sábado, 7 de fevereiro de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 2

 

Parte 2 de... (vamos ver de quantas)


O dia transcorrera como tantos outros… a perna e quadril machucados doía quando ela parava para lembrar-se. Mas a todo momento alguém chegava, com dores próprias, buscando, na compra das batatinhas, o pretexto para contar à Dora sobre sua vida, esperando, sempre, que ela os aliviasse com algum conselho, ou, ao menos, com um sorriso acolhedor que parecia inderrotável.

Havia os clientes de sempre, como Jorge S., que sempre comprava batatinhas depois do jogo de damas na praça, e sempre propunha à Dora trocar um poema por um conselho:

— … “o tempo amansa pelo assédio / gastar é o melhor remédio / no repecho e na descida / porque na conta da vida / não adianta saldo médio.” 

Dora sempre aplaudia. E ele perguntava, pegando suas batatinhas: 

— E o meu conselho?

— Não pare de jogar damas, Jorge!

— Algum motivo especial? 

— Claro! Se você parar, não virá mais na praça e não passará mais por aqui. 

— E você não me venderia as batatinhas! — Disse Jorge com um meio sorriso.

— Não, Jorge! Se você parar de jogar, não declamará mais os poemas! E você precisa continuar.

— Desse jeito, vou começar a repetir os poemas. Eu não tenho tantos.

— Eu vejo o sol nascer todos os dias… Se o mundo se repete, por que você não poderia repetir poemas para mm?

Quase no fim do dia, Marcos passou por lá e logo depois, uma mulher chique, que não era exatamente como a clientela da Dora, perguntou por ele. Aquilo foi o que de mais diferente houvera no seu dia. E algo dizia que aquela mulher voltaria. De resto, as conversas triviais com a flanelinha Socorro, que todos os dias trazia uma garrafa com cachaça para ir bebendo ao longo do dia. Dora já havia desistido de aconselha-la a não beber, mas ela sempre respondia:

— Eu reparo os carros, não dirijo nenhum deles!

E Nazaré, que cuidava da banca de revistas que a cada dia que passava vendia menos. Ninguém mais queria jornais ou revistas impressos. Ela se mantinha, ainda, com o ofício de fazer cópias de chaves e trocar pilhas de relogios, o que fazia em uma minúscula mesa atrás das revistas, onde tinha a máquina de cópias de chaves. 

No final do dia, a mesma rotina: o sol já se havia posto há tempo, o comércio fechou suas portas e os últimos clientes que saíram de seus empregos já haviam comprado seus pacotes de batatinhas. Alguns ainda comiam as últimas batatinhas no ponto de ônibus próximo. Dora ainda empurraria o carrinho por dois quarteirões até o depósito onde o deixava e, depois, seriam quase 50 minutos de ônibus até o conjunto de apartamentos populares onde morava. 

A dor em sua perna pareceu aumentar a medida que se aproximava de casa. Ela subiu, cansada, as escadas até o terceiro pavimento e suspirou quando viu luz pela fresta da parte de baixo da porta. Dora abriu devagar:

— Filho? Você está em casa?

Não houve resposta, mas ela ouviu o barulho de um copo ser devolvido à mesa. Quando entrou na pequena cozinha, viu Francisco, a quem nunca chamou de “Chico" como todos que o conheciam, sentado à pequena mesa, com uma garrafa aberta e o rosto de quem se sentia derrotado.

Os armários e gavetas estavam abertos. E ela viu o pote de vidro, onde ela guardava todo o dinheiro que tinha em um saco plástico no meio de arroz, para tentar encobrir. O pote de vidro estava virado no armário. Aberto. Vazio.

Olhou para Francisco. Ele a encarou com uma expressão indefinida.

— Ele não está aqui.

(… continua).


