quinta-feira, 2 de abril de 2026

Volta Às Aulas - Um Conto de Márnei Cônsul

 


Na segunda-feira em que o filho voltou às aulas da educação infantil, Martha acordou antes do despertador. Não por amor à rotina, mas por alívio. Preparou o café com uma alegria doméstica quase indecente, cantarolando enquanto cortava o pão em fatias tortas. Vestiu o menino com cuidado excessivo: mochila pronta, lanche saudável e beijo na testa. Na porta da escola, acenou mais tempo do que o necessário. Quando o portão se fechou, respirou fundo: estava oficialmente livre por quatro horas.

Chamava aquilo de “tempo para si”, expressão que aprendera em postagens femininas e aplicava com rigor seletivo. Seu tempo para si tinha nome, cheiro de loção barata e o dom inconveniente de fazê-la rir das próprias mentiras: chamava-se Paulo e morava a sete quarteirões dali, num apartamento antigo com elevador lento e um sofá que rangia.

Martha chegou pontualmente como sempre. Tirou os sapatos, largou a bolsa no chão e beijou Paulo com a pressa de quem sabe que o relógio conspira contra. Riram de banalidades. Ela comentou que o filho adorara a professora nova; ele respondeu que o prédio estava com problemas no gás. Coisas pequenas, ditas entre um beijo e outro.

Depois, decidiram fazer café. Paulo colocou água para ferver numa panela antiga, herança de uma tia. Martha, num gesto automático, tentou alcançar a xícara mais alta do armário, apoiando-se numa cadeira. A cadeira cedeu com um estalo seco. Martha caiu para trás, rindo antes mesmo de sentir dor, e o riso se misturou a um grito breve quando a panela, traída pela gravidade, virou-se inteira sobre ela.

A água fervente encontrou o corpo cruelmente. Paulo tentou ajudá-la, escorregou no chão molhado, bateu a cabeça na quina da mesa. Por um segundo, ambos ficaram imóveis. Martha ainda conseguiu dizer “que coisa idiota”, com a voz já estranha, antes de o silêncio se impor.

Quando os vizinhos ouviram o barulho, era tarde demais para heroísmos. O socorro chegou com sirene exagerada para um apartamento daquele tipo. Os bombeiros tentaram manter a compostura diante da cena absurda: uma panela no chão, café espalhado e duas xícaras intactas sobre a mesa. Martha foi declarada morta ali mesmo, vítima de queimaduras graves e complicações imediatas. Paulo, atordoado e com um corte na testa, repetia que só iam tomar café.

A notícia chegou ao marido de Martha, Josefino, no início da tarde, interrompendo uma reunião irrelevante. Ele largou tudo e correu para o hospital, imaginando acidentes mais comuns, mais aceitáveis. No caminho, pensou no filho, na mochila colorida, no beijo da manhã. Pensou que a vida era feita de sustos, mas não de ironias tão elaboradas.

No hospital, as respostas vieram aos poucos. O policial pediu documentos, fez perguntas neutras demais. Um endereço que não era o deles surgiu na conversa como um erro. O marido franziu a testa. Por que Martha estaria ali àquela hora? Disseram-lhe que havia um homem, um tal de Paulo, “um amigo”. A palavra “amigo” caiu pesada e deslocada.

Foi ao apartamento. O elevador lento confirmou tudo antes mesmo de a porta se abrir. O cheiro de café queimado ainda estava no ar. Sobre a mesa, duas xícaras limpas. Na cozinha, a panela. No sofá, uma manta dobrada com cuidado íntimo. Na estante, um porta-retrato virado para baixo. Não precisou de confissão.

O marido sentou-se no sofá que rangia e riu. Foi um riso curto, sem alegria, que mais parecia um soluço educado. Pensou em Martha feliz naquela manhã, na pressa em deixar o filho na escola, no brilho estranho nos olhos. Pensou que ela morrera exatamente no intervalo que inventara para viver outra vida.

No velório, as pessoas repetiam frases prontas: “Uma fatalidade”, “Ninguém espera”. O marido concordava com a cabeça, olhando para o caixão fechado. Não contou a ninguém o que descobrira; guardou para si aquela verdade torta, como se fosse uma piada que ninguém mais entenderia. Quando o filho perguntou por que a mãe não voltaria para buscá-lo na escola, ele respondeu que, às vezes, os adultos erram o caminho.

