segunda-feira, 6 de abril de 2026

Nunca Mais Pergunto


Eu e minha boca grande. 

Foi em Breves. Marajó. A “Macondo” marajoara. 

O caso era de violência doméstica.

Sala de audiência. Determinei que buscassem o caboclo que estava preso e que a vítima entrasse. Sem saber de qual lado da mesa sentar, sem querer interromper as atividades (intervalo entre audiências: zaps, periscopes e twuíteres), a pobre moça sentou-se ao lado do Defensor Público, mas ninguém disse nada. Acho até que o Promotor sentiu-se mais à vontade assim, porque poderia olhar com mais liberdade as mensagens de texto, sem que a moça espiasse com o canto do olho!

Um minuto depois, o Fechadura fez entrar o agressor. O caboclo era um sujeito franzino, daquele tipo meio “ossudo”, sabe?! Mas olha: se alguém tem cara de mau, é esse! Diferente de muitos que entram com a cabeça baixa, o caboclo, que tinha no máximo 1,60m de altura, entrou de cabeça erguida e olhando direto para a moça. Essa, com a cabeça baixa, ainda tinha um olho completamente inchado, e a pálpebra parecendo uma bandeira a meio mastro. Ele entrou e ela olhou para o chão. Não o encarou nenhuma vez.

Peguei os autos do processo (naquele tempo ainda era tudo de papel, tinha 30 páginas apenas) e estava lá: a agressão fora na porta da casa, 15 dias atrás. De novo, como em muitos laudos no arquipélago: “lesão causada por instrumento contundente. Meio cruel, socos”.

Li em voz alta e o caboclo, sem pedir licença me corrigiu:

— Socos não, doutor. Foi um só.

— Égua da porrada! — O promotor, com seu palavreado típico do Estado do Pará.

O Defensor Público a esta altura ficou curioso e fez um intervalo nas mensagens de celular para espiar primeiro a moça ao seu lado, depois o agressor, e fez uma expressão de quem não acreditava muito que aquele sujeito franzino tivesse feito aquilo.

Perguntei para a moça o que tinha havido e ela foi econômica no relato:

— Eu tava chegando em casa, doutor, e quando fui abrir a porta, ele abriu na mesma hora e me deu um soco, me chamou de tudo o que o senhor pode imaginar e mandou eu ir embora, senão ele me matava…

— Se eu quisesse matar, tinha matado. Só dei um soco. — Era assim. Ele interrompia se não concordava. Na verdade, eu poderia determinar que não interrompesse mais, mas alguma coisa me dizia que ele era do tipo que estava sendo sincero, e assumia o que fazia. Tanto assim, que depois disso, a moça foi para delegacia e o caboclo foi preso ainda parado na porta de casa, como quem estava esperando a polícia. 

Quinze dias na cela da delegacia aguardando a audiência, e a impressão é que para ele havia sido apenas algumas horas.

A Lei era diferente. O processo só seguia se a vítima quisesse.

Comecei, então, a fazer o que sempre faço: explicar para a moça como funcionaria. Ela também me interrompeu (acho que isso era costume do casal):

— Não precisa explicar, não, doutor. Eu quero parar por aqui. Não vou processar ele! — (Não seria ela quem processaria, seria o Estado, mas dá trabalho explicar isso, e todo mundo entendeu o que ela quis dizer).

Daí o promotor (que tem uma incrível habilidade em enviar mensagens e prestar atenção à audiência ao mesmo tempo) tentou convencê-la a “processá-lo”, perguntou se ela não tinha medo da ameaça de morte que havia recebido…

— Se eu quisesse matar, tinha matado. Só dei um soco. — Adivinha quem interrompeu?! Pois é. O caboclo!

Enfim, o promotor tentou, mas ela realmente não queria “processar" o sujeito. Vai entender…?!

O problema era que a moça estava com o olho muito machucado e chegava a indignar o fato de que o agressor sairia dali sem ter nem mesmo com o que se preocupar.

Tentando não demonstrar, eu, ainda assim, queria pelo menos alguma explicação, ou que o agressor ficasse com algum remorso, sei lá! 

Aí que fiz a bobagem:

— Há quanto tempo tu estás preso? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta, porque tinha lido no auto de flagrante.

