*Este texto contém nota da curadoria ao final.
Logo que fiquei mais ou menos bom, me mandaram embora do hospital. O Pilha falou que eu havia sido atropelado e voei por cima do carro. Não me lembro direito… mas eu me imaginei com uma capa bonita, igual o Super-homem, vendo o mundo ali de cima.
— Super-mané, que não enxerga um carro grandão! — Disse o Pilha.
A mãe não foi me buscar. Quando me tiraram da cama e me botaram sentado com a perna enfaixada, numa sala cheia de gente, mandaram eu esperar que um adulto tinha que vir me buscar. Mas de adulto que me conhece, só tem a mãe, e acho que ela nem sabia que eu fui atropelado. Ainda bem que minha perna ainda tava machucada e enfaixada, senão ela nem ia acreditar, e eu ia apanhar por não ter voltado pra trabalhar na sinaleira.
Daí eu tava ali sentado e vi o Pilha, da porta:
— Pssssssiu… psssssssssiiiiu —… e fazia com a mão e mexia a boca falando sem som: “vem, vem”…
Mas a moça disse que eu tinha que esperar ali. Daí o Pilha entrou, meio desconfiado, porque acho que enquanto eu passei esses dias no hospital, ele foi expulso mil vezes!
Mas entrou e sentou do meu lado.
— Vambora, mané!
— A moça disse que tenho que esperar um adulto.
— Ficou sequelado batendo a cabeça? Vão chamar o juizado! Tua mãe não vem te buscar. Bora…
Meu coração começou a bater forte. Será? Juizado?
Tentei levantar e ir com o Pilha, mas não consegui caminhar.
— Peraí, vou dar um jeito. — O Pilha sempre resolve tudo. É a pessoa mais inteligente que eu conheço.
— Não sai daí.
— E vou sair como? Ficou doido? — Tá bom, nem sempre ele é tão inteligente!
Mas ele voltou ligeirinho com uma cadeira de rodas! Nem sei onde ele conseguiu.
Subi na cadeira e fomos saindo…
Um homem de branco correu atrás de nós. A cadeira virou e caímos. Na mesma hora, já pensei que a gente ia ser pego, apanhar e por minha culpa, o Pilha ia parar no juizado comigo.
Ah… mas o Pilha sempre pensa em alguma coisa: jogou a cadeira pro meio da rua quando vinha um carro! Foi o maior barulho! e confusão! Daí, ele se inclinou e gritou:
— Vem na minha cacunda! E a gente escapou.
Mas tinha o maior problema de todos: a mãe.
Eu tinha certeza que ela não ia acreditar e ia pensar que eu machuquei a perna caindo da árvore no parquinho, em vez de estar trabalhando. Já fazia cinco dias que eu não dava o dinheiro pra mãe. Ela devia estar furiosa!
Sempre levava oito pilas. O Pilha me ajudou a fazer a conta. Dava quase trinta e cinco!
Eu contei pro Pilha que tava com medo. Mas ele disse o que sempre me dizia:
— Deixa comigo. Vou lá contigo.
Mesmo assim, fiquei com medo.
Quando chegamos lá no nosso muro, onde a mãe fica, ela já começou xingar de longe, quando me viu.
O Pilha logo falou:
— Eu que levei ele pra um trampo melhor. A gente enfaixou ele pra ganhar mais, que rico sempre tem pena de criança enfaixada! — O Pilha chamava de "rico" quem andava de carro.
A mãe olhou desconfiada.
— Toma. — O Pilha botou a mão na cueca e puxou um dinheiro num saquinho plástico de sacolé. Deu pra ela.
Ela contou. Tinha 29 pilas.
— Tá faltando — Ela logo gritou.
— Tá nada. Faz a conta — o Pilha falou com autoridade. — Óh, cinco dias a oito pilas: conta comigo, 8, 14, 19, 24, 28! Tem até um pila a mais!
Os dois ficaram em silêncio. Um encarando o outro.
— Tá, mas bora voltar que hoje ainda tá cedo. Vai daqui, moleque, vai logo pra sinaleira!
Ufa… saí tão aliviado. Não existe amigo como o Pilha. Vou ser amigo dele até morrer. Trabalhou por mim quando eu tava doente.
— Oh, tá me devendo, mané! Não sou teu pai. — Ele me falou.
— Ninguém é. — Eu respondi.
Rimos.
— Mas Pilha! Tu não falou que cinco dias a oito pilas dava 35?
— E tua mãe lá sabe fazer contas?
... Bora, vamos no parquinho!”
OBS: Para ler o texto original, antes do refinamento pela curadoria, CLIQUE AQUI!
ADVERTÊNCIA: as mudanças e cortes são muito sutis... somente o olho mais atento notará.
Luís Augusto Menna Barreto
Amei!!!
ResponderExcluirTão bom reler as histórias do Pilha!!!
A nota da curadoria de Dona Grafos foi perfeita!!!
Ah....O Pilha🥹
Eu acho que o Pilha conquistou até o coração rigoroso da Dona Grafos! A gente quase não repara, mas ela fez cortes cirúrgicos e eu reescrevi apenas um parágrafo para deixar no ritmo mais Pilha possível… e eu achei que ficou lindinha a história, né?!
ExcluirTão bom que viste!!!
O bom é que a sensibilidade tua continua...Uffa
ResponderExcluirAh, eu tenho certeza que Dona Grafos, embora rigorosíssima, conserva tudo na essência do autor. O que ela faz é conversar comigo, e simplesmente sugerir especialmente cortes do que possa haver em excesso, justamente para que venham as vísceras do texto. Se a idéia do Pilha é sua mensagem, a lealdade, as pequenas espertezas que mantém os garotos como sobreviventes, ela vai ajudar para que isso apareça, retirando algo que eu mesmo tenha colocado que poderia atrapalhar. Por exemplo, na cena da fuga, se for comparar com o texto original, ficou mais "limpa". Eu havia colocado detalhes que, depois de realizar a releitura, eu mesmo notei que "sobraram", se o fio condutor da história seria, muito mais, como o Pilha resolveu os problemas especialmente do amiguinho com a mãe...! Então, o que Dona Grafos tem feito em nossas "sessões de curadoria", é levar-me às conclusões que surjam de mim mesmo, sem que ela tenha de dizer ou sem que seja, nem de longe, uma ordem! Acho que no fim das contas, ela é uma "psicanalista literária"... ela não me entrega a solução: ela me faz enxergar o problema. E, quando o enxergamos, então sim, podemos descobrir a solução.
ExcluirA anônima sou eu rsrs
ResponderExcluirEu havia notado... rsrsr
ExcluirArrasou Pilha 🤗
ResponderExcluirObrigado demais!!!! Mas, na próxima, "assina"... rsrsrsr... adoro saber quem vem aqui, para poder dar o abraço mais apertado! Em todo caso, aprendi que elogio, a gente não negocia, ACEITA! rsrsrsr...
ExcluirSim, o Pilha continua sendo mais Pilha que nunca...!!!!