— Tu já votaste Dabliuvê.
— Tá doido, Jabuti?
— Mas tá aqui dizendo aqui que já.
— Tu me viste aqui votando? Quando votei?
— Isso não sei, mas essa maquininha não erra! Se aqui tá dizendo que votaste, é porque votaste!
— Votei nada!
— Não complica, Dabliuvê! Sai da fila, rasga!
— Saio nada! Quero votar!
— Ai meu pai… égua, Jabuti. Vou te mostrar! Olha aqui! Olha aqui tua assinatura no livro!
— Que assinatura já, que não sei nem escrever, Jabuti?
— Daí, não sei. Mas tá aqui: Wanderlei Veridiano! É tu, não é?
— Vou saber como meu nome, se nem ler eu sei, Jabuti? Tá de sacanagem?
— Empresta aí teu título de eleitor pra eu conferir.
— Tá com o Agarrado!
— E outro documento qualquer.
— Tô sem nenhum.
— E cartão do bolsa família?
— Tá penhorado com o Mariposa.
Descobri como era, logo que cheguei por lá em 2005 e já em 2006 era ano de eleição.
Funciona assim: o cartão do Bolsa Família é o “cartão de crédito” do caboclo, mas normalmente funciona em um só comércio. O comércio Mariposa era o maior do local, então, para o caboclo comprar fiado (e o Mariposa garantir que será lá que ele vai gastar seu dinheiro), ele vende fiado, mas fica com o cartão do Bolsa Família "penhorado". No dia do pagamento do Bolsa Família, o Pingado, que trabalha para o Mariposa, vai com uns 80 cartões para a frente do posto da CAIXA, e naquela muvuca toda, vai sacando um por um, e já separando o dinheiro do Mariposa. O caboclo leva a diferença, se tiver, e o Pingado vai riscando a conta do caderninho. E recomeça tudo de novo para o mês.
Eventualmente, um ou outro vai lá no Mariposa para “despenhorar" o cartão porque precisa para alguma outra compra fiado. O Mariposa só libera se o caboclo pagar a conta.
O Retalho é um dos poucos que não segura cartão penhorado, porque, afinal, ninguém vai querer ficar devendo para um açougueiro!
E, descobri, com o título de eleitor funciona mais ou menos da mesma maneira. Na época de eleição, o candidato (ou o cabo eleitoral) vai até a comunidade, e faz o acerto com o líder local: ou um gerador pra comunidade toda, ou alguns motores rabudinhos; invariavelmente, muitos litros de óleo, camisetas (naquele tempo podia) e, claro, cestas básicas. Evidentemente, que a garantia é o título de eleitor!
Só que diferente do bolsa família, o candidato não tem como ir junto no caixa automático (na urna). Então, o que acontece de verdade, é que o cabo eleitoral chega na Zona, com todos os títulos que arrecadou, e ele mesmo vota e “assina” por todos!
— Ah, mas e os mesários, e os fiscais? — Você, meu caro leitor urbano, perguntará!
Bem, no Marajó há urnas eleitorais a distâncias de seis HORAS de barco, em comunidades que muitas vezes contam com não mais de cem pessoas. Os próprios mesários são membros da comunidade e também tem os títulos “penhorados" muitas vezes.
Pois a confusão se deu, porque foi a Tapioca, esposa do Dabliuvê, que penhorou o título dele, com o Cobra D’Água, que era o líder da comunidade, sem ele saber.
Só resolveu tudo, quando a Tapioca apareceu e falou que tinha penhorado.
O Dabliuvê, saiu com cara de brabo pra falar com o Cobra D’Água e pegar o título de volta.
— Que história é essa de tu pegar meu título, Cobra?
— Tu é leso? Não recebeste tua cesta e os 20 litros de óleo, que entregamos pra Tapioca?
É… recebido ele tinha mesmo. E o certo é certo! Não dá pra reclamar.
Conformou-se.
— Tá certo então, Cobra, mas me fala uma coisa…
— Quié?
— Em quem eu votei?
O Cobra D’Água deu uma olhada demorada, e sabendo que o Dabliuvê faz confusão por qualquer coisa, não teve dúvida:
— Larga de ser besta! Não sabes que o voto é secreto?
Luís Augusto Menna Barreto
6 de junho de 2026
… e vem eleição por aí…
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