sábado, 6 de junho de 2026

Dabliuvê, Jabuti, e o Título de Eleitor Penhorado

 

— Tu já votaste Dabliuvê.

— Tá doido, Jabuti?

— Mas tá aqui dizendo aqui que já.

— Tu me viste aqui votando? Quando votei?

— Isso não sei, mas essa maquininha não erra! Se aqui tá dizendo que votaste, é porque votaste!

— Votei nada!

— Não complica, Dabliuvê! Sai da fila, rasga!

— Saio nada! Quero votar!

— Ai meu pai… égua, Dabliuvê. Vou te mostrar! Olha aqui! Olha aqui tua assinatura no livro! 

— Que assinatura já, que não sei nem escrever, Jabuti? 

— Daí, não sei. Mas tá aqui: Wanderlei Veridiano! É tu, não é?

— Vou saber como meu nome, se nem ler eu sei, Jabuti? Tá de sacanagem?

— Empresta aí teu título de eleitor pra eu conferir.

— Tá com o Agarrado!

— E outro documento qualquer. 

— Tô sem nenhum.

— E cartão do bolsa família?

— Tá  penhorado com o Mariposa.

Descobri como era, logo que cheguei por lá em 2005 e já em 2006 era ano de eleição. 

Funciona assim: o cartão do Bolsa Família é o “cartão de crédito” do caboclo, mas normalmente funciona em um só comércio. O comércio Mariposa era o maior do local, então, para o caboclo comprar fiado (e o Mariposa garantir que será lá que ele vai gastar seu dinheiro), ele vende fiado, mas fica com o cartão do Bolsa Família "penhorado". No dia do pagamento do Bolsa Família, o Pingado, que trabalha para o Mariposa, vai com uns 80 cartões para a frente do posto da CAIXA, e naquela muvuca toda, vai sacando um por um, e já separando o dinheiro do Mariposa. O caboclo leva a diferença, se tiver, e o Pingado vai riscando a conta do caderninho. E recomeça tudo de novo para o mês. 

Eventualmente, um ou outro vai lá no Mariposa para “despenhorar" o cartão porque precisa para alguma outra compra fiado. O Mariposa só libera se o caboclo pagar a conta. 

O Retalho é um dos poucos que não segura cartão penhorado, porque, afinal, ninguém vai querer ficar devendo para um açougueiro!

E, descobri, com o título de eleitor funciona mais ou menos da mesma maneira. Na época de eleição, o candidato (ou o cabo eleitoral) vai até a comunidade, e faz o acerto com o líder local: ou um gerador pra comunidade toda, ou alguns motores rabudinhos; invariavelmente, muitos litros de óleo, camisetas (naquele tempo podia) e, claro, cestas básicas. Evidentemente, que a garantia é o título de eleitor! 

Só que diferente do bolsa família, o candidato não tem como ir junto no caixa automático (na urna). Então, o que acontece de verdade, é que o cabo eleitoral chega na Zona, com todos os títulos que arrecadou, e ele mesmo vota e “assina” por todos! 

— Ah, mas e os mesários, e os fiscais? — Você, meu caro leitor urbano, perguntará!

Bem, no Marajó há urnas eleitorais a distâncias de seis HORAS de barco, em comunidades que muitas vezes contam com não mais de cem pessoas. Os próprios mesários são membros da comunidade e também tem os títulos “penhorados" muitas vezes.

Pois a confusão se deu, porque foi a Tapioca, esposa do Dabliuvê, que penhorou o título dele, com o Cobra D’Água, que era o líder da comunidade, sem ele saber. 

Só resolveu tudo, quando a Tapioca apareceu e falou que tinha penhorado. 

O Dabliuvê, saiu com cara de brabo pra falar com o Cobra D’Água e pegar o título de volta.

— Que história é essa de tu pegar meu título, Cobra?

— Tu é leso? Não recebeste tua cesta e os 20 litros de óleo, que entregamos pra Tapioca?

É… recebido ele tinha mesmo. E o certo é certo! Não dá pra reclamar.

Conformou-se.

— Tá certo então, Cobra, mas me fala uma coisa…

— Quié?

— Em quem eu votei?

