Desta vez, não foi comigo.
(Ufa. Nem toda história precisa acontecer com a gente.)
Quem contou foi um colega — o Dr. Miguel — enquanto a gente puxava os meiões antes de uma pelada. Aliás, pouca gente imagina o que é apitar jogo entre juiz. O árbitro marca a falta e quase pede desculpa:
— Excelência… acho que foi falta… mas, se o senhor entender que não, posso estar equivocado.
O problema é que quem sofreu a falta também é juiz.
Mas essa é outra história.
A que o Miguel contou vem do tempo em que ele rodava interior — desses de caboclo pouco letrado, mas nada bobo.
Era audiência de alimentos.
O tipo do sujeito era conhecido: espalha filho como quem espalha semente. Tem quem chame de “boto”. Sempre tem uma história pronta, um discurso decorado:
— Doutor, ela gasta tudo em festa e deixa a criança largada.
Curioso como a festa nunca é problema quando é deles.
Quando não conseguem escapar com o “vou dando conforme puder”, tentam outra matemática: pedem a guarda. O filho vai pra avó paterna, vira mais um na conta, chama a avó de mãe… e a vida segue, empurrada.
Mas, segundo o Miguel, esse resolveu inovar.
Sala pronta: juiz, promotor, defensor, digitadora.
Entra a mãe, com o bebê dormindo no colo, uma fraldinha cobrindo o rosto. Logo atrás, o pai.
Mas não entrou cabisbaixo, não. Veio firme. Chegou até a estender a mão pra cumprimentar — desistiu no meio do caminho, quando ouviu um seco:
— Sente aí.
Miguel foi direto, como é dele:
— Vamos resolver. Quanto tu podes pagar por mês? Alguma coisa vais ter que pagar. Pai tu já disseste que és.
O caboclo respirou, como quem puxa um texto ensaiado:
— Doutor, vamos fazer assim: eu fico com a criança e ela não me dá nada.
A mãe quase levantou da cadeira:
— E tu vais dar de mamar como, seu infeliz?!
Ele nem se abalou.
— Doutor, o filho é meu. Tem que ficar comigo.
Miguel devolveu:
— É dela também.
Foi aí que veio a lógica.
— Doutor, o senhor já foi no aeroporto de Belém?
— Já… o que tem isso?
— Lá não tem aquelas máquinas de refrigerante?
— Tem.
O caboclo ajeitou o corpo, certo da vitória:
— Pois é. Se eu ponhá a ficha e sai a latinha… a latinha não é minha?
Miguel ainda ia responder.
Não deu tempo.
— Pois então, doutor. Eu só fiz ponhá a ficha nela. Saiu a criança… a criança é minha.
E cruzou os braços, como quem encerra um caso difícil.
…
Não lembro o que o Miguel decidiu.
Ou não falou — ou o jogo já tinha começado.
Luís Augusto Menna Barreto, em 27 de maio de 2016.
Sim, a vida continua, com as dores e esperanças. Qdo olhamos pra alguém na rua não imaginamos a vida que leva. Há quem sempre sorri (e não demonstra), há a que ri feliz de verdade, há a que chora e visivelmente se sente perdida e há a que sente dor física, onde diz que esbarrou no armário da cozinha - olho roxo. Minha filha morou num prédio cuja janela dava para uma rua principal e outros prédios. Eu gostava de olhar a rua (sempre gostei) ver os carros, os ônibus, e observar os prédios. Fiquei curiosa com uma mulher que ficou no celular à janela e falava muito, quase não parava para ouvir a outra. Imaginei fofoca das boas. E as pessoas na rua passavam gesticulando ao telefone. Sempre pensava o que estariam falando? E criava na minha cabeça, histórias sobre elas. Só uma vez cruzei com uma moça chorando; não pude seguir sem me colocar à sua frente de dizer: menina, vai passar, vc é forte. Ela me olhou assustada, nada disse, mas tenho certeza de que fiz alguma coisa, um apoio.
ResponderExcluirA ideia desse capítulo é justamente essa: mostrar que o Mundo não para. Que tenhamos dores ou sorrisos, alguém ao nosso lado vai estar rindo ou chorando… e seguimos em frente…!
ExcluirEstá chegando no final… mais duas partes, e o conto se resolverá!!!
Aguardo ansiosamente o desenrolar.
ResponderExcluirSemana que vem…. Muitos desdobramentos importantes….
ExcluirO dia sempre acaba e o próximo pode ser melhor! O mundo não para; ainda bem !
ResponderExcluirAcho que é isso! Exatamente isso: esse teu “ainda bem”! Precisamos ficar atentos a isso: AINDA BEM que amanhã tem a piscina do “Beach Park” de novo, tem a academia onde as amigas fazem um ou outro exercício no meio das séries de repetições de conversas… Ainda bem que a rua vai estar ali: esperando nossas passadas….!
ExcluirO mundo continua a vida segue , mesmo com os problemas a gente segue firme! Nem todo mundo pode esperar que o amanhã traga grandes sorrisos, se vive o hoje o agora, entre lágrimas e coração magoado por aquele não dá apoio, continuamos seguindo! Que venha mais pra gente se ler , que as coisas pra Dora fique mais leve, que venha um sorriso pra essa mãe que não desiste de lutar! Liu
ResponderExcluirÉ preciso seguir andando… a vida sempre continua… conosco… sem nos. Com nossa alegria, nossa tristeza…!
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