quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Máicou Diéquisson, Fotochopi, Seu Dunga e o Cadeado


— Não sou filho de chocadeira, doutor! — Disse, e franziu a testa.

— Hein?

— Só tenho um pai e o nome dele é Ioséfi.

Não entendi nada. Revisei mentalmente se eu o havia destratado ou ofendido, e não consegui achar nada pra isso. Continuei, meio desconfiado, confesso:

— Nome da mãe?

Ele olhou para o lado, onde estava sentada a mãe, que estava com cara de poucos amigos e perguntou:

— Como é o nome da senhora, mãe?

— Hein?” — Meu “hein" não deixou que a senhora falasse. — Mas tu não sabes o nome da tua mãe?

— Olha, doutor, chamam pra ela de Catá. (“Chamam pra ela" é uma expressão corrente aqui no Marajó que é a forma como dizem “chamam-na de…”!).

Aquilo me surpreendeu. O caboclo não sabia o nome da mãe! 

A história é a seguinte: o “Fotochópi” foi preso em flagrante delito, segundo o auto de flagrante, porque havia furtado dois cordões de ouro da joalheria do Seu Dunga. Havia entrado pelo telhado da lojinha de chaves e fechaduras do “Cadeado" e, dali, passou para a joalheria por dentro mesmo, porque quando falo “joalheria”, quero dizer o “box" onde Seu Dunga vende alguma coisa de outro, prata e muita bijuteria, e fica no conjunto de 10 boxes no canteiro central da avenida perto da beira. 

Cada box tem uma pequena ligação entre eles, como se fosse a metade de baixo de uma porta. Não, não me pergunte por quê isso, porque não faço ideia. Quando eu descobrir, eu conto. Daí, que a loja do Cadeado fica ao lado da joalheria do Seu Dunga… que namora a Branca de Neve! … e há quem diga que existam outros “anões” que dividiriam essa Branca de Neve Marajoara… Mas isso é outra história!.

Pois diz que o Fotochópi achou de entrar pelo telhado da loja do Cadeado, arrombou a portinhola de ligação entre os dois boxes, e pegou dois cordões de ouro. Segundo o delegado, o Fotochópi foi preso em fuga e, dos dois cordões, um apenas foi recuperado!

Mas esse caso marcou-me porque foi cheio de peculiaridades. Como estava tudo muito tranqüilo e só havia uma audiência marcada para aquela manhã, o caso da separação da Jussemira com o Deitado, determinei que trouxessem o preso para encaminhar logo o caso. 

O Fechadura, que cuida da delegacia, trouxe o preso e explicou que o flagrante ainda não estava pronto, porque faltou tinta na impressora e estavam atrás de alguém para carregar o cartucho. Daí que foi o Fechadura que me contou o caso:

— “Ispia”, doutor, a PM disse que o Fotochópi entrou na joalheria e pegou dois cordões. Mas só entregaram um. Disseram que o outro ele jogou no mato na fuga.”

— E esse Fotochópi aí? É nó cego? — Fui logo perguntando, porque eu ainda era relativamente novo na cidade e o Fechadura foi nascido e criado na beira do rio, ali mesmo no Marajó.

— Não doutor. Diz que só rouba quando arruma namorada. Quer dar presente, mas é liso, então apronta umas. — Explicou-me o Fechadura. Foi daí que comecei a interrogar o caboclo.

Mas já no nome eu me surpreendi: 

— Teu mome?

— Máicou Diéquisson.

Olhei para o Goela, o meirinho, e ele só levantou os ombros e colocou a cabeça pro lado na universal expressão “pois é, fazer o quê?!”

Terminada a primeira parte do interrogatório, que é a qualificação, fui perguntar sobre o crime e o flagrante.

— E aí, Fotochópi?

— Entrei na joalheria, doutor, mas não foi flagrante. Eles me pegaram dormindo.

— Hein? Mas aqui diz que foste pego fugindo!

— Mentira, doutor! Botaram aí no flagrante porque entrei pela loja do pai do Fechadura e quebrei duas telhas. O Fechadura que foi lá em casa com o Tonelada e me pegaram. Eu tava até na rede, dormindo, doutor.

Claro… tudo começava a fazer sentido: o Cadeado era pai do Fechadura, teve a loja de chaves arrombada, com telhas quebradas, e o Fechadura foi atrás pra pegar o larápio!

Como eu havia dito, o caso era cheio de peculiaridades.

Vou tentar resumir:

Descobri que o apelido "Fotochópi" era porque o Máicou não era nem de longe parecido com o Michael Jackson. E um dia, no time de futebol, quando ele disse o nome, alguém gritou: “só se tu és um fotoshop mal feito do Michael Jackson”. Pronto, pegou! Na hora, virou “Fotochópi do Michael Jackson", depois reduzido pra "Fotochópi", e, dizem, os mais íntimos chamam-no de "Foto"!

Acabei soltando o Fotochópi, nascido Máicou Diéquisson Pereira… afinal, o flagrante não foi flagrante… e era dia 25 de junho de 2009! Adivinha o astro famoso que morreu nesse dia? 

Antes de soltar, não me aguentei e perguntei: 

— Fotochópi, porque tu ficaste brabo comigo no interrogatório?

— Porque eu sou ladrão, mas tenho família e minha mãe é direita, doutor.

— Mas como eu ofendi tua família?

— Eras, doutor. O senhor perguntou o nome dos meus pais. Só tenho um pai, doutor.

Dias depois, chegou um procedimento de violência domestica: o Seu Dunga bateu na Branca de Neve. Ela, que não é lá tão antenada nas coisas, apareceu, justo para o Seu Dunga, com o outro cordão que o Fotochópi havia furtado da joalheria e não haviam achado… 

… ao menos um outro dos sete anões dessa Branca de Neve Marajoara foi descoberto!


*Texto revisado e aprovado pela curadoria!



Para ler a publicação original, CLIQUE AQUI!


Publicado originalmente em 19 de julho de 2016.


Luís Augusto Menna Barreto

em 19 de fevereiro de 2026




4 comentários:

  1. Os apelidos são demais!!!! O nome dos meus pais...kkkkkkk muito boa!!! Esse Marajó acontece de tudo!

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    1. Armelinda!!!!! Obrigado por essa deliciosa visita! Entre e fique à vontade! Dona Grafos está revirando os arquivos e sugerindo reedições com sutis e cirúrgicas modificações que entregam mais fluidez e deixam o ritmo mais uniforme! Estou adorando a experiência ! Nada na essência é modificado, mas há melhora na leitura! Ei… vá se preparando… os 10 anos do blog estão chegando…!

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  2. O anônimo acima sou eu: Armelinda

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