Luís Augusto Menna Barreto

07.01.2026


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Contículo de um Milagre (Reedição)


Antes da fama, ele tinha fé. Por algum motivo que ele não soube explicar, lembrara-se disso olhando o desenho de uma lágrima em chamas tatuada na mão, enquanto o avião que levava a banda de rock do momento, da qual ele era o vocalista, voava por entre pesadas nuvens em direção à Capital do Estado do Pará, onde em poucas horas, fariam um show e em seguida rumariam a um festival de Rock na 7ª cidade mais competitiva economicamente, da América Latina: Cidade do Panamá.

De repente, não muito longe de Belém, o aviso luminoso de apertar o cinto acendeu e a voz do piloto avisou que enfrentariam uma área de turbulência. Mal deu tempo de o piloto terminar o aviso, o copo de uísque caiu no carpete do jato executivo que há meses era o local onde a banda passava mais tempo. Ele já havia enfrentado turbulências antes, mas aquela, somada às lembranças que rememorara, deixaram-no particularmente apreensivo. Num gesto instintivo, levou a mão ao pescoço, onde durante quase toda a vida usara um escapulário, que fora descartado por recomendação do produtor e da diretora de imagem da banda. Com o coração acelerado, o efeito da última carreira cheirada passando e algum álcool na cabeça, tentou lembrar de alguma das orações da infância e não conseguiu. Então, talvez agarrado às lembranças que estava tendo da infância vivida sob a fé ensinada pelos pais, reforçada na escola de freiras, e na amizade com os Padres da Igreja próxima da casa de sua infância, ele fez uma promessa!

Algum tempo depois, naquele mesmo dia, na Igreja da esquina das avenidas Castelo Branco e Conselheiro Furtado em Belém, a equipe responsável pelas músicas da missa estava, já, reunida no mezanino, acima da entrada cujo único acesso é por meio de uma escada em espiral, que permanece fechada, para que ninguém não autorizado suba. Naquela igreja, a equipe da música não fica aos olhos dos fiéis e, nos momentos de cantar, apenas o som dos instrumentos e vozes dos cantores espalham-se em toda a nave da Igreja.

Pois a equipe, composta de um frade capuchinho que cantava, um leigo de aproximadamente 50 anos que tocava violão e sua filha de 20 anos que tocava um teclado eletrônico, fora surpreendida com um rapaz de capuz, que pedira para cantar as músicas da missa. Enquanto o leigo ficara em silêncio com um ar de interrogação no semblante, o frade cantor aproximou-se para explicar que não era permitido subir ao local… mas fora interrompido pela tecladista, que, de olhos vibrantes, pegara no braço do frade e falara-lhe, com alguma empolgação, ao seu ouvido, pedindo que lhe deixasse cantar, e explicando quem seria o rapaz de capuz. Até mesmo o frade já ouvira falar em seu nome. 

— Podem ser estas músicas? — perguntou o rapaz, entregando à equipe um pedaço de papel com uma lista de músicas antigas, mas ainda conhecidas. O frade mostrou-as à equipe e todos concordaram, embora não desse mais sequer tempo de falar com o Padre celebrante para avisa-lo da mudança das músicas.

A igreja não estava lotada naquela sexta-feira à noite, chuvosa. Havia muitos bancos vazios. Assim que começaram os primeiros acordes, e iniciou-se a marcha de entrada do séquito seguindo a Cruz levada com devoção pelo primeiro dos cinco coroinhas, o Padre estranhou por não ser a música que lhe fora informada, mas reconheceu-a, embora há muito não mais a ouvisse. Assim que entrou o vocal, quase todos na Igreja repararam. Era diferente. Vibrante. Foi difícil ouvir sem a pele arrepiar, tamanha força e emoção que transbordavam na voz. Alguns mais jovens quase levaram um susto. Poderiam jurar que a voz era a do vocalista daquela banda famosa que nesta noite faria show no Hangar, em Belém: "... Eternidade é na verdade / o amor vivendo sempre em nós.."


Feita a saudação inicial, a benção, e a primeira oração respondida, veio o canto penitencial. Ali, muitos já tinham a certeza de que conheciam aquela voz. E que interpretação! As pessoas na missa pareciam poder sentir lágrimas nos olhos do cantor ao entoar os versos "... embora eu me afastasse / e andasse desligado / meu coração cansado / resolveu voltar”.

