domingo, 4 de setembro de 2022

Papagaio Queria Ser Herói


Um dia durante a sua folga de 15 minutos para o almoço, Papagaio pegara o celular e vira em um dos tantos aplicativos de vídeos de 30 segundos, um homem que correra para o meio da rua e levantou nos braços uma garotinha, no último instante antes que ela fosse atropelada por um carro que passava em alta velocidade.

Aquele vídeo, mudaria sua vida para sempre!

Ele entendeu que o homem do vídeo era um herói. Então, olhou para si mesmo, aos 26 anos, e decidiu que seria também um herói. Ele trabalhava como “segurança e anunciante de ofertas” de uma pequena loja de apelo popular bem na esquina de uma movimentadíssima BR que cortava a cidade de Ananindeua na região metropolitana de Belém, com uma das principais ruas de acesso à cidade. A rua em que havia o comércio, o Mercado Público, o Fórum da Justiça Estadual, o Fórum da Justiça trabalhista e alguns bancos. E a alguns metros, havia a passarela, sobre a BR, que despejava, minuto a minuto, um sem número de transeuntes andando sempre com pressa, sempre inevitavelmente atrasados para seja lá o que fosse. A esquina era definitivamente movimentada, para onde convergiam vários ônibus e um sem número de carros e motos.

Seu trabalho consistia em ficar vigiando se alguém tentava pegar alguma das roupas que ficavam em grandes balaios, na frente da loja, já invadindo a calçada, ao mesmo tempo em que segurava um microfone e anunciava as ofertas, contribuindo para a cacofonia urbana, que faz parte da rotina dessas aglomerações. 

Quando terminou o almoço, voltou para a frente da loja, pegou o microfone, mas ficou em silêncio. Observando.

— Ei Papagaio, bora lá, mano, anuncia as ofertas aí! — Gritou-lhe o jovem gerente.

— Eu vou ser herói, Seu Pantoja! — respondeu Papagaio.

— Vais ser é desempregado! Se não começares a trabalhar, vais levar farelo!

O fato é que dia após dia, Papagaio passou a anunciar menos, a vigiar menos a loja, e a prestar muito mais atenção à esquina. Tinha certeza que a qualquer momento, alguém estaria a ponto de ser atropelado. Então, ele sairia correndo e, no último instante, salvaria a pessoa aos olhares de todos. Ele seria um herói. Era seu destino, e sabia disso.

Cada vez mais disperso, acabou por ser demitido.

Em seu íntimo, não ficou chateado. Queria poder dedicar toda sua atenção ao tráfego naquela esquiva, queria estar alerta no exato momento em que aconteceria a sua ação heróica! Já imaginava, em todos os aplicativos, o vídeo viralizando: “Herói Papagaio salva pedestre da morte certa!”. Era seu destino!  Era o seu destino!

Sem o emprego, dedicando-se exclusivamente ao tráfego, começou a chegar mais tarde em casa. E saía mais cedo de casa. Muito mais cedo. E então, Zenaide abandonou-o! Não, ela não saiu de casa: simplesmente, não foi mais atrás dele, na esquina, chamar-lhe para jantar, para tomar banho. Não lhe levava mais a merenda, nem o fazia trocar de roupa. 

Papagaio não se importava! 

Usava o banheiro do Mercado Público, que funcionava ininterruptamente. Os antigos colegas do trabalho, sempre dividiam com ele, porções de suas marmitas. O generoso clima do Norte, permitia que as temperaturas nunca o maltratassem pela falta de roupas quentes. Acostumou-se a pequenos cochilos, em vez de um longo sono, e sempre o fazia em frente à porta da loja onde um dia trabalhara. Com o tempo, passou a conhecer as rotinas de quase todas as centenas, milhares de pessoas que passavam naquela esquina. E tornou-se conhecido, também.

Sabia que nas quintas-feiras, antes de 7 horas, D. Jandira fazia compras no Mercado Público, e saía de lá, tentando levar duas sacolas pesadas demais para seus 78 anos. Então, ele a ajudava a carregar as compras pelos quase dois quilômetros até sua casa. Descobriu que uma vez por mês, Jacinto, paraplégico, descia do ônibus com muita dificuldade, tendo de aceitar a expressão mal humorada do motorista, por ter que parar o ônibus e ir por fora, para ajudar a tira-lo com a cadeira de rodas, o que sempre atrasava o horário já tão apertado, para completar a volta na linha. Uma vez por mês, então, Papagaio empurrava Jacinto até a lotérica, tendo de vencer três degraus sem qualquer acessibilidade para cadeirantes, onde recebia o reduzido benefício do governo. E Papagaio praticamente impedia a passagem dos ônibus, forçando-os a parar contra a vontade, para receber Jacinto em sua cadeira de rodas, em seu retorno.

Uma vez por semana, ajudava D. Soraya a levar seu filho, Abelardo, que tinha esquizofrenia, pela passarela, para vir do bairro do outro lado da BR até o Crás, quase 1dois quilômetros adiante, para que fosse atendido e pudesse receber a receita e os remédios, os quais dificilmente tinha dinheiro para comprar.

Os anos foram passando… e a oportunidade de Papagaio não aparecia. A ordem natural da vida levou, ao longo dos anos, D. Jandira, mas vieram outras, às quais ele ajudava. Levaram Jacintos, Soraias, Abelardos… que eram substituídos por pessoas diferentes, e vidas iguais. Até que um dia, fora a vez de papagaio, já velho, já sem sequer saber a conta de seus anos, já sem sequer lembrar o nome com que fora batizado… 

Enfermeiros do Posto de Saúde que ficava ao lado do Mercado Público, acorreram, quando S. Pantoja, o então velho gerente da loja, não conseguiu levantar Papagaio, para abrir as portas ao expediente do dia. Uma pequena multidão reuniu-se, e alguns ouviram as últimas palavras de Papagaio:

— Eu só queria ter sido um herói.

O caixão fora simples, mas doado de boa vontade. Um vereador conseguiu um túmulo em um bonito lugar no cemitério municipal. Houve muitas flores, das tantas pessoas que não eram anônimas para Papagaio, e isso, para elas, fez diferença durante a vida. Os trabalhadores do Mercado Público arrecadaram dinheiro, e doaram a lápide.

Papagaio viveu a vida, buscando um grande ato de heroísmo… e não percebeu, que a soma de seus constantes atos de gentileza, o acúmulo de seus pequenos gestos diários, tornaram-no maior do que o ato que buscara. Na sua lápide, em que não estava seu nome, porque já nem sequer o sabiam, em que não constava a data de nascimento da qual não se tinha idéia, fizeram escrever:

“Aqui, descansa Papagaio, o herói”.


Luís Augusto Menna Barreto

4 de setembro de 2022. 


segunda-feira, 30 de maio de 2022

Adeus, David Coimbra - Meu Melhor Amigo Morreu Sem Me Conhecer

 

“Adeus, David Coimbra…

Em tua homenagem, acho que vou colocar uma mesóclise no começo. Fa-lo-ei. Pronto, fiz! Na antepenúltima frase desse parágrafo, óh!

