(Esses são os acontecimentos que antecederam os fatos que iniciaram a "PARTE 1" - para ver a parte 1, CLIQUE AQUI - que foi publicado no dia 22 de outubro de 2016.
— Doutor, chegou um aviso que amanhã ou depois vai chegar o Navio da Marinha pra ação social, com médicos exames e outros serviços. Estão perguntando se o senhor quer participar atendendo lá também!?
Era o Goela, falando de longe, mas se fazendo ouvir no fórum inteiro.
— Ah, Doutor, e a mãe do Descanso tá aí de novo. Quer saber se o senhor já despachou o processo dele!
O Descanso estava preso pela quarta ou quinta vez. Furto, de novo. Recebeu o apelido depois do segundo flagrante, quando foi preso porque parou para descansar. Pois o leso só queria saber de furtar freezer, balcões refrigerados, geladeiras…. Isso mesmo: geladeiras!
O Descanso inventa de furtar geladeira e tenta levar nas costas. Ele é um sujeito forte. Até dá conta de levar geladeiras pequenas nas costas. Mas é sempre pego próximo ao local dos furtos. Houve vez em que ele foi preso e ofereceu uma cerveja que estava dentro da geladeira furtada para os policiais… que aceitaram! Depois levaram o Descanso preso!
Por que ele faz isso? Também fiquei curioso e perguntei em um dos interrogatórios:
— Descanso, se tu não dás conta de levar a geladeira muito longe, por que tu insistes em furtar geladeira?
— Ah, doutor, mas eu dou conta sim! O problema é que quando pego a geladeira tiro ela da energia, doutor. Daí paro logo pra aproveitar o produto de dentro ainda geladinho!
Pois é: ele furtava não pela geladeira ou freezer em si, mas pelo que tinha dentro!
Mas desta vez, o Descanso tinha sido muito mais esperto… ou quase! Pegou a motocicleta do irmão dele, improvisou um reboque, e foi furtar um freezer do bar do Seu Nonô. Conseguiu, na madrugada, arrombar a porta sem fazer muito barulho, deu um jeito de colocar a geladeira no reboque e saiu! Parecia tudo certo… mas faltou gasolina. A moto engasgou até parar no meio da estrada*, quando a polícia chegou, encontrou o descanso gritando de dor, com a motocicleta por cima dele e o pé quebrado. Querem saber a ironia? Quando a moto parou por falta de gasolina, ele foi descer e esqueceu de… … colocar o “descanso" da moto! Sabe aquele “pezinho" ou “tripé" que faz a moto não cair? Pois é, aqui na Ilha, o pessoal chama de “descanso”.
E assim, o Descanso foi preso de novo. Não era lá nenhuma novidade. Novidade era a mãe do Descanso por lá, tão acostumada que estava, coitada, com as prisões do filho. Não ia mais nem na delegacia. Se o Descanso não aparecia em casa, ela esperava o carcereiro Fechadura passar e perguntava:
— O Descanso tá lá, Fechadura?
— Tá. Levaram ontem e já botei na cela. O Delegado vai falar com ele só amanhã…
E pronto. Sabendo que o filho estava em segurança, preso, que não havia acontecido nenhuma desgraça, ela ficava tranqüila.
Mas dessa vez, estava ali no fórum, insistindo para falar comigo.
Eu a receberia em seguida, mas antes, estava no meio de um processo da Justiça Eleitoral. Em épocas de eleições, é um sufoco! Os processos todos tem prazos contados em horas e a todo momento ingressa pedido para coibir propaganda eleitoral, pedidos para fazer diligência em algum lugar porque estão distribuindo cestas básicas, estão dando combustível de graça, motor rabudinho… enfim… é sempre um sufoco. Eu pedi para o Goela dizer para a mãe do Descanso esperar um pouco que eu havia recém recebido um processo com um enorme carimbo de “urgente" atravessado na capa. Tratava-se de um pedido de busca e apreensão em um processo eleitoral. Isso é sempre urgente! Em véspera de eleições, quando entra um pedido desses, é porque há alguma evidência forte de que há algo ilegal acontecendo e é preciso agir rápido para buscar e apreender o objeto da ilegalidade.
O Barganha havia-me entregue o processo. E eu acho que notei uma espécie de sorriso contido e um olhar de curiosidade sobre como eu o despacharia.
O Barganha veio entregar porque o Goela estava justamente envolvido com a mãe do Descanso que não estava dando descanso para o Goela. E havia também, o Merece querendo emprestado o telefone do Goela, de modo que o Goela estava "muito ocupado".
— Ei, Goela, empresta aí o celular.
— Ta sem crédito.
— Eu boto.
— Tá com pouca bateria.
— É rapidola.
O Merece havia saído de casa muito transtornado na madrugada. E o maior motivo pelo qual estava transtornado é que ele sabia que a culpa era dele. Todo mundo fala: “se avisou que vai viajar, viaja! Não inventa de ficar!”
Pois o Merece caiu na bobagem de se atrasar para embarcar no barco!
Todos os dias da semana, tem o barco que sai do trapiche pra ir pra Breves, também no Marajó, às 3 horas da madrugada. Chega em Breves antes das 8h. As pessoas que viajam, já dormem direto no barco. Na hora de dormir, por volta de 22 horas em diante, pegam suas redes e, em vez de atar em casa, atam a rede já no barco, porque daí não precisa acordar no meio da noite e levantar pra ir até o trapiche perdendo o sono. O barco fica encostado desde a tardinha e quem vai viajar já vai chegando e atando a rede.
