sábado, 31 de janeiro de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada* - Parte 1

 

Parte 1 de... (vamos ver quantas...)


Ela reparou na dor, novamente, quando foi passar a roleta do ônibus. Quando encostou o quadril para empurrar a roleta para a frente. A dor maior estava dentro de si. Era uma espécie de vergonha de si mesma. Algo que machucava muito mais por dentro do que a grande mancha roxa em sua perna e quadril. 

“Poderia ao menos ter sido em um dia que eu não precisasse ir na SEASA”, pensava. 

Pegara o ônibus às 4h30 da manhã. Desceria em aproximadamente 35 minutos na SEASA, onde compraria um saco de batatas de 50 kg, que mais do que nos outros dias, carregaria com dificuldade por conta da dor no quadril e na coxa. Pegaria, ainda, mais um ônibus por mais uns 20 minutos até descer perto do depósito onde deixa seu carrinho, pagando meio salário mínimo por mês para isso. Depois, seriam dois quarteirões empurrando o carrinho até o ponto onde ficava, perto do supermercado. Em seguida,  teria de preparar as batatas, e passaria aproximadamente 12 horas em pé com seu carrinho, sentando-se apenas para o almoço que preparara na noite anterior. Se precisasse usar o banheiro, pediria para Socorro, flanelinha daquele espaço, cuidar de seu carrinho, enquanto iria rápido no supermercado.

A partir de 7h, começava o movimento e apareciam os primeiros fregueses. Muitos trabalhadores não resistiam ao delicioso aroma das batatinhas, e compravam quase como se fosse café da manhã. Dora sabia o nome de praticamente todos. E para todos tinha um sorriso.

— Olá, Clair B. Pequeno ou grande, hoje?

Clair B. era um dos primeiros fregueses de Dora. Um senhor, já, de aproximadamente 60 anos, que todas as segundas-feiras acordava mais cedo e caminhava alguns quarteirões para comprar as batatinhas da Dora… e para pegar um conselho para a semana, que sempre anotava na primeira página do livro que leria na semana.

— Bom dia, Dora. Hoje, um saco pequeno e um conselho grande! — Pediu.

— Você vai seguir?

— Sempre. Os seus eu sempre sigo, eu conheço a sua regra!

Dora era conhecida, não somente pelas batatinhas secas e crocantes, mas, também, por sempre ter uma palavra de incentivo, sempre saber o que dizer para confortar as dores, sempre parecia ler a alma dos fregueses e entregar-lhes coragem para enfrentar seus próprios problemas. Mas ela sempre avisava: só dava conselhos de graça para quem ela achava que iria seguir seu conselho. Caso contrário, cobrava mais caro pelo saco de batatinhas.

— Aqui estão suas batatinhas em um saco pequeno.

— E meu conselho?

Dora pensou um pouco, olhando nos olhos de Clair B.

— Há dias em que mesmo pessoas que você ama, machucam você. Quando isso acontecer, force-se a um sorriso! Faça assim todas as vezes. Então, um dia, descobrirão que não adianta machuca-lo. Não farão você chorar. E pararão de tentar.

— E se não pararem, Dora?

— Então ao menos, você não deixou de sorrir!  … e você fica um “gato" sorrindo, Clair B.! 

Ele saiu satisfeito. Não imaginaria que o conselho era muito mais para ela mesma… 

(… continua).


Luís Augusto Menna Barreto

31.01.2026


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!

domingo, 21 de dezembro de 2025

A Confusão do Desmorrido


Em destaque (último trecho publicado):

… tantos meses fosse desde a morte até o desmorrimento.

Enquanto o problema do seguro se desenrolava, o segundo turno da eleição estava a todo vapor! Metade da cidade para votar na alma do Valdir, metade da cidade para votar no corpo do Alberto. Na propaganda na televisão, no …



Trecho 26

(Continua...)


