Eu não devia… mas preciso contar essa!
Eu demorei muito a decidir se contava ou não essas pequenas histórias, porque aconteceram em audiências de interdição. E eu sempre, absolutamente SEMPRE saio de alguma forma comovido nos dias de audiências de interdição.
Para quem não sabe, quando alguém, maior de dezoito anos não tem capacidade de discernimento, pode ser declarada sua incapacidade e decretada sua interdição pelo Poder Judiciário, nomeando alguém para responder pela vontade que o interditado não é capaz de manifestar.
Apesar de eu, particularmente, achar que isso não deveria ser atribuição do Poder Judiciário, afinal eu não sou médico, o fato é que a Lei brasileira determina que seja o juiz (e não um médico!) que diga se alguém tem ou não capacidade de expressar validamente a sua vontade! Para isso, a Lei impõe que o interditando seja apresentado ao juiz, de modo a que o juiz entreviste-o. Se o interditando não tem condições de ser levado ao juiz, então é o juiz que deve ir até o interditando. Uma vez convencido de que o interditando não tem capacidade, o juiz declara a incapacidade e nomeia alguém para que expresse a vontade pelo interditando e realize os atos da vida civil por ele. É quem a Lei chama de “curador”.
O problema que saio comovido é porque há, no mais das vezes, sempre muita angústia, muito sofrimento, muita abnegação de si mesmo, em relação aos curadores. Aparecem mães com filhos de 30 anos, que permanecem crianças, reclamando cuidados como um bebê, e escuto as histórias das vidas, percebo a angústia das mães com a preocupação que carregam todos os dias: “quando eu faltar, quem cuidará dele?” Vejo a angústia de filhos que cuidam de pais em cadeiras de rodas e em leitos dos quais não saem, que todos os dias, absolutamente TODOS os dais, trocam fraldas geriátricas, dão banhos, alimentam… abdicam de sair, de ter férias, de ter uma rotina como todos os outros que já penam pra cuidar de si mesmos… e, no meio disso, vejo sorrisos, vejo amor, vejo a entrega incondicional de quem se dedica aos interditandos.
E isso me comove e me faz sentir pequeno a cada vez que penso que tenho algum tipo de problema e reclamo porque o ar condicionado está muito frio, ou porque o trânsito está engarrafado, ou porque não tinha a marca de suco que eu queria… Quando tenho essas audiências de interdição, eu penso nisso e sinto-me pequeno… sinto-me envergonhado por achar que tenho algum problema, sinto vergonha por todas as vezes que eu deixo de sorrir porque a internet está lenta… sinto como se eu estivesse ofendendo a Deus, por me irritar com tanta coisa banal, quando tenho todos os dias da minha vida os presentes mais caros: posso levantar por mim mesmo, posso correr e suar, posso ler um livro, escolher o filme… posso alimentar-me e entendo o abraço do meu filho. Sim. Entendo o abraço do meu pequeno João e ouço ele me dizer “eu te amo, papai”. Porque várias vezes, nas audiências de interdição, vejo pais com filhos em cadeiras especiais e com aparelhos que os mantém vivos, mas que jamais puderam dizer “eu te amo”. Vejo pais que cuidam há uma vida inteira de um filho e jamais ganharam um abraço, porque o filho não tem sequer o movimento de abraça-los… sequer conseguem expressar o entendimento de amor, ainda que de alguma forma sintam-no.
Por tudo isso, os dias de audiências de interdição comovem-me, e eu tento, realmente tento, abreviar ao máximo qualquer burocracia, e, diante de quadros que visivelmente demonstram a vida, abandono qualquer papel, qualquer perícia, qualquer termo técnico… deixo qualquer pergunta de lado, tento simplesmente conversar com as pessoas na audiência e aprender com elas sobre a vida, sobre o amor, sobre dedicar-se a alguém e elas saem da audiência, naquele mesmo instante com toda a questão judiciária resolvida… e ainda assim eu sei que isso é só um mínimo, e ainda haverá de iniciar-se uma longa Via Crucis junto aos órgão públicos para conseguir um benefício assistencial, para cadastrar-se na fila dos remédios, para que possam, enfim, manter sua sobrevivência.
