domingo, 21 de dezembro de 2025

A Confusão do Desmorrido


Em destaque (último trecho publicado):

… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que…



Trecho 23

(Continua...)


Todos os trechos publicados, em seqüência:


Nenhum dos velórios dele havia sido tão triste, como na primeira vez que ele morreu. E foi também o mais concorrido! 


A primeira morte foi a mais traumática… mas pior foi quando desmorreu… entre o susto e a felicidade, o primeiro saiu ganhando. Era santo ou visagem…?


Foi a sete passos da cova já aberta, que os seis amigos que levavam o caixão nos ombros ouviram as batidas… como se combinado, pararam de caminhar… o cortejo parou intrigado… e novamente ouviram-se batidas que só poderiam ser do morto, vindo de dentro do caixão…! 


Dos seis amigos que carregavam o ataúde, um saiu correndo em velocidade que nem sabia, outro se ajoelhou em profusão de sinais da cruz, e os demais não sabiam se continuavam ou n˜ao! O Padre resolveu o impasse, determinando que se voltasse à capela, o que se fez em passo apressado… 


O cortejo em marcha ré, ao som das batidas do morto, as carpideiras já não sabiam se deveriam continuar chorando: se o morto tivesse desmorrido e tudo estivesse ao contrário, talvez rir fosse o adequado! A confusão deu-se maior quando o cortejo vindo de ré, encontrou… 


… outro morto a entrar na capela. Os dois cortejos pararam e deu-se a confusão. Os dois Padres reunidos em conselho, um do morto fresco outro do desmorrido, chegaram à conclusão de que, sendo a capela para velório, mais direito teria o morto fresco. E foi daí que o caixão com o… 


… morto desmorrido foi conduzido para o carro funerário! O cortejo já tinha acostumado com as batidas, então, a curiosidade falou mais que o medo. O Padre mandou abrir, empunhando a cruz, e pronto pra jogar água benta, como se fosse arma! Quando levantaram a tampa,...


… o morto logo sentou com cara de quem não está entendendo! D. Zilma, mãe do morto, que aguentou firme quando ele morreu, não suportou o desmorrer e desmaiou! O morto pareceu nem se importar. Então a Carmem, sua esposa, venceu o susto e o medo, abriu caminho e...


… foi abraçar o marido desmorrido: 

— Alberto, que susto! Achei que tinha perdido você. 

O desmorrido olhou assustado e não retribuiu o abraço: 

— Carmem… esposa do Alberto, né? 

— Tua esposa, Alberto! Tua! Que conversa é essa? 


— Conversa nenhuma! A senhora está confusa! Eu sou o Valdir! 

Se outra fosse, quem morreria seria a Carmem; mas essa do jeito que era, parece que até a morte a rejeitava! E o morto desmorrido disse ainda, procurando com os olhos: 

— Aliás, onde está a Lucinha, minha mulher? 


E estava estabelecida a confusão! O morto era o Alberto, mas a alma desmorrida era do Valdir, vizinho do Alberto e da Carmem, marido da Lucinha, e que havia morrido há um ano, estando a viúva ainda guardando luto. 


Estando a Lucinha no velório, pois que amiga e vizinha, apressou a pedir licença e todos abriram caminho. Pegou a mão do desmorrido de um lado, enquanto a Carmem não largava a mão do ex morto do outro! Passaram as duas, a reivindicar a desviuvez, sem pensar, ainda, nas consequências! 


Dois lado se formaram: uns defendiam a validade do corpo do desmorrido! Estavam do lado da Carmem; uns defendiam a validade da alma do ex-morto! Estavam do lado da Lucinha! Sem consenso, a questão foi para a Justiça: dos homens e de Deus! Que digam os juízes e os Padres! 


Enquanto o Tribunal Eclesiástico ponderava se valeria a alma ou o corpo, aproveitando, já, para discutir se havia milagre no desmorrimento, o Tribunal da Justiça queria saber como ficaria o Seguro de Vida: a seguradora queria de volta, o seguro pago há um ano à Lucinha, viúva do Valdir, dono da alma desmorrida no corpo do Alberto. 


Havia, ainda, outros problemas: os documentos! 

— Um ou outro, seja o desmorrido Alberto ou Valdir, o que fazer com os documentos? — Ponderava um dos juízes do Tribunal! 

Dependia, antes, de declarar quem desmorreu. 

Depois de dias, juízes e padres concluíram: 


Primeiro, quem declarou foi a Igreja! 