Aprendi contigo, em uma das tantas crônicas que li nesses mais de 30 anos, que uma mesóclise no começo, é ótimo para chamar atenção para o texto. Ou também citar algum grande escritor. Bem, eu estou te citando.”

Esse texto acima, eu escrevi em 15 de fevereiro de 2019. Era minha intenção de despedir-me de David Coimbra. Não porque naquela época ele estivesse indo embora ou morrendo. Era eu. Não, não estava morrendo nem indo embora. Estava desistindo. Sim, desistindo. Por mais de trinta anos, desde os meus tempos de adolescente, desde “a Mulher do Centroavante”, eu leio David Coimbra e o admiro. Veio o vestibular, e um pedacinho dentro de mim falava para eu cursar comunicação social, tentar ser jornalista. Mas tudo na minha volta dizia “direito”. Ninguém jamais me forçou. Eu mesmo optei. Talvez por comodismo, talvez por covardia, optei pelo direito. 

Por algum motivo, Deus escolheu-me para qualquer um dos dois. Outorgou-me tanto o dom da oratória, quanto da escrita. Eu sei disso. O que não fiz, foi multiplicar os talentos que recebi, como era esperado. Acomodei-me naquilo que se vinha sempre mostrando mais simples. Daí, com o passar dos anos, fui também escrevendo, de forma amadora, modesta. Mas durante esse tempo todo estava ali, David Coimbra. Ele me perseguia nos jornais. Na rádio Gaúcha. Desde o primeiro dia que li, eu pensei: "tenho que conhecer esse cara! Ele escreve quase tão bem quanto eu.” (Tá, tudo bem, quem sou eu, né? Mas a modéstia nunca foi minha companheira, e, se além da minha mãe, eu mesmo não acreditar em mim, será frustrante). 

O fato é que sempre pensei que tinha que ser amigo desse sujeito. Ele pensa o que eu penso e muitas vezes, diz antes. Eu comprava seus livros, e, quando os lia, achava que poderia ter tranquilamente meu nome na capa, porque eu escreveria, sim, aquilo ali! Em 2002, quando troquei minha profissão, mas ainda dentro do direito, e me distanciei 5000 km de Porto Alegre, pensei: pronto, agora não vou mais ficar lendo David Coimbra… Começo dos anos 2000, não havia aplicativos de notícias como hoje. Havia páginas como Uol, Terra, Yahoo… Mas não havia smartphone nem os "Apps". Então, aconteceu de passar um tempão sem David Coimbra diariamente na minha vida. Logo mais, embrenhei-me na Amazônia, em Novo Progresso por um tempo, a 400km de lugar nenhum para qualquer lado, e, depois, uma radical (e grata!) Mudança para o Marajó, onde fiquei por 11 anos… mas acontecia algo peculiar nesse meio tempo: cada vez que eu ia em Porto Alegre, o encontro com os escritos de David Coimbra eram certos! Eu mesmo comprava os livros, procurava a coluna na Zero Hora. E cada vez que o reencontrava, era como um velho amigo, o melhor amigo: não havia vazios na conversa, não havia constrangimentos! 

Era como se eu tivesse lido ontem a última coluna, tamanha nossa intimidade. Sempre aquela sensação de “exatamente… eu poderia ter escrito isso”, eu dizia como quem diz para um amigo, afinal de contas, éramos.

Daí, que ano a ano, fui alimentando o propósito de realmente encontra-lo. O plano era simples: iria na redação da Zero Hora, um dos livros de David Coimbra embaixo do braço, iria apresentar-me, ele me olharia intrigado no começo, depois, talvez, gentil, assinaria o livro, faria uma ou duas perguntas, e voltaria para sua rotina tendo a mim por mais um entre centenas, milhares de fãs que o acorreram e acorriam… Ele certamente não me reconheceria como grandes amigos que somos há décadas. Não saberia das inúmeras discussões que tivemos, dos conselhos e sugestões que lhe dei e que tanto ele reproduziu em suas crônicas… Mas ainda assim, eu acalentava esse plano. Ano após ano.

Então, eu decidi: próximas férias no sul, vou lá! 

Foi então, que o destino colocou o câncer no caminho do David, e levou-o a Boston. 

Por essa ocasião, já havíamos retomado nosso contato diário, eu já tinha smartphone, já assinava GZH, já o ouvia em podcast todos os dias, seja no Timeline, seja no Sala de Redação. Como grandes amigos que somos, rezei por ele, fiz promessas, acompanhei sua luta! Regozijei-me com suas vitórias! Então, ele voltou a Porto Alegre. Pronto: agora nada haveria de impedir que eu o encontrasse, finalmente, e dissesse: "olá, David, sou eu! Dá cá um abraço!" Seria um abraço de melhor amigo! Eu já estava na porta dos cinquenta anos, e não havia mais tempo para perder apenas como fã, depois de uma vida inteira sendo tão íntimo, lendo suas entrelinhas, participando de sua vida!

Veio a pandemia. Viagens canceladas. Adiei.

Meu sogro, então, sabendo de nossa intimidade, fez o que eu jamais havia feito: foi até a redação de Zero Hora, levou um livro do David, e pegou, para mim, o autógrafo do meu amigo, meu chapa, meu camarada! Quando me enviou, não tomei por livro autografado: era uma carta! Claro, uma carta endereçada a mim, e assinada por meu amigo! Eu li cada um dos capítulos da carta, que tinha brochura e capa! Mas era pra mim, era assinada ao final por meu amigo David Coimbra. Aquela carta era o sinal definitivo: “tá bom, estou com passagem comprada para julho de 2022, em férias, e meu primeiro compromisso, será ir na redação, ou mesmo bater em sua casa, e encontra-lo! Já estou com 51, conheço-o desde os 16, 17 anos, já é tempo de abraçar meu amigão!

… e veio o dia 27 de abril de 2022.

Em julho, vou levar o livro. Vou pedir para o Diogo, o Maurício, o Potter, a Kelly, o Guerrinha, o Pedro, o Leonardo, o Luciano… vou pedir para todos assinarem o livro por meu amigo… 

… meu melhor amigo, que morreu sem me conhecer…!


Luís Augusto Menna Barreto

30 de maio de 2022


domingo, 1 de maio de 2022

Governo Eficiência 100%


— Olá, boa tarde, S. Alfredo está?

— (Cof-cof)… pois não, sou eu mesmo…

— Nós somos do Governo, S. Alfredo! O Senhor esteve consultando pelo SUS, ontem pela manhã?

— Sim…?

— Bem, por isso nós estamos aqui! É sobre o seu exame!

— Meu Deus! (Cof-cof)… nem acredito! Disseram que eu deveria ir marcar mas que não conseguiria exame para antes de seis meses… eu até brinquei que até lá eu nem estaria mais vivo!

