Levei 1 hora na voadeira, para chegar em Bagre.
Já tinha fila para o mutirão de ações de alimentos que acontecia na Câmara de Vereadores, na falta, ainda, de um Fórum.
No intervalo entre uma audiência e outra, o Loteria não levantou. Estranhei:
— Já podes ir, Loteria! É só pagar a pensão direitinho e a vida segue.
— A próxima é comigo de novo, doutor.
Lá fora, cada um se escondia do sol como dava: árvores da beira, marquises e lonas das barracas dos vendedores. O Goela ia até a porta, e todos ouviam o pregão!
No tempo do Goela ir apregoar, o Loteria falou-me da história:
Depois de umas 4 uniões fracassadas, havia encontrado uma morena que imaginou ser a definitiva: linda, dez centímetros mais alta que ele (o que não queria dizer muita coisa, diante do seu 1 metro e 60 centímetros de altura), e rica. Rica! Trabalhava na secretaria de saúde e ganhava quase três mil por mês! Na época, mais de três salários mínimos! Rica!
Mas eis que um dia, o Loteria tinha de ir em Breves. O barco estava lá, esperando as redes serem atadas. O Loteria despediu-se da sua morena, rede embaixo do braço e já dormiria o sono inteiro no barco.
Mas no caminho, viu os amigos no trapiche municipal. Uma cervejinha. Duas… Quando deu conta, entre potocas e cantorias, ouviu o apito do barco já desatracado e indo para o meio do furo de rio na frente da cidade.
— E aí, Loteria?
— E aí, doutor, que a culpa foi minha. É lei: se disse que vai viajar, viaja!
Mas qual foi o problema?
Ele continuou, falando em um ritmo calmo. Disse que voltou para casa. Mas ao passar pelo lado da casa, para entrar pela porta dos fundos, que está sempre destrancada, ouviu alguns sussurros vindo pela janela do quarto. “Espichou o ouvido” e não teve dúvida: havia saliência no quarto! Sua morena rica, estaria deleitando-se (ou sendo “deleitada") com outro.
— E então, Loteria? Pé na porta e deu o flagrante?
— Não, doutor. Não ia fazer uma coisa dessas! Morena rica, doutor. Minha preocupação era só uma: não ser corno.
— Mas parece que era tarde, não acha?
Foi daí que ele me explicou tranquilamente que não. Corno, só se os amigos soubessem que ele saberia da traição! Então, ele disse que enrolou a rede por cima da cabeça e gritou: “larga a mulher dos outros, seu otário”!
E nisso, saiu rápido para a frente da casa, porque o dito, assustando, sairia pelos fundos, certamente.
— E tu não foste ver quem era? Não ficaste cuidando pra pegar o Dom Juan marajoara?
— Nem pensar, doutor. Não ia fazer uma coisa dessa. E se o caboclo é meu amigo? Eu vou perder uma amizade por uma bobagem dessas? Não vale a pena, doutor. E depois, não podia perder aquela morena rica!
— Mas tu voltaste pra casa?
Ele então, contou que voltou para o trapiche, tomou mais umas e foi para casa. Disse que, chegando, a Morena estava de banho tomado, perfumada, na rede. E não negou fogo naquela noite!
O Goela estava voltando, já com a autora do próximo processo, e mais um filho do Loteria. Ainda perguntei apressado.
— Mas acabaste perdendo, a morena. Como foi?
— Vacilei, doutor. Ela me pegou meio de saliência com outra no Festival do Açaí. E ela não usou rede pra esconder a cara!
Luís Augusto Menna Barreto
11.4.2026
Ja aqui em solo baiano, mas não podia deixar de ler sua crônica. Acho que tb ficaria impressionada como as coisas acontecem em Marajo. Ainda bem que temos os seus relatos. Simplicidade do povo em resolver as questões.
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