O Cobra D’Água deu uma olhada demorada, e sabendo que o Dabliuvê faz confusão por qualquer coisa, não teve dúvida:

— Larga de ser besta! Não sabes que o voto é secreto?


Luís Augusto Menna Barreto

6 de junho de 2026

… e vem eleição por aí…

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Virada - parte 1

 

Um texto de Zoe Ferraz

“Consegue fazer as contra razões do XXXX até sexta?”

Isso ficou martelando na minha cabeça. Eu tinha ficado muito puta. Não respondi. Não diminuí o passo.

Foda-se. Ele que me mandou ir pra casa. Não teve a coragem nem de dizer se eu estava ou não demitida. Eu sei que as “Emilys” ficaram sorrindo. Mas eu também sei que era um sorriso nervoso. O tipo de sorriso que gostariam que eu visse na cara delas, porque era o sorriso “bem feito sua vadia”. Mas eu sei que nem isso se sustentava, porque elas poderiam estar sorrindo, mas as duas sabem que bastaria eu dar meia volta e o chefe não ia ter colhão pra aguentar a situação. Nenhum chefe que fica sonhando em te comer tem colhão pra te mandar embora de verdade.

Quando ele gritou “consegue fazer as contra razões do XXXX até sexta?”, foi a maneira menos humilhante que ele achou de tentar fazer eu voltar. Eu podia sentir o peso da angústia dele, quando eu nem diminuí o passo.

Ele não ia dar o caso para nenhuma das Emilys. São advogadas medíocres. Não são ruins. São medíocres: conseguem fazer apenas o que todo mundo faria, o que tem na internet, o que o chat GPT faz. Se fossem melhores que isso, não estariam ali.

Por que então, eu estava ali? Porque sou uma porra louca, porque não posso ter um escritório meu e ser a responsável por captar clientes e mantê-los felizes, enquanto arranco o couro deles e cometo o assalto de fazerem eles pagarem mais em honorários, do que perderiam com a causa se não me contratassem.

Eu sei que ele ia passar o caso pro Gravata de Crochê. É o mais competente. Mas é gago. A porra de um advogado gago!

Mas a verdade é que na sexta-feira, eu fui na sede da cidade, e pedi pra usar o computador da lojinha de xerox. O garoto que cuida de lá tem uns 19 anos, e espinhas na cara. Nem precisei me esforçar. Eu levei umas duas horas fazendo as contra razões. Conhecia todo o caso e já tinha baixado o PDF com a sentença e a apelação no meu celular e tinha enviado para mim mesma por e-mail. Acho que o guri fez umas trinta fotos minhas, disfarçando que tava fazendo selfie dele. Um frio gostoso e eu fui de saia e legging.

Eu fiz e enviei pro Gravata de Crochê:

“__________ Tudo bem?

Taí as contra razões. Não precisa dizer que fui eu que fiz."

Esperei por uns 20 minutos de propósito. Eu sabia que o Gravata de Croché iria mostrar correndo pro chefe. E chegariam e-mails.

Passei 20 minutos lendo site que eu achava que seriam sérios e virou só site de fofoca. Li sobre a Virgínia e o Vini Jr. A gente nota que o mundo tá uma merda, quando repara que isso vira notícia. No fim, parece menos pior do que ler qualquer coisa do Alexandre de Morais e Gilmar Mendes.

Quando abri o e-mail novamente, além de dois e-mails de amigos do Substack, tinha 3 do chefe e uma resposta do Gravata de Crochê.

Li primeiro os do Luís (Substack) e depois do Gravata de Crochê:

“Zoe

Ficou ótimo. Porque você mesma não protocola?

Mostrei para o Dr. XXXXX. Ele parece irritado por você não responder às mensagens dele no WhatsApp.

Tá surtando por causa da audiência da D. XXXXX no dia 3. Ela disse que exige que você esteja com ela na audiência.

Você poderia responder para o Dr. XXXXX?

Você voltará quando?

Dr. Gravata de Crochê”

Tudo bem, ele assinou o nome dele, mas eu gosto de Gravata de Crochê, por isso troquei.

O que aconteceu? Eu fui. Me despedi da tia e de todo mundo, tomei dois martelinhos (“shots”, mas lá ainda falam “martelinho”) da cachaça do alambique, e peguei o ônibus de volta.