— Exatamente, seu Alfredo!

— … oi?

— Exatamente! Este governo está implantando uma gestão muito mais eficiente, para evitar desperdício de dinheiro público. Então, todas as consultas do SUS estão passando por uma triagem, e os casos mais graves nós estamos visitando imediatamente!

— Nossa! Nunca imaginei que o governo pudesse ter essa eficiência toda! 

— A gestão foi profissionalizada, S. Alfredo, o senhor não precisa mais se preocupar! A partir de agora, não haverá mais nenhum desperdício. Nosso novo slogan é "eficiência 100%"!

— Para… (cof-cof) … béns! Finalmente, o governo que a gente espera! E quando vai ser meu exame?

— Ah!, o senhor não precisa mais se preocupar com isso!

— Ótimo. Quando vai ser?

— Não vai mais ter exame, S. Alfredo, o senhor não vai precisar se preocupar em levantar cedo, entrar em fila, esperar, nada disso!

— Como assim? O exame vai ser aqui em casa?

— O senhor não entendeu: não vai mais ter exame!

— Mas… (cof-cof) … o médico falou que meu caso é grave!

— Justamente, S. Alfredo! Agora, os médicos do SUS são obrigados a passar imediatamente todos os casos graves para nossa junta médica e analisamos quais valem à pena. No seu caso, seria só desperdício de dinheiro!

— Como assim?

— Seu caso é terminal, S. Alfredo! Não vale a pena gastar dinheiro no seu tratamento!

— Mas… mas o médico (cof-cof)… ele me disse que dependendo do resultado dos exames, se eu começar logo a medicação e fizer o tratamento, posso ter mais dois ou três anos de vida…

— Não, S. Alfredo! Veja, nosso governo, eficiência 100%, analisou seu caso: o senhor não teria condições financeiras para comprar toda a medicação necessária, nem mesmo de comparecer para a realização do tratamento! E para receber do governo, o senhor teria de pegar 2 coletivos para ir e 2 coletivos para voltar, toda a semana, entrar na fila, irritar-se com o mau atendimento, e esse esforço todo iria fazer a sua saúde piorar. De um jeito ou de outro, o senhor não duraria os três anos!

— Mas… mas…

— Não… nem se incomode, não precisa agradecer! O governo eficiência 100% está aqui para resolver seus problemas!  A propósito, o senhor sabe onde é a casa da D. Gertrudes?

— É… (cof-cof) aquela ali na frente!

— Obrigado, S. Alfredo! O governo deseja-lhe uma morte breve e feliz!

— Boa tarde. Dona Gertrudes?

— Sim…? 

— Nós somos do governo. Aqui na nossa ficha diz que a senhora está com mais de 75 anos…?

— Estou com 78 anos na verdade! E me sinto ótima! Vou longe, ainda!

— Justamente! Nós viemos trazer este comunicado que a sua caderneta de poupança foi transferida para o governo!

— O que?! Mas é um absurdo! Eu tinha trinta mil reais na poupança, passei minha vida toda juntando esse dinheiro para caso de necessidade!

— Exatamente! No nosso governo, evitamos qualquer desperdício e nosso lema é "eficiência 100%”. Detectamos que a senhora ficou juntando dinheiro a vida toda e nunca usou a poupança. Ora, se não usou a poupança em 78 anos de vida, não será agora que restam poucos, que a senhora usará! E veja: por uma questão de metas, baixamos a expectativa de vida para 65 anos e, então, a senhora já está com 13 anos além da expectativa projetada! 

— Mas… e se eu fico doente, se sofro um acidente? 

— Ora, D. Gertrudes, nessa idade, não valeria à pena a senhora gastar o dinheirinho que suou a vida inteira para juntar! Uma vez que a senhora ultrapassou a meta de expectativa de vida, o governo recomenda que a senhora não gaste mais nada com remédios ou médicos, e, em caso de enfermidade, deixe-se morrer tranquilamente. Isso aliás, pouparia muito para a senhora!

— Como assim?

— É que o governo criou um imposto de sobrevida, com alíquota progressiva! Qualquer um que ultrapassar a meta da expectativa de vida que foi reajustada para 65 anos, terá que pagar 5% de imposto para cada ano vivido a mais! 

— Isso é um disparate! Desse jeito, nós idosos vamos acabar nos matando!

— Bem, se a senhora optar por esta solução, nosso governo está implementando um programa de incentivo e apoio ao suicídio, de modo a que a senhora pode suicidar-se tendo 50% das despesas subsidiadas pelo governo… mas vai precisar de um fiador!


Luís Augusto Menna Barreto

2.5.2022

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O Cedecê, o Desmorrido e a Black Friday

 


Eu já contei algumas histórias sobre a “Black Friday”, especialmente histórias que aconteceram no Marajó. Porque tu sabes que tem coisas que só é possível acreditar, porque acontecem no Marajó!

Pois essa foi outra da “Black Friday”… no Marajó:

Eu lembro que em 2019, quando houve a inauguração da loja Americanas em Marajó City, a “Black Friday” foi um acontecimento. E eu cheguei a contar duas histórias sobre aqueles eventos maravilhosos.

Em 2020, ainda que houvesse a pandemia como uma nova realidade imposta, houve, também um ou outro caso, mas nem cheguei a contar… ainda! Mas o que aconteceu antes, naqueles meus maravilhosos anos de Marajó, é algo difícil de acreditar. Bem, mas nem tudo que conto eu espero que acreditem, porque eu mesmo lendo, penso que se eu não tivesse vivido tudo isso, eu duvidaria! Só posso afirmar que são histórias reais, e que eu as vivenciei. Se tu és Marajoara, certamente não duvidas. Se não és Marajoara, eu rememoro Shakespeare: “Há mais mistérios entre o Céu e a Terra, do que tua vã filosofia possa imaginar”. Então, um conselho: se não vais acreditar, apenas não duvides, antes de conheceres o Marajó e suas gentes!

Pois, como era de se esperar, era sexta-feira! “A” sexta-feira! A aglomeração na frente das lojas locais era inenarrável! Mal o Tonelada dispersava uma briga aqui, surgia uma outra escaramuça ali, todas em frente às lojas que abrem as portas à meia noite de quinta-feira para sexta-feira. Daí, que normalmente, por volta do meio dia, as confusões vão terminando e a cidade começa a recuperar um ritmo lento. Isso tudo, sem contar o sol, que faz com que a cidade fique com as ruas desertas a partir do meio dia. Daí, que a partir de 12 horas, é raro chegar ao fórum qualquer caso, ou mesmo, qualquer pessoa presa em flagrante delito, porque até os malandros respeitam o horário da sesta.

Mas naquela sexta-feira de “Black Friday”, o Fechadura chegou apresentando o Cedecê!

Eu confesso que estranhei, porque o Fechadura é o carcereiro e “faz tudo” na delegacia, mas raramente apresenta os presos. Normalmente chamam o Tonelada, policial militar, porque com ele, ninguém “se rebarba”, como dizem por aqui!

