas ele “tava” numa alegria que era bonito de ver. Daí, eu não sabia se ficava com medo da altura ou feliz com o Pilha. Misturei os dois, e fui subindo. Quando vi, “tava” lá onde tinha o balanço da menina que eu tinha visto. O Pilha disse “pra” eu segurar. Eu “tava” me pelando de medo, mas segurei. E não é que o doido do Pilha me empurrou? 

Acho que dei o grito mais forte da minha vida. E foi tudo muito louco: acho que no circo, as coisas ficam mágicas, porque parece que o tempo começou a ficar devagar, porque eu sei que pensei num montão de coisas, enquanto o balanço foi até o meio, não aguentei o peso de me segurar, e caí… deu tempo de ver o Pilha rindo numa alegria que eu nunca tinha visto, deu tempo de lembrar do dia que eu tinha voado por cima do carro, e lembrei que eu me achei o super-homem… e pensei que eu era o super-homem de novo! Deu tempo de pensar que eu ia morrer quando chegasse lá embaixo, porque nem lembrei da rede… e quando achei que eu ia morrer fiquei feliz de saber que a última coisa que eu ia ver era meu melhor amigo feliz, porque ele “tava” rindo tão gostoso, com cara de palhaço!

… mas daí, parece que bati numa coisa mole. Era como se Deus tivesse me pegando no colo de um jeito bom e me jogando pra cima de novo! Então, parece que eu acordei e vi que eu “tava” balançando na rede! E Vivo! Foi ali que eu vi que o circo era mágico, porque hoje, cada vez que penso em tudo, levo um tempão lembrando! Não dava “pra” pensar em tudo no tempo só de cair! Eu sei que de algum jeito o mundo tinha dado uma freada!

Depois, quando saí da rede e o Pilha desceu, ele tirou a roupa engraçada que tinha colocado e devolveu “pro” palhaço que ficou o tempo todo com a cara fechada, olhando a gente da porta do circo. E o Pilha também deu todo o dinheiro “pra” ele. 

— Tá faltando dez “real”.

— Mas é só o que consegui."

— Tá. Vazem, moleques. 

Quando voltamos lá no muro, a mãe “tava” furiosa. Eu “tava” com medo. Mas o Pilha tirou um saquinho da cueca. Tinha dez pilas. 

— Toma, não vai apanhar no dia que “tu voou”!

Era verdade! Eu disse que queria voar, e o Pilha me fez voar! 

Nossa! Eu tinha voado! 

Não sei o que deu em mim, mas dei um abraço no Pilha!

— Tá doido, mané?! — … mas deixou eu abraçar.

E enquanto me abraçava, ele falou: 

— Acho que se não fosse tu, eu não ia ter sido um palhaço, hoje… foi tão bom não ser eu.

Daí, ele me largou de repente e saiu correndo:

— Tchau, mané. Chega cedo amanhã no trabalho, que tu “tá” me devendo dez pilas!

Fiquei pensando depois, em como o Pilha ficou diferente e feliz vestido de palhaço. Parecia que ele tinha ficado triste quando voltou a ser ele de novo.

Daí, eu não ri mais. Acho que fiquei triste… porque eu adoro minha vida… e quando ficar mais velho, tudo o que quero, é ser sabido como o Pilha…!


Luís Augusto Menna Barreto


N.A.: O Pilha é meu personagem mais caro... sempre sinto vontade de pegá-lo no colo. Quero conversar mais com ele... protege-lo... 

Sinto vergonha por saber que passo por tantos Pilhas e não faço nada... sou um dos "ricos" que o tem por invisível...


O Pilha tem várias aventuras publicadas no blog, tem um livro publicado, e tem dois contos em capítulos. Procure-os... ou deixe comentário que eu envio diretamente para você. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O Labinho, o Branco e a Eleição



— Isso não vai ficar assim! É um roubo! Um disparate! 

Era o Labinho, gritando, aparentemente porre, para toda a comunidade do Piriá, na véspera da eleição!

— Se pra ele tem, eu exijo para mim também! 

A notícia do Labinho porre, reclamando de “roubalheira" na urna eletrônica, ficou confusa. Porque em 3 comunidades diferentes, todas no rio Piriá, houve a notícia, no mesmo dia, que o Labinho estava porre, reclamando de favorecimento para o Branco na urna eletrônica.

A notícia correu, mas o dia da eleição transcorreu sem maiores percalços…

… até o final da eleição:

— Doutor, o senhor vai ter de avisar pra ele!

— Olha, Camundongo, eu sou só o juiz. O boletim tá ali na frente.

— Mas doutor, tem mais de 600 votos no nome dele. Precisava de uns 300 pra se eleger. Tá a maior festa lá no comitê. 

O Camundongo não sabia ler direito. E aquele tipo de boletim de urna era novo, porque era a primeira eleição com urna eletrônica.