Quanto mais o ônibus ia descendo a serra, mais eu sentia que voltava pra merda.

Passei em casa. Banho. Salto alto.

Cheguei na hora da audiência. O chefe tava lá em pessoa. Dava pra sentir o cheiro podre de suor dele, dentro do paletó da Hugo Boss. Suor de nervoso.

Sorriu pra mim como só os advogados sabem fazer, como se nada tivesse acontecido, mas era visível como o cu dele tava relaxando.

Dona XXXXXX me abraçou. A partir dali, ignorou completamente o chefe, mas acho que ele deu Graças à Deus por isso.

Entramos os três na audiência.

Não teve acordo. Quanto mais grana, menos acordo. Sempre assim. A promotora é uma lésbica de cabelo militar. Não dava pra saber pra que lado ia. O Juiz eu já conheço: separado e com fama de comer as estagiárias. Juiz da Vara de Família. Quase piada. Foi só eu deixar o óculos começar a cair pra ponta do nariz e olhar pouco pra ele, e pronto: ele deve ter me comido umas três vezes em pensamento. No fim, deferiu todas as antecipações de tutela que pedimos. A pensão de trinta mil e mais ele ficar pagando o básico: condomínio da cobertura e planos de saúde. Nova audiência marcada para agosto. Temos de arrolar os bens, descobrir a situação dos bens que descobrirmos e irmos prontas para a Guerra.

Ainda na frente da sala de audiência, eu me despedi.

— Zoe! Nada disso, vamos almoçar.

Era minha hora. Dei a facada:

— Não posso. Ele me demitiu. Hoje foi nossa última audiência juntas.


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(puta que pariu, tem mais pra contar… mas cansei, vou parar aqui e colocar “parte 1” no título e quando tiver saco, escrevo a “parte 2".)


Zoe. Tô sem celular. Não me aporrinhem.


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Olá pessoal.

Os É a primeira vez que publico Zoe Ferraz. 

Como vocês podem notar, a escrita da Zoe é... peculiar! Isso não é uma hístória, ou uma série. Isso é a vida dela, aparentemente. 

Ficamos amigos no Substack (que eu não recomendo rsrsrsrsr) e tenho lido tudo que ela publica.  

Ao ler a Zoe, parece que estamos em uma série de TV, dessas que a advocacia é o pano de fundo para os dramas que acontecem. Mas ao interagir com a Zoe e outra amiga muito queria (que também já publiquei aqui - Maria Carmem Martiniano - "A Aliança Esquecida"), a gente descobre que é uma pessoa real, que tem uma autenticidade enorme, não gosta de hipocrisia e não tem meias-palavras (às vezes eu gostaria que tivesse). 

Mas os textos sempre são fortes. 

Não resisti e publiquei esse. Acho que o ideal teria sido pedir a permissão da Zoe para publicar desde o primeiro que ela postou no substack. Mas decidi começar pelo atual e pronto. 

Quem sabe, se gostarem, eu publico outros. 

Espero que os amigos do blog curtam esse texto. Não é crônica. É vida real.

Obrigado, Zoe. 


Luís Augusto Menna Barreto.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Homens de Preto (o progresso de São Paulo)


Por Renilda Viana


Juvenal, homem simples, acabara de desembarcar no tumultuado terminal rodoviário do Tietê-SP, vindo do "norte". Assustado, percorre os saguões, observa os painéis, letreiros, um coral que se apresenta no meio do salão, o vai e vem das pessoas apressadas... “Quanta novidade! Uma escada que sobe e desce sem precisar que ninguém gire a manivela; coisa do outro mundo!” Admirava Juvenal!

Puxando sua pequena bagagem, segue o fluxo. Retira do bolso um pequeno papel; ali está anotado o endereço do seu destino: "Rua da Paz, 50 - Jd. São Jorge". Juvenal, simplicidade em pessoa, mestre do campo, matuto em cima da escada que rola. Tomado de coragem, sai em busca de ajuda. "Povo atencioso!" Admirava Juvenal.