Naquele momento, contra todas as recomendações, várias cabeças voltavam-se para trás e tentavam olhar o mezanino, embora não fosse possível enxergar quem quer que fosse. 

No canto de glória, a voz por vezes propositadamente grave, porém suave, inundou a Igreja, e, para desaprovação do Padre celebrante, muitos dos mais jovens sacaram seus celulares e, então, começou uma enxurrada de mensagens de texto e, até mesmo, áudios dos que haviam gravado o final do canto de glória. Só podia ser ele! Muitos dos fiéis eram fãs da banda, não poderiam estar enganados acerca daquela voz! Em poucas horas, a banda tocaria no Hangar! Talvez fosse algo promocional. Era incrível e inacreditável, mas tinha de ser ele, o vocalista de rock mais celebrado do momento! E bem ali, cantando na missa!

Já durante o canto de ofertório, a Igreja começou a ficar lotada. Não havia mais nenhum lugar nos bancos e os espaços laterais começavam a ser preenchidos por pessoas em pé, na maioria jovens. O frade cantor teve de descer de modo a evitar que qualquer pessoa vencesse a tentação de subir pela escada em espiral, e postou-se no no primeiro degrau da escada, impedindo qualquer acesso, e recomendando silêncio. Mas decidiu que iria fazer uma selfie com o rapaz e pedir que gravasse um “oi" para a irmã adolescente que não seguira os mesmos passos religiosos que ele.

Quando da procissão da comunhão, já era difícil até mesmo entrar na nave da Igreja. Nem sentados, nem em pé, nos amplos espaços laterais, cabia mais alguém. Jamais a Igreja estivera cheia assim. As redes sociais em minutos ficaram inundadas pelos áudios das canções na missa, por imagens do mezanino, sem, contudo, que se pudesse ver o rapaz de capuz que cantava segurando o microfone com as duas mãos, exibindo a mão tatuada com uma lágrima em chamas.

Terminada a procissão da comunhão que, pela quantidade de gente, levara quase quatro vezes o tempo normal, antes que o Padre celebrante levantasse para a benção final, o rapaz começou, à capela, uma canção. E quase todos foram às lágrimas, tamanha dor que a voz transmitia ao cantar os versos finais: “… e, se jamais acreditei / perdoa-me Senhor / Pois hoje eu te encontrei”.

A Igreja inteira, ficou em transe. Poucos olhavam para o altar, a quase totalidade das cabeças voltadas ao mezanino. Os dois músicos, pai e filha foram até o muro do mezanino e foram recebidos por uma avalanche de cliques de fotos e vídeos de celulares e gritos de fãs que esperavam a aparição do rapaz. O Padre celebrante conformou-se em proferir a benção final para um mínimo de pessoas que prestavam atenção, embora jamais a Igreja tenha estado tão cheia. O frade tinha imensa dificuldade de conter os jovens que se empurravam tentando subir. Havia confusão. 

Quando o frade foi finalmente vencido, quase arrancado dos degraus, e os primeiros fãs alcançaram o mezanino, houve decepção. Havia ali, apenas os dois músicos, pai e filha. Estiveram olhando a agitação na nave e, quando se viraram os primeiros fãs da banda já estavam chegando no mezanino. Perguntaram por ele! Onde estava? Todos queriam fotos e vídeos com o astro do Rock.

Não estava lá. Os dois músicos ficaram com uma profunda interrogação! Teria ele saído enquanto estavam olhando a nave? Mas por onde? Ninguém soube responder. Somente depois de muito tempo, os fãs convenceram-se de que ele não estava mais lá. Restava, então, correr ao Hangar para ver o show, cujos ingressos já se haviam há meses esgotado.

Naquela noite, horas mais tarde, uma multidão gritava impaciente no Hangar, frente ao palco vazio, apenas com os instrumentos da banda, aguardando a entrada que era sempre espetacular. O atraso passava do comum para tais eventos.

