sábado, 11 de abril de 2026

Um Conto Sobre a Dor Guardada - Capítulo Final

 


— Desgraçado.

Nazaré não escondia o ressentimento. 

— Nem três meses. Justiça imunda!


Virado ia apressado para perto da porta de um carro que iria partir. Mancava. Tinha algumas marcas das surras na prisão. 


Socorro não voltaria. Nunca mais. 


Dora não disse nada. Absorveu. A despedida havia sido no hospital. Apenas ela e Nazaré. Sem lágrimas. Só uma dor vazia. 


— Aquele desgraçado deu a primeira facada. Agora, os estudantes vão fatiar.


Sem família, sem registros. Nazaré não seria enterrada. Indigente, o corpo ficaria ali mesmo, no hospital universitário.


Dora pensou em Bravo. “Eu quero enterra-lo”. Então deu-se conta do pensamento. Mas não se assustou. Bravo estava pelas ruas. Talvez aparecesse novamente. Mas algo nela pensava que um dia iria enterra-lo. Uma auto-defesa, talvez. O inconsciente preparando o coração.


A menina dos sucos continuava na esquina. A nota do ENEM não bastou. 


Ônibus tinham menos Franciscos na catraca. 


Um deles trocava por cachaça as últimas notas do seguro desemprego, depois que todas as notas que ainda tinham algum grão de arroz acabaram. 


Dora olhou um momento o movimento tão intenso na rua que pulsava, viva, ávida para consumir vidas que se esqueciam. 


Um velho com muleta, que todo dia passava no outro lado da calçada, seguido de longe por um cachorro com a pata torta. 


Dois garotos  que começaram a vir todos os dias, pedir nas janelas dos carros, quando paravam no sinal.


A menina dos sucos que ainda teria um tempo antes de desistir dos sonhos.


Nazaré, que se ressentia da falta da Socorro, vez ou outra ainda útil por algum distraído que perdia chaves. 


Uma mulher que vendia batatinhas.


— … ora Michele. Coloque este aluno na última carteira da sala. E chame-o sempre para apagar o quadro. Ao menos ele largará o celular uns minutos, e fará algum exercício caminhando até a frente da turma!


Fim.


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* Este conto é um spin off de UM CONTO SOBRE UM AMOR GUARDADO, em que Dora apareceu com seu carrinho de batatinhas em alguns capítulos. Durante o conto, Dora, com sua simpatia e seus conselhos, sua conversa amiga e acolhedora, ganhou força e conquistou os leitores. Houve pedidos para que sua história fosse contada. E aqui está.

Se você não leu Um Conto Sobre Um Amor Guardado, e quiser ler, CLIQUE AQUI!





Luís Augusto Menna Barreto, em 7 de abril de 2026



Um comentário:

  1. Eliane Seixas8 de abril de 2026 às 02:56
    Reconheço, sou sonhadora. Nao era o fim q eu queria. Mas é real. Nao há milagres. A vida continua normalmente, com pessoas invisíveis, seguindo a vida q tem. E a dor de Dora continuará doendo. E as pessoas passando pra comprar batatinhas.

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    Luís Augusto Menna Barreto | o autor8 de abril de 2026 às 03:14
    Eu precisava respeitar a realidade da Dora. Respeitar a rua. Respeitar as Doras de todos os dias e que muitas vezes nós mesmos tornamos invisíveis…!

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    Eunice Martins8 de abril de 2026 às 06:10
    É o fim de uma história que continua, fim aqui para os leitores, e continuação pra os personagens reais com suas dores, perrengues, mas de certa forma com algum sonho... a vida que segue...muito bom.

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    Luís Augusto Menna Barreto | o autor8 de abril de 2026 às 09:00
    Ah, Nice… tu pegaste o EXATO ESPÍRITO da coisa: eu não poderia “trair” Dora, com um final de fantasia… não poderia enganar o leitor… Gosto tanto da Dora, que ela tinha de ser real… viver no mesmo mundo do Velho e o Garrincha” (o velho de muletas e o cachorro dá pata torta)… mesmo mundo do Pilha (dois garotos que apareceram pedindo no sinal)… ela tem de continuar viva como todos nós, que sorrimos para os amigos e tantas vezes o espelho mostra lágrimas no nosso coração…! Obrigado por teres lido… por acompanhares… por vires aqui…!!!

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