Já de bilhete na mão, segue rumo às “borboletas". Observa, desconfia, fica nervoso, mas segue o fluxo. Homem esperto! “O metrô... Grande invenção... Quanto progresso! Como é grande! Como corre! Quanta gente!”  Era o Juvenal maravilhado. Passa um, dois, três. Muitos trens... Juvenal ali, encantado com tanta modernidade. Finalmente, resolve seguir viagem.

“Ponto final, tenho que desembarcar no ponto final", pensava. De repente, a cidade desaparece. Juvenal se desespera; busca nas pequenas janelas a cidade que estava ali há poucos minutos; observa nas pessoas; percebe que está tudo tranquilo, então relaxa. Uma moça muito simpática lhe oferece o assento. "Povo atencioso!" Admira.

Uma voz: “Senhores passageiros, desculpe incomodar a viagem de vocês. Tenho minha mãe doente, meu pai desempregado, necessito da ajuda de vocês, pode ser um passe ou qualquer quantia. Que Deus abençoe vocês!" Juvenal ouve com atenção. "Coitado, darei-lhe um trocado", pensou, e assim fez. Sentindo-se orgulhoso, útil, ajeitou-se no banco e fechou os olhos para agradecer.

Estação Sé. "Senhores passageiros, desembarquem pelo lado esquerdo do trem!" dizia uma voz rouca. Juvenal apressa-se:  

— É o final, é o final?  

Perguntava desesperado, sem se dirigir a ninguém.  

— Não, senhor. Responde uma voz no meio da multidão.  

Juvenal se acomoda novamente. Um garoto aproxima-se e joga um pequeno pacote no seu colo; assustado, olha desconfiado, mas logo entende e paga para o garoto. “Que gente estranha”, pensa. A viagem segue. A cada estação, uma surpresa, mais uma ajuda, mais uma compra, mais gentilezas, mais novidades... Os mundos se misturam. O simples Juvenal já não se sentia mais tão deslocado.

Alguns minutos depois:  

“Senhores passageiros, solicitamos a todos que desembarquem nesta estação!”  

Todos se levantam.  

Que aflição! Pobre Juvenal! Com os bolsos cheios de balinhas de goma, chicletes, lixas de unhas, canetas, adesivos, retoma a bagagem no ombro e desembarca. Segue o fluxo. Novamente diante das escadas que rolam. De repente, um tumulto toma conta do espaço. Pessoas correm de um lado para o outro, gritam. Juvenal, assustado, pergunta no vazio:  

 Meus Deus, o que está acontecendo? O que é isso? Homens de preto?!  

Sem resposta, encosta na mureta e passa a observar tudo em sua volta. Homens gritam sem parar:  

 Litoral, litoral, por aqui. Maresias, Praia Grande, litoral, litoral!!  

São os “puxadores” de passageiros para os “perueiros”. Logo entende a razão do tumulto. Lá estavam os “homens de preto” tentando manter a ordem.

Juvenal ficou por ali muito tempo, observando as pessoas apressadas que cruzavam as “borboletas”, para entrarem, para saírem; bem-vestidas, mal-vestidas, bonitas, feias, alegres, tristes, pedindo, vendendo... E os “homens de preto” ali, atentos; espantando os “puxadores”, encaminhando deficientes visuais, ajudando cadeirantes, expulsando pedintes dos saguões do metrô, circulando na multidão. Juvenal ali, três horas se passaram. Meio atormentado com tanto movimento, puxa do bolso o papel que traz o endereço do seu destino. Olha e guarda novamente. Num impulso, pega sua bagagem e segue rumo à escada que leva de volta ao subsolo. Decidido, toma o primeiro trem que encosta na plataforma. Acomoda-se e inicia sua viagem de volta.

“Que grandeza!” pensava enquanto seguia. “Conheci São Paulo. Já posso voltar para minha terra. Que progresso! Sem sair do tal metrô, conheci todo o progresso da cidade: a modernidade, a beleza, a cultura, o sucesso, o companheirismo, a solidariedade, a miséria, o desemprego, a concorrência e os “homens de preto”. E seguiu seu caminho de volta à rodoviária, decidido a voltar para sua terra natal. Descobrira que não existe melhor lugar para viver, o campo. 

Grande Juvenal!



quarta-feira, 13 de maio de 2026

O que ELA tem que EU não tenho?


