Essa é mais uma história daquelas tão incrivelmente comuns, em que, no fim, alguém diz: “ninguém poderia imaginar…”!
E a turma da escola comentava mesmo: como logo ela, foi acabar namorando um garoto como ele?
Ela tirava sempre as melhores notas. Era a queridinha dos professores. Trazia os trabalhos escolares mais caprichados… Enquanto as outras meninas da turma conversavam sobre namoros, ela sempre ficava mais quieta, escutava mais do que falava e admirava-se a cada história de beijos roubados, desejados, reais ou imaginários.
Ele era da turma acima. E era mais velho que todos, porque havia repetido de ano em outra escola (era o que diziam!). Tinha uma tatuagem em cada um dos braços, uma tatuagem na mão e punho direitos, uma tatuagem no pescoço e, nas aulas de educação física, que ele não gostava mas era obrigado a fazer, podiam ver que tinha tatuagem na panturrilha de uma perna e no tornozelo da outra; usava camisas com as mangas arrancadas, transformadas em coletes, usava colares grossos, brincos e, às vezes, pintava as unhas de preto. O cabelo nunca era com o mesmo corte, penteado ou cor, de uma semana para outra.
Ele tinha modos agressivos, e os professores não nutriam qualquer simpatia por ele.
E foi logo por ele, que ela - justo ela! - deixou-se apaixonar.
O tempo foi passando e, como era de esperar, as notas que ela tirava caíram. Ela mudou o modo de vestir-se e de falar. Começou a ouvir rock’n’roll…
Todos acharam que aquele namoro não iria durar, mas acabou a escola (ela sem ter feito as melhores notas como antes) e eles ainda estavam namorando. Ela prestou vestibular para comunicação, não medicina como todos esperavam, e ele, quando terminou a escola, estava, já, com uma banda de rock. Com o tempo, houve mais tatuagens em sua pele.
Ele contou para ela a história de cada tatuagem, e das lembranças que cada uma trazia! Havia o nome da irmã em uma delas. O nome da mãe em outra. Sobre o ponto de interrogação tatuado na panturrilha, no meio de uma névoa, ele nunca falava, mas ela sabia que aquela significava seu pai. E houve, depois de algum tempo, o nome de Dylan, o cachorro, que havia morrido depois de conquistar também a ela.
Um dia, depois de algum tempo, quando ela aceitou morar com ele, para desgosto dos pais, sem o casamento que a mãe sonhara, ele tatuou o nome dela em uma linha vertical, no meio do peito, em letras grandes que iam do pescoço ao umbigo.
Antes que vivesse a aventura de ter filhos, como eram os planos deles, ele adoeceu. Uma doença rápida e sem volta.
E ela ficou ao lado dele, como fizera desde que se conheceram na escola quinze anos antes.
Naquela época, ninguém poderia imaginar… como ninguém imaginou que se as notas dela caíram um pouco, as dele melhoraram significativamente. Ninguém imaginou que, quando ele terminou a escola, vários professores abraçaram-no com um sorriso sincero. Ninguém imaginou que ele se havia tornado um pouco ela, enquanto ela se havia tornado um pouco ele…
E os anos que passaram juntos, foram ora difíceis, ora mais tranquilos… mas sempre, intensos!
Quando ele estava para deixa-la, sem mágoas, culpas, ou desejos frustrados, ele olhou pra ela, como olhava ainda nos tempos de escola, e falou:
— Você nunca fez uma tatuagem minha.
Ela sorriu, apenas, como fazia quando falava direto com o coração dele.
E ele sorriu de volta o melhor sorriso, compreendendo que estava tatuado nela pra sempre!
Porque o amor tatua a alma.
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Texto revisado e aprovado por Dona Grafos - curadora do arquivo mennaempalavras
Luís Augusto Menna Barreto, em 11 de junho de 2019
O conto é sensível e emocionante, pois mostra como o amor pode transformar duas pessoas aparentemente muito diferentes. Com delicadeza, a história revela que, apesar dos julgamentos dos outros, eles cresceram e se influenciaram mutuamente ao longo da vida.
ResponderExcluirAs tatuagens simbolizam as memórias e os afetos vividos, e o final traz uma mensagem profunda: algumas marcas não estão no corpo, mas na alma. Assim, o conto emociona ao mostrar que o amor verdadeiro deixa marcas eternas no coração. 💫
Obrigado demais por vires aqui visitar o blog!
ExcluirEu acredito que no dia de adentrar o Paraíso, vamos despir do corpo e o que levaremos será só o amor tatuado na alma...!
Nao é necessário tatuar os sentimentos pelo corpo. O q fica na alma é eterno. Um amor improvável pode dar certo. Eu, particularmente, nao curto tatuagens, mas entendo quem goste . Minha filha e nora gostam.
ResponderExcluirEu AAAAAAAAAAAAMO tatuagens... as da alma!
ExcluirA idéia do conto era essa: unir diferenças... ela virar um pouco ele, ele virar um pouco ela... é sobre o equilíbrio que amores verdadeiros conseguem...!