segunda-feira, 11 de maio de 2026

Os Casos da Tonha, do Botóquis e da Dona Mocinha

 


Ameaça pra ser ameaça, tem que meter medo.

Sem “tu vai ver só”…

Pois a Tonha era uma mulher grande. Não era apenas gorda. Era grande! E tinha cara de braba. Já a Augustinha era chamada assim, no diminutivo porque era uma mulher pequena, franzina. Vi que o caso era ameaça, e, assim que as duas sentaram uma em cada lado da mesa, fui logo me dirigindo à Tonha:

— O que houve, D. Tonha, que a senhora andou proferindo ameaças?

— Não ameacei ninguém, doutor. Foi ela (e apontou com o beiço para a Augustinha) que me ameaçou encher de porrada.

— Hein?

— Pois não foi, doutor? Ela me disse que se me pegar olhando pro marido dela de novo, vou pegar muita porrada.

Augustinha quieta, não falava nada. Ficava ali, olhando para a mesa, com uma expressão de “isso nem é comigo”.

Perguntei para a Tonha:

— E a senhora está com medo de que lhe aconteça alguma coisa?

— Mas doutor! E isso aí (apontou com o beiço para a Augustinha) vai bater em alguém?! Medo nada! Tô é com pena dessa infeliz!

Ora, ali mesmo, encerrei o processo!

Mas tem os que são bons de ameaça! 

O “Botóquis” (estava escrito assim no Termo Circunstanciado) era o tipo de sujeito que não levava desaforo pra casa. E desaforo grande era algum caboclo dançar com uma morena que tivesse recusado a dança com o Botóquis. E como no Marajó, apelido não é por acaso, o Botóquis estava muito longe de ser um deus grego. Era fácil ser recusado. 

Daí que, na festa, o pessoal cuidava: se a mulher chegou perto do Botóquis e saiu, ainda que pra ir no banheiro, nenhum homem mais falava com a pobre moça... Mas tinha sempre um desavisado qualquer, que não sabia da história ou que ja tinha bebido o tanto necessário para não lembrar mais de quem o Botóquis tinha levado o fora! Daí, coitado do caboclo! Se o Botóquis pegava, batia. Mas batia muuuuuito! Só o jeito de olhar, por baixo da aba do boné, já causava temor.

Outra que era boa de ameaça era D. Mocinha, que de mocinha não tinha nada.

Pois assim foi o caso: Feito o pregão, entrou D. Mocinha como autora do fato (quem fez a ameaça). E “Mocinha” era mesmo o primeiro nome daquela senhora. Eu me assustei. Acho que nunca tinha visto um rosto tão enrugado! O passo era firme, mas estava curvada para frente, pensei que tivesse já beirando os 70 anos. A vítima aparentava uns 40.

D. Mocinha tinha uma pequena fruteira e empregava seu neto, a quem prometera fazer Padre. A mãe morreu antes do parto e a criança no ventre foi dada por perdida. Mas nasceu da mãe morta e foi tido por milagre. Ia ser devolvido ao santo, fazendo-se Padre por promessa de D. Mocinha. Daí, quando alguma mulher demorava mais que um instante de comprar uma fruta, falando com o neto, D. Mocinha já achava que era o diabo em forma de mulher querendo desencaminhar o futuro santo. Pegava um terçado e corria atrás da dita, ameaçando furar.

Pois a vítima que estava ali era mais uma entre tantas que dizem que D. Mocinha ameaçava. Confesso que estava torcendo para não ser verdade; ou para que houvesse uma proposta leve do Ministério Público que D. Mocinha acatasse e se visse livre.

— Mas a senhora ameaçou mesmo a vítima, D. Mocinha?

— Ameacei não, doutor! Prometi! Vou furar essa rapariga que quer saliência com meu neto santo.

Não teve jeito. D. Mocinha não aceitou nada do que propôs o Ministério Público, por mais brando que fosse!

— Mas D. Mocinha, a essa altura da sua vida, a senhora ainda vai querer se incomodar com um processo? Por que não aceita a proposta do Ministério Público?

— Não sou mulher de aceitar favor, doutor. Vivi até aqui, com o suor do meu trabalho!

Pois é. Eu fiquei até curioso pra saber a idade daquela coleção de rugas que D. Mocinha trazia na pele. Para matar minha curiosidade, pedi a célula de identidade de D. Mocinha, que logo pegou uma sacola plástica toda enroladinha e de dentro tirou a célula e estendeu-me! Não consegui disfarçar o susto:

— Mas a senhora tem 51 anos, D. Mocinha?

— Pois é doutor. Sei que não parece.

Até hoje eu agradeço por nesse momento ter falado apenas: 

— … é… 

Porque D. Mocinha arrematou:

— Mas isso é porque me cuido, doutor, não sou como essas raparigas de hoje que experimentam tudo que é porcaria e se estragam cedo!


Luis Augusto Menna Barreto, em 9 de maio de 2026.

Data da postagem e texto original: 15 de julho de 2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários são bem-vindos. Coragem também. O autor responde quando quer. Dona Grafos, quando necessário.