Por Maria Carmem Martiniano
Cravo as unhas em sua perna. Sou muito orgulhosa para pedir que ele fique. Como se tentar detê-lo fisicamente não fosse ainda mais humilhante. Ele se levanta e se afasta.
Um calor pegajoso, mesclado ao pânico, se agarra à minha pele, e gotículas de suor escorrem entre os meus seios.
De repente, sua ira se aguça e objetos rasgam o ar. Uma mesinha redonda de canto, um abajur sustentado por pequena escultura, presente de casamento que eu amava.
Atordoada, vejo quando ele retira a aliança de casamento e a coloca sobre a prateleira mais alta da estante da sala de televisão. A custo, consigo me levantar. Digo que vou buscar as crianças, elas estão na casa de minha mãe. Ele não responde. Pego o carro e desapareço na escuridão.
Enquanto retiro a mesa do almoço, arrumo os lanches nas lancheiras. Uma caixinha de suco para cada um e pão com manteiga. Checo se os uniformes estão secos.
“Mãe, a gente deveria ter três conjuntos de uniforme cada um. Aí você não fica preocupada todo dia vendo se os uniformes já secaram” – pede minha filha de oito anos.
“Por enquanto, não temos condições, filha, já conversamos sobre isso. E dois são suficientes.”
“Nunca temos condições pra nada, mãe.”
“Vá ajudar seus irmãos a se trocarem, filha, senão vamos nos atrasar.”
À tarde, as crianças na escola, um vazio me envolve, minhas entranhas se reviram e o gosto amargo do medo se gruda à minha garganta. Há uma ausência constante ao meu lado, presente, concreta. Uma ausência que sufoca e persiste. Uma ausência que só existe no lastro da antiga presença. O braço que não me abraça, a mão que não me toca, os olhos que não me veem.
E no meio da dor, o litígio. Advogados. Juízes. Resta ainda uma audiência. Tenho horror às audiências e a todos aqueles termos jurídicos – “alimentos provisórios”, “alimentos definitivos”, “partilha de bens”.
Um casamento nunca poderia ser reduzido a esses termos.
A sentença final do juiz determina que a casa seja dividida entre os dois e que ele a deixe. Quando a audiência termina, ele me olha com raiva e me lembra: “foi você quem foi embora e levou as crianças.”
“Fui embora no dia em que você atirou e estilhaçou objetos.”
Na manhã seguinte, ligo para ele: “preciso pegar o restante das minhas coisas e das coisas das crianças. Seria melhor se eu não te encontrasse.”
Ele aquiesce.
Quando chego, não há ninguém na casa. Somente retalhos de lembranças. Vou com pequeno caminhão que faz frete, pego grande parte de minhas coisas e os pertences das crianças. Deixo para trás o que é dele e um pedaço da minha vida.
Já estou de saída quando uma lembrança vem à tona. Dou meia-volta e vou até a sala de televisão. Paro à frente da estante da TV, consigo sentir as batidas do meu coração nos meus ouvidos, fico nas pontas dos pés e tateio a beirada da prateleira mais alta. Mal consigo acreditar quando meus dedos tocam o pequeno arco. Ela continuava ali onde ele a havia deixado alguns meses antes. Ele nunca se dera ao trabalho de procurá-la, de guardá-la. Sinto-me nauseada. Respiro fundo, tento me controlar. Finalmente, consigo escapar dali.
Em casa, pego um saquinho de veludo azul onde está a minha aliança, tiro do bolso a outra aliança, bem mais larga, e deixo que ela deslize para o fundo do saquinho, onde se junta à minha. Eu as guardo como um lembrete das ilusões partidas.
Passados alguns meses, ele me liga: “Por acaso, você viu ou pegou a minha aliança?”
“Por que eu a teria visto? Você a perdeu?” – pergunto-lhe entre irônica e surpresa.
“Não a perdi, você a pegou” – vocifera ele.
Sem dar atenção à sua raiva, eu o questiono, um tanto esperançosa: “mas o que você faria com sua aliança a essa altura?”
“Estou precisando de dinheiro, iria vendê-la.”
Desligo o celular na cara dele.
Pouco tempo depois, viajo com meus filhos.
Durante um entardecer colorido, enquanto as crianças se divertem na piscina do hotel, desço para a praia sozinha. A linha do horizonte que separa céu e mar é tênue, e nuances rosa alaranjadas matizam os traços suaves das nuvens.
Paro em frente as ondas e deixo que cubram meus pés. Aperto o que trago na mão e, em seguida, atiro com força para lá da arrebentação. Vejo quando o saquinho azul afunda na água transparente. Respiro fundo, sorrio e dou as costas para o mar.
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Maria Carmem Martiniano está no Substack (@mariadesempoderadaoficial), e brinda aos seus assinantes com textos densos, que invariavelmente tem muitas camadas. Sentimos que as letras fizeram-se no papel com alma e sangue.
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