Parte 3 de… (vamos ver quantas…)
Há três dias, o dia havia sido como tantos outros. Dias que Dora aprecia mais do que qualquer coisa: havia sol, mas a temperatura era daquelas que reclamavam, no final da tarde, uma manga comprida. O vento de começo da noite chegando suave.
Dora não saberia dizer, em números, quantas pessoal estiveram em seu carrinho para comprar ou conversar, mas saberia reproduzir cada olhar, cada abraço, saberia reinterpretar cada pressa, cada ansiedade, cada pedido de socorro não dito por pessoas carregadas do fardo do dia a dia, de ansiedades pela correria urbana…
Naquele dia, logo depois de Marcos comprar as batatinhas quando saiu do supermercado, e daquela moça chique que nitidamente o seguiu, uma de suas últimas clientes fora Nice, que não pedira conselhos. Comprara as batatinhas e pediu para Dora fechar a conta do mês. Dora saberia de cabeça, mas fez questão de pegar o caderninho e fingir que o consultava:
— Você me deve 18 sacos de batatinhas pequenos, apenas 2 grandes… … e há um conselho em aberto! Devo coloca-lo na conta?
Nice sorriu e disse-lhe que não! Ela havia seguido o conselho. E Dora cobrava somente pelos conselhos não seguidos. Sempre dizia, divertida, que seus conselhos eram bons demais para serem desperdiçados, e, então, advertia: cobraria se não fossem seguidos! Há alguns dias, Nice havia chegado nitidamente triste e Dora notou, quando ela pediu um saco de batatinhas grande, que ela queria conversar. Nice sempre comia as batatinhas ali mesmo… e quando pediu o saco grande, Dora entendeu que ela queria mais tempo. Assim que preparou as batatinhas, abraçou-a, simplesmente, sem falar. Dora sabia que alguns dos melhores conselhos, nascem em um abraço. E então, Dora sussurrou-lhe e sua voz chegou limpa e nítida em meio à cacofonia urbana:
— Nice… não terceirize a administração do seu sorriso! Aproprie-se dele! Não deixe que ninguém decida por você quando sorrir. Aproprie-se dele! — Repetiu.
Dora sentiu que ela soluçou e, quando Nice saiu do abraço, havia lágrimas e alívio em seus olhos.
Foi nesse dia que, ao chegar em casa, Bravo estava lá. Sentado na frente da porta de seu apartamento, envolvendo os joelhos com as mãos, embalando-se para frente e para trás, e olhos agitados. A roupa estava suja e parecia faminto. Imediatamente, quando ela chegou, ele tentou, com as mãos, tapar as pequenas marcas vermelhas em seu antebraço... mas Dora as saberia, sem nem olha-las. Tinha 16 anos…
O coração de Dora sofreu no mesmo instante a avalanche de emoções: inevitavelmente, sentiu uma felicidade apreensiva ao vê-lo, saber que ele estava vivo, saber que ela ainda era, de alguma forma, o seu refúgio, a sua última linha de defesa… … mas também saber que por algum tempo, haveria de ter a angústia de nunca saber quando ele desapareceria novamente… se haveria surtos… se ela teria forças para enfrentar tudo de novo… e de novo… e como tantas vezes.
Ela sabia que seria chegado o momento, novamente, como outras vezes, de ser mãe… e momento de ter de recorrer ao pai de Bravo, também.
(… continua).
Luís Augusto Menna Barreto
15.02.2026
Agora vai. Assim vc me deixa doida!!! quero o restante da história!!!
ResponderExcluirDora, em Um Conto Sobre Um Amor Guardado, mostrou-se sempre forte, sempre acolhedora, sempre sabendo o que dizer, para confortar os clientes e os amigos que acorriam. Dora acolheu a protagonista de Um Conto Sobre Um Amor Guardado, em uma amizade francamente improvável... mas ela não viu a silhueta da personagem... ela viu a alma e as aflições dela... neste conto, mostro que todos tem aflições... até mesmo as pessoas que pensamos que tem respostas para nós...!
ExcluirQuem é mãe sabe a dor de ver um filho sofrer. E sabe como certas situações são difíceis. Espero que vc trate esse tema com sensibilidade.
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