Sim, isso sempre me comove muito, e mostra o quão pequeno e egoísta eu sou, cada vez que penso que tenho algum problema…
…
Mas enfim, mesmo com tudo isso, mesmo com esse respeito que tenho, às vezes, também eu consigo sorrir com algumas das situações e, cada vez que isso acontece, sinto algum alívio no coração, porque, de alguma forma, parece que me conecto, nem que seja por alguns segundos com as vidas dessas pessoas e, por um instante, fiz parte de algo bom, de algo divertido para elas.
Pois eu me lembro dessas situações e guardo-as com carinho.
Estava eu, já na sala de audiências, quando o Goela foi apregoar a próxima audiência:
“Tropeço, Tangerina, pode passar pra audiência!”
Entrou na sala um senhor já de seus sessenta e poucos anos, segurando uma bengalinha de metal dessas que os cegos usam, e segurando no braço dele, uma menina aparentando uns dezoito anos, sorridente e com olhos bem espertos. Estava segurando uma fruta que no sul chamamos de bergamota, mas que no Marajó e por todo o norte, é chamada de Tangerina. (Parece que em alguns lugares é conhecida, também, por "mexerica", mas daí já não sei direito)! Imaginei logo o porquê do apelido.
O Seu Tropeço entrou devagar, tateando e achei francamente delicado quando ele próprio identificou a cadeira e puxou para a Tangerina sentar. Ela continuava sorrindo. Depois da Tangerina acomodar-se, Seu Tropeço sentou-se e ficou olhando para frente. A Tangerina olhava, sorrindo, fixamente pra mim.
Fiz como sempre fazia naquele tempo (depois desse caso modifiquei meu comportamento) disse um “bom dia” com vontade, com um sorriso e, sem folhear o processo, eu perguntei olhando para Tangerina:
— Então, conte-me qual é o probleminha do Seu Tropeço!
— Eu sou cego, o senhor não tá vendo, doutor? — Disse-me o Seu Tropeço, com o rosto voltado para frente, o que sempre me atrapalha um pouco, porque a estamos acostumados a falar com pessoas olhando pra nós.
— Perdão, Seu Tropeço. Reparei. É que nem todos os casos de cegueira levam à interdição, e então eu queria saber se há algum outro problema.
— O problema pelo jeito é o senhor, Doutor, que não leu os ‘os papel’ direito. O problema é esse, óh!: — E ele tateou até a mão da Tangerina que continuava a sorrir olhando para mim, e puxou a bergamota da mão da Tangerina (chamei assim pra não escrever que puxou a tangerina da Tangerina)
— Aaaaahhhhhh…. aaaaaahhhhhh — a Tangerina passou a gritar com rosto apavorado, mas sem tentar recuperar a bergamota. Daí, Seu Tropeço devolveu a bergamota para a mão da Tangerina e na mesma hora ela voltou a olhar para mim e sorrir.
A interditanda era a Tangerina, que, além de tudo, era surda. (Muda, eu ouvi que não era).
Ao final da audiência, eu ainda tentei:
— Um bom dia pra vocês, Seu Tropeço.
— Bom dia agora, mas o doutor não sabe o caso quando acaba a época das tangerinas. — Seu Tropeço era boa gente. Mas como se diz lá no sul, “mais grosso que dedo destroncado”.
Depois do caso do Seu Tropeço em que achei que o interditando era um e no fim era outro, passei a ler bem o processo antes de chamar as pessoas. Pois foi lendo o processo que vi que a próxima audiência seria do Acxel. Isso, escrito assim como escrevi. Mas por óbvio que lembrei logo do Axl Rose, vocalista do Guns N’ Roses. E não é que para minha surpresa, o Acxel, um rapaz de dezenove anos, entrou com um radinho e fones de ouvidos, balançando a cabeça para frente e para trás. Ele sorria, mas não olhava para ninguém fixamente. Ele tinha autismo e a mãe dele explicou os cuidados necessários, e a rotina do Acxel, dizendo, entre outras coisas que ele passa o dia com o fone de ouvido e ligado no radinho.