Só quem já passou por isso sabe a dor que vai agarrada nessa frase. Só quem já pronunciou essa sentença de morte da auto-estima, pode mensurar o peso que tem!

É quase uma pergunta retórica! Mas quem pergunta, quer uma lista, quer argumentos, quer comparações! 

“É o cabelo? Eu aliso! Só pode ser o cabelo, aquele maldito cabelo hidratado com Moroccanoil!”

Mas não, eu lamento, não são teus cachos… na verdade, não haverá lista. Tu jamais terás chance de ouvir o rol de itens possíveis que tu imaginas, para comparar!  E o pior… o pior é o silêncio, porque tu não ouvirás nada contradizer-te, depois de pronunciares a frase fatídica! … ou ouvirás, o que é pior! Porque normalmente, apenas uma frase vem em contraponto a “o que ela tem que eu não tenho”. A pior, a mais cruel, a mais canalha: 

“Olha… não és tu. Tu não tens nada de errado, tu és uma pessoa maravilhosa…”

(E prepara-te, que lá vem:)

“… sou eu. O problema está em mim"

Pronto… o pingo de auto estima que tu tinhas, está ali, óh… olha rápido: perto do ralo… foi-se!

Antes tu tivesses ouvido uma lista de defeitos! Porque se lista houvesse, tu poderias contestá-los. Saná-los. Superá-los! Mas a maldição de tu ouvires que não tens problema, e que o problema está na pessoa com quem tu dividias tua vida, é arrasadora!

Se não te elencam defeitos, é pior: tu simplesmente sentes que não és suficiente!

Neste ponto, tu deverias, se a auto estima não tivesse, já, escoado pelo ralo, acabar qualquer conversa, apenas ir para o quarto e fechar-te na solidão, planejando acabar com o pote de sorvete na geladeira, afogando as mágoas, comendo com uma colher de sopa, diretamente no pote!

Mas não… tu ainda arrisca um “eu não sirvo pra ti?”. Ah… que erro terrível! Porque agora sentirás as palavras caindo em ti como uma bigorna cai nos desenhos animados em quem passa na calçada: “olha… tu és uma pessoa incrível! Vais achar alguém melhor que eu, que vai amar-te muito!”

Feito! Receber consolo de quem está te dando o pé na bunda, é a derrota final… é a sarjeta amorosa, é o fim da linha do ônibus com destino à falta de amor próprio!

Agora, imagina o que meu amigo sentiu, quando sua namorada deixou-o, e ele perguntou: “o que ela tem que eu não tenho?”… 

É… nesse caso, acho que é o que ELE tem, que está de alguma forma sobrando…!


Luís Augusto Menna Barreto, em 9 de maio de 2026

Data da postagem original: 14.4.2021

... suficiente!

 


segunda-feira, 11 de maio de 2026

Os Casos da Tonha, do Botóquis e da Dona Mocinha

 


Ameaça pra ser ameaça, tem que meter medo.

Sem “tu vai ver só”…

Pois a Tonha era uma mulher grande. Não era apenas gorda. Era grande! E tinha cara de braba. Já a Augustinha era chamada assim, no diminutivo porque era uma mulher pequena, franzina. Vi que o caso era ameaça, e, assim que as duas sentaram uma em cada lado da mesa, fui logo me dirigindo à Tonha:

— O que houve, D. Tonha, que a senhora andou proferindo ameaças?

— Não ameacei ninguém, doutor. Foi ela (e apontou com o beiço para a Augustinha) que me ameaçou encher de porrada.

— Hein?

— Pois não foi, doutor? Ela me disse que se me pegar olhando pro marido dela de novo, vou pegar muita porrada.

Augustinha quieta, não falava nada. Ficava ali, olhando para a mesa, com uma expressão de “isso nem é comigo”.

Perguntei para a Tonha:

— E a senhora está com medo de que lhe aconteça alguma coisa?

— Mas doutor! E isso aí (apontou com o beiço para a Augustinha) vai bater em alguém?! Medo nada! Tô é com pena dessa infeliz!

Ora, ali mesmo, encerrei o processo!

Mas tem os que são bons de ameaça! 