— Fala Fechadura! Tu, trazendo preso? 

— Esse fui eu que dei voz de prisão, doutor!

— E agora tu também sai atrás de preso, Fechadura?

— Não fui atrás, doutor! Ele que veio na delegacia!

— Hein?

— Foi lá fazer reclamação, doutor! Disse que foi enganado na “Bléqui Fráidi”. 

— E tu prendeste o caboclo por ir reclamar?

— Tava com droga, doutor! Fosse o Tonelada, já ia botar no 33. Eu acho que é 28, daí trouxe para o senhor, logo!*

Eu não estava entendendo muito bem, então, decidi perguntar logo para o Cedecê!

— Caramba, Cedecê, e tu tá doido? Entrar na delegacia com droga? Logo na delegacia? E como o Fechadura descobriu que tu estavas com droga? Ele farejou?

— Eu que mostrei, doutor!

— Hein?

O caso foi o seguinte: o Cedecê sempre arruma confusão no comércio dizendo que o comerciante está infringindo o “CDC" (Código de Defesa do Consumidor). Acontece, que o Cedecê é usuário de drogas, e “diz que”** que até a droga entrou em promoção na “Black Friday”. O problema é que na boca da Simulada, ela até baixou o preço, mas daí, para compensar, aumentou na mistura. Então o Cedecê fumou, mas não deu barato. Ficou indignado! Foi pedir a intervenção da autoridade, para dar jeito e a Simulada diminuir a mistura!

Isso já era bem “diferente" para uma sexta-feira, mesmo de Black Friday! Mas o dia ainda reservaria mais uma situação peculiar!

Perto de fechar as portas do Forum, por volta de 14h, o Goela entra no gabinete, com aquela cara de quem sabe que que vou ficar estressado:

— Doutor, parece que o Barganha tá precisando de ajuda!

— Qual é, Goela? O Barganha já tem mais de 20 anos de fórum, que ajuda que ele pode precisar…?

Mal falei isso e ouvi a D. Boneca, que cuida da limpeza do Fórum, passar apressada pelo corredor em direção à porta da rua, e logo depois, a Tutela saindo correndo:

— Credo em cruz, ave Maria, sai pra lá, visagem! — Saíram gritando!

— O que é isso, Goela?

— Falei, doutor! É que o Ralhado desmorreu.

— Hein?

— Doutor, o Ralhado é o Raimundo Anunciação dos Prazeres.

Tentei puxar pela memória, afinal não eram tantos processos assim. Repeti o nome, de forma “espichada”, como a gente faz quando quer tentar lembrar:

— Raimuuuuuuuuundo…

Lembrei:

— Raimundo Anunciação dos Prazeres? Mas ele morreu, o inventário tá no fim! Não tem filhos, vai ficar tudo pra Arraia! — (“Arraia”, é a Socorro dos Anjos de Oliveira, viúva… eu acho!)

— Pois se morreu, é a alma penada que tá lá com o Barganha, doutor!

Mandei chamar. Confesso que quando o Goela virou as costas, até fiz o Sinal da Cruz. E quando o Caboclo entrou, senti um arrepio na espinha, mas tentei manter a pose!

— Tu que és o Raimundo Anunciação dos Prazeres?

— Sou eu, sim senhor!

— Meu Deus! Tem um inventário tramitando há mais de 5 anos! Que bom que demorou e não mandei expedir os formais de partida ainda! Ia ser muito mais complicado para o senhor recuperar os bens!

— Doutor… sabe o que é… eu não queria recuperar nada não. Na verdade, doutor, nem quero desmorrer!

— Hein?

— Sabe, doutor, a Arraia era muito braba. No começo era bom, mas logo virou só briga! Não podia me ver numa rede, que logo arrumava uma terra pra roçar, um matapi pra por no rio, um açaizal pra me fazer tirar palmito, doutor! A vida era muito sofrida! Daí que conheci a Escondida lá pra bandas da água grande da baía, e fui logo me engraçando com ela, doutor! Deixei tudo pra trás sem fazer caso, e a Arraia encontrou o casco que eu tava e logo achou que me afoguei por estar bebido! Eu vim duas ou três vezes na cidade e fiquei sabendo que eu tava morto! 

— Mas agora tu estás vivo, Ralhado!

— Carece não, doutor! Nunca vivi tão bem, quanto depois de ter morrido! 

— Mas tu não vieste aqui pra desmorrer? Vou ter que anular o inventário e te desmorrer, Ralhado!

— Faça isso, não, doutor! Pior que uma ex-mulher, é uma ex-viúva! E eu só vim aqui, por causa da “bléqui-fráidi”!

— Hein?

— Doutor, como to morrido, meu crediário não passa! Queria comprar um fogão pra Escondida, aproveitando a “bléqui fráidi”. Daí queria ver se o senhor podia me dar um papel pra ressuscitar só um instante, e autorizar fazer um crediário! É o tempo de fazer a compra e eu “desvivo” de novo!

Pois é… tem coisas que só no Marajó.


*Referência aos artigos 33 e 28 da Lei 11.343/2006. O primeiro (artigo 33) trata do tráfico propriamente dito, com previsão de pena bem maior que o segundo (artigo 28), que trata de consumo.


**“Diz que”, é uma expressão corrente no Marajó, que se pronuncia quase como se fosse apenas uma palavra com o som “dísqui”, quando se quer referir a comentários dos quais não se sabe a origem! Por isso que na oração, no texto, a expressão “diz que” é seguida de mais um “que”. Equivale a “diz-se”, como na frase:  “Diz-se, por aí, que brasileiros são alegres” = “Dísqui que brasileiros são alegres”.


Luís Augusto Menna Barreto

27.11.2021 

terça-feira, 23 de novembro de 2021

bora cronicar - Nem Queira Saber

 


— Pergunta-me o que aconteceu na casa da Vanusa!

Tudo bem, eu usei ênclise, porque ficaria desagradável a primeira linha da crônica começar com um erro de colocação do pronome obliquo. Mas agora que eu já disse isso, vou colocar a frase como elas realmente falam:

— Me pergunta o que aconteceu na casa da Vanusa!

Sim, nesse momento, tu já farejaste a encrenca. 

Tu estás ali, na mesma poltrona em que estavas na crônica “Nem Te Conto”*, latinha de cerveja na mão, televisão ligada no jogo que não é do teu time, ou seja, estavas em completa paz, apenas tu e o cachorro em casa, e ela chega com a variação do “Nem Te Conto”, essa tal de “me pergunta o que aconteceu na casa da Vanusa”!

Quanto ela chega dizendo “Nem Te Conto”, ao menos tu tens um fio de esperança enquanto o cérebro processa todas as informações, porque tu sonhas por breves milésimos de segundo, que é verdade que ela “nem te contará” o que aconteceu. Tudo bem, é uma esperança muito breve; mas uma esperança breve é melhor que uma não esperança! 