Na semana seguinte, Josefino levou o menino às aulas. Na porta da escola, acenou com a mão pesada. A professora retribuiu o aceno, e ele reparou a ausência de aliança na mão dela. Quando o portão se fechou, ficou ali parado por alguns segundos a mais. Depois, virou-se e foi para casa, onde o café esfriava na xícara única sobre a mesa. “Poderiam ser duas”, pensou ele, decidindo ir levar o filho à escola todos os dias dali em diante.

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Márnei Cônsul é professor, escritor e servidor público em Santo Antônio da Patrulha/RS. Formado em Letras - Português/Inglês (UNISINOS) e pós-graduado em Educação em Direitos Humanos (FURG), Educação para a Diversidade (UFRGS), Educação Ambiental (FURG), Gestão Escolar: Orientação e Supervisão (São Luís), Língua, Literatura e Ensino (FURG) e Gestão Pública Municipal (FURG). Tenho formação continuada como Agente Cultural (IFSul). Escrevo poemas, contos, crônicas e romances. Publico desde 2009. Integra o Grêmio Literário Patrulhense desde 2013, tendo sido presidente da entidade no biênio 2023-2025. Participante do coletivo Desautores desde 2023. Como professor, atua desde 2009, tendo já passado pelas redes pública e privada de ensino, dedicando-se, atualmente, apenas a aulas particulares individuais ou em pequenos grupos pelo projeto "English for a better age".

Mantém o blog  Márnei Cônsul Escritor onde publica crônicas, contos, micro contos mantendo uma esccrita afiada e desafiadora, que tem um claro propósito de retirar-nos da zona de conforto. E ele consegue.

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segunda-feira, 30 de março de 2026

Só Fiz Ponhá a Ficha

 


Desta vez, não foi comigo.

(Ufa. Nem toda história precisa acontecer com a gente.)


Quem contou foi um colega — o Dr. Miguel — enquanto a gente puxava os meiões antes de uma pelada. Aliás, pouca gente imagina o que é apitar jogo entre juiz. O árbitro marca a falta e quase pede desculpa:


— Excelência… acho que foi falta… mas, se o senhor entender que não, posso estar equivocado.


O problema é que quem sofreu a falta também é juiz.


Mas essa é outra história.


A que o Miguel contou vem do tempo em que ele rodava interior — desses de caboclo pouco letrado, mas nada bobo.


Era audiência de alimentos.


O tipo do sujeito era conhecido: espalha filho como quem espalha semente. Tem quem chame de “boto”. Sempre tem uma história pronta, um discurso decorado:


— Doutor, ela gasta tudo em festa e deixa a criança largada.


Curioso como a festa nunca é problema quando é deles.


Quando não conseguem escapar com o “vou dando conforme puder”, tentam outra matemática: pedem a guarda. O filho vai pra avó paterna, vira mais um na conta, chama a avó de mãe… e a vida segue, empurrada.


Mas, segundo o Miguel, esse resolveu inovar.


Sala pronta: juiz, promotor, defensor, digitadora.


Entra a mãe, com o bebê dormindo no colo, uma fraldinha cobrindo o rosto. Logo atrás, o pai.


Mas não entrou cabisbaixo, não. Veio firme. Chegou até a estender a mão pra cumprimentar — desistiu no meio do caminho, quando ouviu um seco:


— Sente aí.


Miguel foi direto, como é dele:


— Vamos resolver. Quanto tu podes pagar por mês? Alguma coisa vais ter que pagar. Pai tu já disseste que és.


O caboclo respirou, como quem puxa um texto ensaiado:


— Doutor, vamos fazer assim: eu fico com a criança e ela não me dá nada.


A mãe quase levantou da cadeira:


— E tu vais dar de mamar como, seu infeliz?!


Ele nem se abalou.


— Doutor, o filho é meu. Tem que ficar comigo.


Miguel devolveu:


— É dela também.


Foi aí que veio a lógica.


— Doutor, o senhor já foi no aeroporto de Belém?


— Já… o que tem isso?


— Lá não tem aquelas máquinas de refrigerante?


— Tem.


O caboclo ajeitou o corpo, certo da vitória:


— Pois é. Se eu ponhá a ficha e sai a latinha… a latinha não é minha?


Miguel ainda ia responder.


Não deu tempo.


