terça-feira, 17 de março de 2026

O Escápula, o Martelo, o De Fundo e o Assalto


— Foi pelo desaforo, doutor.

Parecia que o Martelo ainda estava brabo!

O Escápula tava ali, sentado, sem dizer uma palavra, com o olho todo roxo e o lábio inchado. Tinha apanhado do Martelo.

A mãe do Escápula estava lá. Furiosa. Já havia batido nele desde a delegacia. 

… batido no Escápula, não no Martelo!

Quando é o Tonelada, policial militar, que está cuidando da cadeia, na ausência do delegado e no almoço do Fechadura, ele normalmente não deixa ninguém entrar na cela pra falar com preso. Ou, se entra, ele simplesmente não deixa sair! 

Mas com a mãe do Escápula foi diferente. Quando ele viu a fúria da Das Dores, ficou amável na mesma hora, e foi logo abrindo a cela. O pobre Escápula chegou a tentar falar:

— Pô, Tonelad….

Sentiu o primeiro tapa na cabeça. E foi uma avalanche.

— Miserável! Foi pra isso que te criei, infeliz? Te falta alguma coisa em casa? Não tem sempre uma farinha e um açaí, seu escomungado? Queres matar tua mãe de desgosto? Tem "precisão" de pegar o que é dos outros…

O Tonelada chegou mesmo a pegar um banco e ficar olhando o Escápula pegando tapa da mãe!

O Martelo eu conhecia de Novo Progresso.

Mas a audiência não era pra julgar o Martelo. O Martelo era a vítima! O réu era o Escápula!

Tivemos um pouco de trabalho para conter a Das Dores no fórum. Diz que* ela veio desde a delegacia, no trajeto de trezentos metros a pé, até o fórum, xingando e dando tapa na cabeça do Escápula. 

Eu comecei:

— Sim, Escápula, me digas o que aconteceu! Eu tô vendo aqui que tu nunca tiveste problema com polícia, estudaste até a 4ª série**, trabalha fazendo bico de entrega na loja do Mariposa e faz carreto na beira. O que te deu de fazer isso?

— Não lembro, doutor, tava porre. Tava bebendo desde quinta, e só lembro de acordar na delegacia, com a mamãe me ralhando.

Eu tentei insistir um pouco, mas não adiantou. Ele não lembrava mesmo.

O Escápula começou a beber com o De Fundo, na casa dele e mais o Fila Bóia e o Cara de Cuspe. Começaram na noite da quinta, véspera do feriado de finados, que este ano foi na sexta-feira. Antes do amanhecer do domingo acabou a bebida. O Escápula e o De Fundo, que ainda davam conta de caminhar, resolveram sair pra “arranjar" mais bebida. 

Foi então que viram o Martelo chegando de bicicleta em casa, com o Taxinha na garupa. Tiveram a infeliz idéia de “fazer o corre".

A empreitada foi dando errado desde o início: o De Fundo já ficou caído porre no caminho. Não deu conta de chegar nem perto do Martelo. O Escápula, que nem notou isso, colocou a mão direita por baixo da camiseta e simulou que iria pegar uma arma. 

— Perdeu. Perdeu. Me dá a carteira.

O Martelo pegou um susto e o Taxinha ficou apavorado. O primeiro ímpeto do Martelo foi reagir, porque viu que o Escápula tava porre. Mas pensou no Taxinha e resolveu entregar a carteira. 

Quando estava entregando, o Escápula viu que o Martelo tinha um celular na cintura e resolveu roubar o celular também. Enquanto pegava a carteira do Martelo com a mão esquerda (a direita estava simulando arma por baixo da camiseta) falou:

— Perdeu o celular também. Bora.

O Martelo respirou fundo, pensou no Taxinha de novo e entregou o celular.

Mas daí que a coisa desandou: como o Escápula estava com a mão esquerda ocupada com a carteira do Martelo, foi pegar o celular… com a direita.

Quando o Martelo viu que o leso não tinha arma nenhuma, falou para o Taxinha: 

— Vai pra dentro, moleque. Guarda a bicicleta e fala pra mamãe que tá tudo bem!

E a pisa começou!

Depois da pisa, o próprio Martelo ligou pro Tonelada, que recolheu o Escápula.

Já era segunda-feira, na audiência e o rosto do Escápula ainda estava bem machucado. 

— Olha, Martelo, não podias fazer isso. — Falei, tentando ser severo.

— Eu sei, doutor…

— … eu entendo que deves ter ficado nervoso, afinal estavas sendo assaltado na presença do teu filho, mas…

— Foi pelo desaforo, doutor. — Ele me interrompeu.

— Hein? 

— Desaforo, doutor.

