quarta-feira, 4 de março de 2026

O Fechadura, a Audiência e a Visagem - parte 2


— Que história de visagem é essa, Maurício? 

Eu havia telefonado para um colega meu, Dr. Maurício, que havia trabalhado antes de mim na cidade, por alguns anos. Depois, dele, por Breve tempo, teve uma juíza substituta, e agora eu.

Depois de alguma risada, ele, de um jeito inevitavelmente bem humorado, disse-me:

— Pra mim, nunca apareceu! Mas teve uma vez que botei R$ 50,00 numa garrafa de cerveja e coloquei a garrafa em cima do armário da cela. Depois, eu me encontrei com o pessoal à noite, na praça, e disse que quem fosse lá pegar a garrafa era o dono.

— E quem pegou? — Perguntei.

— Égua, moleque, acho que os cinquenta estão lá até hoje!!

— Sim, mas tu não foste pegar de volta?

— Tu é doido, é?! — Foi a última coisa que ouvi, porque a ligação caiu, e não houve jeito de ligar novamente. Coisas da ilha e seu sinal intermitente.

Eu estava há pouco tempo na cidade, mas já havia entendido que para conseguir alguma informação havia dois lugares: o bar do Seu Nonô, ou o açougue do Retalho. Escolhi o bar do Seu Nono, porque poderia tomar o café da manhã. 

Servido o café, perguntei direto: 

— Seu Nonô, que história é essa de visagem no fórum?

— Ah, Doutor, o senhor vai me desculpar, mas de visagem eu não falo! Com essas coisas não se mexe, doutor. 

— Deixa de ser bobo, Seu Nonô! Quero saber que história é essa de um tal de Bento que morreu por lá?

— Olha, doutor: o Bento tinha um processo aí no Fórum que acusavam ele de ‘estrupo’, mas ele falava que foi o boto. Que o boto chegou amarrou ele e fez ele beber cachaça até ficar porre. Ele dizia que foi o boto que entrou na casa e ‘estrupou' a Pequena. Ela ficou grávida e disse que era filho do 'estrupo' do Bento. Disse que quando saísse a criança ia mostrar como era a cara dele. Mas a Pequena perdeu a criança logo cedo e continuou acusando o Bento.

— E o Bento?

— O Bento era o noivo da Pequena, doutor! Mas diz que ela não permitia saliência antes do casamento. Ele foi encontrado porre na beira do rio, e foi preso.

— E a noiva, essa Pequena aí?

— A noiva, diz que fugiu com um primo pros garimpos de Caiena. 

— Sim, mas e essa história de Visagem, Seu Nonô?

— Ah, doutor, disso não falo, não. So sei que diz que o Bento foi encontrado mortinho lá no fórum, na cela, no dia da audiência.

Não consegui saber mais nada com Seu Nonô. Resolvi ir no açougue do Retalho.

Era antes de 8h da manhã da segunda-feira, mas já tinha dois caboclos jogando sinuca e com um copo de cerveja cada. Sim, porque no açougue do Retalho, tem a mesa de sinuca, tem cerveja e sempre tem um “brega" tocando, que ele logo baixa o volume quando eu venho passando; tem carne pendurada nos ganchos e o bloquinho onde (dizem) ele anota o jogo do bicho! Só não tem é um freezer no açougue, mas o resto, tem! 

Não precisou nem eu falar nada, e o Retalho já foi falando:

— Já chamou a Socorro Rezadeira, doutor?

— Hein?

— Tem que chamar, doutor! Se o Bento tá aparecendo, tem que chamar! Chega juiz novo aí, não demora o Bento começa a aparecer. Acho que ele quer que veja o processo, doutor! Tem que chamar a Socorro Rezadeira.

— Olha Retalho, eu já vi muito vivo vindo falar com juiz novo quando chega, prá ver se desencalha os processos. Mas morto, é a primeira vez!

