Eu e minha boca grande.
Foi em Breves. Marajó. A “Macondo” marajoara.
O caso era de violência doméstica.
Sala de audiência. Determinei que buscassem o caboclo que estava preso e que a vítima entrasse. Sem saber de qual lado da mesa sentar, sem querer interromper as atividades (intervalo entre audiências: zaps, periscopes e twuíteres), a pobre moça sentou-se ao lado do Defensor Público, mas ninguém disse nada. Acho até que o Promotor sentiu-se mais à vontade assim, porque poderia olhar com mais liberdade as mensagens de texto, sem que a moça espiasse com o canto do olho!
Um minuto depois, o Fechadura fez entrar o agressor. O caboclo era um sujeito franzino, daquele tipo meio “ossudo”, sabe?! Mas olha: se alguém tem cara de mau, é esse! Diferente de muitos que entram com a cabeça baixa, o caboclo, que tinha no máximo 1,60m de altura, entrou de cabeça erguida e olhando direto para a moça. Essa, com a cabeça baixa, ainda tinha um olho completamente inchado, e a pálpebra parecendo uma bandeira a meio mastro. Ele entrou e ela olhou para o chão. Não o encarou nenhuma vez.
Peguei os autos do processo (naquele tempo ainda era tudo de papel, tinha 30 páginas apenas) e estava lá: a agressão fora na porta da casa, 15 dias atrás. De novo, como em muitos laudos no arquipélago: “lesão causada por instrumento contundente. Meio cruel, socos”.
Li em voz alta e o caboclo, sem pedir licença me corrigiu:
— Socos não, doutor. Foi um só.
— Égua da porrada! — O promotor, com seu palavreado típico do Estado do Pará.
O Defensor Público a esta altura ficou curioso e fez um intervalo nas mensagens de celular para espiar primeiro a moça ao seu lado, depois o agressor, e fez uma expressão de quem não acreditava muito que aquele sujeito franzino tivesse feito aquilo.
Perguntei para a moça o que tinha havido e ela foi econômica no relato:
— Eu tava chegando em casa, doutor, e quando fui abrir a porta, ele abriu na mesma hora e me deu um soco, me chamou de tudo o que o senhor pode imaginar e mandou eu ir embora, senão ele me matava…
— Se eu quisesse matar, tinha matado. Só dei um soco. — Era assim. Ele interrompia se não concordava. Na verdade, eu poderia determinar que não interrompesse mais, mas alguma coisa me dizia que ele era do tipo que estava sendo sincero, e assumia o que fazia. Tanto assim, que depois disso, a moça foi para delegacia e o caboclo foi preso ainda parado na porta de casa, como quem estava esperando a polícia.
Quinze dias na cela da delegacia aguardando a audiência, e a impressão é que para ele havia sido apenas algumas horas.
A Lei era diferente. O processo só seguia se a vítima quisesse.
Comecei, então, a fazer o que sempre faço: explicar para a moça como funcionaria. Ela também me interrompeu (acho que isso era costume do casal):
— Não precisa explicar, não, doutor. Eu quero parar por aqui. Não vou processar ele! — (Não seria ela quem processaria, seria o Estado, mas dá trabalho explicar isso, e todo mundo entendeu o que ela quis dizer).
Daí o promotor (que tem uma incrível habilidade em enviar mensagens e prestar atenção à audiência ao mesmo tempo) tentou convencê-la a “processá-lo”, perguntou se ela não tinha medo da ameaça de morte que havia recebido…
— Se eu quisesse matar, tinha matado. Só dei um soco. — Adivinha quem interrompeu?! Pois é. O caboclo!
Enfim, o promotor tentou, mas ela realmente não queria “processar" o sujeito. Vai entender…?!
O problema era que a moça estava com o olho muito machucado e chegava a indignar o fato de que o agressor sairia dali sem ter nem mesmo com o que se preocupar.
Tentando não demonstrar, eu, ainda assim, queria pelo menos alguma explicação, ou que o agressor ficasse com algum remorso, sei lá!
Aí que fiz a bobagem:
— Há quanto tempo tu estás preso? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta, porque tinha lido no auto de flagrante.
— Contando hoje, inteirou 15 dias.
— 15 dias, por um soco. 15 dias numa cela imunda, por um soco. Valeu a pena?
Pois o franzino baixinho respondeu com uma pergunta:
— O senhor vai me soltar hoje, doutor?
— Eu não vou 'soltá-lo'. É ela quem o está soltando, por ter consideração contigo, e não querer representar.
Acho que ele não entendeu e perguntou de novo:
— O senhor vai me soltar hoje, doutor?
Daí, me rendi e vi que não adiantava explicar. Respondi do jeito que ele entenderia:
— Vou, vou soltar. Por quê?
— Pois se o senhor me deixar preso só mais 15 dias, dou um soco no outro olho dela agora mesmo na sua frente!
— Ééééégua! — Foi o promotor quem exclamou!
Eu fiquei sem resposta. Sou lá do Rio Grande do Sul, e nem “bah!” consegui soltar.
Nunca mais pergunto.
Luís Augusto Menna Barreto, em 6 de fevereiro de 2016.