Terminada a parte formal da audiência, enquanto imprimia o termo de audiência para que todos assinassem, eu não resisti e perguntei:
— E o nome desse guri? De onde a senhora tirou? — Perguntei pra mãe dele.
— Ah, doutor, isso foi coisa do pai dele, que era de Belém e que gostava muito de uma banda de uns cabeludos e "disk" que tinha um que tinha esse nome.
Pronto, daí, foi inevitável a próxima pergunta, ainda mais que o Acxel não parava de mexer a cabeça para frente e para trás como em algumas bandas de rock mais pesado ou heavy metal:
— E o que ele gosta de ouvir? — Perguntei imaginando que fosse Guns'n'Roses, Nirvana, Oases...
— Calipso, doutor!
— Hein?!
Pois é… mas a história que mais inusitada foi com a Carolina:
A Carolina, interditanda, chegou com a mãe dela. Pelo laudo médico que havia nos autos, era uma mulher de 30 anos, que tinha retardo mental e era surda muda. Quando chamada para a audiência, apareceu uma senhora (mãe da Carolina) com uma outra pessoa que aparentava uma menina de uns 20 anos. Tinha os olhos bem abertos, bem vívidos, sorria muito, gesticulava muito, embora tivesse alguma dificuldade para andar.
A audiência transcorreu tranquila, a mãe da Carolina explicou o problema dela, esclareceu que a Carolina sempre estudou mas nunca conseguiu alfabetizar-se além da assinatura do próprio nome, mas que era muito comunicativa e adorava ver filmes na televisão. Fiz algumas perguntas para a Carolina e a mãe dela traduziu os sinais da filha, de modo a que eu entendesse. Eu achei, realmente, a Carolina uma menina muito simpática e aquela aparência de menina tornava-a ainda mais agradável.
Depois de impresso o termo de audiência e assinado por todos, quando eu me despedi, a Carolina olhou para mim e fez vários sinais que, óbvio, não entendi. Perguntei logo pra mãe:
— Ela quer dizer-me alguma coisa, Dona Mãe da Carolina? — (Eu realmente não lembro o nome da mãe da Carolina, então, para mim, fica sendo Dona Mãe da Carolina).
E a Dona Mãe da Carolina dirigiu-se a mim, meio encabulada.
— Nada não, doutor, bobagem de criança.
Como a Carolina, ainda sentada, aparentemente repetiu os sinais, eu tentei delicadamente insistir:
— Sem problemas, fique tranquila. Eu apreciaria muito saber o que ela está tentando dizer-me. Não se preocupe que eu não vou ficar chateado.
— Olha, doutor, mas é ‘leseira' de criança.
— Não se preocupe com isso.
— Sabe o que é, doutor... é que ela lhe achou parecido com um artista de filme…
Mas báh, até fiquei feliz. Mas imaginei logo que seria parecido com ator de novela e pensei no Marcos Caruso, porque alguém já me disse que eu lembro alguns traços dele.
…
(Deixa eu fazer uma pausa aqui, para lembrar que era um processo de interdição e que, quando o juiz decreta a interdição, declara que a pessoa interditada não tem condições de expressar validamente sua vontade e opiniões!
Feita essa pausa rememorativa, volto para o caso):
…
— E qual é o artista? — Perguntei, evidentemente curioso.
— Ah doutor, liga não….
— Diga-me, Dona Mãe da Carolina, pode dizer!
— Um tal de ‘Jorge Crone’.
…
— Hein?! — E agora? Tudo que me passou pela cabeça era que interditei errado a Carolina: ela é que sabia expressar validamente suas opiniões!
Imagina minha situação: a pessoa diz que sou bonito e eu interdito??
Por Luís Augusto Menna Barreto