Todos olharam em silêncio, e o Bispo manteve a pausa. Até que falou solenemente: 

— O Desmorrido é o Alberto! Nosso Senhor Jesus Cristo desmorreu no próprio corpo, assim será! A alma que se acha Valdir será exorcizada e no corpo restará somente… 


… o Alberto! 

Houve fogos e vaias. Comemorações e apupos! 

No Tribunal de Justiça, quase ao mesmo instante, fora prolatada a sentença: 

“Assim sendo, se mesmo antes de nascer, antes de ter corpo, a personalidade já tem direito, e se mesmo depois de morrer, vale a vontade do falecido… 


… a alma prevalece, porque dela vem a vontade! O Desmorrido é o Valdir". 

Nas duas instâncias, Igreja e Justiça, houve recurso e as decisões ficaram suspensas. Como era ano de eleição, tempo de escolher candidatos, o partido da situação tratou logo de lançar o desmorrido a prefeito! 


Por via das dúvidas, o partido inscreveu os dois como candidatos: o desmorrido de corpo, Alberto, e o desmorrido de alma, Valdir! 

Já se tinha o slogan: “Vote certo: no Valdir ou no Alberto”. Fossem um só ou fossem dois, o Partido tinha mais chance.


Enquanto se discutia na justiça e no clero, a cidade cada vez mais dividida, acabou dividindo também os votos, e foram para o segundo turno, justamente os desmorridos: Valdir ou Alberto, seria o prefeito!


A política traçando seu curso, as duas candidaturas travando as lutas: a da alma do desmorrido ameaçando deixar o corpo sem alma, em caso de derrota nas urnas; a do corpo do desmorrido dizendo que não entraria na prefeitura e queria ver a cidade ser governada por uma alma sem corpo. 


E ainda outras questões apresentavam-se para aquele caso de desmorrer tão singular: enquanto a seguradora do Valdir queria ver o despagar do sinistro desacontecido, a seguradora do Alberto não pagava porque não houve o morrer do corpo! Carmem logo falou que certo seria ... 


… a Lucinha, que havia desenviuvado, entregar para ela o dinheiro do seguro pago pelo Valdir desmorrido no corpo do Alberto. Tomando grandes proporções o problema do seguro, o Tribunal de Justiça novamente teve de intervir: decidiu-se que…


Trecho 23

(Continua...)





terça-feira, 16 de dezembro de 2025

A Marmita, a Confissão e o Padre




Foi o Mariposa quem notou: a Marmita estava indo até o orelhão. Ficou curioso.

Ela havia falado alguma coisa quando passou pelo Mochila, deitado na rede atada no coreto da praça. Depois, abanou para a Telegrama que estava na porta da agência do Correio. Antes, havia falado algum gracejo para o Chaminé, enfermeiro que estava fumando na porta do hospital. Para o Mariposa, que estava tomando uma cervejinha no açougue do Retalho, ela abanou. Foi daí que ele ficou acompanhando com o olhar aquela morena fogosa… e notou que ela foi para o orelhão.

Saiu debaixo da cobertura de telha que protegia a mesa de bilhar na calçada, na frente do açougue e foi até a rua, para ver melhor! Parecia que a Marmita havia colocado uma ficha no orelhão. Primeira pergunta: ficha da onde, que a única que se conhecia na cidade era do Mesa Branca?! E o que a Marmita faria no orelhão estragado?

Ela ficou um instante com o fone no ouvido e, de repente, largou o fone e começou a abanar-se como que querendo falar e sem emitir nenhum som. O Mariposa foi acudir. Copo na mão, caminhou rápido até a Marmita:

— Que foi, já, pequena?

Ela gesticulava, apontava para a boca e não falava! Ele ofereceu um pouco da cerveja gelada que trazia no copo. "Na falta de água com açúcar...", pensou…! 

A Marmita aceitou, tomou o copo todo, devolveu para o Mariposa, mas continuou sem falar! Logo chegaram o Manobra e o Goela. A Tutela, que estava na porta do Fórum, também foi. Nada da Marmita falar! Só gesticulava, apontava para o orelhão e para a boca. Depois, colocou as duas mãos para a frente, como quem pede calma, e fez os seguintes sinais: apontou para a boca, depois uniu as duas mãos como se fosse rezar, e apontou para a Igreja. A Tutela colocou o braço por cima do ombro da Marmita, como quem vai ampara-la e começaram a andar em direção à Igreja. De repente a Marmita parou, voltou uns passos e lembrou-se de colocar o fone no gancho. Ouviu o barulho da ficha sendo devolvida, colocou dois dedos no compartimento e resgatou-a. 

Nesse momento, já havia quase uma dezena de pessoas em volta.