Mas eu estava cansado demais para conseguir explicar alguma coisa.

— O cabo eleitoral és tu. Vai lá e fala, que quanto mais tempo passar vai ser pior.

— Tá doido que vou, doutor. Vou é rasgar daqui pra bem longe.

Eram 4h30 da madrugada.

O promotor havia saído fazia pouco e no cartório eleitoral, Abinegre e a Boca de Urna estavam tentando ajeitar um pouco as coisas, contando com a ajuda da D. Boneca e do Goela que sempre auxiliavam na Justiça Eleitoral nas eleições. 

Na frente, havia diminuído muito a reunião de pessoas entre diretamente interessados e curiosos, e o movimento agora, era nos comitês eleitorais dos eleitos. Dava para ouvir festa para o lado da beira, no comitê do Labinho, vereador de muitos mandatos, e que se reelegera com segurança. 

Mais barulho ainda, vinha do outro comitê. A festa havia começado há pouco, porque a base eleitoral do Branco era justamente a comunidade do Piriá. O barco saiu de lá pouco depois das 18h e chegou perto de 3h da madrugada com o cartão de memória e os boletins de urna da zona eleitoral mais movimentada fora da sede do município. Atrás vários pô-pô-pôs com eleitores vindo para a festa no comitê do Branco na sede da cidade.

Depois de processados e atualizados os números de cada urna que o kit chegava, o Goela pregava o boletim no mural improvisado na frente do Cartório Eleitoral. 

— Esse é o último, Goela! Prega lá, e vamos começar a arrumar tudo.

— Ééééééégua! 

— Que foi Goela?

— Nada não, doutor… só acho que vai dar rock!

Não entendi. Mas não tinha mais força para tentar interpretar o Goela depois daquele dia tão intenso. “Amanhã pergunto para o Goela”, pensei.

Antes do Goela pregar o boletim no mural, havia uma pequena multidão, esperando, ansiosa os últimos números que decidiriam a eleição. 

O Recado, cabo eleitoral do Labinho foi o primeiro a ver e gritou!

— Égua do farelo! — e saiu sorrindo para o lado do comitê do Labinho, seguido por metade da multidão.

Depois o Camundongo olhou, e ali mesmo já espocou o primeiro foguete chamando a todos os demais para outro comitê. 

A eleição era municipal, mas a maior disputa deu-se no legislativo, e foi polarizada entre dois candidatos: o Labinho, que já tinha 5 mandatos e ia para o sexto, e o Branco, pai do Fechadura, que resolveu concorrer pela primeira vez. A campanha acabou sendo maior que disputa para prefeito. Todos os demais candidatos a vereadores eram coadjuvantes, e apoiavam-se num ou noutro dos dois principais candidatos.

O pai do Fechadura, figura muito popular na cidade, por ter por muitos anos mantido a ordem quando delegado não havia, já entrou com cara de vencedor. Pela primeira vez em 20 anos, a liderança do legislativo exercida pelo Labinho, estava ameaçada! 

Era certo que ambos seriam eleitos, e eleger-se nem era mais o objetivo: o que um lado e outro queriam, era superar em votos o adversário. 

O Labinho mantinha e conquistava novos eleitores parando em cada bar, pagando uma cervejinha aqui e outra ali, e conquistando… na lábia!

Já o Branco não quis brigar com o Labinho em seu “território” e dedicou-se ao interior, visitando de lancha quase todas as comunidades ribeirinhas, distribuindo geradores, motores rabudinhos e promessas. Oriundo do Piriá, lá era sua principal base eleitoral. Se o Piriá unido votasse nele, já era suficiente.

Com o passar do tempo, a campanha do Branco foi encorpando, mas ainda estava acirrada a disputa:

— Ei, Retalho, hoje deixa a garrafa, que tô podendo!

— Ganhou na sena, Manobra? 

— Vai ser por conta do Candidato! — E apontou para a camiseta com a foto e número do Labinho!

— Vai tomar uma gelada, Goela?

— Serve duas, logo, Seu Nonô, que a Afrodite vem vindo! O Fechadura que tá pagando, por conta do pai dele.

Até na missa, o Padre passou a agradecer a oferta do candidato Labinho para trocar o sino da Igreja, e a ajuda do Branco na reforma da casa paroquial!

Na semana anterior à eleição, via-se muita preocupação no comitê do Labinho e cada vez mais confiança no comitê do Branco.

Faltando uns dois dias para a eleição, não se viu mais o Labinho na cidade. 

Apareceu na manhã do dia da eleição, exalando sorriso com confiança.

Em todo lugar, havia muita fila, e muita gente se atrapalhava com a novidade de ter que digitar os números na urna eletrônica. 

A notícia que veio do Piriá, dava conta de que por lá, tudo foi tranquilo, e a fila andava rápido. 

… estranho!

