sábado, 6 de junho de 2026

Dabliuvê, Jabuti, e o Título de Eleitor Penhorado

 

— Tu já votaste Dabliuvê.

— Tá doido, Jabuti?

— Mas tá aqui dizendo aqui que já.

— Tu me viste aqui votando? Quando votei?

— Isso não sei, mas essa maquininha não erra! Se aqui tá dizendo que votaste, é porque votaste!

— Votei nada!

— Não complica, Dabliuvê! Sai da fila, rasga!

— Saio nada! Quero votar!

— Ai meu pai… égua, Jabuti. Vou te mostrar! Olha aqui! Olha aqui tua assinatura no livro! 

— Que assinatura já, que não sei nem escrever, Jabuti? 

— Daí, não sei. Mas tá aqui: Wanderlei Veridiano! É tu, não é?

— Vou saber como meu nome, se nem ler eu sei, Jabuti? Tá de sacanagem?

— Empresta aí teu título de eleitor pra eu conferir.

— Tá com o Agarrado!

— E outro documento qualquer. 

— Tô sem nenhum.

— E cartão do bolsa família?

— Tá  penhorado com o Mariposa.

Descobri como era, logo que cheguei por lá em 2005 e já em 2006 era ano de eleição. 

Funciona assim: o cartão do Bolsa Família é o “cartão de crédito” do caboclo, mas normalmente funciona em um só comércio. O comércio Mariposa era o maior do local, então, para o caboclo comprar fiado (e o Mariposa garantir que será lá que ele vai gastar seu dinheiro), ele vende fiado, mas fica com o cartão do Bolsa Família "penhorado". No dia do pagamento do Bolsa Família, o Pingado, que trabalha para o Mariposa, vai com uns 80 cartões para a frente do posto da CAIXA, e naquela muvuca toda, vai sacando um por um, e já separando o dinheiro do Mariposa. O caboclo leva a diferença, se tiver, e o Pingado vai riscando a conta do caderninho. E recomeça tudo de novo para o mês. 

Eventualmente, um ou outro vai lá no Mariposa para “despenhorar" o cartão porque precisa para alguma outra compra fiado. O Mariposa só libera se o caboclo pagar a conta. 

O Retalho é um dos poucos que não segura cartão penhorado, porque, afinal, ninguém vai querer ficar devendo para um açougueiro!

E, descobri, com o título de eleitor funciona mais ou menos da mesma maneira. Na época de eleição, o candidato (ou o cabo eleitoral) vai até a comunidade, e faz o acerto com o líder local: ou um gerador pra comunidade toda, ou alguns motores rabudinhos; invariavelmente, muitos litros de óleo, camisetas (naquele tempo podia) e, claro, cestas básicas. Evidentemente, que a garantia é o título de eleitor! 

Só que diferente do bolsa família, o candidato não tem como ir junto no caixa automático (na urna). Então, o que acontece de verdade, é que o cabo eleitoral chega na Zona, com todos os títulos que arrecadou, e ele mesmo vota e “assina” por todos! 

— Ah, mas e os mesários, e os fiscais? — Você, meu caro leitor urbano, perguntará!

Bem, no Marajó há urnas eleitorais a distâncias de seis HORAS de barco, em comunidades que muitas vezes contam com não mais de cem pessoas. Os próprios mesários são membros da comunidade e também tem os títulos “penhorados" muitas vezes.

Pois a confusão se deu, porque foi a Tapioca, esposa do Dabliuvê, que penhorou o título dele, com o Cobra D’Água, que era o líder da comunidade, sem ele saber. 

Só resolveu tudo, quando a Tapioca apareceu e falou que tinha penhorado. 

O Dabliuvê, saiu com cara de brabo pra falar com o Cobra D’Água e pegar o título de volta.

— Que história é essa de tu pegar meu título, Cobra?

— Tu é leso? Não recebeste tua cesta e os 20 litros de óleo, que entregamos pra Tapioca?

É… recebido ele tinha mesmo. E o certo é certo! Não dá pra reclamar.

Conformou-se.

— Tá certo então, Cobra, mas me fala uma coisa…

— Quié?

— Em quem eu votei?

O Cobra D’Água deu uma olhada demorada, e sabendo que o Dabliuvê faz confusão por qualquer coisa, não teve dúvida:

— Larga de ser besta! Não sabes que o voto é secreto?


Luís Augusto Menna Barreto

6 de junho de 2026

… e vem eleição por aí…

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