Foram todos em uma pequena procissão em direção à Igreja. Marmita foi direto para o confessionário. A Tutela foi até a sacristia para chamar o Padre. Lá estava apenas o Tinho, neto da D. Mocinha, coroinha prometido à vida de celibato e de sacerdócio em promessa feita pela avó, por conta do menino ter nascido com vida, quando a mãe morreu no parto, dentro do barco. Muitas mulheres tem medo de simplesmente falar com Tinho, porque D. Mocinha faz confusão com qualquer uma que fale com o neto “Santo”, crente que é o diabo em forma de mulher querendo desencaminhar o moleque da vida de santidade a que ela o prometeu. A Tutela perguntou da porta mesmo, e o Tinho disse que o Padre talvez estivesse no bar do S. Nonô.

A Tutela foi atrás. Enquanto isso, a notícia ia sendo espalhada e começaram a chegar mais pessoas na Igreja comentando o acontecido e querendo saber mais notícias. 

— Que história é essa Tutela? — quis saber o Padre.

— Tudo que sei é isso, Padre: ela tá lá, mudinha da silva, ajoelhada no confessionário!

— Mas essa aí nunca se confessou! 

— Disso não sei. Ela foi no Orelhão e saiu muda, veio ligeiro para a Igreja e quer se confessar!

O Padre olhou o S. Nonô, que apenas disse “iiiiiiiiiiiixi" e continuou passando o pano no balcão. Mais por curiosidade do que por intenção de salvar uma alma, o Padre foi com a Tutela para a Igreja. Admirou-se ao entrar, porque havia mais de quinze pessoas sentadas, olhando para o confessionário, onde estava a Marmita. 

Estranhando aquilo, entrou no confessionário.

— Queres confessar, minha filha?

Silêncio.

— Você precisa falar seus pecados para eu poder dar-lhe absolvição.

Silêncio. O Padre tentou olhar pelos furinhos. Já não gostou muito de ver a Marmita sem véu na cabeça, mas "vá lá"... A Marmita, vendo o olhar do Padre, fez-lhe sinal apontando a boca e fazendo que “não" com o dedo…

“Que estranho", pensou o Padre… "não pode ser! Outro caso de mudice?” 

Na dúvida, o Padre decidiu fazer o mesmo que fizera com o Mesa Branca afinal, se o havia confessado, pegaria mal não aceitar a confissão da Marmita.

— Certo, minha filha… pense, então, nos seus pecados…

Bem, o Padre havia repetido o que fizera com o Mesa Branca… e não esperava o que aconteceu com a Marmita. Com o Mesa Branca, levou poucos minutos, muito sério, pensando e pronto! Além disso, sempre fora devoto, frequentava a Igreja, cantava no coral… mas a Marmita… 

… bem… ela levou a sério e cumpriu o que o Padre mandou: começou a pensar nos pecados!

Primeiro ela fechou os olhos… até aí, tudo bem. Mas à medida que começou a lembrar dos pecados, seguiu-se uma série de reações: lembrando de uns, sorria de olhos fechados… para outros, suspirava! Em alguns, chegou deixar escapar uns gemidos… 

O Padre depois de alguns minutos, interrompeu-a:

— Vais demorar, minha filha?

Ela levantou a mão com a palma para cima e começou a fazer movimentos de unir e separar todos os dedos, como quem diz: "ainda tem vários…”

O Botóquis, que era um dos que havia ido até a Igreja e, ciente dos próprios pecados*, sentara bem perto do confessionário, escutou o Padre dizer “pense nos seus pecados”, e logo levantou dali…

Demorou uns vinte minutos e o Botóquis entrou novamente na Igreja em um estranho silêncio e, em vez de sentar-se, postou-se em pé, mais ou menos um metro atrás da Marmita, que ainda sorria pensando nos pecados, ajoelhada no confessionário.

O Padre, já nem impaciência demonstrava, observando um silêncio quase incomum para confissões. As pessoas aos poucos, dado que não se sabia o tempo que a Marmita levaria em sua confissão, começaram a sair da Igreja. Porém, na medida que os bancos esvaziavam, a fila de confissões aumentava significativamente: atrás do Botóquis, entrou a Pipoca (Salgada), que havia saído algum tempo depois do Botóquis. Depois veio o Cara de Cuspe, a Mimosa, o vereador Relege, a Tonha Puxa Ferro, o Pena de Galinha… a fila não parava de crescer… em um silêncio como nunca se viu! 

Lá fora, duas esquinas depois, enquanto o Mesa branca dormia um sono pesado na rede, a Pipoca (Doce) ia recebendo presentes: um litro de açaí aqui, um saco de farinha ali, camarão, mandioca… 

… e a fila no orelhão aumentando, com a ficha do Mesa Branca passando de mão em mão, repetindo-se em ligações que nunca se completavam!


