domingo, 21 de dezembro de 2025

A Confusão do Desmorrido


Em destaque (último trecho publicado):

… tantos meses fosse desde a morte até o desmorrimento.

Enquanto o problema do seguro se desenrolava, o segundo turno da eleição estava a todo vapor! Metade da cidade para votar na alma do Valdir, metade da cidade para votar no corpo do Alberto. Na propaganda na televisão, no …



Trecho 26

(Continua...)


Todos os trechos publicados, em seqüência:


Nenhum dos velórios dele havia sido tão triste, como na primeira vez que ele morreu. E foi também o mais concorrido! 


A primeira morte foi a mais traumática… mas pior foi quando desmorreu… entre o susto e a felicidade, o primeiro saiu ganhando. Era santo ou visagem…?


Foi a sete passos da cova já aberta, que os seis amigos que levavam o caixão nos ombros ouviram as batidas… como se combinado, pararam de caminhar… o cortejo parou intrigado… e novamente ouviram-se batidas que só poderiam ser do morto, vindo de dentro do caixão…! 


Dos seis amigos que carregavam o ataúde, um saiu correndo em velocidade que nem sabia, outro se ajoelhou em profusão de sinais da cruz, e os demais não sabiam se continuavam ou n˜ao! O Padre resolveu o impasse, determinando que se voltasse à capela, o que se fez em passo apressado… 


O cortejo em marcha ré, ao som das batidas do morto, as carpideiras já não sabiam se deveriam continuar chorando: se o morto tivesse desmorrido e tudo estivesse ao contrário, talvez rir fosse o adequado! A confusão deu-se maior quando o cortejo vindo de ré, encontrou… 


… outro morto a entrar na capela. Os dois cortejos pararam e deu-se a confusão. Os dois Padres reunidos em conselho, um do morto fresco outro do desmorrido, chegaram à conclusão de que, sendo a capela para velório, mais direito teria o morto fresco. E foi daí que o caixão com o… 


… morto desmorrido foi conduzido para o carro funerário! O cortejo já tinha acostumado com as batidas, então, a curiosidade falou mais que o medo. O Padre mandou abrir, empunhando a cruz, e pronto pra jogar água benta, como se fosse arma! Quando levantaram a tampa,...


… o morto logo sentou com cara de quem não está entendendo! D. Zilma, mãe do morto, que aguentou firme quando ele morreu, não suportou o desmorrer e desmaiou! O morto pareceu nem se importar. Então a Carmem, sua esposa, venceu o susto e o medo, abriu caminho e...


… foi abraçar o marido desmorrido: 

— Alberto, que susto! Achei que tinha perdido você. 

O desmorrido olhou assustado e não retribuiu o abraço: 

— Carmem… esposa do Alberto, né? 

— Tua esposa, Alberto! Tua! Que conversa é essa? 


— Conversa nenhuma! A senhora está confusa! Eu sou o Valdir! 

Se outra fosse, quem morreria seria a Carmem; mas essa do jeito que era, parece que até a morte a rejeitava! E o morto desmorrido disse ainda, procurando com os olhos: 

— Aliás, onde está a Lucinha, minha mulher? 


E estava estabelecida a confusão! O morto era o Alberto, mas a alma desmorrida era do Valdir, vizinho do Alberto e da Carmem, marido da Lucinha, e que havia morrido há um ano, estando a viúva ainda guardando luto. 


Estando a Lucinha no velório, pois que amiga e vizinha, apressou a pedir licença e todos abriram caminho. Pegou a mão do desmorrido de um lado, enquanto a Carmem não largava a mão do ex morto do outro! Passaram as duas, a reivindicar a desviuvez, sem pensar, ainda, nas consequências! 


Dois lado se formaram: uns defendiam a validade do corpo do desmorrido! Estavam do lado da Carmem; uns defendiam a validade da alma do ex-morto! Estavam do lado da Lucinha! Sem consenso, a questão foi para a Justiça: dos homens e de Deus! Que digam os juízes e os Padres! 


Enquanto o Tribunal Eclesiástico ponderava se valeria a alma ou o corpo, aproveitando, já, para discutir se havia milagre no desmorrimento, o Tribunal da Justiça queria saber como ficaria o Seguro de Vida: a seguradora queria de volta, o seguro pago há um ano à Lucinha, viúva do Valdir, dono da alma desmorrida no corpo do Alberto. 


Havia, ainda, outros problemas: os documentos! 

— Um ou outro, seja o desmorrido Alberto ou Valdir, o que fazer com os documentos? — Ponderava um dos juízes do Tribunal! 

Dependia, antes, de declarar quem desmorreu. 

Depois de dias, juízes e padres concluíram: 


Primeiro, quem declarou foi a Igreja! 

Todos olharam em silêncio, e o Bispo manteve a pausa. Até que falou solenemente: 

— O Desmorrido é o Alberto! Nosso Senhor Jesus Cristo desmorreu no próprio corpo, assim será! A alma que se acha Valdir será exorcizada e no corpo restará somente… 


… o Alberto! 