Pois o Merece havia dito para a Querida que iria para Breves no Arco Íris (o barco da madrugada) comprar uma chuteira nova no crediário, e voltaria na lancha do meio dia. Mas como encontrou os amigos do futebol, tomou umas cervejas planejando o jogo do dia seguinte, foi descansar um pouco em casa, antes de ir para o trapiche, e adormeceu. A Querida acabou indo deitar com o Merece. Mas quando chegou por volta de 1 hora da manhã, aconteceu algo que deixou o Merece curioso:
— Merece, acorda. Acorda, Merece… tu não vais viajar? É melhor ir pro barco. — Era a Querida. Mas estranhou porque outras vezes ele havia perdido a viagem e nunca ela havia acordado ele.
Como estava com muito sono, falou:
— Ta cedo… daqui com uns minutos eu vou… — E adormeceu novamente.
Perto de 2 horas da manhã, de novo a Querida:
— Merece, vais perder o barco…
— Égua, Querida! Tá doida? Deixa eu dormir!
Daí que quem não dormiu mais foi a Querida.
Bem quando estava dando 3 horas da madrugada, batem na porta.
A Querida nem se mexeu.
— Tão batendo. — Disse o Merece.
— Acho que não.
— Tão sim.
— Então vai ver quem é, Merece.
— Vou nada. Pra mim não é, eu ia viajar!
E a Querida levantou assustada e abriu devagarinho. O Merece escutou uns cochichos, até que a Querida falou:
— É o Carretilha, Merece. Quer ver se tu podes ficar na banca de peixe pra ele que ele vai sair agora pra ver os matapi**
É claro que não terminou bem! E a culpa era do Merece, que falou que ia viajar e não foi!
Daí que quase brigou com o Carretilha ali mesmo, pegou só a roupa que vestiu e saiu de casa, deixando até o telefone.
Pediu o telefone do Goela, porque queria mandar a mensagem para Querida, para dizer que ela deixasse as coisas dele na casa da Milagres, mãe dele, inclusive a chuteira velha que usaria no jogo da tarde.
Enviou a mensagem e devolveu o telefone.
— Doutor, a mãe do Descanso foi embora mas pediu pra ligar quando o senhor puder atender.
— Daqui há pouco, Goela.
Eu não estava acreditando: o pedido de busca e apreensão, era para apreender os postes de luz! Isso mesmo: uma coligação queria apreender os POSTES DE LUZ que estavam colocando numa comunidade da ilha no outro lado do rio.
Um dos candidatos inscreveu-se com apelido, como é comum em inscrições eleitorais. Ainda mais no Marajó, se o candidato não colocar o apelido, não ganha voto! Pois um dos candidatos era o “Lamparina" e, então, a coligação adversária queria convencer que os postes de luz estariam fazendo propaganda para o Lamparina!
Quando eu vi o que era, na mesma hora tive a certeza de que o caso do Descanso seria mais importante!
— Goela, podes ligar para a mãe do Descanso! Já posso atende-la.
— Doutor, acabou a bateria do meu celular. Vou rapidola bem ali chamar.
Dez minutos depois, a mãe do Descanso entrou e eu fui logo falando:
— Dona Pacífica, houve algum problema? O flagrante tá certinho, o Descanso nem apanhou nem nada, já foi atendido o pé quebrado na unidade de saúde, e agora tem que esperar o Promotor ver se vai denunciar. A senhora bem sabe que o Descanso vive aprontando.
— Mas doutor, eu só queria levar pra casa…
— Isso não dá, dona Pacífica, — fui logo interrompendo! — Não tem nem um mês que o Descanso foi solto da última vez. Levar pra casa não dá!
— Mas doutor…
— Não dá. Isso não dá, não insista!
— … a moto, doutor.
— Hein?
— Eu só queria a moto, doutor. O Descanso tá bem na prisão, doutor.
…
Pois é! Ela não estava preocupada com o Descanso. Ela queria era a moto do outro filho, que foi apreendida com o Descanso!
…
Naquele dia, o Goela chegou em casa, deixou o celular carregando e foi para o campo, porque tinha o jogo do campeonato da cidade, que o Merece também ia jogar… … e que no fim acabou arrumando briga, porque o time adversário começou a provocar, dizendo que era leso, perguntando se ia viajar de novo, se ia deixar a Querida sozinha…
Mas o Goela esqueceu o celular sem senha, quando colocou para carregar em casa.
E quando a Afrodite chegou, o celular estava carregado e entrou a mensagem que a Querida respondeu para o Merece, pelo número do Goela, que o Merece havia enviado mensagem:
“Desculpa. Não fico mais com ele. Agora só vou ficar com você. Vem pegar tua morena de novo.”
Por Luís Augusto Menna Barreto
*Sobre "a estrada", não é preciso detalhar muito. Via de regra, todos os municípios do Marajó acabam tendo uma "a estrada" que leva... bem... ou vocês olham em algum serviço de localização, ou leiam a crônica "A Casa "Meada", a Estrada, o Desossa e a Amora".
** Matapi é uma armadilha para pegar camarão, muito utilizada na região do Marajó.