Todos os trechos publicados, em seqüência:


Nenhum dos velórios dele havia sido tão triste, como na primeira vez que ele morreu. E foi também o mais concorrido! 


A primeira morte foi a mais traumática… mas pior foi quando desmorreu… entre o susto e a felicidade, o primeiro saiu ganhando. Era santo ou visagem…?


Foi a sete passos da cova já aberta, que os seis amigos que levavam o caixão nos ombros ouviram as batidas… como se combinado, pararam de caminhar… o cortejo parou intrigado… e novamente ouviram-se batidas que só poderiam ser do morto, vindo de dentro do caixão…! 


Dos seis amigos que carregavam o ataúde, um saiu correndo em velocidade que nem sabia, outro se ajoelhou em profusão de sinais da cruz, e os demais não sabiam se continuavam ou n˜ao! O Padre resolveu o impasse, determinando que se voltasse à capela, o que se fez em passo apressado… 


O cortejo em marcha ré, ao som das batidas do morto, as carpideiras já não sabiam se deveriam continuar chorando: se o morto tivesse desmorrido e tudo estivesse ao contrário, talvez rir fosse o adequado! A confusão deu-se maior quando o cortejo vindo de ré, encontrou… 


… outro morto a entrar na capela. Os dois cortejos pararam e deu-se a confusão. Os dois Padres reunidos em conselho, um do morto fresco outro do desmorrido, chegaram à conclusão de que, sendo a capela para velório, mais direito teria o morto fresco. E foi daí que o caixão com o… 


… morto desmorrido foi conduzido para o carro funerário! O cortejo já tinha acostumado com as batidas, então, a curiosidade falou mais que o medo. O Padre mandou abrir, empunhando a cruz, e pronto pra jogar água benta, como se fosse arma! Quando levantaram a tampa,...


… o morto logo sentou com cara de quem não está entendendo! D. Zilma, mãe do morto, que aguentou firme quando ele morreu, não suportou o desmorrer e desmaiou! O morto pareceu nem se importar. Então a Carmem, sua esposa, venceu o susto e o medo, abriu caminho e...


… foi abraçar o marido desmorrido: 

— Alberto, que susto! Achei que tinha perdido você. 

O desmorrido olhou assustado e não retribuiu o abraço: 

— Carmem… esposa do Alberto, né? 

— Tua esposa, Alberto! Tua! Que conversa é essa? 


— Conversa nenhuma! A senhora está confusa! Eu sou o Valdir! 

Se outra fosse, quem morreria seria a Carmem; mas essa do jeito que era, parece que até a morte a rejeitava! E o morto desmorrido disse ainda, procurando com os olhos: 

— Aliás, onde está a Lucinha, minha mulher? 


E estava estabelecida a confusão! O morto era o Alberto, mas a alma desmorrida era do Valdir, vizinho do Alberto e da Carmem, marido da Lucinha, e que havia morrido há um ano, estando a viúva ainda guardando luto. 


Estando a Lucinha no velório, pois que amiga e vizinha, apressou a pedir licença e todos abriram caminho. Pegou a mão do desmorrido de um lado, enquanto a Carmem não largava a mão do ex morto do outro! Passaram as duas, a reivindicar a desviuvez, sem pensar, ainda, nas consequências! 


Dois lado se formaram: uns defendiam a validade do corpo do desmorrido! Estavam do lado da Carmem; uns defendiam a validade da alma do ex-morto! Estavam do lado da Lucinha! Sem consenso, a questão foi para a Justiça: dos homens e de Deus! Que digam os juízes e os Padres! 


Enquanto o Tribunal Eclesiástico ponderava se valeria a alma ou o corpo, aproveitando, já, para discutir se havia milagre no desmorrimento, o Tribunal da Justiça queria saber como ficaria o Seguro de Vida: a seguradora queria de volta, o seguro pago há um ano à Lucinha, viúva do Valdir, dono da alma desmorrida no corpo do Alberto. 


Havia, ainda, outros problemas: os documentos! 

