A impressão que tive era que todos na sala de audiências ouviram o barulho! Pareceu um “nhééééééé” de porta quando as dobradiças estão velhas…. e foi um “nhéééééé" bem forte.
Ninguém se mexeu… nem eu.
Mas logo descobri que ninguém tinha se mexido porque não ouviram nada do “nhéééé”… e eu não havia me mexido, porque o “nhééééééé" foi em mim! Eram as minhas costas. E só eu escutava. Ou, pior: só eu sentia!
Disfarcei como pude, dei graças a Deus que era a última audiência da manhã, e fiquei ali, discreto, tentando mexer só o pescoço e passando a usar o universal vocabulário do “ã-ã…; ãrrã”.
Quando a audiência acabou, pensei quase em desespero: e agora?
Preciso de um médico!
Tomei alguns analgésicos, repousei um pouco, e tentei ir levando.
No dia seguinte, eu estava despachando o processo de uma tal Jussemira Antônia, que estava em processo de separação. Ela pedia a casa, a moto, os dois filhos, pensão de um salário para cada um dos dois filhos e para ela. Queria a separação porque só ela trabalhava, e o marido ficava o dia na rede, debaixo do ventilador. Seria uma decisão longa… e minhas costas doíam. Resolvi deixar para outra hora.
Depois, chamei o Goela.
— Goela preciso de um médico. Minhas costas estavam me matando.
— Médico não tem doutor… mas tem a “Tonha Puxa-Ferro”.
— Enfermeira ou massagista?
— É dessas que faz exercício com a gente doutor.
— Personal?
— Acho que é isso aí que o senhor falou!
Pois o Goela chamou a tal “Tonha Puxa-Ferro”, e dali combinamos para iniciar alguns exercícios.
Passado quase um mês, fazendo alongamentos com a Tonha, senti uma melhora incrível!
Quase esquecia da dor.
Eu estava me sentindo tão bem que, um mês depois de iniciar os alongamentos e exercícios, resolvi decidir aquele processo de separação! Examinei com calma. Eu me debrucei no processo, estudei, e destilei todos os meus anos de faculdade naquela decisão! Coloquei latim e tudo! No fim, sorte da Jussemira o marido não ter pedido pensão.
Terminei a decisão, e pedi para o Goela levar o processo para o Barganha fazer as intimações do que eu havia decidido e para a audiência que marquei. Assim que terminei, dei o expediente do dia por encerrado e iria trocar de roupa para fazer o treino com a Tonha.
Quando eu saí do gabinete, vi o Goela parado na porta da secretaria, espiando a decisão:
— Égua! … rock! Quero bem é estar perto quando ela souber! Pense numa mulher braba!
Eu já estava saindo e ainda ouvi a voz do Goela:
— Ei, Tutela, olha essa decisão que o Dr. deu na separação da…
Em menos de 1 hora, eu que já estava na beira alongando com a Tonha! E notei que ele estava com a "corda toda”. Foi muito puxado.
Assim foi indo… dali em diante, cada vez mais puxados os exercícios!
Passados dois ou três dias, algo estava estranho. Demorei para entender o que era: o “nhéééé" estava voltando. E só eu ouvia. De novo.
Ai meu Deus!
Comentei com a Tonha! Ela mudou os exercícios e nada. Os dias foram passando e cada vez doía mais.
Parece mentira, mas no dia da audiência da Jussemira, eu estava quase sem poder me virar. Voltei ao vocabulário “ã-ã…; ãrrã”. Disse para o Goela chamar as partes para audiência.
Estranho.
O Goela chamou pelo nome a mulher e por apelido somente o marido:
— Jussemira Antônia e Deitado, passar pra audiência”!
Entrou um caboclo quase em câmera lenta… pense num sujeito sem pressa!
E entrou a Jussemira Antônia:
— Tonha Puxa-Ferro??? Tu que és a Jussemira?!
…
Pois é… descobri porque minhas costas voltaram a doer!
Luís Augusto Menna Barreto
15.2.2019 (original)
2.9.2026 (esta versão)