quarta-feira, 26 de agosto de 2026

O Odorico, o Conân e Não Me Lembro


“Vshhhhh… vshhh, vschhhh…..” 

— Por que a senhora varre todo o dia o salão do júri, D. Boneca?

— Pra espantá as morte, doutor. Se criar teia de aranha, a morte se lembra que tá esquecida, e começam a se matar de novo!

Ainda não havia me acostumado com a beleza daquele Fórum ribeirinho: prédio antigo, na beira do rio, com salas amplas e janelas que abrem para o corredor do Fórum e o pé direito bem alto! No fim do corredor, o salão do júri… pois é: o salão do júri! 

Em pouco tempo eu me apiedei do promotor, que ansiava por um crime de júri. Mas, até então, os dois únicos que haviam ocorrido, o promotor havia denunciado, e os réus morreram antes do júri. Ele estava quase para se aposentar, mas jurou que não aposentaria sem antes fazer um júri no Marajó! Mas ninguém morria de morte matada!

Era uma espécie de Odorico Paraguassu* Marajoara! 

Lembrei disso porque justamente naquela manhã, teria a audiência do Odorico, o Conân e um outro que agora não lembro como era chamado (muito menos, lembraria seu nome, claro!).

Segundo o expediente assinado pelo Brédi Piti, o preso que auxilia o delegado na falta desse, os três rapazes teriam cometido um furto de motor rabudinho. O problema é que logo que instalaram o motor no casco em que fugiriam, deram conta que não havia combustível! O Tonelada nem teve muito trabalho pra prender, porque estavam à deriva no rio.

Pois os três estavam presos e eu havia marcado a audiência. 

— Mande os três entrarem, Goela!

O Goela olhou no corredor e voltou dali mesmo: 

— Farelo.

— Fala pro Baganha ligar pra delegacia e ver o que houve! Diz pra trazer AGORA!

(Dei uma ênfase no “agora”, pra mostrar autoridade na frente do Promotor e da Dra. Quaresma, que já estavam na sala de audiências!)

— Doutor, lá só tá o Brédi Piti. Disk o Fechadura foi bem ali e o Delegado tá pra Belém.

Eu disse que o Goela desse algum jeito (ele sempre dava!). Que ligasse pro posto da PM, falasse com o Tonelada, que encontrasse o Fechadura, mas eu queria fazer aquela audiência!

Pois não deu dez minutos e a Tutela veio avisar que os presos chegaram. 

Entraram enfileirados, sem algemas. 

Um era meio gordo e grande. O outro, quase esquálido. O terceiro era realmente tão comum, e um apelido meio sem graça que não me lembro. O maior deles parou e eu apontei a cadeira para que sentasse, porque iria iniciar pelo interrogatório dele:

— Sente aqui, Cônan.

— É Conân, Doutor, e é ele. — Apontou para o esquálido!

— Esse aí, e o… Conân?

— Deverasmente, Doutor. 

Pronto. No “Deverasmente”, descobri que o grandão era o Odorico.

— Sentou-se o Odorico, mandei os outros dois aguardarem no corredor, e assim fiz com cada um para o interrogatório.

Terminada a audiência, e já com todos os três presos na sala, mandei o Goela chamar os agentes que os trouxeram, para leva-los.

(Esses três pontinhos na linha de cima significa que todos na sala ficaram em silêncio, com aquela cara de “sabe de nada, inocente”!). Até que o Goela quebrou o silêncio:

— Não veio ninguém com eles, Doutor.

— Hein?

— Não veio ninguém com eles, Doutor.

Olhei para os presos:

— Vocês vieram sozinhos?

— Emboramente não seja correto, doutor, estava apenasmente o Brédi-Piti na Delegacia, mas ele tá no fechado, não pode sair para trazer-nos.

(Esses três pontinhos são o silêncio meu!, seguido de: “aaah”, até achar o que dizer):

— Então tá. Também estou sem tempo e tem outra audiência. Vocês sabem o caminho, não é? Voltem pra lá e em dez minutos vou ligar pra Delegacia pra saber se vocês chegaram.

O Promotor e a Dra. Quaresma não disseram nada. Aparentemente, eles também estavam sem nenhuma sugestão melhor!

Os três saíram.

Dez minutos depois, eu mesmo liguei, e foi o Fechadura que atendeu.

— Fechadura’, o Odorico, Conân e não me lembro (no dia eu sabia até o nome de batismo do preso; hoje que não me lembro mais) já estão aí?”

— Na cela, doutor.

No final do dia, a Dra. Quaresma pediu a liberdade dos três. 

Deferi.


Luís Augusto Menna Barreto

15.2.2019

4 comentários:

  1. Respostas
    1. rsrsrsrss.... o pior é que me lembro bem dessa audiência, e por nada no mundo lembro o nome do terceiro caboclo. Não era das figurinhas carimbadas dos furtos da cidade... Por lá tinha o Macaco, o Sonrisal, o Cacique... mas esse não consigo lembrar!

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  2. Os 3 pontinhos eram pra ficar acima..só no Marajó acontece disso.

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