— Um ou outro, seja o desmorrido Alberto ou Valdir, o que fazer com os documentos? — Ponderava um dos juízes do Tribunal! 

Dependia, antes, de declarar quem desmorreu. 

Depois de dias, juízes e padres concluíram: 


Primeiro, quem declarou foi a Igreja! 

Todos olharam em silêncio, e o Bispo manteve a pausa. Até que falou solenemente: 

— O Desmorrido é o Alberto! Nosso Senhor Jesus Cristo desmorreu no próprio corpo, assim será! A alma que se acha Valdir será exorcizada e no corpo restará somente… 


… o Alberto! 

Houve fogos e vaias. Comemorações e apupos! 

No Tribunal de Justiça, quase ao mesmo instante, fora prolatada a sentença: 

“Assim sendo, se mesmo antes de nascer, antes de ter corpo, a personalidade já tem direito, e se mesmo depois de morrer, vale a vontade do falecido… 


… a alma prevalece, porque dela vem a vontade! O Desmorrido é o Valdir". 

Nas duas instâncias, Igreja e Justiça, houve recurso e as decisões ficaram suspensas. Como era ano de eleição, tempo de escolher candidatos, o partido da situação tratou logo de lançar o desmorrido a prefeito! 


Por via das dúvidas, o partido inscreveu os dois como candidatos: o desmorrido de corpo, Alberto, e o desmorrido de alma, Valdir! 

Já se tinha o slogan: “Vote certo: no Valdir ou no Alberto”. Fossem um só ou fossem dois, o Partido tinha mais chance.


Enquanto se discutia na justiça e no clero, a cidade cada vez mais dividida, acabou dividindo também os votos, e foram para o segundo turno, justamente os desmorridos: Valdir ou Alberto, seria o prefeito!


A política traçando seu curso, as duas candidaturas travando as lutas: a da alma do desmorrido ameaçando deixar o corpo sem alma, em caso de derrota nas urnas; a do corpo do desmorrido dizendo que não entraria na prefeitura e queria ver a cidade ser governada por uma alma sem corpo. 


E ainda outras questões apresentavam-se para aquele caso de desmorrer tão singular: enquanto a seguradora do Valdir queria ver o despagar do sinistro desacontecido, a seguradora do Alberto não pagava porque não houve o morrer do corpo! Carmem logo falou que certo seria ... 


… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que... 


… valeria tanto a morte quanto o desmorrer! Se o seguro segurava a morte, a morte aconteceu, decidiram. O seguro fora bem pago! No contrato, nada havia sobre devolução por desmorrimento. Assim, para ficar claro, criou-se a certidão de desmorrer! Dali por diante, haveria que se registrar o nascimento, o casamento, o ... 


… o descasamento, o morrimento e, agora, o desmorrimento. De todos, apenas o nascimento se poderia registrar uma vez só. 

Com a decisão da Justiça, de fazer pagar o seguro, porque a morte aconteceu, os contratos passaram a prever a devolução proporcional do dinheiro... 


… tantos meses fosse desde a morte até o desmorrimento.

Enquanto o problema do seguro se desenrolava, o segundo turno da eleição estava a todo vapor! Metade da cidade para votar na alma do Valdir, metade da cidade para votar no corpo do Alberto. Na propaganda na televisão, no …

….


Trecho 26

(Continua...)





terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A Marmita, a Confissão e o Padre




Foi o Mariposa quem notou: a Marmita estava indo até o orelhão. Ficou curioso.

Ela havia falado alguma coisa quando passou pelo Mochila, deitado na rede atada no coreto da praça. Depois, abanou para a Telegrama que estava na porta da agência do Correio. Antes, havia falado algum gracejo para o Chaminé, enfermeiro que estava fumando na porta do hospital. Para o Mariposa, que estava tomando uma cervejinha no açougue do Retalho, ela abanou. Foi daí que ele ficou acompanhando com o olhar aquela morena fogosa… e notou que ela foi para o orelhão.