Mas quando ela vem com “me pergunta o que aconteceu”, não sobra nada para tu te agarrares! Não há margem de esperança! O cérebro recebe e interpreta a frase, entendendo que, embora aparentemente retórica, a frase é, na verdade, peremptória, é uma ordem!

Tu sabes que acabas de perder a chance de ver o jogo, a chance de simplesmente não precisar torcer nem secar, a chance, enfim, de tomar uma cerveja como ela deve ser tomada: na ilusão que tu és o senhor absoluto do lar (ilusão que inevitavelmente é quebrada diante de uma frase como “me pergunta o que aconteceu na casa da Vanusa”). Aliás, essa Vanusa, tu sequer sabes quem é!

Mas não é só isso: tu tens que estar sempre preparado para reagir rápido. Se tu demoras degustando a decepção do jogo interrompido e da cerveja que não terá o mesmo gosto, lá vem:

— Va-iiiiiiiii (assim, separado e com o “i" esticado), pergunta logo o que aconteceu na casa da Vanusaaaaaa!

Claro, essa é a hipótese boa, no caso de ela estar num dia de excelente humor e com paciência; porque a variante dessa forma de “reperguntar" é um olhar mais zangado, já condenando a televisão ligada no jogo e chocando com os olhos a cerveja que estava na tua mão, a qual tu sequer terás a coragem de continuar tomando:

— Anda, pergunta logo o que aconteceu na casa da Vanusa!

Então, reconhecendo a derrota, com a inteligência do homem médio que sabe que há batalhas que já iniciam perdidas, e na vã esperança de seres recompensado nas lides amorosas após tu lavares toda a louça, tomares banho e esperares ela terminar de ver a novela, tu te rendes e obedeces, perguntando como ela havia delicadamente sugerido a ti:

— Ta bem (suspiro, pausa longa): o que aconteceu na casa da Vanusa?

Então ela solta essa:

— Ah!, nem queira saber!…

Pronto! Agora tu entendes que não perderás nenhum detalhe!


*Para ler "Nem Te Conto", CLIQUE AQUI


Luís Augusto Menna Barreto

2 de outubro de 2021

terça-feira, 16 de novembro de 2021

bora cronicar - Nem Te Conto

 


Ah, se fosse verdadeira a frase do título… Mas não é! Estejas preparado, pois, quando ouvi-la!

O centroavante acaba de receber o cruzamento, e por conta daquela estranha precisão digna de cientistas da NASA, ataca a bola com a testa, num movimento de proposital impacto, de modo a que, com a força aplicada, muda a trajetória da bola que, antes paralela ao gol, agora descreve um ângulo quase reto, perpendicular, infinitamente mais rápida que qualquer raciocínio. Somente um movimento reflexo, desses que o cérebro parece ter guardado para uso em ocasiões especiais, em que não temos tempo de recorrer a qualquer lógica, a qualquer elaboração mental, pode salvar o gol iminente!

Pois é neste momento exato que tu a ouves! Tu não a viste chegar, afinal, as mulheres tem esta arte de chegar propositadamente sorrateiras (outro dia falo sobre a diferença de homens e mulheres chegando em casa). Pois assim, mais do que a presença dela, a frase pronunciada pega-te de surpresa, tal qual o centroavante antecipando-se ao zagueiro.

Tu estavas ali, tranquilo, sentado no sofá da tua casa, televisão ligada no jogo que nem é do teu time e, por isso, até melhor de ver; nenhum pensamento na cabeça, quem sabe com aquela latinha de cerveja ao lado, e ela chega com a frase da qual tu não escaparás:

— Nem te conto o que aconteceu!

A partir desta frase, o teu cérebro, já meio entorpecido pela cerveja e pela deliciosa ausência de pensamentos, dispara bilhões de choques elétricos: primeiro, chegam vibrações do ar, as tais ondas sonoras, captadas por nossa audição… É um momento de torpor, ainda, em que o cérebro recebe os sons, como se fossem refugiados, ainda sem nomes, ainda sem destinos, ainda sem maiores informações, para então coloca-los em fila, interroga-los, organiza-los e destina-los. Os sons são transformados em palavras que entendemos e organizados de maneira que tenham alguma lógica. A seguir, ainda no tempo em que a bola viaja da testa do centroavante em direção ao gol e o cérebro do goleiro também está disparando mil informações para que o corpo reaja, tu recebes do teu cérebro a frase no sentido literal, que é a primeira interpretação, com as primeiras informações que o cérebro dispõe naqueles microssegundos: “Nem te conto…”.

Enquanto a bola viaja micrômetros e teu cérebro vai processando novas informações das ondas de luz da tua visão periférica, tu chegas e ensaiar um sorriso diante da literalidade da informação: “nem te conto…”.

Algo dentro de ti responde ao cérebro: “ótimo! Já está bom! Nem me conte! Cancele quaisquer outras informações! Eu fico apenas com o ‘nem te conto’”…

Mas é tarde! A bola avança mais, suspensa no ar, ainda sem se render à força da gravidade, e teu cérebro, esse desobediente, envia mais informações: a entonação da voz dela, sugerindo que não foi uma frase isolada; a aproximação em uma trajetória que o cérebro prevê como destino a frente da televisão, postando-se no caminho entre teus olhos e a tela. E o pior: a definitiva informação de que a frase encaixa-se nos exatos padrões de outras tantas pronunciadas rigorosamente iguais ao longo dos anos: “Nem te conto o que aconteceu!”.

Então, agora já com todas as informações sobre a frase, já com o contato visual irremediavelmente estabelecido, teu cérebro entrega a correta interpretação da frase:

“Nem te conto o que aconteceu”: significa que ela vai sim, contar-te algo que seguramente não será mais importante do que um jogo de futebol que não é do teu time, ela vai dar-te detalhes sobre fatos que tão logo tu os receba, serão involuntariamente deletados, embora tu saibas que num breve futuro, tu serás inescrupulosamente sabatinado sobre o que ela “nem te contaria”, sem qualquer chance de acertares uma das respostas. “Nem te conto o que aconteceu”, é o prelúdio de uma novela para a qual não queres o ingresso. “Nem te conto”, significa, enfim, que ela contará TUDO, absolutamente TUDO o que não queres saber sobre a última fofoca acerca das pessoas que nem sabes quem são, e não será pelo microssegundo da bola viajando ao gol! Será pelo tempo do jogo inteiro, com direito à prorrogação e pênaltis. E tu estarás como que na Tribuna de Honra da fofoca, onde todo o foco do olhar dela será em ti, sem que possas nem comemorar o gol, nem xingar o juiz.

Quanto à bola que o centroavante havia cabeceado em direção ao gol, e que tu ansiavas para ver o desfecho, saboreando tua cerveja?

— Nem te conto o que aconteceu…


Luís Augusto Menna Barreto

15.11.2021

domingo, 31 de outubro de 2021

Eu, o Pilha e a Flor… (Ah!, tá bom: Eu, o Pilha e a Branquela Burra) - parte 5: metade final do EPÍLOGO


Oi, tia. Eu sou o Pilha. 

