sábado, 31 de janeiro de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - Parte 1

 

Parte 1 de... (vamos ver quantas...)


Ela reparou na dor, novamente, quando foi passar a roleta do ônibus. Quando encostou o quadril para empurrar a roleta para a frente. A dor maior estava dentro de si. Era uma espécie de vergonha de si mesma. Algo que machucava muito mais por dentro do que a grande mancha roxa em sua perna e quadril. 

“Poderia ao menos ter sido em um dia que eu não precisasse ir na SEASA”, pensava. 

Pegara o ônibus às 4h30 da manhã. Desceria em aproximadamente 35 minutos na SEASA, onde compraria um saco de batatas de 50 kg, que mais do que nos outros dias, carregaria com dificuldade por conta da dor no quadril e na coxa. Pegaria, ainda, mais um ônibus por mais uns 20 minutos até descer perto do depósito onde deixa seu carrinho, pagando meio salário mínimo por mês para isso. Depois, seriam dois quarteirões empurrando o carrinho até o ponto onde ficava, perto do supermercado. Em seguida,  teria de preparar as batatas, e passaria aproximadamente 12 horas em pé com seu carrinho, sentando-se apenas para o almoço que preparara na noite anterior. Se precisasse usar o banheiro, pediria para Socorro, flanelinha daquele espaço, cuidar de seu carrinho, enquanto iria rápido no supermercado.

A partir de 7h, começava o movimento e apareciam os primeiros fregueses. Muitos trabalhadores não resistiam ao delicioso aroma das batatinhas, e compravam quase como se fosse café da manhã. Dora sabia o nome de praticamente todos. E para todos tinha um sorriso.

— Olá, Clair B. Pequeno ou grande, hoje?

Clair B. era um dos primeiros fregueses de Dora. Um senhor, já, de aproximadamente 60 anos, que todas as segundas-feiras acordava mais cedo e caminhava alguns quarteirões para comprar as batatinhas da Dora… e para pegar um conselho para a semana, que sempre anotava na primeira página do livro que leria na semana.

— Bom dia, Dora. Hoje, um saco pequeno e um conselho grande! — Pediu.

— Você vai seguir?

— Sempre. Os seus eu sempre sigo, eu conheço a sua regra!

Dora era conhecida, não somente pelas batatinhas secas e crocantes, mas, também, por sempre ter uma palavra de incentivo, sempre saber o que dizer para confortar as dores, sempre parecia ler a alma dos fregueses e entregar-lhes coragem para enfrentar seus próprios problemas. Mas ela sempre avisava: só dava conselhos de graça para quem ela achava que iria seguir seu conselho. Caso contrário, cobrava mais caro pelo saco de batatinhas.

— Aqui estão suas batatinhas em um saco pequeno.

— E meu conselho?

Dora pensou um pouco, olhando nos olhos de Clair B.

— Há dias em que mesmo pessoas que você ama, machucam você. Quando isso acontecer, force-se a um sorriso! Faça assim todas as vezes. Então, um dia, descobrirão que não adianta machuca-lo. Não farão você chorar. E pararão de tentar.

— E se não pararem, Dora?

— Então ao menos, você não deixou de sorrir!  … e você fica um “gato" sorrindo, Clair B.! 

Ele saiu satisfeito. Não imaginaria que o conselho era muito mais para ela mesma… 

(… continua).


Luís Augusto Menna Barreto

31.01.2026