Saiu debaixo da cobertura de telha que protegia a mesa de bilhar na calçada, na frente do açougue e foi até a rua, para ver melhor! Parecia que a Marmita havia colocado uma ficha no orelhão. Primeira pergunta: ficha da onde, que a única que se conhecia na cidade era do Mesa Branca?! E o que a Marmita faria no orelhão estragado?

Ela ficou um instante com o fone no ouvido e, de repente, largou o fone e começou a abanar-se como que querendo falar e sem emitir nenhum som. O Mariposa foi acudir. Copo na mão, caminhou rápido até a Marmita:

— Que foi, já, pequena?

Ela gesticulava, apontava para a boca e não falava! Ele ofereceu um pouco da cerveja gelada que trazia no copo. "Na falta de água com açúcar...", pensou…! 

A Marmita aceitou, tomou o copo todo, devolveu para o Mariposa, mas continuou sem falar! Logo chegaram o Manobra e o Goela. A Tutela, que estava na porta do Fórum, também foi. Nada da Marmita falar! Só gesticulava, apontava para o orelhão e para a boca. Depois, colocou as duas mãos para a frente, como quem pede calma, e fez os seguintes sinais: apontou para a boca, depois uniu as duas mãos como se fosse rezar, e apontou para a Igreja. A Tutela colocou o braço por cima do ombro da Marmita, como quem vai ampara-la e começaram a andar em direção à Igreja. De repente a Marmita parou, voltou uns passos e lembrou-se de colocar o fone no gancho. Ouviu o barulho da ficha sendo devolvida, colocou dois dedos no compartimento e resgatou-a. 

Nesse momento, já havia quase uma dezena de pessoas em volta.

Foram todos em uma pequena procissão em direção à Igreja. Marmita foi direto para o confessionário. A Tutela foi até a sacristia para chamar o Padre. Lá estava apenas o Tinho, neto da D. Mocinha, coroinha prometido à vida de celibato e de sacerdócio em promessa feita pela avó, por conta do menino ter nascido com vida, quando a mãe morreu no parto, dentro do barco. Muitas mulheres tem medo de simplesmente falar com Tinho, porque D. Mocinha faz confusão com qualquer uma que fale com o neto “Santo”, crente que é o diabo em forma de mulher querendo desencaminhar o moleque da vida de santidade a que ela o prometeu. A Tutela perguntou da porta mesmo, e o Tinho disse que o Padre talvez estivesse no bar do S. Nonô.

A Tutela foi atrás. Enquanto isso, a notícia ia sendo espalhada e começaram a chegar mais pessoas na Igreja comentando o acontecido e querendo saber mais notícias. 

— Que história é essa Tutela? — quis saber o Padre.

— Tudo que sei é isso, Padre: ela tá lá, mudinha da silva, ajoelhada no confessionário!

— Mas essa aí nunca se confessou! 

— Disso não sei. Ela foi no Orelhão e saiu muda, veio ligeiro para a Igreja e quer se confessar!

O Padre olhou o S. Nonô, que apenas disse “iiiiiiiiiiiixi" e continuou passando o pano no balcão. Mais por curiosidade do que por intenção de salvar uma alma, o Padre foi com a Tutela para a Igreja. Admirou-se ao entrar, porque havia mais de quinze pessoas sentadas, olhando para o confessionário, onde estava a Marmita. 

Estranhando aquilo, entrou no confessionário.

— Queres confessar, minha filha?

Silêncio.

— Você precisa falar seus pecados para eu poder dar-lhe absolvição.

Silêncio. O Padre tentou olhar pelos furinhos. Já não gostou muito de ver a Marmita sem véu na cabeça, mas "vá lá"... A Marmita, vendo o olhar do Padre, fez-lhe sinal apontando a boca e fazendo que “não" com o dedo…

“Que estranho", pensou o Padre… "não pode ser! Outro caso de mudice?” 