— Que desaforo, Martelo?

— Tava me tirando pra otário, doutor. Já fui assaltado antes. Nem fiquei muito brabo, porque foi tudo coisa de homem, doutor. O malandro tava com arma, me ameaçou mostrando o revolver e tudo. Daí tudo certo! Mas esse abestado me tirou pra otário, doutor! Quis me assaltar sem arma? Onde já se viu? Ao menos uma faca tivesse, doutor! Mas querer me assaltar sem arma é coisa de moleque! Me fez muita raiva!

O De Fundo? Ah!, ninguém deu bola pra ele, nem o Tonelada. É tão comum ele ficar caído na rua depois de um porre, que ninguém mais estranha. 

Escapou da pisa. Escapou da cadeia. 

De Fundo ficou. Como sempre fica.





Luís Augusto Menna Barreto, em 18 de novembro de 2018

domingo, 15 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 6

 


Francisco estava no lugar onde passara a maior parte de sua vida: no banco do cobrador do ônibus urbano. Havia tempos andava apreensivo. Aos poucos, os cobradores estavam sendo eliminados. Catracas eletrônicas, aplicativos de pagamento, leitores de códigos. 


Ele lembrava do tempo em que as contas eram feitas de cabeça, o troco entregue em segundos, as moedas deslizando com agilidade para cada escaninho próprio. Especialmente nos horários de pico, mal havia tempo para cumprimentar um ou outro passageiro conhecido. 


Mas ele sempre dava um jeito de demorar alguns segundos mais, quando aquela moça passava pela roleta no começo da noite, com a roupa cheirando a frituras e um lenço no cabelo. 


Naquele dia, contudo, Francisco não estava apreensivo com o constante medo de perder o emprego — e não saber fazer outra coisa de sua vida. 


Por mil vezes olhara a mensagem no celular de tela trincada. 


Não teve coragem de responder. 


“… nosso filho está aqui.” 


O passado voltou. 


O fantasma do amor. 


A sentença de sua covardia.


A mensagem lembrava-lhe que ele ainda era culpado. 

Que sua vergonha não estava prescrita. 



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Bravo passou o primeiro dia inteiro na cama. Dormiu a maior parte do tempo. 


Dora lavou algumas roupas. Outras, simplesmente jogou fora. 


Deu-lhe sopa quente. E batatinhas. Bravo sempre adorou as batatinhas.


Tratou algumas das feridas em seu braço, onde pequenos pontos estavam tomados de pus. Fez isso quando ele parecia dormir. 


Fingindo dormir, ele deixou. 


Não recebera mensagem de resposta de Francisco. Viu que ele havia recebido a mensagem. Mas não insistiu. 

Nem cobrou resposta. 


Fez sua parte. Avisou-o.


Amara Francisco como nunca amara ninguém. 


Ninguém antes. 

Ninguém depois. 


Talvez ainda fosse louca por ele, afinal. 


Porque ainda cometia a maior loucura que se pode cometer no amor: 


Ela esperava.


Luís Augusto Menna Barreto, em 15 de março de 2026.


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sexta-feira, 13 de março de 2026