— ‘’Deusulivre", doutor! — Fez o sinal da cruz! — Ô Alerta, a Socorro Benzedeira não é tua cunhada? — O Retalho perguntou para um homem magrinho e pequeno, que estava jogando sinuca.

— É.

— Vai chamar logo, pro doutor, Alerta!.

Ele secou o copo de cerveja em um gole e saiu apressado. 

Conversei mais um pouco e quando eu cheguei no Fórum, estavam todos ali na frente: o Barganha, o Goela, D. Antônia do Sonho, que faz a limpeza do Fórum e dizem que sabe interpretar sonhos para dizer qual bicho vai dar, o Fechadura e os dois presos: o Mala e o Sonrisal. 

Perguntei o que estavam fazendo ali fora e foi o Goela quem respondeu.

— A Socorro Rezadeira já entrou doutor. Temos que esperar aqui!

Estranhei como foi rápido para ela chegar. Muitos dias depois, fiquei sabendo que ela mora na rua ao atrás do Fórum e o casebre onde vive é, inclusive, encostado na parede do Fórum, lá na parte de trás. Por isso chegou tão rápido.

Enquanto esperávamos na praça em frente ao fórum, aproveitei para perguntar para o Fechadura:

— Sim, Fechadura, como tu fizeste pra prender os rapazes?

— Foi com o isqueiro, doutor.

— Hein?

— Com o isqueiro!

— Como isso?

— Eu tava parado na esquina e ia fumar um cigarro. Tava colocando a mão no bolso e eles vinham correndo. Quando passaram por mim, gritei: ‘quem correr fica aleijado!’. Eu falei na audiência doutor: o importante é o jeito como a gente fala!

— Foi, doutor! — Falou o Mala, sem ninguém perguntar. — A gente achou que era arma, doutor! Ele mandou a gente continuar caminhando até a delegacia sem olhar pra trás e a gente foi.

Nisso a tal Socorro Rezadeira saiu do fórum com uns galhos de alguma coisa numa mão, fumando um palheiro que fazia muita fumaça e com uma garrafa de cerveja empoeirada na outra mão:

— Tem que ''ponhá'' a oferta pra “aquietá” o morto.

— Hein?

— Tem que “ponhá”! — E apontou a garrafa pra mim.

— Doutor, — falou o Goela: — depois que o doutor Maurício botou os cinquenta na garrafa, parou a visagem! A Socorro Rezadeira veio e disse que foi a oferta! Depois do doutor Maurício, quando chegou a juiza substituta, o Bento veio de novo! A gente chamou a Rezadeira, a juiza fez a oferta, e parou a visagem, doutor!

A Rezadeira balançou a garrafa na minha direção.

— Põe logo, doutor! — O Mala, novamente, sem ninguém perguntar nada!

Olhei estranhando muito… mas enfim! Bora “aquietá” o morto, então!

— Só tenho essa nota de cinquenta rasgada na ponta, serve? — Perguntei, por via das dúvidas. Vai que o morto só aceita nota novinha?

A Socorro rezadeira botou a nota na garrafa, entrou, demorou uns cinco minutos, saiu e disse:

— Tá quieto. 

Vi o alívio de todos.

Por delicadeza, agradeci e perguntei: 

— Quanto eu lhe devo?

— Nada não. Pro doutor é de graça.

Entramos e realizamos a audiência. Só entrando no Fórum, foi que notei que os presos estavam sem algemas; mas aquela altura, com morto quieto e o Fechadura prendendo com o isqueiro, já não estranhei mais nada!

No final do dia, eu pensei em passar no açougue do Retalho para agradecer, afinal de contas! 

Quando estava no açougue, chegou o tal do Alerta, que diz ser cunhado da Rezadeira. Ele estava carregando uns pedaços de cano de ferro em um carrinho de mão e parou ali. 

— Retalho, veja aí, um quilo de carne moída e uma maminha.

— Vai levar carne em vez de tomar uma, hoje, Alerta? — Perguntou o Retalho.

— Não é pra mim. A Rezadeira convidou eu e a Sem Sossego pra comer uma carne com ela.

