— É esse aqui, pai.
— Filho… isso aí?
— É.
— Tem certeza que não preferes trocar a tua Caloi?
— Tenho, pai. É esse. Por favor.
Era década de 80. Estávamos na Mesbla. Eu tinha 14 anos.
Naquele tempo, tudo era no crediário, no carnê — e, pra isso, precisou o pai me levar até Porto Alegre.
Foi com o meu primeiro salário de empacotador no supermercado Nacional que dei a entrada no meu Atari.
Na verdade, não era um Atari. Era um similar. Mas os cartuchos eram compatíveis — e isso bastava.
Em casa, desconectei a antena da TV e liguei numa caixinha com um interruptor: “TV / videogame”.
A antena, em cima do aparelho, tinha Bombril na ponta. Mas quem não tinha?
Canal 2 ou 3. Cartucho do Enduro encaixado.
Pronto.
Como mágica, a imagem surgia — chuviscada, instável.
Os pixels eram enormes. O carro mal deixava de ser um triângulo.
Os sons, grosseiros.
Mas, pra nós, era um carro de corrida perfeito.
E o som… parecia até surround.
A notícia correu rápido.
Logo, quase toda tarde, havia um cemitério de bicicletas largadas na grama lá de casa —
e a sala cheia de moleques, gritos e ansiedade pela vez no joystick:
uma caixa quadrada, uma haste e um botão.
Nascia ali uma nova moeda: cartuchos.
Era o que se trocava. O que se apostava. O que se disputava.
De repente, presentes de Natal deixaram de ser brinquedos.
Viraram Odyssey. Atari.
Pouco tempo depois, vieram os CDs. E nós corremos atrás — de novo.
Depois… bem, sabemos: iPod, iPhone, iPad…
e foguete dando ré.
Que atire a primeira pedra quem nasceu antes de 1980
e nunca disse: “no meu tempo é que era bom”.
Ou quem nunca reclamou que “as crianças de hoje só ficam na tela”.
Não tenho sentença. Nem defesa. Nem ataque.
Sei que nasci no início dos anos 70
e que, quando vi uma tela pela primeira vez, deixei minha bicicleta no quintal.
E ela logo ganhou companhia —
outras bicicletas também abandonadas na grama,
mesmo nos dias mais quentes de verão.
Espero que as crianças de hoje cresçam com a mesma sensação que me acompanha até agora:
a de que foi bom.
Porque, se não for…
a culpa não é delas.
É nossa.
Da geração que perdeu a paciência,
que parou de levar ao parque,
de brincar de pega, de esconder, de roda.
Se a infância de hoje não for feliz,
eu sou responsável por ter preparado o mundo onde elas vivem.
Que sejam felizes desse jeito novo.
Mesmo que eu não entenda.
Que se divirtam tanto quanto — ou mais —
sem sujar as unhas de terra.
Que tenham amigos em quem confiar,
mesmo que sejam apenas um nickname
ou um @.
Porque, se deu errado…
a culpa foi minha.
Luís Augusto Menna Barreto, em 24 de março de 2026.
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