Eu sei que tu não tá acostumada a me ouvir contar histórias. É sempre meu amigo que conta nossas histórias. Mas hoje, eu que quero contar. 

Eu não sei o nome dele. No dia que ele chegou na minha sinaleira, eu perguntei o nome e ele não sabia. Eu perguntei como a mãe dele chamava ele. Eu não perguntei como o pai dele chamava, porque quem vai pra sinaleira pedir pros ricos, nunca tem pai. Ele me falou que a mãe dele chama de “estrupício”, de “peste”, de “moleque”… Mas eu não ia chamar assim. Daí, teve uma vez que eu disse pra ele: “deixa de ser mané!”. E ele ficou parado, olhando com cara de bobo. Daí, meio que pegou. 

Quando ele chegou na minha sinaleira, ele era muuuuuuuito mané. Não sabia nada. E ele era muito pequeno, não chegava na metade da altura das portas dos carros dos ricos. Eu tive que ensinar tudo pra ele. Eu lembro que ele nunca tinha andado de carro, e daí, eu ensinei como fazer pra ele conseguir. Ele disse que ficou tonto, que foi esquisito, porque ele que ficava parado e o mundo que passava correndo*. E eu quase morri de rir, no dia que levei ele pela primeira vez num elevador. Ele achou que tinha morrido e só ficava gritando que não queria ficar morrido, que queria desmorrer**. 

Ele fala muito. Fica o tempo todo falando. Ele fica repetindo “Pilha, lembra aquela vez…”, “Pilha, e aquela outra vez que a gente…”. Quando ele já contou muito todas as histórias que lembra, ele inventa uns jeitos diferentes de contar: “Ei, Pilha, já pensou se naquele dia que a gente fugiu do hospital, um rico parasse e nos desse carona? Pra onde tu ia querer que ele nos levasse? Ja pensou se ele nos levasse no Mac Donalds? Eu ia comer uns…”

Eu não gosto muito quando o mané inventa histórias. Porque ele é muito sem noção.

Outro dia, ele foi direto brincar com uns carrinhos que uns meninos ricos tinham deixado na caixa de areia do parquinho***. Ele acha que rico é como a gente. Pra nós, só é da gente o que a gente tá usando, enquanto a gente tá usando. Se a gente larga alguma coisa na rua, e outro pega, o outro que fica dono. É igual a nossa sinaleira. Se a gente não chega cedo e outro pega, é do outro, a gente perde o ponto. Rico não. Se ele larga um brinquedo, o brinquedo ainda é dele, e mesmo que ele não fique brincando toda hora, ninguém pode pegar um pouco. Então, quando ele começa a inventar histórias, é tudo sem noção. E eu tenho medo, porque ele começa a falar coisas que não existem, ou que a gente nunca vai fazer, e daí, depois, ele fica achando que a gente tinha que conseguir alguma coisa parecida com as histórias que ele inventa, e ele fica com raiva.

Um dia ele inventou uma história que a gente tinha três roupas. Ficou o dia todo falando das três roupas e que a gente podia trocar, e que elas não sujavam. Daí, no fim do dia, ele tava todo triste, porque a gente só tem uma roupa, e usa o tempo todo, e quando a gente tava indo embora do parquinho, ele disse que queria ter três roupas. E onde a gente ia guardar três roupas? Se ele tivesse duas, a mãe dele já ia vender uma pra comprar as pedras. 

Então, eu tenho que ficar de olho nele, e ir ensinando as coisas. 

Agora, ele anda mais quieto. Eu sei que ele ficou brabo comigo. E eu sei que foi por causa da Clarinha. Ele acha que ela vai me roubar dele e a gente vai deixar de ser amigo. Eu nunca vou deixar de ser amigo dele. E eu sei que a Clarinha é rica, vive no mundo dos ricos. E eu nem sei o que deu em mim, pra ir falar com ela. Mas ela é tão bonita. 

Depois que o São Jorge salvou a gente duas vezes****, a gente foi numa festa da Igreja que tem o nome dele, lá no final da rua com o rio no meio. E lá tem um vidro pintado com o São Jorge matando um dragão. Eu acho tão bonito, é tão colorido. E daí, eu já fui lá com o mané, um montão de vezes, só pra ver aquele vidro. Eu sei que a pintura não é minha. E eu não quero pra mim. Eu só gosto de ir lá e ficar olhando. E quando vou lá, o Padre não fica dizendo pra gente ir embora. E teve uma vez, que ele até deu um copo de leite bem quentinho pra nós dois e disse que a gente podia sempre voltar pra ver o vidro.

Eu acho que com a Clarinha é assim: uma sensação parecida de olhar o vidro do São Jorge, tomando leite quente num copo limpo! Só que é muito mais forte. Quando ela vai no parquinho, dá vontade de ir lá perto e até falar com ela. Quem leva ela no parquinho é a Tetê. Eu já conhecia a Tetê, porque ela já namorou meu irmão, antes de prenderem ele. A Tetê fica de olho, de longe, mas pelo menos não fica mandando eu sair de perto da Clarinha. A Clarinha não é como as outras crianças ricas. Ela não gosta que joguem pedrinhas no Uálquim. E também grita com outros garotos ricos quando eles correm atrás do cachorro de pata torta do velho “Muleta”. Eu acho que a Clarinha nasceu errado. Não era pra ela ser rica. Porque ela nem pensa igual os ricos!

O mané tá com muita raiva da Clarinha, porque naquele dia, ela disse que não me conhecia, e o bigodudo que tava dirigindo jogou ele no chão. E o mané disse que a Clarinha é uma mentirosa porque falou que ele era assaltante e depois disse que não conhecia a gente. E depois de tudo, o mané achou que eu poderia estar com raiva dele. 

Sabe… eu não fiquei com raiva. Eu não sei explicar. Acho que eu tava mais preocupado com a raiva do mané. Ele disse que tava com raiva de Deus, e eu fiquei preocupado. E eu tava preocupado com a Clarinha.

Sabe tia, eu não fiquei brabo com a Clarinha quando ela olhou pra mim, e disse para a mãe dela que não me conhecia. Eu acho que naquela hora, eu fiquei feliz demais com a Clarinha. Eu não sei explicar, tia, mas eu vi que a boca disse que não me conhecia, e os olhos da Clarinha diziam outra coisa. Foi por isso que ela olhou nos meus olhos. Não foi pra mentir na minha cara. Foi pra falar comigo com os olhos, enquanto a boca falava com a mãe dela. Então eu vi que ela nasceu errado mesmo.

O mané não entende, acho que ele é muito pequeno. E ele tá com raiva, então eu também sei que não adianta eu querer explicar pra ele, porque quando a gente tá com raiva, a gente só ouve o que quer. Mas eu sei, que se a Clarinha dissesse que me conhecia, ela nunca mais ia poder me ver. Nem ir no parquinho.