— Contando hoje, inteirou 15 dias.

— 15 dias, por um soco. 15 dias numa cela imunda, por um soco. Valeu a pena?  

Pois o franzino baixinho respondeu com uma pergunta:

— O senhor vai me soltar hoje, doutor?

— Eu não vou 'soltá-lo'. É ela quem o está soltando, por ter consideração contigo, e não querer representar.

Acho que ele não entendeu e perguntou de novo:

— O senhor vai me soltar hoje, doutor?

Daí, me rendi e vi que não adiantava explicar. Respondi do jeito que ele entenderia:

— Vou, vou soltar. Por quê?

— Pois se o senhor me deixar preso só mais 15 dias, dou um soco no outro olho dela agora mesmo na sua frente!

— Ééééégua! — Foi o promotor quem exclamou!

Eu fiquei sem resposta. Sou lá do Rio Grande do Sul, e nem “bah!” consegui soltar.

Nunca mais pergunto.






Luís Augusto Menna Barreto, em 6 de fevereiro de 2016.

domingo, 5 de abril de 2026

Abraço

 


Mãos atentas.


Passos.

Queda.

Abraço.


Depois, distância.


Acenos.

Mensagens.



Trocaram de lugar as mãos.


Mãos atentas.


Passos.


Queda.


Abraço plantado.


Luís Augusto Menna Barreto, em 2 de abril de 2026


sábado, 4 de abril de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 8

 


Dora olhava para o movimento, no começo da manhã, sem pensar no que sentia. 


Sentia a rua. Aquele universo emprestava o abraço. 


Olhava para as pessoas que se movimentavam quase sempre com pressa, passando por tantos “invisíveis” como ela. A mesma pessoa que chegava com pressa para fazer a cópia da chave, na banca de revistas da Nazaré, era a que não a cumprimentaria no dia seguinte, ignorando sua existência.


Quem nunca comprou o suco da menina da caixa de isopor da esquina, sequer poderia lembrar que passava por ela todos os dias. 


Os mesmos que estacionavam todos os dias ali, nem lembravam que não era a Socorro que estava guardando a vaga, com a flanelinha no braço.


Ainda assim, era o pequeno universo que a acolhia.


——


Quando chegara em casa no começo da noite anterior, viu a porta entreaberta e luz no apartamento.


— Bravo?


Depois do silêncio, insistiu:

— Filho?


Abriu a porta devagar.

Sentado à mesa com uma garrafa que ela não soube identificar e o copo simples que ela usava, já vazio. Francisco apoiava a cabeça com as duas mãos e disse apenas:


— Ele não está aqui.


Dora olhou tudo desarrumado. Sofá arrastado. Armários abertos. O pote de vidro onde guardava suas economias em um saco plástico no meio do arroz, tinha apenas uns poucos grãos que resistiram a serem derramados no assoalho. Olhou desolada para Francisco. Ele levantou. Não para um abraço. Mas para fugir, mais uma vez. 


Passou por ela sem dizer nada. 


Quanto a Bravo, sabia que levaria tempo e somente o veria, se nada mais restasse a ele. 


Estaria em algum beco, em alguma rua mal iluminada, em algum lugar imundo, fazendo qualquer coisa por uma seringa.


Ela começou a arrumar tudo… enquanto Francisco comprava bebida, usando dinheiro de um saco plástico que ainda tinha alguns grãos de arroz.


(Continua...)


Para ler desde o começo, CLIQUE AQUI!


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua simpatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, CLIQUE AQUI !





Luís Augusto Menna Barreto, em 31 de março de 2026.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Volta Às Aulas - Um Conto de Márnei Cônsul

 


Na segunda-feira em que o filho voltou às aulas da educação infantil, Martha acordou antes do despertador. Não por amor à rotina, mas por alívio. Preparou o café com uma alegria doméstica quase indecente, cantarolando enquanto cortava o pão em fatias tortas. Vestiu o menino com cuidado excessivo: mochila pronta, lanche saudável e beijo na testa. Na porta da escola, acenou mais tempo do que o necessário. Quando o portão se fechou, respirou fundo: estava oficialmente livre por quatro horas.