Até que um homem subiu ao palco, com um semblante tenso. Ao mesmo tempo, os noticiários espalhavam no mundo a mesma notícia:

“É com profundo pesar que informamos a queda do jato comercial que trazia a banda para Belém. O piloto conseguiu um pouso forçado em uma fazenda, salvando quase todos os passageiros e tripulantes que tiveram apenas ferimentos leves. Infelizmente, houve uma morte: a do vocalista.”


Por Luís Augusto Menna Barreto

20 de maio de 2018








sábado, 31 de janeiro de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada* - Parte 1

 

Parte 1 de... (vamos ver quantas...)


Ela reparou na dor, novamente, quando foi passar a roleta do ônibus. Quando encostou o quadril para empurrar a roleta para a frente. A dor maior estava dentro de si. Era uma espécie de vergonha de si mesma. Algo que machucava muito mais por dentro do que a grande mancha roxa em sua perna e quadril. 

“Poderia ao menos ter sido em um dia que eu não precisasse ir na SEASA”, pensava. 

Pegara o ônibus às 4h30 da manhã. Desceria em aproximadamente 35 minutos na SEASA, onde compraria um saco de batatas de 50 kg, que mais do que nos outros dias, carregaria com dificuldade por conta da dor no quadril e na coxa. Pegaria, ainda, mais um ônibus por mais uns 20 minutos até descer perto do depósito onde deixa seu carrinho, pagando meio salário mínimo por mês para isso. Depois, seriam dois quarteirões empurrando o carrinho até o ponto onde ficava, perto do supermercado. Em seguida,  teria de preparar as batatas, e passaria aproximadamente 12 horas em pé com seu carrinho, sentando-se apenas para o almoço que preparara na noite anterior. Se precisasse usar o banheiro, pediria para Socorro, flanelinha daquele espaço, cuidar de seu carrinho, enquanto iria rápido no supermercado.

A partir de 7h, começava o movimento e apareciam os primeiros fregueses. Muitos trabalhadores não resistiam ao delicioso aroma das batatinhas, e compravam quase como se fosse café da manhã. Dora sabia o nome de praticamente todos. E para todos tinha um sorriso.

— Olá, Clair B. Pequeno ou grande, hoje?

Clair B. era um dos primeiros fregueses de Dora. Um senhor, já, de aproximadamente 60 anos, que todas as segundas-feiras acordava mais cedo e caminhava alguns quarteirões para comprar as batatinhas da Dora… e para pegar um conselho para a semana, que sempre anotava na primeira página do livro que leria na semana.

— Bom dia, Dora. Hoje, um saco pequeno e um conselho grande! — Pediu.

— Você vai seguir?

— Sempre. Os seus eu sempre sigo, eu conheço a sua regra!

Dora era conhecida, não somente pelas batatinhas secas e crocantes, mas, também, por sempre ter uma palavra de incentivo, sempre saber o que dizer para confortar as dores, sempre parecia ler a alma dos fregueses e entregar-lhes coragem para enfrentar seus próprios problemas. Mas ela sempre avisava: só dava conselhos de graça para quem ela achava que iria seguir seu conselho. Caso contrário, cobrava mais caro pelo saco de batatinhas.

— Aqui estão suas batatinhas em um saco pequeno.

— E meu conselho?

Dora pensou um pouco, olhando nos olhos de Clair B.

— Há dias em que mesmo pessoas que você ama, machucam você. Quando isso acontecer, force-se a um sorriso! Faça assim todas as vezes. Então, um dia, descobrirão que não adianta machuca-lo. Não farão você chorar. E pararão de tentar.

— E se não pararem, Dora?

— Então ao menos, você não deixou de sorrir!  … e você fica um “gato" sorrindo, Clair B.! 

Ele saiu satisfeito. Não imaginaria que o conselho era muito mais para ela mesma… 

(… continua).