Tia… se ela disse pra mãe dela que não me conhecia… bom… tia…

… a Clarinha gosta de mim!

(FIM)


*Vide Eu e o Pilha

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**Vide Eu, o Pilha e a Caixa Mágica

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***Vide Eu, o Pilha e os Brinquedos de Deus

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****Vide Eu, o Pilha e os 35 Pilas. Vide também, Um Conto do Pilha

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Luís Augusto Menna Barreto

31 de outubro de 2021

domingo, 24 de outubro de 2021

Eu, o Pilha e a Flor… (Ah!, tá bom: Eu, o Pilha e a Branquela Burra) - parte 4: primeira metade do EPÍLOGO



Essa escola é melhor! Eu fiquei feliz quando a mamãe teve que mudar de cidade por causa do trabalho. Eu não gostava daquela escola só de meninas. A gente nem podia brincar direito, que logo vinha uma professora dizer que meninas não podem se comportar assim! 

Eu já estudei em muitas escolas. Teve um ano, que foram três escolas diferentes. Uma delas foi muito ruim, porque eu não entendia nada. Falavam outra língua, que não era nem o inglês que eu sei um pouco. Era uma cidade bonita, em que passavam navios maiores que uma montanha, e a mamãe falou que eles vão de um oceano para outro bem pertinho da cidade! Eu não sei direito o que a mamãe faz, mas ela trabalha muito. Tem dias que nem vejo ela. Ela nunca tem tempo de brincar. Deve ser triste nunca ter tempo de brincar. Ela sempre me diz que ela trabalha por minha causa, pra garantir meu futuro. Eu acho que esse tal futuro deve ser horrível, eu tenho muito medo. Porque em toda cidade nova que a gente chega, mamãe me coloca em aula de inglês, piano, natação, e tênis. E diz que tudo isso é para eu estar preparada para o futuro. Será que nesse futuro, só pode entrar quem souber tudo isso? Eu não gosto de piano, mas eu me esforço, porque tenho medo de não aprender e não conseguir ir para o futuro. Daí, eu também quase não tenho tempo de brincar. Quem cuida de mim, agora, é a Tetê. E tem o “Rúlio”, mas que escreve com “jota”, que dirige o carro. Ele e a Tetê que me levam em todos os lugares que mamãe diz que tenho que ir. O “Rúlio” está com a gente desde a cidade dos navios gigantes. A Tetê, cuida de mim há pouco tempo. Desde que chegamos nessa cidade. Eu gostei da Tetê. E acho que o “Rúlio" também gostou, porque eu já vi eles brincando juntos. Teve um dia que eu saí da aula de inglês e quando fui para o carro, eles estavam brincando tanto que o carro tava balançando, e eu tive que bater várias vezes na porta pra eles abrirem pra mim!

Na minha escola nova, eu posso usar bermudas. É melhor que saia. E eu já consegui arrumar dois amiguinhos. Bom, pelo menos eu acho que consegui dois, porque um deles não sabe falar direito. Eu achava ele estranho. Um "estranho legal", mas agora eu já me acostumei. 

Quando eu vi eles na primeira vez, foi no recreio. Um estava abaixado bem no meio do caminho de pedras por cima da grama. E ele parecia brigar com quem chegava perto. Ele só olhava brabo e fazia “hum-hum”. E não se levantava de jeito nenhum. Até que o garoto “estranho legal” chegou perto e começou a falar para outros meninos que estavam correndo por ali, para passarem por outro lado. Uns até empurraram o “estranho legal”, mas acho que ele conseguiu convencer que passassem por outro lado. Daí, ele foi buscar água num copinho e deu para o que estava abaixado. Quando tocou o sinal do fim do recreio, e todas as crianças começaram a ir para a aula, o que estava abaixado deixou o copinho vazio no chão e foi. O “estranho legal” esperou e juntou o copinho. Daí eu fui lá falar com ele:

— Oi, eu sou a Clara. Mas pode me chamar de Clarinha. O que o teu amigo tava fazendo?

Ele me olhou e ficou todo vermelho. E ele gaguejava. Até hoje, mesmo ele já sendo meu amigo, ele sempre fica vermelho perto de mim. Por isso que eu acho ele estranho! O outro não é assim, não fica vermelho!

— Oi… eu… é… o Kadu? Ah… ele… ele… e-ele tá cuidando daquele plantinha ali, óh!

Era uma flor. E estava quebrada. 

Nos outros dias, sempre o Kadu e o “estranho legal” ficavam ali na hora do recreio.  E eu comecei a ficar com eles. Tinha um canteiro de flores perto do caminho das pedras, e várias crianças jogam bola ali perto, no recreio e acabam machucando as flores. 

Daí, um dia, quando a gente tava no recreio, um menino chutou a bola errado, e ela foi direto no canteiro de flores. Foi tão forte que chegou a quebrar e arrancar uma. O Kadu correu pra lá e pegou a florzinha arrancada. Daí ele me entregou a flor e falou com aquele jeito de artista, olhando pra outro lado, enquanto falava:

— Leva. Cuida. Planta ela.

Eu meio que fiquei sem saber o que fazer, mas daí, quando saí da escola, falei pra Tetê o que tinha acontecido e que queria plantar a flor. A mamãe estava viajando a trabalho e eu tinha aula de inglês e natação. Mas a Tetê disse que se eu não contasse pra mamãe, ela deixava eu matar a aula de natação e me levava numa praça que tinha canteiro de flores que eu poderia plantar, e daí, a gente chegaria mais cedo em casa e ela iria no cinema com o “Rúlio”, mas eu também não podia contar isso para a mamãe. 

Eu fiquei muito feliz, porque a mamãe nunca me levava para brincar e sempre arrumava tanta coisa pra eu fazer, que eu nunca ia em nenhuma praça. Quando chegamos, a Tetê disse que eu podia brincar um pouco, e ela ia ficar com o “Rúlio" no carro. Eu adorei. Tava cheio de crianças. Tinha criança no balanço, na gangorra, no escorregador… até em cima de uma árvore, eu vi dois meninos. Mas eu tinha que cuidar da flor antes de brincar. Então eu fui num canteiro de flores bem perto do parquinho, pra tentar plantar de novo a flor que o Kadu me deu. Eu levei o maior sustão, porque quando eu me abaixei, um cachorro com uma pata torta saiu correndo do meio das flores. Eu acho que ele estava escondido ali e também se assustou. Daí, uns garotos viram e saíram atrás do cachorro, jogando umas pedrinhas nele, mas ele correu e se enfiou em um arbusto perto de um banco onde tinha um velho sentado e o velho ralhou com os garotos. Então, eles deixaram o cachorro em paz e voltaram para os brinquedos. E foi só nessa hora, que eu lembrei que eu não sei como cuidar de uma flor. Nunca morei em casa, pra ter pátio e flores. A mamãe disse que prefere apartamentos, porque como ela viaja muito, ela diz que é só fechar uma porta e pronto, e que casa dá muito trabalho.