Chamava aquilo de “tempo para si”, expressão que aprendera em postagens femininas e aplicava com rigor seletivo. Seu tempo para si tinha nome, cheiro de loção barata e o dom inconveniente de fazê-la rir das próprias mentiras: chamava-se Paulo e morava a sete quarteirões dali, num apartamento antigo com elevador lento e um sofá que rangia.

Martha chegou pontualmente como sempre. Tirou os sapatos, largou a bolsa no chão e beijou Paulo com a pressa de quem sabe que o relógio conspira contra. Riram de banalidades. Ela comentou que o filho adorara a professora nova; ele respondeu que o prédio estava com problemas no gás. Coisas pequenas, ditas entre um beijo e outro.

Depois, decidiram fazer café. Paulo colocou água para ferver numa panela antiga, herança de uma tia. Martha, num gesto automático, tentou alcançar a xícara mais alta do armário, apoiando-se numa cadeira. A cadeira cedeu com um estalo seco. Martha caiu para trás, rindo antes mesmo de sentir dor, e o riso se misturou a um grito breve quando a panela, traída pela gravidade, virou-se inteira sobre ela.

A água fervente encontrou o corpo cruelmente. Paulo tentou ajudá-la, escorregou no chão molhado, bateu a cabeça na quina da mesa. Por um segundo, ambos ficaram imóveis. Martha ainda conseguiu dizer “que coisa idiota”, com a voz já estranha, antes de o silêncio se impor.

Quando os vizinhos ouviram o barulho, era tarde demais para heroísmos. O socorro chegou com sirene exagerada para um apartamento daquele tipo. Os bombeiros tentaram manter a compostura diante da cena absurda: uma panela no chão, café espalhado e duas xícaras intactas sobre a mesa. Martha foi declarada morta ali mesmo, vítima de queimaduras graves e complicações imediatas. Paulo, atordoado e com um corte na testa, repetia que só iam tomar café.

A notícia chegou ao marido de Martha, Josefino, no início da tarde, interrompendo uma reunião irrelevante. Ele largou tudo e correu para o hospital, imaginando acidentes mais comuns, mais aceitáveis. No caminho, pensou no filho, na mochila colorida, no beijo da manhã. Pensou que a vida era feita de sustos, mas não de ironias tão elaboradas.

No hospital, as respostas vieram aos poucos. O policial pediu documentos, fez perguntas neutras demais. Um endereço que não era o deles surgiu na conversa como um erro. O marido franziu a testa. Por que Martha estaria ali àquela hora? Disseram-lhe que havia um homem, um tal de Paulo, “um amigo”. A palavra “amigo” caiu pesada e deslocada.

Foi ao apartamento. O elevador lento confirmou tudo antes mesmo de a porta se abrir. O cheiro de café queimado ainda estava no ar. Sobre a mesa, duas xícaras limpas. Na cozinha, a panela. No sofá, uma manta dobrada com cuidado íntimo. Na estante, um porta-retrato virado para baixo. Não precisou de confissão.

O marido sentou-se no sofá que rangia e riu. Foi um riso curto, sem alegria, que mais parecia um soluço educado. Pensou em Martha feliz naquela manhã, na pressa em deixar o filho na escola, no brilho estranho nos olhos. Pensou que ela morrera exatamente no intervalo que inventara para viver outra vida.

No velório, as pessoas repetiam frases prontas: “Uma fatalidade”, “Ninguém espera”. O marido concordava com a cabeça, olhando para o caixão fechado. Não contou a ninguém o que descobrira; guardou para si aquela verdade torta, como se fosse uma piada que ninguém mais entenderia. Quando o filho perguntou por que a mãe não voltaria para buscá-lo na escola, ele respondeu que, às vezes, os adultos erram o caminho.

Na semana seguinte, Josefino levou o menino às aulas. Na porta da escola, acenou com a mão pesada. A professora retribuiu o aceno, e ele reparou a ausência de aliança na mão dela. Quando o portão se fechou, ficou ali parado por alguns segundos a mais. Depois, virou-se e foi para casa, onde o café esfriava na xícara única sobre a mesa. “Poderiam ser duas”, pensou ele, decidindo ir levar o filho à escola todos os dias dali em diante.