Luís Augusto Menna Barreto

15.12.2025


*Para saber dos pecados do Botóquis, vide a crônica: “Os Casos da Tonha, do Botóquis e da D. Mocinha

Se você gostou dessa história e quer ver como tudo começou, leia a crônica: "O Orelhão, o Mesa Branca e o Padre"

Se você ainda gostou, veja a parte dois: "A Confissão do Mudo, o Padre e a Marmita"


Luís Augusto Menna Barreto

15.12.2025

domingo, 9 de novembro de 2025

A Confissão do Mudo, o Padre e a Marmita




   O Mesa Branca havia emudecido! De uma hora para outra! Ele havia ido até o único orelhão da cidade*, e, quando colocou de volta o fone no gancho, estava pálido, sério… e calado!

Todos ficaram se perguntando o que poderia ter havido, especialmente porque o orelhão há muito não funcionava, embora o Mesa Branca todos os dias fosse até lá depois da sesta, colocasse a ficha, e começasse a falar e (aparentemente) escutar. No final, a ficha era sempre devolvida e ele voltava no dia seguinte!

Evidentemente, os amigos e familiares perguntavam com quem ele falava tanto, mas ele se limitava a responder:

— Pessoas… pessoas!

— E o que tu tanto falas, Mesa Branca? — Perguntavam todos: o Retalho, o Mariposa, o Manobra, o Goela, a Pipoca, enfim, todo mundo tinha curiosidade, ao quê, o Mesa Branca, caboclo iletrado e de poucas luzes, respondia:

— Alhures…alhures!

Ele falava isso com um certo ar de superioridade e displicência, e o fato é que ninguém retrucava. Muito certamente, porque ninguém sabia o que significava “alhures”… provavelmente, nem ele mesmo soubesse.

Mas, enfim, houve esse dia, em que o Mesa Branca saiu pálido, sério e calado do orelhão!

Caminhou devagar até o açougue do retalho e balançou a cabeça com o queixo para cima, pedindo uma cachaça. O Retalho entendeu e, naquele momento, não perguntou nada. O Goela e o Manobra, que estavam ali, também não perguntaram, tal era o semblante sério do Mesa Branca. Virou de uma vez o copo, colocou no balcão e saiu sem dizer uma palavra! O Retalho limitou-se a pegar a caneta de trás da orelha, pegar o caderninho pendurado por um barbante no teto, rente à parede e anotar a dose na conta do Mesa Branca. E assim, sério, chegou em casa! Olhou com alguma gravidade para a Pipoca (Doce), que preferiu nem perguntar. Fora deitar quieto naquele dia, e nem deitou-se na mesma rede que a Pipoca. Não teve saliência naquela noite. Atou a rede fora de casa, entre um açaizeiro e a perna manca da varanda.

No dia seguinte, quando acordaram, a Pipoca logo disse para o Mesa Branca ir buscar um pão para preparar a merenda dos filhos, para levar para escola. O Mesa Branca não falou nada, e foi. Os filhos, antes de ir para escola, pediram a bênção, e o Mesa Branca limitou-se a beijar as mãos dos dois garotos e balançar a cabeça para cada um.

— Mãe, o pai ficou mudo?

— Pelo jeito… — Respondeu Pipoca, ainda sem levar a sério. 

Mas com o passar dos dias, a coisa mostrou-se séria e já havia comentário: Mesa Branca emudeceu!

Acontece que o Mesa Branca era muito devoto, e sempre ajudava na Igreja. Participava da Missa do domingo e ajudava a puxar as músicas, com um coral improvisado, composto por ele, a Véu de Noiva e a Dona Mocinha. Na hora da Missa das 7h do domingo, a Igreja estava mais cheia do que o normal, porque como havia se espalhado a notícia da mudez do Mesa Branca, alguns ficaram curiosos para ver se ele iria cantar. Então, alguns minutos antes do início, lá chegou o Mesa Branca e pegou seu lugar no “coral”, no primeiro banco do lado direito do altar. O Padre começa a procissão da porta até o altar e inicia o canto: 

“Eis-me aqui Senhor/ Eis-me aqui Senhô-ô-ô-or…” 

Lá estava o Mesa Branca. No meio das duas companheiras de coral, balançando a cabeça como sempre fazia… … mas sem emitir um som sequer! Apenas as duas vozes femininas se faziam ouvir.

