Pois tinha esse promotor! Ele sempre “adjetivava" os apelidos!
Daí que quando estava lendo a denúncia, no começo da audiência, estava lá: “fulano de tal, o inconveniente Mala, em concurso com o fulano de tal, o efervescente Sonrisal, acompanhados do adolescente fulano, o intrometido Furão”.
A audiência dos dois maiores (o Mala e o Sonrisal) havia ficado para a tarde, porque o Fechadura (o carcereiro da delegacia) que havia prendido os rapazes, havia perdido a chave da cela! Ficou porre na noite anterior, e não sabia mais onde havia guardado a chave. Dizem que perto das duas da tarde, apareceu uma moça na delegacia e entregou a chave para o delegado… dizem!
Era por volta de 17h quando começamos a audiência. O expediente, no Estado do Pará, termina às 14h, normalmente. Mas era sexta-feira, e o promotor viajaria de volta para Belém no navio que passa às 22 horas no trapiche municipal e não viria na próxima semana. E os rapazes estavam presos e fora “apenas" uma briga.
Os rapazes foram presos por armarem uma briga na mesma festa em que o Fechadura tomou seu porre. Confesso que fiquei curioso para saber como o Fechadura, porre, teria prendido os três rapazes…
Assim que eu terminei de ler a denúncia, ouvimos um barulho estranho, vindo lá do fundo do fórum, lá atrás, onde fica a cela, passando o salão do júri, ainda fechado. Parecia barulho de ferro.
— Goela! — Chamei o meirinho. — Veja o que foi esse barulho, por favor.
Tive a impressão que o Goela havia enrugado a testa. Mas não dei bola, e continuei a audiência.
— Sim, Mala (não tô xingando, era o apelido!), me falas como vocês foram presos!
— Ah, doutor, nada não, foi só uma briga e como a gente tava apanhando, saímos correndo e o Fechadura que nos prendeu.
— O Fechadura sozinho? — Perguntei.
Barulho de ferro de novo.
Vi que os presos se olharam. O promotor arqueou uma sobrancelha, e o Goela olhou pra mim.
— Bora Goela. Descobre o que é isso.
E saiu o Goela de novo.
Entrou o Fechadura para o depoimento. Comecei a perguntar:
— Nome?
— Fechadura.
— De batismo?
Ele colocou a mão no bolso detrás da calça, em silêncio.
— Sim, Fechadura, não sabe teu nome, caramba?
Ele pegou a identidade do bolso e estendeu para mim. Li o nome e… é… vamos deixar por “Fechadura” mesmo!
Barulho novamente. Notei como todos ficaram desconfortáveis nas cadeiras.
Sabe quando se tem a impressão que todo mundo está sabendo alguma coisa e falando com os olhos, menos tu próprio? Pois é. Eu estava assim.
Pela minha lista, eu estava curioso para saber como o Fechadura prendeu os três, saber o que todos ali pareciam saber, menos eu, e o que era o barulho!
Vamos começar pelo Fechadura!
Depois que qualificado, disse para o Fechadura contar a história da prisão.
— Ah, doutor, eu tava na esquina do Bar no Seu Nonô, e vi a correria deles vindo pro meu lado, isso perto de 2h da madrugada. Esperei passar por mim e mandei parar.
— Só isso? Eles pararam? Tu apontaste alguma arma, como foi?
— Não doutor, só falei do jeito certo.
— E que jeito…… — Barulho!
Todos se levantaram. Até os presos!
— É ele! — Disse o Mala. Todos se olharam como quem concorda. Que diabo de “ele”???
— É o Bento! — Falou o Sonrisal.
Bento? Quem é Bento, pensei? será que era alguém da briga, ou coisa assim? Mas por que o promotor e o Goela estão assustados?
— Bora deixar a audiência pra segunda, doutor. — O Goela falou com uma cara séria como eu nunca havia visto.
Daí, me irritei.
— Para tudo! Alguém me explica o que tá acontecendo!
— Esse barulho, doutor. Isso é visagem!
— Hein? Visagem? Que é isso?
— É o Bento, doutor. Morreu por causa de um processo aqui do fórum, faz uns dez anos! E agora, quando tem gente de noite aqui, o Bento fica revirando tudo, atrás do processo. Bora deixar pra segunda, doutor!
Eu tava admirado. Parecia que todos falavam sério! Só eu não sabia daquilo, pelo jeito!
— Vocês estão ficando loucos? Visagem o caramba. Os guris estão presos! A gente tem que resolver isso hoje!
— Tem nada nã o doutor!
— Hein?
— Tem nada não, doutor! — Era o Sonrisal.
— Como assim, não tem nada?
— A gente espera até segunda!
— É! — Concordou o Mala.
— Espera o quê?
— A gente fica na cadeia até segunda, doutor, daí o senhor faz a audiência de manhã.
— É. — Concordou de novo.
Mais um barulho! Todos levantaram! Até o promotor.
Quando eu me virei para o Barganha, que estava datilografando a audiência, ele já tirou a folha da máquina de escrever, antes de eu ditar qualquer coisa:
— Tá pronto doutor. Coloquei que o senhor suspendeu a audiência e continua na segunda pela manhã.
Dali, para saírem todos do fórum, foi menos de dois minutos!
…
Descobri que o fórum era assombrado.
Só não estar certo da assombração.
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Texto revisto e aprovado pela curadoria de Dona Grafos
Luís Augusto Menna Barreto, em 3 de junho de 2016
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