Pequeno Conto de Um Amor Tatuado


Essa é mais uma história daquelas tão incrivelmente comuns, em que, no fim, alguém diz: “ninguém poderia imaginar…”!
E a turma da escola comentava mesmo: como logo ela, foi acabar namorando um garoto como ele? 
Ela tirava sempre as melhores notas. Era a queridinha dos professores. Trazia os trabalhos escolares mais caprichados… Enquanto as outras meninas da turma conversavam sobre namoros, ela sempre ficava mais quieta, escutava mais do que falava e admirava-se a cada história de beijos roubados, desejados, reais ou imaginários. 
Ele era da turma acima. E era mais velho que todos, porque havia repetido de ano em outra escola (era o que diziam!). Tinha uma tatuagem em cada um dos braços, uma tatuagem na mão e punho direitos, uma tatuagem no pescoço e, nas aulas de educação física, que ele não gostava mas era obrigado a fazer, podiam ver que tinha tatuagem na panturrilha de uma perna e no tornozelo da outra; usava camisas com as mangas arrancadas, transformadas em coletes, usava colares grossos, brincos e, às vezes, pintava as unhas de preto. O cabelo nunca era com o mesmo corte, penteado ou cor, de uma semana para outra. 
Ele tinha modos agressivos, e os professores não nutriam qualquer simpatia por ele.
E foi logo por ele, que ela - justo ela! - deixou-se apaixonar.
O tempo foi passando e, como era de esperar, as notas que ela tirava caíram. Ela mudou o modo de vestir-se e de falar. Começou a ouvir rock’n’roll… 
Todos acharam que aquele namoro não iria durar, mas acabou a escola (ela sem ter feito as melhores notas como antes) e eles ainda estavam namorando. Ela prestou vestibular para comunicação, não medicina como todos esperavam, e ele, quando terminou a escola, estava, já, com uma banda de rock. Com o tempo, houve mais tatuagens em sua pele.
Ele contou para ela a história de cada tatuagem, e das lembranças que cada uma trazia! Havia o nome da irmã em uma delas. O nome da mãe em outra. Sobre o ponto de interrogação tatuado na panturrilha, no meio de uma névoa, ele nunca falava, mas ela sabia que aquela significava seu pai. E houve, depois de algum tempo, o nome de Dylan, o cachorro, que havia morrido depois de conquistar também a ela. 
Um dia, depois de algum tempo, quando ela aceitou morar com ele, para desgosto dos pais, sem o casamento que a mãe sonhara, ele tatuou o nome dela em uma linha vertical, no meio do peito, em letras grandes que iam do pescoço ao umbigo. 
Antes que vivesse a aventura de ter filhos, como eram os planos deles, ele adoeceu. Uma doença rápida e sem volta. 
E ela ficou ao lado dele, como fizera desde que se conheceram na escola quinze anos antes. 
Naquela época, ninguém poderia imaginar… como ninguém imaginou que se as notas dela caíram um pouco, as dele melhoraram significativamente. Ninguém imaginou que, quando ele terminou a escola, vários professores abraçaram-no com um sorriso sincero. Ninguém imaginou que ele se havia tornado um pouco ela, enquanto ela se havia tornado um pouco ele… 
E os anos que passaram juntos, foram ora difíceis, ora mais tranquilos… mas sempre, intensos!
Quando ele estava para deixa-la, sem mágoas, culpas, ou desejos frustrados, ele olhou pra ela, como olhava ainda nos tempos de escola, e falou:
— Você nunca fez uma tatuagem minha.
Ela sorriu, apenas, como fazia quando falava direto com o coração dele. 
E ele sorriu de volta o melhor sorriso, compreendendo que estava tatuado nela pra sempre!
Porque o amor tatua a alma.

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Texto revisado e aprovado por Dona Grafos - curadora do arquivo mennaempalavras





Luís Augusto Menna Barreto, em 11 de junho de 2019



domingo, 8 de março de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - parte 5


Maria Zélia não usava essas garrafas ou copos térmicos “da moda”, que hoje tantos carregam por aí. Chegava sempre com uma pequena garrafinha plástica descartável, dessas que se compra em qualquer lugar. As batatinhas da Dora eram ótimas, mas sempre davam sede, por conta da mistura de sal e ervas que Dora mesma picava com esmero, para colocar por cima em cada saquinho.

— Por que você não vende também água ou refrigerante, Dora. Aposto que venderia muito, junto com as batatinhas.

Parecia uma idéia tão óbvia, como Dora não havia pensado nisso?

— Por causa dela.

Dora apontou para a esquina, distante uns cinquenta metros, além da banca de revistas da Nazaré. Uma menina de talvez 20 anos estava atrás de uma grande caixa de isopor velha, remendada com fita adesiva. A caixa estava sobre uma espécie de cavalete, e Maria Zélia viu quando uma pessoa parou ali e a menina tirou de dentro uma garrafa plástica, dessas de refrigerante e serviu um líquido vermelho, recebendo algum dinheiro por isso.

— Ela sonha em fazer faculdade de direito. — Disse-lhe Dora.

Maria Zélia olhou uns momentos e sorriu. 

Nunca mais trouxe a garrafinha de água para comer as batatinhas de Dora.

Dora tinha mais ou menos a mesma idade da menina. Mais ou menos os mesmos sonhos. 

Todos os dias pegava o mesmo ônibus. E era o mesmo cobrador. Um dia perguntou seu nome:

— Francisco.

Ela achava bonito o bigode que ele usava — numa época em que não se usava mais. Talvez fosse personalidade. Talvez as desarrazoadas razões do amor. Mas os olhares entre eles falavam muito mais tempo do que o breve diálogo permitido no tempo de uma catraca.

Até que houve os dias em que ela ia até o final da linha, na última viagem. Os dias em que sequer voltava para casa, afinal, não haveria ninguém para esperar por ela. O dia em que notou que algo mudava em seu corpo… e que uma pequena tira, com dois riscos e um sinal de “+”, mudaria sua vida para sempre. 


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Dezesseis anos atrás, Dora também tinha sonhos.


(… Continua).


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Luís Augusto Menna Barreto, em 8 de março de 2026


* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.


Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!