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Márnei Cônsul é professor, escritor e servidor público em Santo Antônio da Patrulha/RS. Formado em Letras - Português/Inglês (UNISINOS) e pós-graduado em Educação em Direitos Humanos (FURG), Educação para a Diversidade (UFRGS), Educação Ambiental (FURG), Gestão Escolar: Orientação e Supervisão (São Luís), Língua, Literatura e Ensino (FURG) e Gestão Pública Municipal (FURG). Tenho formação continuada como Agente Cultural (IFSul). Escrevo poemas, contos, crônicas e romances. Publico desde 2009. Integra o Grêmio Literário Patrulhense desde 2013, tendo sido presidente da entidade no biênio 2023-2025. Participante do coletivo Desautores desde 2023. Como professor, atua desde 2009, tendo já passado pelas redes pública e privada de ensino, dedicando-se, atualmente, apenas a aulas particulares individuais ou em pequenos grupos pelo projeto "English for a better age".

Mantém o blog  Márnei Cônsul Escritor onde publica crônicas, contos, micro contos mantendo uma esccrita afiada e desafiadora, que tem um claro propósito de retirar-nos da zona de conforto. E ele consegue.

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segunda-feira, 30 de março de 2026

Só Fiz Ponhá a Ficha

 


Desta vez, não foi comigo.

(Ufa. Nem toda história precisa acontecer com a gente.)


Quem contou foi um colega — o Dr. Miguel — enquanto a gente puxava os meiões antes de uma pelada. Aliás, pouca gente imagina o que é apitar jogo entre juiz. O árbitro marca a falta e quase pede desculpa:


— Excelência… acho que foi falta… mas, se o senhor entender que não, posso estar equivocado.


O problema é que quem sofreu a falta também é juiz.


Mas essa é outra história.


A que o Miguel contou vem do tempo em que ele rodava interior — desses de caboclo pouco letrado, mas nada bobo.


Era audiência de alimentos.


O tipo do sujeito era conhecido: espalha filho como quem espalha semente. Tem quem chame de “boto”. Sempre tem uma história pronta, um discurso decorado:


— Doutor, ela gasta tudo em festa e deixa a criança largada.


Curioso como a festa nunca é problema quando é deles.


Quando não conseguem escapar com o “vou dando conforme puder”, tentam outra matemática: pedem a guarda. O filho vai pra avó paterna, vira mais um na conta, chama a avó de mãe… e a vida segue, empurrada.


Mas, segundo o Miguel, esse resolveu inovar.


Sala pronta: juiz, promotor, defensor, digitadora.


Entra a mãe, com o bebê dormindo no colo, uma fraldinha cobrindo o rosto. Logo atrás, o pai.


Mas não entrou cabisbaixo, não. Veio firme. Chegou até a estender a mão pra cumprimentar — desistiu no meio do caminho, quando ouviu um seco:


— Sente aí.


Miguel foi direto, como é dele:


— Vamos resolver. Quanto tu podes pagar por mês? Alguma coisa vais ter que pagar. Pai tu já disseste que és.


O caboclo respirou, como quem puxa um texto ensaiado:


— Doutor, vamos fazer assim: eu fico com a criança e ela não me dá nada.


A mãe quase levantou da cadeira:


— E tu vais dar de mamar como, seu infeliz?!


Ele nem se abalou.


— Doutor, o filho é meu. Tem que ficar comigo.


Miguel devolveu:


— É dela também.


Foi aí que veio a lógica.


— Doutor, o senhor já foi no aeroporto de Belém?


— Já… o que tem isso?


— Lá não tem aquelas máquinas de refrigerante?


— Tem.


O caboclo ajeitou o corpo, certo da vitória:


— Pois é. Se eu ponhá a ficha e sai a latinha… a latinha não é minha?


Miguel ainda ia responder.


Não deu tempo.


— Pois então, doutor. Eu só fiz ponhá a ficha nela. Saiu a criança… a criança é minha.


E cruzou os braços, como quem encerra um caso difícil.



Não lembro o que o Miguel decidiu.

Ou não falou — ou o jogo já tinha começado.








Luís Augusto Menna Barreto, em 27 de maio de 2016.