E assim foi durante toda a missa. Toda a assembléia passou a olhar mais o Mesa Branca do que o Padre! Vendo isso, o Padre irritou-se e, ao final, foi falar com o Mesa Branca. Muitos fiéis não arredaram pé. 

— Edinelson (era o nome do Mesa Branca. O Padre recusava-se a chama-lo pelo apelido, considerando a origem não católica, mas isso é história para outra crônica). — Por que não falas? 

Silêncio. Os olhos sérios fitando o Padre.

— Foi promessa?

Cabeça de um lado para outro, em um universal gesto de negação.

— Foi pecado?

Ombros levantados e cabeça ligeiramente para o lado! Gesto preciso para traduzir  um impreciso “talvez”, “quem sabe”. Gesto de quem “acha" mas não tem certeza… ou não quer admitir algo que sabe.

E assim o Padre conduziu o Mesa Branca para o confessionário. Metade dos fiéis não haviam arredado pé da igreja e continuavam acompanhando o desdobrar dos acontecimentos.

O padre entrou em seu reservado e o Mesa Branca ajoelhou na parte externa. 

— Queres confessar teus pecados, meu filho?

Mesa Branca balançou a cabeça na vertical.

— Quais são seus pecados?

Silêncio. Mesa branca olhava o Padre, pelos “furinhos" de comunicação do confessionário, com olhos suplicantes. O Padre esperou e nada. O Mesa Branca continuava ali, quieto! E o Padre encontrou-se em um dilema: para a absolvição, era preciso que o Mesa Branca confessasse os pecados, falasse! Mas ele não falava. E se fosse verdade a mudez? E se o Mesa Branca não pudesse mesmo falar? O que faria? Não poderia chamar alguém para traduzir eventuais gestos e sinais, porque quebraria o sigilo da confissão. Escrever poderia ser uma saída… mas o Mesa Branca não lia nem escrevia. Sugerir pecados para o Mesa Branca fazer gestos de sim e não, poderia levar tempo demais, afinal a lista de pecados que o Padre aprendeu em mais vinte anos de confissões levaria dias para desfiar. Mas e agora? Negar a absolvição para o Mesa Branca, seria o mesmo que condenar todos os mudos. O Padre nunca pensara nisso. Nunca recebera confissão de mudos. Como eles se confessavam? 

Na dúvida, e conhecendo o Mesa Branca, o Padre optou por absolve-lo:

— Meu filho, pense nos seus pecados. E balance a cabeça quando pensar em todos. 

Demorou uns poucos instantes. O Padre calculou que não haveria mais de cinco pecados pensados e cometidos pelo Mesa Branca pelo pouco tempo que levou. Logo, o Mesa Branca levantou os olhos e baixou uma vez a cabeça, com gravidade como quem avisa: “terminei”.

O Padre pensou um pouco, deu-lhe como penitência, rezar duas Salve Rainhas, quatro Pai Nossos, e vinte Ave Marias. Por via das dúvidas que rezasse um Creio no Final!

A notícia espalhou-se rápido: o Padre havia recebido a confissão do Mesa Branca e o absolvido! 

A Marmita adorava uma festa e não resistia em fazer saliência com algum caboclo de boa conversa! Nem todos solteiros, ela sabia, mas é que havia um fogo dentro dela! Naquela mesma tarde, foi falar com a Pipoca:

— Empresta a ficha do telefone, Pipoca.

— Tá doida que vou pegar a ficha do Mesa, mana?

— É rapidinho, eu já devolvo!

— Não posso, dá teus pulos! E aquele orelhão nem funciona, pequena!

— Para o que eu preciso, vai funcionar Te dou um litro de açaí se me emprestares um instante.

Isso balançou a Pipoca. Açaí é açaí, não se pode desprezar.

Com cuidado, na hora da sesta, quando o Mesa Branca estava dormindo na rede, a Pipoca pegou, com muito cuidado, a ficha que ele guardava em uma lata de café, junto com o terço e resto do dinheiro do seguro defeso da colônia de pescadores, que indeniza o tempo que os pescadores não podem pescar, para os peixes procriarem. 

A Marmita saiu saltitante com a ficha e voltou em menos de vinte minutos! Não disse uma palavra, devolveu a ficha e entregou o litro de açaí para a Pipoca. 

A missa das 19h foi estranha: igreja lotada, mas, à exceção de uns três ou quatro que respondiam, quase todos estavam calados… MUDOS! 

A despensa da casa da Pipoca estava lotada de açaí, camarão, farinha… 

… e, no final da missa, havia uma fila de mudos no confessionário!


Luís Augusto Menna Barreto

9 de novembro de 2025


*Vide a crônica "O Orelhão o Mesa Branca e o Padre"