"(...) A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho… (...)"
A minha perna ainda “tava” com gesso. Só na canela, porque a parte que descia “pro” pé, eu mesmo fui arrancando. Queria era tirar tudo, mas o Pilha disse “pra” não tirar porque rico fica com pena de criança quebrada!
Faz tempo que eu “tô” com esse gesso. Nem lembro quanto. E também não sei se já tinha que ter tirado ou não, porque eu e o Pilha saímos fugidos do hospital. “Tava” com medo que me levassem para o juizado e o Pilha me salvou! Ele arranjou uma cadeira de rodas e saiu empurrando à toda velocidade; mas os homens do hospital correram atrás de nós. O Pilha disse que eram os “polícias” do juizado disfarçados… daí, ele jogou a cadeira na frente de um carro e me levou na cacunda!
Depois, nunca mais voltamos no hospital e “tô” com o gesso na perna, ainda!
Anda muito quente de novo… por isso que viemos pro parquinho, ficar na nossa árvore.
— Eu queria voar, um dia…
Eu “tava” olhando o céu, pelo meio das folhas da árvore… eu achei que tinha só pensado, mas acho que eu falei alto… porque o Pilha falou:
— E eu, às vezes, eu queria ser ator…
Eu fiquei meio sem saber o que dizer. O Pilha nunca falava assim… mas achei que eu tinha que dizer alguma coisa!
— … iiihhh… cheirou cola vencida? Ficou doido, Pilha?
— Doido “é tu”, que quer voar. Até por cima de carro já voou, mané!
— Não sei que graça tem em ser ator, Pilha… ficar vivendo a vida dos outros!
— A graça não “tá” em viver a vida dos outros, otário! … só acho que seria bom poder não ter que viver a nossa vida um pouquinho…
Eu não entendi muito bem… Mas achei engraçado imaginar o Pilha, todo pequeno, numa roupa de gente grande e fazendo biquinho pra falar…! Porque é assim que ator faz, né?!
Mas depois, achei estranho que o Pilha passou o dia mais quieto. Parece que “tava” com o pensamento longe.
No domingo, normalmente o Pilha vai “pro” centro ajudar o irmão dele vender DVD que eles pegam com um chinês. Mas nesse domingo, o Pilha chegou cedo no muro onde a mãe tinha arrumado “pra” gente dormir.
— Bora mané!
— Onde Pilha?
— Shhh! Bora. Vamos ganhar uma grana dos ricos!
Eu fui com o Pilha. Ele sempre sabe o que fazer. Acho que caminhamos umas duas ou três horas, atravessando a cidade, até que lá, depois de uma curva na Zona Norte, apareceu uma baita barraca de lona. Era um Circo!
— Vai trabalhar no circo? Virou palhaço, Pilha?
— Cala a boca, mané! “Tu é” muito burro!
O Pilha é mesmo esperto: o ingresso “pro” circo “tava” trinta pilas. O Pilha descobriu um lugar meio escondido, que dava “pra” passar embaixo da lona. Daí, que ele começou a passar umas crianças por baixo da lona, por 2 pilas cada. Eu ficava cuidando, enquanto ele passava as crianças! Mas eu só podia olhar de um lado, né? E o circo é redondo, então, não tinha como cuidar os dois lados! Daí, que um palhaço chegou pelo outro lado e pegou o Pilha! Ouvi ele gritar!
Eu saí correndo desesperado. Tinha que dar um jeito de salvar o Pilha! Mas como é que se salva quem vive salvando a gente? Quando cheguei correndo, vi o Pilha sendo arrastado pelo braço “pra” trás de um caminhão. Corri o mais que pude, mas quando cheguei não vi mais eles, e nem ouvi os gritos do Pilha!
Fiquei desesperado! Comecei a procurar por tudo que era lugar.
Quando eu “tava” olhando um domador dar comida para dois leões que pareciam mais magros que eu, tomei um susto com uma mão no meu ombro! Era o Pilha!
— Bora, Mané! Ainda dá “pra” ganhar mais uns pilas.
— Mas Pilha, o que houve? Como "tu te livrou” do palhaço?
O braço dele “tava” meio vermelho, mas era só. Eu nem imaginava o que ele fez, mas o Pilha sempre dá jeito em tudo!
— Depois te conto, bora!
— E se o Palhaço volta?
— Não vai voltar!
E o Pilha logo logo arranjou mais crianças “pra” passar por baixo da lona! Eu fiquei cuidando de novo. Mas “tava” apavorado!
Depois, começou um barulhão. Parou de chegar gente! Ia começar o Circo. Eu “tava” louco pra ver. Mas o Pilha disse que a gente tinha que conseguir mais dinheiro. Não entendi muito bem, porque o Pilha não era louco por dinheiro. A gente sempre conseguia só “pro” que tava precisando! O Pilha nunca foi de juntar e ficar guardando. Ele sempre fala que dinheiro que a gente não usa é só papel velho que não serve “pra” nada!
Mas fui com ele. E não sei de onde, ele conseguiu um isopor cheio de refrigerante. Era enorme, a gente quase nem podia carregar!
— Bora vender que fica mais leve! — Ele falou.