Na dúvida, o Padre decidiu fazer o mesmo que fizera com o Mesa Branca afinal, se o havia confessado, pegaria mal não aceitar a confissão da Marmita.

— Certo, minha filha… pense, então, nos seus pecados…

Bem, o Padre havia repetido o que fizera com o Mesa Branca… e não esperava o que aconteceu com a Marmita. Com o Mesa Branca, levou poucos minutos, muito sério, pensando e pronto! Além disso, sempre fora devoto, frequentava a Igreja, cantava no coral… mas a Marmita… 

… bem… ela levou a sério e cumpriu o que o Padre mandou: começou a pensar nos pecados!

Primeiro ela fechou os olhos… até aí, tudo bem. Mas à medida que começou a lembrar dos pecados, seguiu-se uma série de reações: lembrando de uns, sorria de olhos fechados… para outros, suspirava! Em alguns, chegou deixar escapar uns gemidos… 

O Padre depois de alguns minutos, interrompeu-a:

— Vais demorar, minha filha?

Ela levantou a mão com a palma para cima e começou a fazer movimentos de unir e separar todos os dedos, como quem diz: "ainda tem vários…”

O Botóquis, que era um dos que havia ido até a Igreja e, ciente dos próprios pecados*, sentara bem perto do confessionário, escutou o Padre dizer “pense nos seus pecados”, e logo levantou dali…

Demorou uns vinte minutos e o Botóquis entrou novamente na Igreja em um estranho silêncio e, em vez de sentar-se, postou-se em pé, mais ou menos um metro atrás da Marmita, que ainda sorria pensando nos pecados, ajoelhada no confessionário.

O Padre, já nem impaciência demonstrava, observando um silêncio quase incomum para confissões. As pessoas aos poucos, dado que não se sabia o tempo que a Marmita levaria em sua confissão, começaram a sair da Igreja. Porém, na medida que os bancos esvaziavam, a fila de confissões aumentava significativamente: atrás do Botóquis, entrou a Pipoca (Salgada), que havia saído algum tempo depois do Botóquis. Depois veio o Cara de Cuspe, a Mimosa, o vereador Relege, a Tonha Puxa Ferro, o Pena de Galinha… a fila não parava de crescer… em um silêncio como nunca se viu! 

Lá fora, duas esquinas depois, enquanto o Mesa branca dormia um sono pesado na rede, a Pipoca (Doce) ia recebendo presentes: um litro de açaí aqui, um saco de farinha ali, camarão, mandioca… 

… e a fila no orelhão aumentando, com a ficha do Mesa Branca passando de mão em mão, repetindo-se em ligações que nunca se completavam!


Luís Augusto Menna Barreto

15.12.2025


*Para saber dos pecados do Botóquis, vide a crônica: “Os Casos da Tonha, do Botóquis e da D. Mocinha

Se você gostou dessa história e quer ver como tudo começou, leia a crônica: "O Orelhão, o Mesa Branca e o Padre"

Se você ainda gostou, veja a parte dois: "A Confissão do Mudo, o Padre e a Marmita"


Luís Augusto Menna Barreto

15.12.2025

domingo, 9 de novembro de 2025

A Confissão do Mudo, o Padre e a Marmita




   O Mesa Branca havia emudecido! De uma hora para outra! Ele havia ido até o único orelhão da cidade*, e, quando colocou de volta o fone no gancho, estava pálido, sério… e calado!

Todos ficaram se perguntando o que poderia ter havido, especialmente porque o orelhão há muito não funcionava, embora o Mesa Branca todos os dias fosse até lá depois da sesta, colocasse a ficha, e começasse a falar e (aparentemente) escutar. No final, a ficha era sempre devolvida e ele voltava no dia seguinte!

Evidentemente, os amigos e familiares perguntavam com quem ele falava tanto, mas ele se limitava a responder:

— Pessoas… pessoas!

