Em destaque (último trecho publicado):
… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que…
Trecho 23
(Continua...)
Todos os trechos publicados, em seqüência:
Nenhum dos velórios dele havia sido tão triste, como na primeira vez que ele morreu. E foi também o mais concorrido!
A primeira morte foi a mais traumática… mas pior foi quando desmorreu… entre o susto e a felicidade, o primeiro saiu ganhando. Era santo ou visagem…?
Foi a sete passos da cova já aberta, que os seis amigos que levavam o caixão nos ombros ouviram as batidas… como se combinado, pararam de caminhar… o cortejo parou intrigado… e novamente ouviram-se batidas que só poderiam ser do morto, vindo de dentro do caixão…!
Dos seis amigos que carregavam o ataúde, um saiu correndo em velocidade que nem sabia, outro se ajoelhou em profusão de sinais da cruz, e os demais não sabiam se continuavam ou n˜ao! O Padre resolveu o impasse, determinando que se voltasse à capela, o que se fez em passo apressado…
O cortejo em marcha ré, ao som das batidas do morto, as carpideiras já não sabiam se deveriam continuar chorando: se o morto tivesse desmorrido e tudo estivesse ao contrário, talvez rir fosse o adequado! A confusão deu-se maior quando o cortejo vindo de ré, encontrou…
… outro morto a entrar na capela. Os dois cortejos pararam e deu-se a confusão. Os dois Padres reunidos em conselho, um do morto fresco outro do desmorrido, chegaram à conclusão de que, sendo a capela para velório, mais direito teria o morto fresco. E foi daí que o caixão com o…
… morto desmorrido foi conduzido para o carro funerário! O cortejo já tinha acostumado com as batidas, então, a curiosidade falou mais que o medo. O Padre mandou abrir, empunhando a cruz, e pronto pra jogar água benta, como se fosse arma! Quando levantaram a tampa,...
… o morto logo sentou com cara de quem não está entendendo! D. Zilma, mãe do morto, que aguentou firme quando ele morreu, não suportou o desmorrer e desmaiou! O morto pareceu nem se importar. Então a Carmem, sua esposa, venceu o susto e o medo, abriu caminho e...
… foi abraçar o marido desmorrido:
— Alberto, que susto! Achei que tinha perdido você.
O desmorrido olhou assustado e não retribuiu o abraço:
— Carmem… esposa do Alberto, né?
— Tua esposa, Alberto! Tua! Que conversa é essa?
— Conversa nenhuma! A senhora está confusa! Eu sou o Valdir!
Se outra fosse, quem morreria seria a Carmem; mas essa do jeito que era, parece que até a morte a rejeitava! E o morto desmorrido disse ainda, procurando com os olhos:
— Aliás, onde está a Lucinha, minha mulher?
E estava estabelecida a confusão! O morto era o Alberto, mas a alma desmorrida era do Valdir, vizinho do Alberto e da Carmem, marido da Lucinha, e que havia morrido há um ano, estando a viúva ainda guardando luto.
Estando a Lucinha no velório, pois que amiga e vizinha, apressou a pedir licença e todos abriram caminho. Pegou a mão do desmorrido de um lado, enquanto a Carmem não largava a mão do ex morto do outro! Passaram as duas, a reivindicar a desviuvez, sem pensar, ainda, nas consequências!
Dois lado se formaram: uns defendiam a validade do corpo do desmorrido! Estavam do lado da Carmem; uns defendiam a validade da alma do ex-morto! Estavam do lado da Lucinha! Sem consenso, a questão foi para a Justiça: dos homens e de Deus! Que digam os juízes e os Padres!
Enquanto o Tribunal Eclesiástico ponderava se valeria a alma ou o corpo, aproveitando, já, para discutir se havia milagre no desmorrimento, o Tribunal da Justiça queria saber como ficaria o Seguro de Vida: a seguradora queria de volta, o seguro pago há um ano à Lucinha, viúva do Valdir, dono da alma desmorrida no corpo do Alberto.
Havia, ainda, outros problemas: os documentos!
— Um ou outro, seja o desmorrido Alberto ou Valdir, o que fazer com os documentos? — Ponderava um dos juízes do Tribunal!
Dependia, antes, de declarar quem desmorreu.
Depois de dias, juízes e padres concluíram:
Primeiro, quem declarou foi a Igreja!
Todos olharam em silêncio, e o Bispo manteve a pausa. Até que falou solenemente:
— O Desmorrido é o Alberto! Nosso Senhor Jesus Cristo desmorreu no próprio corpo, assim será! A alma que se acha Valdir será exorcizada e no corpo restará somente…
… o Alberto!
Houve fogos e vaias. Comemorações e apupos!
No Tribunal de Justiça, quase ao mesmo instante, fora prolatada a sentença:
“Assim sendo, se mesmo antes de nascer, antes de ter corpo, a personalidade já tem direito, e se mesmo depois de morrer, vale a vontade do falecido…
… a alma prevalece, porque dela vem a vontade! O Desmorrido é o Valdir".
Nas duas instâncias, Igreja e Justiça, houve recurso e as decisões ficaram suspensas. Como era ano de eleição, tempo de escolher candidatos, o partido da situação tratou logo de lançar o desmorrido a prefeito!
Por via das dúvidas, o partido inscreveu os dois como candidatos: o desmorrido de corpo, Alberto, e o desmorrido de alma, Valdir!
Já se tinha o slogan: “Vote certo: no Valdir ou no Alberto”. Fossem um só ou fossem dois, o Partido tinha mais chance.
Enquanto se discutia na justiça e no clero, a cidade cada vez mais dividida, acabou dividindo também os votos, e foram para o segundo turno, justamente os desmorridos: Valdir ou Alberto, seria o prefeito!
A política traçando seu curso, as duas candidaturas travando as lutas: a da alma do desmorrido ameaçando deixar o corpo sem alma, em caso de derrota nas urnas; a do corpo do desmorrido dizendo que não entraria na prefeitura e queria ver a cidade ser governada por uma alma sem corpo.
E ainda outras questões apresentavam-se para aquele caso de desmorrer tão singular: enquanto a seguradora do Valdir queria ver o despagar do sinistro desacontecido, a seguradora do Alberto não pagava porque não houve o morrer do corpo! Carmem logo falou que certo seria ...
… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que…