Entramos no Circo e começamos a andar pelo meio das pessoas. No começo não vendemos nada, mas, depois da metade, começamos a vender muito. Quando dava, eu espiava um pouco. Mas o Pilha ficava o tempo todo contando o dinheiro e dizendo “pra” gente vender mais.
Antes de terminar, o Pilha me falou pra ficar com a caixa perto da saída que ele já voltava. Eu fiquei. Terminou o circo e ele não voltava. Comecei a ficar com medo, e me escondi com a caixa vazia atrás de uma arquibancada. Vi quando uma menina pouco maior que nós começou a subir lá no alto. Não acreditei quando ela pegou o balanço e começou a se balançar lá em cima! Só num circo, mesmo, “pra” ter um balanço tão alto! Vi que ela caiu e meu coração quase saltou! Mas tinha uma rede… e depois que eu vi que ela começou a pular na rede, achei até bonito.
Ela saiu, depois, com o cara que deu comida para os leões. E eu tomei outro susto, com outra mão em meu ombro! Quase morri. Era o Pilha de novo! Mas “tava” muito diferente! “Tava” engraçado demais. E ele “tava” muito alegre! A cara toda pintada de palhaço e com uma roupa colorida! E o palhaço que tinha pego o Pilha “tava” logo atrás, com cara de brabo. Mas não correu a gente dali. Chamou:
“Vem moleque. Anda logo, senão não vai dar!”
O Pilha me puxou e foi me levando até o meio, lá no poste com escada. E disse “pra” eu subir. Eu “tava” tão espantado que nem perguntei nada, fui subindo. O Pilha também! Mas ele “tava” numa alegria que era bonito de ver. Daí, eu não sabia se ficava com medo da altura ou feliz com o Pilha. Misturei os dois, e fui subindo. Quando vi, “tava” lá onde tinha o balanço da menina que eu tinha visto. O Pilha disse “pra” eu segurar. Eu “tava” me pelando de medo, mas segurei. E não é que o doido do Pilha me empurrou?
Acho que dei o grito mais forte da minha vida. E foi tudo muito louco: acho que no circo, as coisas ficam mágicas, porque parece que o tempo começou a ficar devagar, porque eu sei que pensei num montão de coisas, enquanto o balanço foi até o meio, não aguentei o peso de me segurar, e caí… deu tempo de ver o Pilha rindo numa alegria que eu nunca tinha visto, deu tempo de lembrar do dia que eu tinha voado por cima do carro, e lembrei que eu me achei o super-homem… e pensei que eu era o super-homem de novo! Deu tempo de pensar que eu ia morrer quando chegasse lá embaixo, porque nem lembrei da rede… e quando achei que eu ia morrer fiquei feliz de saber que a última coisa que eu ia ver era meu melhor amigo feliz, porque ele “tava” rindo tão gostoso, com cara de palhaço!
… mas daí, parece que bati numa coisa mole. Era como se Deus tivesse me pegando no colo de um jeito bom e me jogando pra cima de novo! Então, parece que eu acordei e vi que eu “tava” balançando na rede! E Vivo! Foi ali que eu vi que o circo era mágico, porque hoje, cada vez que penso em tudo, levo um tempão lembrando! Não dava “pra” pensar em tudo no tempo só de cair! Eu sei que de algum jeito o mundo tinha dado uma freada!
Depois, quando saí da rede e o Pilha desceu, ele tirou a roupa engraçada que tinha colocado e devolveu “pro” palhaço que ficou o tempo todo com a cara fechada, olhando a gente da porta do circo. E o Pilha também deu todo o dinheiro “pra” ele.
— Tá faltando dez “real”.
— Mas é só o que consegui."
— Tá. Vazem, moleques.
Quando voltamos lá no muro, a mãe “tava” furiosa. Eu “tava” com medo. Mas o Pilha tirou um saquinho da cueca. Tinha dez pilas.
— Toma, não vai apanhar no dia que “tu voou”!
Era verdade! Eu disse que queria voar, e o Pilha me fez voar!
Nossa! Eu tinha voado!
Não sei o que deu em mim, mas dei um abraço no Pilha!
— Tá doido, mané?! — … mas deixou eu abraçar.
E enquanto me abraçava, ele falou:
— Acho que se não fosse tu, eu não ia ter sido um palhaço, hoje… foi tão bom não ser eu.
Daí, ele me largou de repente e saiu correndo:
— Tchau, mané. Chega cedo amanhã no trabalho, que tu “tá” me devendo dez pilas!
…
Fiquei pensando depois, em como o Pilha ficou diferente e feliz vestido de palhaço. Parecia que ele tinha ficado triste quando voltou a ser ele de novo.
Daí, eu não ri mais. Acho que fiquei triste… porque eu adoro minha vida… e quando ficar mais velho, tudo o que quero, é ser sabido como o Pilha…!
Luís Augusto Menna Barreto
N.A.: O Pilha é meu personagem mais caro... sempre sinto vontade de pegá-lo no colo. Quero conversar mais com ele... protege-lo...
Sinto vergonha por saber que passo por tantos Pilhas e não faço nada... sou um dos "ricos" que o tem por invisível...
O Pilha tem várias aventuras publicadas no blog, tem um livro publicado, e tem dois contos em capítulos. Procure-os... ou deixe comentário que eu envio diretamente para você.