— E o que tu tanto falas, Mesa Branca? — Perguntavam todos: o Retalho, o Mariposa, o Manobra, o Goela, a Pipoca, enfim, todo mundo tinha curiosidade, ao quê, o Mesa Branca, caboclo iletrado e de poucas luzes, respondia:

— Alhures…alhures!

Ele falava isso com um certo ar de superioridade e displicência, e o fato é que ninguém retrucava. Muito certamente, porque ninguém sabia o que significava “alhures”… provavelmente, nem ele mesmo soubesse.

Mas, enfim, houve esse dia, em que o Mesa Branca saiu pálido, sério e calado do orelhão!

Caminhou devagar até o açougue do retalho e balançou a cabeça com o queixo para cima, pedindo uma cachaça. O Retalho entendeu e, naquele momento, não perguntou nada. O Goela e o Manobra, que estavam ali, também não perguntaram, tal era o semblante sério do Mesa Branca. Virou de uma vez o copo, colocou no balcão e saiu sem dizer uma palavra! O Retalho limitou-se a pegar a caneta de trás da orelha, pegar o caderninho pendurado por um barbante no teto, rente à parede e anotar a dose na conta do Mesa Branca. E assim, sério, chegou em casa! Olhou com alguma gravidade para a Pipoca (Doce), que preferiu nem perguntar. Fora deitar quieto naquele dia, e nem deitou-se na mesma rede que a Pipoca. Não teve saliência naquela noite. Atou a rede fora de casa, entre um açaizeiro e a perna manca da varanda.

No dia seguinte, quando acordaram, a Pipoca logo disse para o Mesa Branca ir buscar um pão para preparar a merenda dos filhos, para levar para escola. O Mesa Branca não falou nada, e foi. Os filhos, antes de ir para escola, pediram a bênção, e o Mesa Branca limitou-se a beijar as mãos dos dois garotos e balançar a cabeça para cada um.

— Mãe, o pai ficou mudo?

— Pelo jeito… — Respondeu Pipoca, ainda sem levar a sério. 

Mas com o passar dos dias, a coisa mostrou-se séria e já havia comentário: Mesa Branca emudeceu!

Acontece que o Mesa Branca era muito devoto, e sempre ajudava na Igreja. Participava da Missa do domingo e ajudava a puxar as músicas, com um coral improvisado, composto por ele, a Véu de Noiva e a Dona Mocinha. Na hora da Missa das 7h do domingo, a Igreja estava mais cheia do que o normal, porque como havia se espalhado a notícia da mudez do Mesa Branca, alguns ficaram curiosos para ver se ele iria cantar. Então, alguns minutos antes do início, lá chegou o Mesa Branca e pegou seu lugar no “coral”, no primeiro banco do lado direito do altar. O Padre começa a procissão da porta até o altar e inicia o canto: 

“Eis-me aqui Senhor/ Eis-me aqui Senhô-ô-ô-or…” 

Lá estava o Mesa Branca. No meio das duas companheiras de coral, balançando a cabeça como sempre fazia… … mas sem emitir um som sequer! Apenas as duas vozes femininas se faziam ouvir.

E assim foi durante toda a missa. Toda a assembléia passou a olhar mais o Mesa Branca do que o Padre! Vendo isso, o Padre irritou-se e, ao final, foi falar com o Mesa Branca. Muitos fiéis não arredaram pé. 

— Edinelson (era o nome do Mesa Branca. O Padre recusava-se a chama-lo pelo apelido, considerando a origem não católica, mas isso é história para outra crônica). — Por que não falas? 

Silêncio. Os olhos sérios fitando o Padre.

— Foi promessa?

Cabeça de um lado para outro, em um universal gesto de negação.

— Foi pecado?

Ombros levantados e cabeça ligeiramente para o lado! Gesto preciso para traduzir  um impreciso “talvez”, “quem sabe”. Gesto de quem “acha" mas não tem certeza… ou não quer admitir algo que sabe.

