domingo, 15 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 6

 


Francisco estava no lugar onde passara a maior parte de sua vida: no banco do cobrador do ônibus urbano. Havia tempos andava apreensivo. Aos poucos, os cobradores estavam sendo eliminados. Catracas eletrônicas, aplicativos de pagamento, leitores de códigos. 


Ele lembrava do tempo em que as contas eram feitas de cabeça, o troco entregue em segundos, as moedas deslizando com agilidade para cada escaninho próprio. Especialmente nos horários de pico, mal havia tempo para cumprimentar um ou outro passageiro conhecido. 


Mas ele sempre dava um jeito de demorar alguns segundos mais, quando aquela moça passava pela roleta no começo da noite, com a roupa cheirando a frituras e um lenço no cabelo. 


Naquele dia, contudo, Francisco não estava apreensivo com o constante medo de perder o emprego — e não saber fazer outra coisa de sua vida. 


Por mil vezes olhara a mensagem no celular de tela trincada. 


Não teve coragem de responder. 


“… nosso filho está aqui.” 


O passado voltou. 


O fantasma do amor. 


A sentença de sua covardia.


A mensagem lembrava-lhe que ele ainda era culpado. 

Que sua vergonha não estava prescrita. 



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Bravo passou o primeiro dia inteiro na cama. Dormiu a maior parte do tempo. 


Dora lavou algumas roupas. Outras, simplesmente jogou fora. 


Deu-lhe sopa quente. E batatinhas. Bravo sempre adorou as batatinhas.


Tratou algumas das feridas em seu braço, onde pequenos pontos estavam tomados de pus. Fez isso quando ele parecia dormir. 


Fingindo dormir, ele deixou. 


Não recebera mensagem de resposta de Francisco. Viu que ele havia recebido a mensagem. Mas não insistiu. 

Nem cobrou resposta. 


Fez sua parte. Avisou-o.


Amara Francisco como nunca amara ninguém. 


Ninguém antes. 

Ninguém depois. 


Talvez ainda fosse louca por ele, afinal. 


Porque ainda cometia a maior loucura que se pode cometer no amor: 


Ela esperava.


Luís Augusto Menna Barreto, em 15 de março de 2026.


Para ler do começo, CLIQUE AQUI!





4 comentários:

  1. Katya Assis da Silva15 de março de 2026 às 08:22

    ESPERAR…Maior loucura por amor. Perfeito, singelo e verdadeiro. Parabéns pela sua dedicação ao trabalho literário 🥰

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    1. Hoje, o agradecimento é meu A TI! Que todos saibam, que foi vendo uma postagem no TEU STORY que consegui destravar e escrever esse capítulo!
      Obrigado demais @katya.assis (Instagram).

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  2. Esperar realmente é uma dor guardada. A maior paz q tive foi não ter q esperar mais pelo pai da minha filha. Qdo finalmente saiu, eu percebi q podia jantar à hora q eu quisesse, tendo a certeza de que nao precisaria esperá-lo. Vem jantar? Nao vem? Apesar de lágrimas na época, fiz certo. Era ter vergonha na cara e não aceitar migalhas. Foi a sensação de ter paz, eu e minha filha pequena. Quero saber mais da Dora. Ela pensa que ama.

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    1. Dora carrega pesos… uns seus; outros… pelos outros. Mas à espera que manteve, jamais foi por cobrança ou sendo cobrada… talvez seja expiação… veremos!

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