Maria Zélia não usava essas garrafas ou copos térmicos “da moda”, que hoje tantos carregam por aí. Chegava sempre com uma pequena garrafinha plástica descartável, dessas que se compra em qualquer lugar. As batatinhas da Dora eram ótimas, mas sempre davam sede, por conta da mistura de sal e ervas que Dora mesma picava com esmero, para colocar por cima em cada saquinho.
— Por que você não vende também água ou refrigerante, Dora. Aposto que venderia muito, junto com as batatinhas.
Parecia uma idéia tão óbvia, como Dora não havia pensado nisso?
— Por causa dela.
Dora apontou para a esquina, distante uns cinquenta metros, além da banca de revistas da Nazaré. Uma menina de talvez 20 anos estava atrás de uma grande caixa de isopor velha, remendada com fita adesiva. A caixa estava sobre uma espécie de cavalete, e Maria Zélia viu quando uma pessoa parou ali e a menina tirou de dentro uma garrafa plástica, dessas de refrigerante e serviu um líquido vermelho, recebendo algum dinheiro por isso.
— Ela sonha em fazer faculdade de direito. — Disse-lhe Dora.
Maria Zélia olhou uns momentos e sorriu.
Nunca mais trouxe a garrafinha de água para comer as batatinhas de Dora.
Dora tinha mais ou menos a mesma idade da menina. Mais ou menos os mesmos sonhos.
Todos os dias pegava o mesmo ônibus. E era o mesmo cobrador. Um dia perguntou seu nome:
— Francisco.
Ela achava bonito o bigode que ele usava — numa época em que não se usava mais. Talvez fosse personalidade. Talvez as desarrazoadas razões do amor. Mas os olhares entre eles falavam muito mais tempo do que o breve diálogo permitido no tempo de uma catraca.
Até que houve os dias em que ela ia até o final da linha, na última viagem. Os dias em que sequer voltava para casa, afinal, não haveria ninguém para esperar por ela. O dia em que notou que algo mudava em seu corpo… e que uma pequena tira, com dois riscos e um sinal de “+”, mudaria sua vida para sempre.
______
Dezesseis anos atrás, Dora também tinha sonhos.
(… Continua).
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Luís Augusto Menna Barreto, em 8 de março de 2026
* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua sipatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.
Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, é só CLICAR AQUI!
O q terá acontecido com Francisco? Por que Dora está só agora? Tinha q ter continuação no meio da semana tb.
ResponderExcluirEscritora Eliane… obrigado por esse carinho… acho que nada dá mais ânimo do que alguém que leia e queira mais… significa que acertamos a medida das letras…!
ExcluirBoa noite amigo Menna, pois é, tantos sonhos Dora tinha, alguns realizados com Francisco, seja casados ou apenas vivendo juntos... deixou como realidade duas vidas preciosas, os filhos e o fim da união?! restou apenas muito trabalho e o contato distante do pai dos meninos que um dia talvez foi seu grande amor. 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
ResponderExcluirHá desdobramentos… nas próximas semanas, próximos domingos, vamos acompanhar essa história… vamos descobrir as dores de Dora…!
ExcluirObrigado por vires aqui, Sônia…!!
As pessoas mais simples, mais pobres, de poucas posses, têm um sentimento de compaixão, de solidariedade fácil de se notar.
ResponderExcluirSeria por que a vida dessas pessoas, como a de Dora, é mais real? Sem ilusões?
De tanto não possuirem quase nada materiial, possuem sentimentos. Dividem o pouco que têm, até comprender a dor que os outros também trazem escondida... e com retorno em forma de carinho, atenção, conselhos, amizade, amor.
Poeta Menna, de onde vem essa sua visão do outro, do menos favorecido, porém rico de valores, afetos, carinho na hora precisa, apesar das próprias dores guardadas?
"Um Conto Sobre a Dor Guardada" não é pra se ler, é pra pensar, sentir, chorar.
Explorar e reconhecer o que ainda resta de humanidade em nós.
Um conto inesquecível.
Precisei esperar o arrepio da pele passar... o coração desacelerar, e os olhos deixarem as lágrimas, para só depois responder-te, Maria.
ExcluirEssa visão vem das Marias Zélias que encontro, que deixam de trazer suas garrafinhas se puderem ajudar outra pessoa comprando um suco... Das Marias que dão um pedaço de bolo para os Pilhas... Das gentes tão simples e lindas (na alma, especialmente) do Marajó...!
Vem das quintas-feiras, nas audiências de interdição... Vem do pai que sempre me fez olhar a todos como iguais...!
Vem das Micheles que luta pela educação no interior, das Nices e Armelindas, que entregam sempre gentileza, mesmo sem nunca termos trocado algum abraço, que doam seu tempo para simplesmente dar um oi em linhas de blogs...
Vem da vida, que com todas as dificuldades que possa ter, é um PRESENTE... uma aventura incrível...!
Vem da utopia de tentar fazer isso ser um lugar bacana para meu Pequeno João herdar, ainda que seja só pelos sorrisos...!
Mas vem da força que recebo, cada vez que alguém lê... e que o texto consegue tocar...
Obrigado demais... demais...!
Obrigada demais, poeta!!!! Agora....eu que precisei acalmar as emoções.... Que lindo, poeta Menna!!!! Obrigada pelo carinho!!!!
ResponderExcluirEu estou aguardando os próximos capítulos com a Dora. Curiosa!!!
Sou a : Armelinda
Oi, Armelinda!!!!!! Que bom que vieste por aqui! As batatinhas estão crocantes e quentinhas!
ExcluirVamos acompanhar Dora e descobrir suas dores…!
Tu já a visitaste em capítulos passados! Tu te viste por lá?!
Um imenso abraço!!! Os 10 anos do blog estão chegando………!
Bom dia poeta Menna, histórias tocantes com o poder de nos fazer refletir sobre a realidade de muitos, Dora e suas muitas e diferentes dores... o rapaz e um amor antigo e ao mesmo tempo tão presente... pessoas sempre pensando em como contribuir com outras a melhorar de vida... tudo muito lindo mesmo... sempre aguardo o desfecho da história.
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