Houve fogos e vaias. Comemorações e apupos! 

No Tribunal de Justiça, quase ao mesmo instante, fora prolatada a sentença: 

“Assim sendo, se mesmo antes de nascer, antes de ter corpo, a personalidade já tem direito, e se mesmo depois de morrer, vale a vontade do falecido… 


… a alma prevalece, porque dela vem a vontade! O Desmorrido é o Valdir". 

Nas duas instâncias, Igreja e Justiça, houve recurso e as decisões ficaram suspensas. Como era ano de eleição, tempo de escolher candidatos, o partido da situação tratou logo de lançar o desmorrido a prefeito! 


Por via das dúvidas, o partido inscreveu os dois como candidatos: o desmorrido de corpo, Alberto, e o desmorrido de alma, Valdir! 

Já se tinha o slogan: “Vote certo: no Valdir ou no Alberto”. Fossem um só ou fossem dois, o Partido tinha mais chance.


Enquanto se discutia na justiça e no clero, a cidade cada vez mais dividida, acabou dividindo também os votos, e foram para o segundo turno, justamente os desmorridos: Valdir ou Alberto, seria o prefeito!


A política traçando seu curso, as duas candidaturas travando as lutas: a da alma do desmorrido ameaçando deixar o corpo sem alma, em caso de derrota nas urnas; a do corpo do desmorrido dizendo que não entraria na prefeitura e queria ver a cidade ser governada por uma alma sem corpo. 


E ainda outras questões apresentavam-se para aquele caso de desmorrer tão singular: enquanto a seguradora do Valdir queria ver o despagar do sinistro desacontecido, a seguradora do Alberto não pagava porque não houve o morrer do corpo! Carmem logo falou que certo seria ... 


… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que... 


… valeria tanto a morte quanto o desmorrer! Se o seguro segurava a morte, a morte aconteceu, decidiram. O seguro fora bem pago! No contrato, nada havia sobre devolução por desmorrimento. Assim, para ficar claro, criou-se a certidão de desmorrer! Dali por diante, haveria que se registrar o nascimento, o casamento, o ... 


… o descasamento, o morrimento e, agora, o desmorrimento. De todos, apenas o nascimento se poderia registrar uma vez só. 

Com a decisão da Justiça, de fazer pagar o seguro, porque a morte aconteceu, os contratos passaram a prever a devolução proporcional do dinheiro... 


… tantos meses fosse desde a morte até o desmorrimento.

Enquanto o problema do seguro se desenrolava, o segundo turno da eleição estava a todo vapor! Metade da cidade para votar na alma do Valdir, metade da cidade para votar no corpo do Alberto. Na propaganda na televisão, no …

….


Trecho 26

(Continua...)





15 comentários:

  1. Confusão mesmo!! Só no Marajó mesmo!! Muito boa, não tem como não tirar um riso dessa crônica!! 😅

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    1. Oi Liuuuu!!! Eu gosto muito dessa história!! É uma confusão atrás da outra! Desnortear dá muito trabalho e tem muita burocracia!!!

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    2. É a confusão que a gente gosta de está juntos lento e pedindo bis, só o Marajó pra dá este gostinho de quero mais e mais l! Rsrs cadê essa live ? Nunca mais fez uma pra gente!!

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    3. Oi Liuuuuu....!!!! Verdade... mas PROMETO que vou fazer uma live super em breve!!!!

      Delícia de confusão, né?! E vem muito mais por aí...
      (Só para esclarecer, a Liuu deixou esse comentário e eu estou respondendo, com a publicação do trecho 8!!!!!! Vem muito mais!

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  2. Só no Marajó mesmo pra ter tanta confusão. Essa dos mortos, um "desmorrido" foi ótimo rsrsrsrs
    Dá pra imaginar o corre - corre, hilário demais kkkkkkk

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    1. E a confusão está apenas começando... Deu algum probleminha no departamento de desmorrimento, e o desmorrido na verdade veio com o corpo do Alberto.... mas a alma.... ihhhhh.......

      Continue acompanhando... vem muita confusão por aí!!!

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  3. Que saudades desses 'causos' que só existem em Marajó City

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    1. E esse, professora, ainda tem muita confusão por vir.... estou fazendo uma pequena experiência de ir postando um trecho por dia... assim, estou usando a mesma postagem, e acrescentando dia a dia, um trecho...!!!!!!

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    1. Mas bah!, obrigado!!! … e vem mais confusão por aí…!!!!

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  5. Mas bah, obrigado!!! … e vem mais confusão por aí……

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    1. Pois imagina a confusão de dois candidatos em um?!!!! Vem mais por aí!!!!

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  7. Respostas
    1. Ah!!! Obrigado….. está estória está sendo construída no caminho!! Bora com a gente ajudar a construí-la….! Tu votarias em quem…?!

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