… Terminada a eleição, foi o que se viu.

Labinho eleito com folga. 

O Branco, que comemorava no comitê, não foi eleito.

Não precisou recontagem de votos. O Branco teve menos de 100 votos. 

No dia seguinte, houve muita confusão. O Branco, dizem, teve de ser levado de lancha, às pressas, para Belém, passando mal. Vários eleitores do Piriá, chegando na cidade para o resgate de promessas de campanha, e para as festas de comemoração, não entendiam o que aconteceu. 

Juraram que tinham votado no Branco. 

— Foi fácil! — Diziam.

Até o Labinho tinha explicado, porre: 

— Fizeram uma tecla só pro pai do Fechadura…

— … branca.


Luís Augusto Menna Barreto, em 3 julho de 2026.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

A Criação da Criatura


Fez-se à Terra o Criador, tendo para si que o oitavo dia era, mesmo que milênios houvessem passado para sua criação; e, decidido a ter nova criatura, sobre essa não tinha idéia, quando idéia outra teve: daria à criatura já criada, a tarefa de uma nova criar.
Descendo ao universo que do nada criara, e descobrindo o jardim batizado por “Terra”, viu multiplicado, além do que esperava, a última criatura que criara. De uma dessas, multiplicada já em bilhões, escolheu uma chamada João e deu-lhe a tarefa.
De início desconfiado, argumentou João que tarefas já tinha demais, e havia trabalhado a semana toda, e …
“Perfeito”, interrompeu-lhe o Criador! Sua melhor criação fora depois de uma semana de trabalho, outras coisas criando para receber a obra prima criatura! E prometeu a João, o descanso no dia sétimo!
Relutou, João, argumentando que nem sabia se no no Criador acreditava. Poderia ser tudo um sonho, do qual ele acordaria entediado! Pois que irritou o Criador, afinal, como pensava, João - a criatura -, que tudo fora criado? De onde teria vindo, se antes só o Verbo, sequer luz havia-se feito. Depois, deixou sua irritação, como o pai que a tudo perdoa o filho. E também como pai, advertiu: Repousaria o tempo (seu) de um cochilo e, quando acordasse, queria ver apresentada, uma nova criação! Deitou-se, então, o Criador e divino sono adormeceu, pelo tempo de um breve sopro.
Despertou com som das orações que sempre escutava. Mas havia uma diferente, uma voz que jamais rezava. Aguçou o ouvido e notou que era João quem orava. Passado o torpor do sono, que às criaturas e ao Criador acomete, e foi conferir a tarefa infligida e o motivo da oração, o que lhe deixara curioso, porquanto era a primeira que de João se fazia ouvir: o que afinal, João, o descrente, estaria a pedir em oração? 
Não era pedido!
O joelho vergado ao chão, desculpava-se e agradecia. Envaidecido, apresentou ao Criador o filho recém nascido, erguido em braços orgulhoso: carne de sua carne. Sangue de seu sangue. Um amor que era a conseqüência, de outro amor que era a causa!
Finalmente, a criatura acreditou no Criador: a vida era generoso milagre, e o que, enfim, criou a criatura, fora a fé que lhe surgiu ao ver o amor transformado em vida!

Luís Augusto Menna Barreto
9.5.2019

segunda-feira, 27 de julho de 2026

O Que é o Que é... (Por Polyana Pimenta)

Numa segunda-feira chuvosa, estava indo para o trabalho de ônibus e, curiosamente, o transporte não estava lotado. Todos estavam sentados. 

Na cadeira da frente estava uma jovem senhora e sua filha, esta com aproximadamente 05 (cinco) anos de idade. A criança começou a brincar com a mãe de “o que é, o que é?”. Assim foi se desenvolvendo a conversa: 

- O que é o que é: vermelho por dentro e verde por fora? 

A mãe acertou logo: 

- Melancia. 

Em seguida, fez várias perguntas conhecidas, sempre alertando a mãe: 

- Essa a senhora não vai adivinhar.

Mas a última pergunta deixou a mãe perplexa.  A menina disse: 

- Essa a senhora não vai acertar... O que é o que é, é uma parte do corpo humano, vive de cabeça para baixo, é duro e está sempre molhado? 

A mãe se assustou e, sem saber o que dizer, respondeu: 

- Não sei, minha filha. 

Eu, sentada atrás, já comecei a rir e pensei no quanto a mãe devia estar constrangida. 

A garota sorriu com ar vitorioso e respondeu: 

- Mamãe, é o dente. 

A gargalhada foi geral entre todos que estavam por perto. 

Moral da história, nós lemos o mundo conforme as nossas lentes.

Polyana Pimenta.

Nota do blog: Polyana Pimenta é amiga do blog, é escritora, poetisa e leitora voraz, e faz um trabalho lindo nas redes sociais, "Degustando Escritos". 
Instagram @degustandoescritos