quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Dor Nas Costas, a Jussemira e a Tonha Puxa-Ferro

 

A impressão que tive era que todos na sala de audiências ouviram o barulho! Pareceu um “nhééééééé” de porta quando as dobradiças estão velhas…. e foi um “nhéééééé" bem forte.

Ninguém se mexeu… nem eu. 

Mas logo descobri que ninguém tinha se mexido porque não ouviram nada do “nhéééé”… e eu não havia me mexido, porque o “nhééééééé" foi em mim! Eram as minhas costas. E só eu escutava. Ou, pior: só eu sentia!

Disfarcei como pude, dei graças a Deus que era a última audiência da manhã, e fiquei ali, discreto, tentando mexer só o pescoço e passando a usar o universal vocabulário do “ã-ã…; ãrrã”.

Quando a audiência acabou, pensei quase em desespero: e agora?

Preciso de um médico! 

Tomei alguns analgésicos, repousei um pouco, e tentei ir levando.

No dia seguinte, eu estava despachando o processo de uma tal Jussemira Antônia, que estava em processo de separação. Ela pedia a casa, a moto, os dois filhos, pensão de um salário para cada um dos dois filhos e para ela. Queria a separação porque só ela trabalhava, e o marido ficava o dia na rede, debaixo do ventilador. Seria uma decisão longa… e minhas costas doíam. Resolvi deixar para outra hora.

Depois, chamei o Goela.

— Goela preciso de um médico. Minhas costas estavam me matando.

— Médico não tem doutor… mas tem a “Tonha Puxa-Ferro”.

— Enfermeira ou massagista?

— É dessas que faz exercício com a gente doutor.

— Personal?

— Acho que é isso aí que o senhor falou!

Pois o Goela chamou a tal “Tonha Puxa-Ferro”, e dali combinamos para iniciar alguns exercícios. 

Passado quase um mês, fazendo alongamentos com a Tonha, senti uma melhora incrível!

Quase esquecia da dor. 

Eu estava me sentindo tão bem que, um mês depois de iniciar os alongamentos e exercícios, resolvi decidir aquele processo de separação! Examinei com calma. Eu me debrucei no processo, estudei, e destilei todos os meus anos de faculdade naquela decisão! Coloquei latim e tudo! No fim, sorte da Jussemira o marido não ter pedido pensão. 

Terminei a decisão, e pedi para o Goela levar o processo para o Barganha fazer as intimações do que eu havia decidido e para a audiência que marquei. Assim que terminei, dei o expediente do dia por encerrado e iria trocar de roupa para fazer o treino com a Tonha.

Quando eu saí do gabinete, vi o Goela parado na porta da secretaria, espiando a decisão:

— Égua! … rock! Quero bem é estar perto quando ela souber! Pense numa mulher braba! 

Eu já estava saindo e ainda ouvi a voz do Goela:

— Ei, Tutela, olha essa decisão que o Dr. deu na separação da…

Em menos de 1 hora, eu que já estava na beira alongando com a Tonha! E notei que ele estava com a "corda toda”. Foi muito puxado.

Assim foi indo… dali em diante, cada vez mais puxados os exercícios!

Passados dois ou três dias, algo estava estranho. Demorei para entender o que era: o “nhéééé" estava voltando. E só eu ouvia. De novo.

Ai meu Deus!

Comentei com a Tonha! Ela mudou os exercícios e nada. Os dias foram passando e cada vez doía mais. 

Parece mentira, mas no dia da audiência da Jussemira, eu estava quase sem poder me virar. Voltei ao vocabulário “ã-ã…; ãrrã”. Disse para o Goela chamar as partes para audiência. 

Estranho. 

O Goela chamou pelo nome a mulher e por apelido somente o marido:

— Jussemira Antônia e Deitado, passar pra audiência”!

Entrou um caboclo quase em câmera lenta… pense num sujeito sem pressa!

E entrou a Jussemira Antônia:

— Tonha Puxa-Ferro??? Tu que és a Jussemira?!

Pois é… descobri porque minhas costas voltaram a doer!


Luís Augusto Menna Barreto

15.2.2019 (original)
2.9.2026 (esta versão)