— Fiado? — Perguntou Retalho.

— Não, hoje é no dinheiro!

E puxou uma nota de cinquenta!

A nota estava rasgada na ponta!



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Texto revisado e aprovado por Dona Grafos





Luís Augusto Menna Barreto, em 7 de junho de 2016


segunda-feira, 2 de março de 2026

O Fechadura, a Audiência e a Visagem


Pois tinha esse promotor! Ele sempre “adjetivava" os apelidos!

Daí que quando estava lendo a denúncia, no começo da audiência, estava lá: “fulano de tal, o inconveniente Mala, em concurso com o fulano de tal, o efervescente Sonrisal, acompanhados do adolescente fulano, o intrometido Furão”.

A audiência dos dois maiores (o Mala e o Sonrisal) havia ficado para a tarde, porque o Fechadura (o carcereiro da delegacia) que havia prendido os rapazes, havia perdido a chave da cela! Ficou porre na noite anterior, e não sabia mais onde havia guardado a chave. Dizem que perto das duas da tarde, apareceu uma moça na delegacia e entregou a chave para o delegado… dizem! 

Era por volta de 17h quando começamos a audiência. O expediente, no Estado do Pará, termina às 14h, normalmente. Mas era sexta-feira, e o promotor viajaria de volta para Belém no navio que passa às 22 horas no trapiche municipal e não viria na próxima semana. E os rapazes estavam presos e fora “apenas" uma briga.

Os rapazes foram presos por armarem uma briga na mesma festa em que o Fechadura  tomou seu porre. Confesso que fiquei curioso para saber como o Fechadura, porre, teria prendido os três rapazes…

Assim que eu terminei de ler a denúncia, ouvimos um barulho estranho, vindo lá do fundo do fórum, lá atrás, onde fica a cela, passando o salão do júri, ainda fechado. Parecia barulho de ferro.

—  Goela!  Chamei o meirinho. — Veja o que foi esse barulho, por favor.

Tive a impressão que o Goela havia enrugado a testa. Mas não dei bola, e continuei a audiência.

—  Sim, Mala (não tô xingando, era o apelido!), me falas como vocês foram presos!

— Ah, doutor, nada não, foi só uma briga e como a gente tava apanhando, saímos correndo e o Fechadura que nos prendeu.

— O Fechadura sozinho?  Perguntei.

Barulho de ferro de novo. 

Vi que os presos se olharam. O promotor arqueou uma sobrancelha, e o Goela olhou pra mim. 

— Bora Goela. Descobre o que é isso.

E saiu o Goela de novo.

Entrou o Fechadura para o depoimento. Comecei a perguntar:

— Nome?

Fechadura.

— De batismo?

Ele colocou a mão no bolso detrás da calça, em silêncio.

— Sim, Fechadura, não sabe teu nome, caramba?

Ele pegou a identidade do bolso e estendeu para mim. Li o nome e… é… vamos deixar por “Fechadura” mesmo!

Barulho novamente. Notei como todos ficaram desconfortáveis nas cadeiras. 

Sabe quando se tem a impressão que todo mundo está sabendo alguma coisa e falando com os olhos, menos tu próprio? Pois é. Eu estava assim.

Pela minha lista, eu estava curioso para saber como o Fechadura prendeu os três, saber o que todos ali pareciam saber, menos eu, e o que era o barulho!

Vamos começar pelo Fechadura!

Depois que qualificado, disse para o Fechadura contar a história da prisão.

— Ah, doutor, eu tava na esquina do Bar no Seu Nonô, e vi a correria deles vindo pro meu lado, isso perto de 2h da madrugada. Esperei passar por mim e mandei parar.

— Só isso? Eles pararam? Tu apontaste alguma arma, como foi?

— Não doutor, só falei do jeito certo.

— E que jeito……  Barulho!

Todos se levantaram. Até os presos!

É ele!  Disse o Mala. Todos se olharam como quem concorda. Que diabo de “ele”???