Bom, mas as flores todas vem do chão, né?! Daí, eu fiz um buraquinho no chão, perto de outras, e coloquei ela ali dentro, igual a gente coloca num vaso. Depois, eu fui brincar um pouco no balanço. Quando a Tetê me chamou e eu já tava entrando no carro, eu vi quando um dos dois garotos desceu da árvore e foi até o canteiro.

No outro dia, na escola, eu contei para meus dois amigos, que tinha plantado a flor no canteiro da praça. O Kadu sorriu e correu para o canteiro da escola e pegou outra flor quebrada e me deu:

— Planta! Hum-hum. Planta!

Daí, Eu peguei a flor de novo. E eu pedi pra Tetê me levar na praça outra vez. Ela fez eu prometer que eu não ia contar para a mamãe que ela iria sair mais cedo, e nem que eu tava indo na praça. Quando cheguei lá, depois da aula de inglês, fui correndo ver a flor! E tava linda! Nem parecia a flor que eu tinha plantado! Tinha sarado o machucado do caule, nem tava mais quebrado, e o buraquinho que eu tinha feito, tava todo tapado com terra em volta dela! 

Eu fiquei super feliz. Só não conseguia entender direito. Daí, eu ouvi, parecia uma risada dessas que a gente dá quando tá feliz, e fiquei procurando quem era. E vi os garotos da árvore, que estavam lá de novo. O menor, que estava no galho mais baixo estava sério, mas o garoto que tava bem no alto da árvore, tava sorrindo! E ele tava olhando bem pra mim, eu acho. Então, eu vi as mãos dele todas sujas de terra. E eu fiquei desconfiada… será que foi ele quem arrumou a florzinha que eu tinha plantado? Então, eu peguei a outra florzinha machucada que o Kadu tinha encontrado, e fiz outro buraquinho bem perto da que eu já tinha plantado. E eu olhei bem pra ela, quase querendo decorar como ela era. Porque eu queria descobrir se eu que sabia plantar, ou era aquele menino da árvore.

Quando a gente chegou em casa, levei um susto, porque a mamãe já estava! A Tetê nem pode sair mais cedo com o “Rúlio”. Mas a mamãe nem percebeu, eu acho, que eu tinha chegado, porque ela estava em uma chamada de vídeo pelo MacBook e ao mesmo tempo digitava no celular. Quando eu já estava na cama, ela apareceu no quarto para me dar um beijo de boa noite, e disse que iria me pegar na escola para almoçarmos juntas.

— Oba! Vamos comer hambúrgueres, mamãe?

— Lógico que não, Clara! Vamos em um maravilhoso restaurante que a tia Bella indicou, que fica na estrada. Mas eu tenho certeza que você vai adorar!

Daí, no dia seguinte, a mamãe estava esperando na saída da escola e fomos. Agora, com essa doença que faz a gente usar máscaras, a gente anda com os vidros do carro um pouco abertos. Eu gosto muito mais quando os vidros estão abertos e entra vento. Mas quando a gente tava parando em uma sinaleira, a mamãe mandou o “Rúlio" fechar os vidros.

— Feche os vidros Julio! Ah que coisa! Pessoas decentes não podem mais nem andar tranquilas que esses delinquentes já vem querer assaltar ou pedir esmolas! Clara, nem olhes para eles! Eles querem assaltar ou pedir dinheiro para comprar coisas que fazem mal! Jamais deixe um desses mendigos chegar perto de ti, Clara! São pequenos bandidinhos! 

Eu fiquei curiosa e virei a cabeça pra ver. Mas a mamãe me xingou:

— Clara, eu mandei tu não olhares! Eu não te quero nem olhando para esses marginais, ouviste? Eles são assaltantes! 

— Sim, mamãe!

Eu queria olhar mais. Mas eu sabia que não podia. 

A mamãe viajou de novo no outro dia, e, na escola, o Kadu e o “estranho legal” todos os dias entregavam uma flor machucada arrancada dos canteiros da escola, para eu plantar no parquinho. E teve um dia que o garoto do galho mais alto desceu e veio falar comigo. O garoto menor ficou no galho.

Quando o garoto chegou perto, meu coração parece que ia sair pela boca, porque ele parecia com os meninos do sinal, que a mamãe diz que são bandidinhos. Mas as mãos dele estavam sujas de terra, e eu achava que era ele que estava salvando as flores que eu trazia. Daí, eu fiquei assustada, mas fiquei ali. 

— Oi. Quer que eu te ensine como plantar?

A roupa dele era toda suja, mas a máscara era novinha. E mesmo de máscara, parecia que dava pra ver que ele estava sorrindo. E bandido é brabo, bandido não sorri, né?! Então, eu fiz que sim com a cabeça.




— Eu sou o Pilha. E tu?

— Clarinha.

— Oi Clarinha.

Ele se abaixou e começou a cavar com as mãos.

— Toma. Pode usar as minhas pazinhas.

Ele me olhou e parecia um sorriso. Pegou uma das pazinhas e disse:

— Tu pega a outra e faz como eu.

Daí, depois daquele dia, todos os dias, o Pilha ensinava como plantar. 

Até que chegou o dia que a mamãe foi me levar no restaurante do amigo da tia Bella de novo. A mamãe estava enviando mensagem pelo celular e não viu que a gente tava chegando no sinal que tinha uns assaltantes. Daí, quando o “Rúlio" parou na sinaleira, um deles colocou as mãos no vidro e eu fiquei muito assustada, porque a mamãe sempre falava que eles iriam assaltar. E eu gritei. Então, o “Rulio" abriu um pouco a porta e segurou o menino pelo braço e jogou pra longe do carro. Mas chegou outro e empurrou a porta que o “Rúlio’' abriu. E esse outro, era o Pilha, o meu amigo!

— Pilha?

E o Pilha gritou:

— Ele não é ladrão! É meu amigo!

E eu acho que a mamãe ouviu eu falar o nome dele, porque ela me olhou furiosa e perguntou:

— Clara, tu conheces esses mendigos?

Quando a mamãe perguntou, o Pilha me viu e sorriu. E eu fiz a coisa mais feia que já fiz até hoje. Eu fiquei com medo de dizer para a mamãe que eu conhecia eles, porque daí, ela ia descobrir tudo: que eu não estava indo nas aulas de natação, que eu estava indo no parquinho, que a Tetê e o “Rúlio" me ajudavam a ir no parquinho… E eu sei que eu ia ganhar um castigo muito grande e que a mamãe iria despedir o “Rúlio" e a Tetê, e eu nunca mais iria ver o Pilha. 

Meu coração ficou tão apertado, que parecia que tinha uma coisa esmagando ele… daí eu falei:

— Claro que não, mamãe.

(Continua na semana que vem, na segunda metade do EPÍLOGO).


Luís Augusto Menna Barreto

24 de outubro de 2021