O “Botóquis” (estava escrito assim no Termo Circunstanciado) era o tipo de sujeito que não levava desaforo pra casa. E desaforo grande era algum caboclo dançar com uma morena que tivesse recusado a dança com o Botóquis. E como no Marajó, apelido não é por acaso, o Botóquis estava muito longe de ser um deus grego. Era fácil ser recusado. 

Daí que, na festa, o pessoal cuidava: se a mulher chegou perto do Botóquis e saiu, ainda que pra ir no banheiro, nenhum homem mais falava com a pobre moça... Mas tinha sempre um desavisado qualquer, que não sabia da história ou que ja tinha bebido o tanto necessário para não lembrar mais de quem o Botóquis tinha levado o fora! Daí, coitado do caboclo! Se o Botóquis pegava, batia. Mas batia muuuuuito! Só o jeito de olhar, por baixo da aba do boné, já causava temor.

Outra que era boa de ameaça era D. Mocinha, que de mocinha não tinha nada.

Pois assim foi o caso: Feito o pregão, entrou D. Mocinha como autora do fato (quem fez a ameaça). E “Mocinha” era mesmo o primeiro nome daquela senhora. Eu me assustei. Acho que nunca tinha visto um rosto tão enrugado! O passo era firme, mas estava curvada para frente, pensei que tivesse já beirando os 70 anos. A vítima aparentava uns 40.

D. Mocinha tinha uma pequena fruteira e empregava seu neto, a quem prometera fazer Padre. A mãe morreu antes do parto e a criança no ventre foi dada por perdida. Mas nasceu da mãe morta e foi tido por milagre. Ia ser devolvido ao santo, fazendo-se Padre por promessa de D. Mocinha. Daí, quando alguma mulher demorava mais que um instante de comprar uma fruta, falando com o neto, D. Mocinha já achava que era o diabo em forma de mulher querendo desencaminhar o futuro santo. Pegava um terçado e corria atrás da dita, ameaçando furar.

Pois a vítima que estava ali era mais uma entre tantas que dizem que D. Mocinha ameaçava. Confesso que estava torcendo para não ser verdade; ou para que houvesse uma proposta leve do Ministério Público que D. Mocinha acatasse e se visse livre.

— Mas a senhora ameaçou mesmo a vítima, D. Mocinha?

— Ameacei não, doutor! Prometi! Vou furar essa rapariga que quer saliência com meu neto santo.

Não teve jeito. D. Mocinha não aceitou nada do que propôs o Ministério Público, por mais brando que fosse!

— Mas D. Mocinha, a essa altura da sua vida, a senhora ainda vai querer se incomodar com um processo? Por que não aceita a proposta do Ministério Público?

— Não sou mulher de aceitar favor, doutor. Vivi até aqui, com o suor do meu trabalho!

Pois é. Eu fiquei até curioso pra saber a idade daquela coleção de rugas que D. Mocinha trazia na pele. Para matar minha curiosidade, pedi a célula de identidade de D. Mocinha, que logo pegou uma sacola plástica toda enroladinha e de dentro tirou a célula e estendeu-me! Não consegui disfarçar o susto:

— Mas a senhora tem 51 anos, D. Mocinha?

— Pois é doutor. Sei que não parece.

Até hoje eu agradeço por nesse momento ter falado apenas: 

— … é… 

Porque D. Mocinha arrematou:

— Mas isso é porque me cuido, doutor, não sou como essas raparigas de hoje que experimentam tudo que é porcaria e se estragam cedo!


Luis Augusto Menna Barreto, em 9 de maio de 2026.

Data da postagem e texto original: 15 de julho de 2016

quinta-feira, 30 de abril de 2026

A Aliança Esquecida


Por Maria Carmem Martiniano

Cravo as unhas em sua perna. Sou muito orgulhosa para pedir que ele fique. Como se tentar detê-lo fisicamente não fosse ainda mais humilhante. Ele se levanta e se afasta.

Um calor pegajoso, mesclado ao pânico, se agarra à minha pele, e gotículas de suor escorrem entre os meus seios.

De repente, sua ira se aguça e objetos rasgam o ar. Uma mesinha redonda de canto, um abajur sustentado por pequena escultura, presente de casamento que eu amava.

Atordoada, vejo quando ele retira a aliança de casamento e a coloca sobre a prateleira mais alta da estante da sala de televisão. A custo, consigo me levantar. Digo que vou buscar as crianças, elas estão na casa de minha mãe. Ele não responde. Pego o carro e desapareço na escuridão.