Luís Augusto Menna Barreto

31.01.2026


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

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domingo, 21 de dezembro de 2025

A Confusão do Desmorrido


Em destaque (último trecho publicado):

… rádio e no boca a boca. D. Zilma, mãe do Alberto, a cada vez que aparecia na propaganda eleitoral na TV, desmaiava porque lembrava do Alberto rejeitando a Carmem e dizendo que era o Valdir! A Lucinha não demorou para aceitar o desmorrido como o Valdir! Dizia que se a alma era a do Valdir, o corpo não importava! Começou a passear com o Valdir no corpo do Alberto.


Trecho 27

(Continua...)


Todos os trechos publicados, em seqüência:


Nenhum dos velórios dele havia sido tão triste, como na primeira vez que ele morreu. E foi também o mais concorrido! 


A primeira morte foi a mais traumática… mas pior foi quando desmorreu… entre o susto e a felicidade, o primeiro saiu ganhando. Era santo ou visagem…?


Foi a sete passos da cova já aberta, que os seis amigos que levavam o caixão nos ombros ouviram as batidas… como se combinado, pararam de caminhar… o cortejo parou intrigado… e novamente ouviram-se batidas que só poderiam ser do morto, vindo de dentro do caixão…! 


Dos seis amigos que carregavam o ataúde, um saiu correndo em velocidade que nem sabia, outro se ajoelhou em profusão de sinais da cruz, e os demais não sabiam se continuavam ou n˜ao! O Padre resolveu o impasse, determinando que se voltasse à capela, o que se fez em passo apressado… 


O cortejo em marcha ré, ao som das batidas do morto, as carpideiras já não sabiam se deveriam continuar chorando: se o morto tivesse desmorrido e tudo estivesse ao contrário, talvez rir fosse o adequado! A confusão deu-se maior quando o cortejo vindo de ré, encontrou… 


… outro morto a entrar na capela. Os dois cortejos pararam e deu-se a confusão. Os dois Padres reunidos em conselho, um do morto fresco outro do desmorrido, chegaram à conclusão de que, sendo a capela para velório, mais direito teria o morto fresco. E foi daí que o caixão com o… 


… morto desmorrido foi conduzido para o carro funerário! O cortejo já tinha acostumado com as batidas, então, a curiosidade falou mais que o medo. O Padre mandou abrir, empunhando a cruz, e pronto pra jogar água benta, como se fosse arma! Quando levantaram a tampa,...


… o morto logo sentou com cara de quem não está entendendo! D. Zilma, mãe do morto, que aguentou firme quando ele morreu, não suportou o desmorrer e desmaiou! O morto pareceu nem se importar. Então a Carmem, sua esposa, venceu o susto e o medo, abriu caminho e...


… foi abraçar o marido desmorrido: 

— Alberto, que susto! Achei que tinha perdido você. 

O desmorrido olhou assustado e não retribuiu o abraço: 

— Carmem… esposa do Alberto, né? 

— Tua esposa, Alberto! Tua! Que conversa é essa? 


— Conversa nenhuma! A senhora está confusa! Eu sou o Valdir! 

Se outra fosse, quem morreria seria a Carmem; mas essa do jeito que era, parece que até a morte a rejeitava! E o morto desmorrido disse ainda, procurando com os olhos: 

— Aliás, onde está a Lucinha, minha mulher? 


E estava estabelecida a confusão! O morto era o Alberto, mas a alma desmorrida era do Valdir, vizinho do Alberto e da Carmem, marido da Lucinha, e que havia morrido há um ano, estando a viúva ainda guardando luto. 


Estando a Lucinha no velório, pois que amiga e vizinha, apressou a pedir licença e todos abriram caminho. Pegou a mão do desmorrido de um lado, enquanto a Carmem não largava a mão do ex morto do outro! Passaram as duas, a reivindicar a desviuvez, sem pensar, ainda, nas consequências! 


Dois lado se formaram: uns defendiam a validade do corpo do desmorrido! Estavam do lado da Carmem; uns defendiam a validade da alma do ex-morto! Estavam do lado da Lucinha! Sem consenso, a questão foi para a Justiça: dos homens e de Deus! Que digam os juízes e os Padres! 


