— Sabe o que eu sonho, olhando esse marzão lindo, Formiga?
— Lá vem tu com tuas viagens, Abrelino. Para de fumar porcaria!
— Tô fumando nada. Eu vejo uma morena linda, saindo nua das ondas, vindo pro meu lado…
— Eita, Abrelino! Pois eu tô vendo mesmo, olha lá! E tá vindo pra cá! Nuazinha!
— Tá maluco, Formiga? Quem tá fumando é tu! Só areia e onda. Quem dera…
— Ela tá vindo Abrelino. Olha ali!
— Não tem nada ali, maluco. Tá leso? Tô dizendo que era só sonho.
— Teu sonho tá andando na nossa direção, Abrelino! Tá vindo aqui! Como é o nome dela? Rápido o nome!
— Que nome, Formiga, nem pensei em nome era só…
— Qual nome, Abrelino, fala logo!
— Sei lá… Vanusa talvez?!
— Tá ótimo… — Oi. Vanusa, né?!
— É… a gente se conhece?
— Não, mas vai se conhecer!
— Pirou, Formiga? Com quem tu tá falando? Não tem ninguém aí! Bateste a cacholeta?
— Vanusa, desculpa meu amigo Abrelino. Ele não diz coisa com coisa. Vamos. Precisamos arrumar uma roupa. Pega minha toalha por enquanto. Tchau Abrelino. Ei… não me vai parar de sonhar agora!
…
— Fala, Abrelino! Senta aqui pra tomar uma.
— Grande Fagundes! Ei, tens visto o Formiga?
— Muito pouco. Desde que ele arrumou aquela morena, a turma vê pouco ele por aí. Também, um morenão daquele. Eu também sumiria com uma daquelas.
— Ela não existe, Fagundes. Eu que sonhei que ela tava saindo do mar, e o Formiga enlouqueceu.
— Ihhh… Já tá porre no primeiro copo, Abrelino? Ontem mesmo o Formiga postou no story. Olha aqui!
— Tô vendo nada. Só o Formiga. E a foto tá até mal enquadrada!
— Abrelino… tu tá bem? Tá dormindo bem, precisando conversar com alguém?
— Tá me estranhando, Fagundes? Vocês é que parece que combinaram de me sacanear! Bora beber que a gente não tá aqui pra conversar.
…
— Abrelino! Quanto tempo. Dá aqui um abraço!
— Flavinha, quanto tempo! Vai em alguma festa?
— Vim de uma. Primeira comunhão do Ricardinho, filho do Formiga! Ele perguntou por ti. A Vanusa tá tão linda!
— Que primeira comunhão, que Vanusa? Até tu, Flavinha? Essa mulher não existe, eu que sonhei com ela saindo da praia.
— Ahahah… tu e essa tua história, Abrelino. Continuas o mesmo!
…
— Olha, só assim para nos encontrarmos, né, Abrelino: no geriatra!
— Ernesto, quanto tempo. O tempo passa, né?
— Nem fala. Ainda lembro de toda a turma na praia, e agora, até o filho da Vanusa e do Formiga tá casando.
— Que filho do Formiga? A Vanusa não… ah, deixa pra lá.
…
— Oi, Formiga. Poxa que chato, na véspera do casamento do Ricardinho. Já soube?
— O que foi Ernesto?
— O Abrelino. Bateu as botas. Ainda outro dia encontrei ele no geriatra. Parecia bem.
— O quê? O Abrelino? Não pode ser! NÃO PODE!!!
— Calma, Formiga. Poxa, nem sabia que eram tão amigos assim. Ei… Formiga… onde tu vai?
…
— Renato! Renato, abre logo o portão…
— Nossa o que foi, Seu Formiga?
— Renato, a Vanusa ou o Ricardinho já saíram?
— Vanusa? Ricardinho? Quem são, Seu Formiga? Morador novo? A Síndica não passou nada aqui pra portaria, e no meu turno, não teve mudança.
— A minha Vanusa, Renato. O meu Ricardinho!
— Ãh… sua o quê? Seu o quê? Desculpa, Seu Formiga, não tô entendendo…
— Deixa pra lá! Eu mesmo vejo!
…
— Vanusa…? Ricardinho…? Vanusa… Vanusa…?
Luís Augusto Menna Barreto
20.09.2026