Enquanto retiro a mesa do almoço, arrumo os lanches nas lancheiras. Uma caixinha de suco para cada um e pão com manteiga. Checo se os uniformes estão secos.

“Mãe, a gente deveria ter três conjuntos de uniforme cada um. Aí você não fica preocupada todo dia vendo se os uniformes já secaram” – pede minha filha de oito anos.

“Por enquanto, não temos condições, filha, já conversamos sobre isso. E dois são suficientes.”

“Nunca temos condições pra nada, mãe.”

“Vá ajudar seus irmãos a se trocarem, filha, senão vamos nos atrasar.”

À tarde, as crianças na escola, um vazio me envolve, minhas entranhas se reviram e o gosto amargo do medo se gruda à minha garganta. Há uma ausência constante ao meu lado, presente, concreta. Uma ausência que sufoca e persiste. Uma ausência que só existe no lastro da antiga presença. O braço que não me abraça, a mão que não me toca, os olhos que não me veem.

E no meio da dor, o litígio. Advogados. Juízes. Resta ainda uma audiência. Tenho horror às audiências e a todos aqueles termos jurídicos – “alimentos provisórios”, “alimentos definitivos”, “partilha de bens”.

Um casamento nunca poderia ser reduzido a esses termos.

A sentença final do juiz determina que a casa seja dividida entre os dois e que ele a deixe. Quando a audiência termina, ele me olha com raiva e me lembra: “foi você quem foi embora e levou as crianças.”

“Fui embora no dia em que você atirou e estilhaçou objetos.”

Na manhã seguinte, ligo para ele: “preciso pegar o restante das minhas coisas e das coisas das crianças. Seria melhor se eu não te encontrasse.”

Ele aquiesce.

Quando chego, não há ninguém na casa. Somente retalhos de lembranças. Vou com pequeno caminhão que faz frete, pego grande parte de minhas coisas e os pertences das crianças. Deixo para trás o que é dele e um pedaço da minha vida.

Já estou de saída quando uma lembrança vem à tona. Dou meia-volta e vou até a sala de televisão. Paro à frente da estante da TV, consigo sentir as batidas do meu coração nos meus ouvidos, fico nas pontas dos pés e tateio a beirada da prateleira mais alta. Mal consigo acreditar quando meus dedos tocam o pequeno arco. Ela continuava ali onde ele a havia deixado alguns meses antes. Ele nunca se dera ao trabalho de procurá-la, de guardá-la. Sinto-me nauseada. Respiro fundo, tento me controlar. Finalmente, consigo escapar dali.

Em casa, pego um saquinho de veludo azul onde está a minha aliança, tiro do bolso a outra aliança, bem mais larga, e deixo que ela deslize para o fundo do saquinho, onde se junta à minha. Eu as guardo como um lembrete das ilusões partidas.

Passados alguns meses, ele me liga: “Por acaso, você viu ou pegou a minha aliança?”

“Por que eu a teria visto? Você a perdeu?” – pergunto-lhe entre irônica e surpresa.

“Não a perdi, você a pegou” – vocifera ele.

Sem dar atenção à sua raiva, eu o questiono, um tanto esperançosa: “mas o que você faria com sua aliança a essa altura?”

“Estou precisando de dinheiro, iria vendê-la.”

Desligo o celular na cara dele.

Pouco tempo depois, viajo com meus filhos.

Durante um entardecer colorido, enquanto as crianças se divertem na piscina do hotel, desço para a praia sozinha. A linha do horizonte que separa céu e mar é tênue, e nuances rosa alaranjadas matizam os traços suaves das nuvens.

Paro em frente as ondas e deixo que cubram meus pés. Aperto o que trago na mão e, em seguida, atiro com força para lá da arrebentação. Vejo quando o saquinho azul afunda na água transparente. Respiro fundo, sorrio e dou as costas para o mar.


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Maria Carmem Martiniano está no Substack (@mariadesempoderadaoficial), e brinda aos seus assinantes com textos densos, que invariavelmente tem muitas camadas. Sentimos que as letras fizeram-se no papel com alma e sangue.