E assim o Padre conduziu o Mesa Branca para o confessionário. Metade dos fiéis não haviam arredado pé da igreja e continuavam acompanhando o desdobrar dos acontecimentos.

O padre entrou em seu reservado e o Mesa Branca ajoelhou na parte externa. 

— Queres confessar teus pecados, meu filho?

Mesa Branca balançou a cabeça na vertical.

— Quais são seus pecados?

Silêncio. Mesa branca olhava o Padre, pelos “furinhos" de comunicação do confessionário, com olhos suplicantes. O Padre esperou e nada. O Mesa Branca continuava ali, quieto! E o Padre encontrou-se em um dilema: para a absolvição, era preciso que o Mesa Branca confessasse os pecados, falasse! Mas ele não falava. E se fosse verdade a mudez? E se o Mesa Branca não pudesse mesmo falar? O que faria? Não poderia chamar alguém para traduzir eventuais gestos e sinais, porque quebraria o sigilo da confissão. Escrever poderia ser uma saída… mas o Mesa Branca não lia nem escrevia. Sugerir pecados para o Mesa Branca fazer gestos de sim e não, poderia levar tempo demais, afinal a lista de pecados que o Padre aprendeu em mais vinte anos de confissões levaria dias para desfiar. Mas e agora? Negar a absolvição para o Mesa Branca, seria o mesmo que condenar todos os mudos. O Padre nunca pensara nisso. Nunca recebera confissão de mudos. Como eles se confessavam? 

Na dúvida, e conhecendo o Mesa Branca, o Padre optou por absolve-lo:

— Meu filho, pense nos seus pecados. E balance a cabeça quando pensar em todos. 

Demorou uns poucos instantes. O Padre calculou que não haveria mais de cinco pecados pensados e cometidos pelo Mesa Branca pelo pouco tempo que levou. Logo, o Mesa Branca levantou os olhos e baixou uma vez a cabeça, com gravidade como quem avisa: “terminei”.

O Padre pensou um pouco, deu-lhe como penitência, rezar duas Salve Rainhas, quatro Pai Nossos, e vinte Ave Marias. Por via das dúvidas que rezasse um Creio no Final!

A notícia espalhou-se rápido: o Padre havia recebido a confissão do Mesa Branca e o absolvido! 

A Marmita adorava uma festa e não resistia em fazer saliência com algum caboclo de boa conversa! Nem todos solteiros, ela sabia, mas é que havia um fogo dentro dela! Naquela mesma tarde, foi falar com a Pipoca:

— Empresta a ficha do telefone, Pipoca.

— Tá doida que vou pegar a ficha do Mesa, mana?

— É rapidinho, eu já devolvo!

— Não posso, dá teus pulos! E aquele orelhão nem funciona, pequena!

— Para o que eu preciso, vai funcionar Te dou um litro de açaí se me emprestares um instante.

Isso balançou a Pipoca. Açaí é açaí, não se pode desprezar.

Com cuidado, na hora da sesta, quando o Mesa Branca estava dormindo na rede, a Pipoca pegou, com muito cuidado, a ficha que ele guardava em uma lata de café, junto com o terço e resto do dinheiro do seguro defeso da colônia de pescadores, que indeniza o tempo que os pescadores não podem pescar, para os peixes procriarem. 

A Marmita saiu saltitante com a ficha e voltou em menos de vinte minutos! Não disse uma palavra, devolveu a ficha e entregou o litro de açaí para a Pipoca. 

A missa das 19h foi estranha: igreja lotada, mas, à exceção de uns três ou quatro que respondiam, quase todos estavam calados… MUDOS! 

A despensa da casa da Pipoca estava lotada de açaí, camarão, farinha… 

… e, no final da missa, havia uma fila de mudos no confessionário!


Luís Augusto Menna Barreto

9 de novembro de 2025


*Vide a crônica "O Orelhão o Mesa Branca e o Padre"