— Pois então, doutor. Eu só fiz ponhá a ficha nela. Saiu a criança… a criança é minha.


E cruzou os braços, como quem encerra um caso difícil.



Não lembro o que o Miguel decidiu.

Ou não falou — ou o jogo já tinha começado.








Luís Augusto Menna Barreto, em 27 de maio de 2016.


terça-feira, 24 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 7

 


Não que ela esperasse algo diferente. Mas a mensagem a Francisco ainda ecoava no vazio.


Bravo estava limpo. Alimentado. As feridas tratadas.  


A mãe desejava permanecer ali, velando o sono do filho. A vendedora de batatinhas sentia falta da calçada.  A provedora de si própria necessitava trabalhar. 


Com tempestade ou nos dias de sol escaldante, Dora nunca deixava de ir. E quando chegou com o carrinho, ainda que estivesse ausente um dia apenas, a sensação era a de que esteve longe e precisava atualizar-se. 


Viu Nazaré chegar e abrir a banca de revistas. Depois foi até Dora. 


— Bravo?


— Sim… 


— Francisco? 


— Não. — o “não” foi seco. Como quem encerra o assunto. 


Nazaré permitiu um instante de silêncio.

Então falou:


— Socorro está na UPA. 


— O de sempre? — Ela se referia à bebida.


— Não. Facada. No meio da tarde de ontem. Disputa com o Virado pela cachaça. Ele foi preso. 


— Como ela está?


— Não sei. No almoço vou lá.


Socorro na UPA. A menina do suco aguardava o resultado do ENEM no radinho de pilha.


Passaram conhecidos e desconhecidos. Batatinhas. Conselhos. Conversas. 


O universo em movimento. A calçada continuava viva. 


Com as esperanças.

Com as dores.


Com as Doras.


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Para ler desde o começo, CLIQUE AQUI!


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!




Luís Augusto Menna Barreto

23.03.2026







  1. Sim, a vida continua, com as dores e esperanças. Qdo olhamos pra alguém na rua não imaginamos a vida que leva. Há quem sempre sorri (e não demonstra), há a que ri feliz de verdade, há a que chora e visivelmente se sente perdida e há a que sente dor física, onde diz que esbarrou no armário da cozinha - olho roxo. Minha filha morou num prédio cuja janela dava para uma rua principal e outros prédios. Eu gostava de olhar a rua (sempre gostei) ver os carros, os ônibus, e observar os prédios. Fiquei curiosa com uma mulher que ficou no celular à janela e falava muito, quase não parava para ouvir a outra. Imaginei fofoca das boas. E as pessoas na rua passavam gesticulando ao telefone. Sempre pensava o que estariam falando? E criava na minha cabeça, histórias sobre elas. Só uma vez cruzei com uma moça chorando; não pude seguir sem me colocar à sua frente de dizer: menina, vai passar, vc é forte. Ela me olhou assustada, nada disse, mas tenho certeza de que fiz alguma coisa, um apoio.

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    1. A ideia desse capítulo é justamente essa: mostrar que o Mundo não para. Que tenhamos dores ou sorrisos, alguém ao nosso lado vai estar rindo ou chorando… e seguimos em frente…!
      Está chegando no final… mais duas partes, e o conto se resolverá!!!

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    1. Semana que vem…. Muitos desdobramentos importantes….

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  2. O dia sempre acaba e o próximo pode ser melhor! O mundo não para; ainda bem !

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    1. Acho que é isso! Exatamente isso: esse teu “ainda bem”! Precisamos ficar atentos a isso: AINDA BEM que amanhã tem a piscina do “Beach Park” de novo, tem a academia onde as amigas fazem um ou outro exercício no meio das séries de repetições de conversas… Ainda bem que a rua vai estar ali: esperando nossas passadas….!

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  3. O mundo continua a vida segue , mesmo com os problemas a gente segue firme! Nem todo mundo pode esperar que o amanhã traga grandes sorrisos, se vive o hoje o agora, entre lágrimas e coração magoado por aquele não dá apoio, continuamos seguindo! Que venha mais pra gente se ler , que as coisas pra Dora fique mais leve, que venha um sorriso pra essa mãe que não desiste de lutar! Liu

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    1. É preciso seguir andando… a vida sempre continua… conosco… sem nos. Com nossa alegria, nossa tristeza…!

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