Enquanto o Tribunal Eclesiástico ponderava se valeria a alma ou o corpo, aproveitando, já, para discutir se havia milagre no desmorrimento, o Tribunal da Justiça queria saber como ficaria o Seguro de Vida: a seguradora queria de volta, o seguro pago há um ano à Lucinha, viúva do Valdir, dono da alma desmorrida no corpo do Alberto. 


Havia, ainda, outros problemas: os documentos! 

— Um ou outro, seja o desmorrido Alberto ou Valdir, o que fazer com os documentos? — Ponderava um dos juízes do Tribunal! 

Dependia, antes, de declarar quem desmorreu. 

Depois de dias, juízes e padres concluíram: 


Primeiro, quem declarou foi a Igreja! 

Todos olharam em silêncio, e o Bispo manteve a pausa. Até que falou solenemente: 

— O Desmorrido é o Alberto! Nosso Senhor Jesus Cristo desmorreu no próprio corpo, assim será! A alma que se acha Valdir será exorcizada e no corpo restará somente… 


… o Alberto! 

Houve fogos e vaias. Comemorações e apupos! 

No Tribunal de Justiça, quase ao mesmo instante, fora prolatada a sentença: 

“Assim sendo, se mesmo antes de nascer, antes de ter corpo, a personalidade já tem direito, e se mesmo depois de morrer, vale a vontade do falecido… 


… a alma prevalece, porque dela vem a vontade! O Desmorrido é o Valdir". 

Nas duas instâncias, Igreja e Justiça, houve recurso e as decisões ficaram suspensas. Como era ano de eleição, tempo de escolher candidatos, o partido da situação tratou logo de lançar o desmorrido a prefeito! 


Por via das dúvidas, o partido inscreveu os dois como candidatos: o desmorrido de corpo, Alberto, e o desmorrido de alma, Valdir! 

Já se tinha o slogan: “Vote certo: no Valdir ou no Alberto”. Fossem um só ou fossem dois, o Partido tinha mais chance.


Enquanto se discutia na justiça e no clero, a cidade cada vez mais dividida, acabou dividindo também os votos, e foram para o segundo turno, justamente os desmorridos: Valdir ou Alberto, seria o prefeito!


A política traçando seu curso, as duas candidaturas travando as lutas: a da alma do desmorrido ameaçando deixar o corpo sem alma, em caso de derrota nas urnas; a do corpo do desmorrido dizendo que não entraria na prefeitura e queria ver a cidade ser governada por uma alma sem corpo. 


E ainda outras questões apresentavam-se para aquele caso de desmorrer tão singular: enquanto a seguradora do Valdir queria ver o despagar do sinistro desacontecido, a seguradora do Alberto não pagava porque não houve o morrer do corpo! Carmem logo falou que certo seria ... 


… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que... 


… valeria tanto a morte quanto o desmorrer! Se o seguro segurava a morte, a morte aconteceu, decidiram. O seguro fora bem pago! No contrato, nada havia sobre devolução por desmorrimento. Assim, para ficar claro, criou-se a certidão de desmorrer! Dali por diante, haveria que se registrar o nascimento, o casamento, o ... 


… o descasamento, o morrimento e, agora, o desmorrimento. De todos, apenas o nascimento se poderia registrar uma vez só. 

Com a decisão da Justiça, de fazer pagar o seguro, porque a morte aconteceu, os contratos passaram a prever a devolução proporcional do dinheiro... 


… tantos meses fosse desde a morte até o desmorrimento.

Enquanto o problema do seguro se desenrolava, o segundo turno da eleição estava a todo vapor! Metade da cidade para votar na alma do Valdir, metade da cidade para votar no corpo do Alberto. Na propaganda na televisão, no … 


... rádio e no boca a boca. D. Zilma, mãe do Alberto, a cada vez que aparecia na propaganda eleitoral na TV, desmaiava porque lembrava do Alberto rejeitando a Carmem e dizendo que era o Valdir! A Lucinha não demorou para aceitar o desmorrido como o Valdir! Dizia que se a alma era a do Valdir, o corpo não importava! Começou a passear com o Valdir no corpo do Alberto.


Trecho 27 

(Continua...)