segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O Labinho, o Branco e a Eleição



— Isso não vai ficar assim! É um roubo! Um disparate! 

Era o Labinho, gritando, aparentemente porre, para toda a comunidade do Piriá, na véspera da eleição!

— Se pra ele tem, eu exijo para mim também! 

A notícia do Labinho porre, reclamando de “roubalheira" na urna eletrônica, ficou confusa. Porque em 3 comunidades diferentes, todas no rio Piriá, houve a notícia, no mesmo dia, que o Labinho estava porre, reclamando de favorecimento para o Branco na urna eletrônica.

A notícia correu, mas o dia da eleição transcorreu sem maiores percalços…

… até o final da eleição:

— Doutor, o senhor vai ter de avisar pra ele!

— Olha, Camundongo, eu sou só o juiz. O boletim tá ali na frente.

— Mas doutor, tem mais de 600 votos no nome dele. Precisava de uns 300 pra se eleger. Tá a maior festa lá no comitê. 

O Camundongo não sabia ler direito. E aquele tipo de boletim de urna era novo, porque era a primeira eleição com urna eletrônica.

Mas eu estava cansado demais para conseguir explicar alguma coisa.

— O cabo eleitoral és tu. Vai lá e fala, que quanto mais tempo passar vai ser pior.

— Tá doido que vou, doutor. Vou é rasgar daqui pra bem longe.

Eram 4h30 da madrugada.

O promotor havia saído fazia pouco e no cartório eleitoral, Abinegre e a Boca de Urna estavam tentando ajeitar um pouco as coisas, contando com a ajuda da D. Boneca e do Goela que sempre auxiliavam na Justiça Eleitoral nas eleições. 

Na frente, havia diminuído muito a reunião de pessoas entre diretamente interessados e curiosos, e o movimento agora, era nos comitês eleitorais dos eleitos. Dava para ouvir festa para o lado da beira, no comitê do Labinho, vereador de muitos mandatos, e que se reelegera com segurança. 

Mais barulho ainda, vinha do outro comitê. A festa havia começado há pouco, porque a base eleitoral do Branco era justamente a comunidade do Piriá. O barco saiu de lá pouco depois das 18h e chegou perto de 3h da madrugada com o cartão de memória e os boletins de urna da zona eleitoral mais movimentada fora da sede do município. Atrás vários pô-pô-pôs com eleitores vindo para a festa no comitê do Branco na sede da cidade.

Depois de processados e atualizados os números de cada urna que o kit chegava, o Goela pregava o boletim no mural improvisado na frente do Cartório Eleitoral. 

— Esse é o último, Goela! Prega lá, e vamos começar a arrumar tudo.

— Ééééééégua! 

— Que foi Goela?

— Nada não, doutor… só acho que vai dar rock!

Não entendi. Mas não tinha mais força para tentar interpretar o Goela depois daquele dia tão intenso. “Amanhã pergunto para o Goela”, pensei.

Antes do Goela pregar o boletim no mural, havia uma pequena multidão, esperando, ansiosa os últimos números que decidiriam a eleição. 

O Recado, cabo eleitoral do Labinho foi o primeiro a ver e gritou!

— Égua do farelo! — e saiu sorrindo para o lado do comitê do Labinho, seguido por metade da multidão.

Depois o Camundongo olhou, e ali mesmo já espocou o primeiro foguete chamando a todos os demais para outro comitê. 

A eleição era municipal, mas a maior disputa deu-se no legislativo, e foi polarizada entre dois candidatos: o Labinho, que já tinha 5 mandatos e ia para o sexto, e o Branco, pai do Fechadura, que resolveu concorrer pela primeira vez. A campanha acabou sendo maior que disputa para prefeito. Todos os demais candidatos a vereadores eram coadjuvantes, e apoiavam-se num ou noutro dos dois principais candidatos.

O pai do Fechadura, figura muito popular na cidade, por ter por muitos anos mantido a ordem quando delegado não havia, já entrou com cara de vencedor. Pela primeira vez em 20 anos, a liderança do legislativo exercida pelo Labinho, estava ameaçada! 

Era certo que ambos seriam eleitos, e eleger-se nem era mais o objetivo: o que um lado e outro queriam, era superar em votos o adversário. 

O Labinho mantinha e conquistava novos eleitores parando em cada bar, pagando uma cervejinha aqui e outra ali, e conquistando… na lábia!

Já o Branco não quis brigar com o Labinho em seu “território” e dedicou-se ao interior, visitando de lancha quase todas as comunidades ribeirinhas, distribuindo geradores, motores rabudinhos e promessas. Oriundo do Piriá, lá era sua principal base eleitoral. Se o Piriá unido votasse nele, já era suficiente.

Com o passar do tempo, a campanha do Branco foi encorpando, mas ainda estava acirrada a disputa:

— Ei, Retalho, hoje deixa a garrafa, que tô podendo!

— Ganhou na sena, Manobra? 

— Vai ser por conta do Candidato! — E apontou para a camiseta com a foto e número do Labinho!

— Vai tomar uma gelada, Goela?

— Serve duas, logo, Seu Nonô, que a Afrodite vem vindo! O Fechadura que tá pagando, por conta do pai dele.

Até na missa, o Padre passou a agradecer a oferta do candidato Labinho para trocar o sino da Igreja, e a ajuda do Branco na reforma da casa paroquial!

Na semana anterior à eleição, via-se muita preocupação no comitê do Labinho e cada vez mais confiança no comitê do Branco.

Faltando uns dois dias para a eleição, não se viu mais o Labinho na cidade. 

Apareceu na manhã do dia da eleição, exalando sorriso com confiança.

Em todo lugar, havia muita fila, e muita gente se atrapalhava com a novidade de ter que digitar os números na urna eletrônica. 

A notícia que veio do Piriá, dava conta de que por lá, tudo foi tranquilo, e a fila andava rápido. 

… estranho!

… Terminada a eleição, foi o que se viu.

Labinho eleito com folga. 

O Branco, que comemorava no comitê, não foi eleito.

Não precisou recontagem de votos. O Branco teve menos de 100 votos. 

No dia seguinte, houve muita confusão. O Branco, dizem, teve de ser levado de lancha, às pressas, para Belém, passando mal. Vários eleitores do Piriá, chegando na cidade para o resgate de promessas de campanha, e para as festas de comemoração, não entendiam o que aconteceu. 

Juraram que tinham votado no Branco. 

— Foi fácil! — Diziam.

Até o Labinho tinha explicado, porre: 

— Fizeram uma tecla só pro pai do Fechadura…

— … branca.


Luís Augusto Menna Barreto, em 3 julho de 2026.

2 comentários:

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