— É o Bento!  Falou o Sonrisal.

Bento? Quem é Bento, pensei? será que era alguém da briga, ou coisa assim? Mas por que o promotor e o Goela estão assustados?

— Bora deixar a audiência pra segunda, doutor.  O Goela falou com uma cara séria como eu nunca havia visto.

Daí, me irritei. 

— Para tudo! Alguém me explica o que tá acontecendo!

— Esse barulho, doutor. Isso é visagem!

— Hein? Visagem? Que é isso?

— É o Bento, doutor. Morreu por causa de um processo aqui do fórum, faz uns dez anos! E agora, quando tem gente de noite aqui, o Bento fica revirando tudo, atrás do processo. Bora deixar pra segunda, doutor!

Eu tava admirado. Parecia que todos falavam sério! Só eu não sabia daquilo, pelo jeito!

— Vocês estão ficando loucos? Visagem o caramba. Os guris estão presos! A gente tem que resolver isso hoje!

— Tem nada nã o doutor!

— Hein?

— Tem nada não, doutor!  Era o Sonrisal.

— Como assim, não tem nada?

— A gente espera até segunda!

É! Concordou o Mala.

— Espera o quê?

— A gente fica na cadeia até segunda, doutor, daí o senhor faz a audiência de manhã.

— É.  Concordou de novo.

Mais um barulho! Todos levantaram! Até o promotor. 

Quando eu me virei para o Barganha, que estava datilografando a audiência, ele já tirou a folha da máquina de escrever, antes de eu ditar qualquer coisa:

— Tá pronto doutor. Coloquei que o senhor suspendeu a audiência e continua na segunda pela manhã.

Dali, para saírem todos do fórum, foi menos de dois minutos! 

Descobri que o fórum era assombrado. 

Só não estar certo da assombração.


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Texto revisto e aprovado pela curadoria de Dona Grafos



Luís Augusto Menna Barreto, em 3 de junho de 2016


domingo, 1 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 4

 


Pela primeira vez em muitos anos, havia um vazio na calçada. 

Centenas passaram sem notar. Alguns voltaram frustrados porque a vendedora de batatinhas (“como era mesmo o nome dela?”) não “veio hoje”. Mas houve muitos fregueses, como Armelinda, que se preocuparam. 

Depois de tantos anos, não eram apenas batatinhas. 

De tantas e tantas idas até ali, sorrisos e conselhos, conhecia aquele universo da calçada. Olhou para Socorro, a flanelinha, e esta moveu os ombros sem palavras, em um silêncio preocupado. Nazaré, da banca de revistas, também não sabia de nada.

A duas rotas de ônibus de distância, havia uma mãe que depois de certificar-se que o filho dormiu, lavava as roupas que chegaram imundas como ele. Odor de rua, de meses sendo usadas ininterruptamente. Odor que não foi suficiente para impedir o abraço.

Os olhos dele carregavam súplica e vergonha. 

Havia culpa. A pior culpa: a que sabe que ela era seu único apoio, e mesmo assim, ele se sentir menor que seus erros… 

Sabia que a magoaria novamente. 

Ela também sabia. Mas permitiu-se invocar tão somente o instinto materno, o acolhimento… não queria nem mesmo ouvir conselhos de si mesma.

Ele levantou devagar, sem nem tentar sustentar o olhar. Entregou-se simplesmente e, se alguma dignidade lhe restava, entregou-a no silêncio. 

Era apenas súplica. Não ousou justificar-se. 

Deixou-se acolher no abraço.

Depois, foram apenas gestos: 

O banho. 

O alimento. 

O descanso. 


___


Finalmente, depois de todos os cuidados que sabia dar, depois de colocar a roupa de molho, permitiu-se sentar velando-lhe o sono. 

Pegou o celular e procurou um nome que há muito não digitava. Enviou a mensagem:

“Francisco, nosso filho está aqui.”


(... continua) 


Luis Augusto Menna Barreto, em 1º de março de 2026


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!