quinta-feira, 20 de agosto de 2026

O Jesus, Jesus e o Sonrisal

 


— … é que eu encontrei Jesus, doutor.

— Ai, meu Deus…

— Não, doutor, Deus é outro. O que eu encontrei foi Jesus!

Eu até tenho paciência para as histórias mais absurdas que me contam para escaparem de uma condenação, para ganharem liberdade condicional ou mesmo escapar de um flagrante. Mas tem duas lorotas que me irritam demais:

Quando o caboclo me fala “não lembro, doutor, eu tava porre”; e quando o caboclo vai preso e na primeira audiência já chega me dizendo que agora encontrou Jesus!

Vamos deixar claro que sou cristão, vou à missa, faço minhas orações… mas não aguento quando chegam com a bíblia embaixo do braço e já querem logo me ler uma passagem e me dizendo que querem uma outra chance, porque agora encontraram Jesus.

Eu tento começar o interrogatório, pergunto o nome do mal acabado, e ele já vem com essa:

— Doutor, eu sou um servo de Deus, encontrei Jesus e gostaria de ler uns versículos…

Já pergunto mais alto e com cara de poucos amigos:

— Teu nome?

— É que eu encontrei Jesus, doutor…

Algumas vezes eu não aguento e eu que pergunto:

— E Jesus fez o quê pra estar preso?

Sim, porque quando estão soltos, belos e faceiros, nunca encontram Jesus. Mas basta irem presos e O encontram. Jesus deve estar preso. E no Marajó! (Aliás, eu não duvidaria que na próxima vinda, Jesus começasse pelo Marajó, e acabasse por escolher os novos discípulos justamente pelo açougue do Retalho!)

Mas o fato é que só encontram Jesus lá, na cadeia! Porque depois que saem, esquecem de Jesus. Nem ao menos vão visitá-lo por lá, pelo jeito.  … tá, tô sendo injusto. Na verdade, tem vários que parecem sentir tanta falta de Jesus que acabam por voltar pra cadeia. Daí, encontram de novo! E o crime de Jesus deve ter sido muito grave, porque é só lá dentro que Ele é encontrado pelos presos; e eles saem e Jesus pelo jeito, fica!

Pois agora, o Sonrisal que me vem com essa! De todos, o Sonrisal era um dos que eu menos esperava que encontrasse Jesus. Era o típico malandro. Várias prisões e sempre tinha uma boa história pra contar e tentar desviar-se da responsabilidade. Normalmente praticava furtos, quase nunca sozinho. E era hábil em sempre colocar a culpa nos outros. A audiência era para ver a possibilidade de ele passar do regime semi-aberto para o aberto. O Sonrisal, numa ida em Belém, foi preso por lá, e acabou parando na Colônia Penal. Como era Marajoara mandaram para cá para cumprir a pena, e já chegou com pedido para trocar a pena de prisão por serviços à comunidade.

O que estranhei foi logo ele, sempre tão articulado e esperto, vir com essa história de “encontrei Jesus”. Foi daí que me irritei logo de cara.

— Caramba, Sonrisal! Até tu vais querer aplicar essa, agora: ‘encontrei Jesus’? Achei que tu eras mais inteligente que isso! E cadê tua Bíblia? Qual passagem tu vais querer ler para mim? Deixa eu adivinhar: a do filho pródigo? Ou a passagem que Jesus está crucificado e tem o ladrão bom e o ladrão ruim falando com ele? O que tu vais ler pra mim?”

— sssssssssss….sssss…sssssssss. 

Ah, eu não havia falado ainda? O Sonrisal tem esse apelido, porque ele ri assim: parece um monte de “s”; daí que deram o apelido de Sonrisal, porque parece o barulhinho da pastilha de sonrisal dissolvendo na água! 

— ssss…sssssss… ssssss. 

A risada dele me deixou ainda mais irritado!

— Tá rindo do quê, Sonrisal?

— Sssss…. tenho Bíblia não, doutor…sssss…ssssss.

Não disse nada. Esperei, pronto para, em vez de fazer o Sonrisal ir do regime semi-aberto para o aberto, mandar ele direto pra forca!

— O Jesus, doutor! Seu estagiário! Ele se formou. Já tem anel (já é advogado!), foi ele que fez meu pedido. Encontrei ele lá na Colônia Penal, e ele mandou abraço, doutor!”

Pois é! Jesus. Eu também havia esquecido dele! Foi estagiário alguns meses, e foi estudar direito em Macapá. Há anos eu não vejo mais Jesus. Mas ele não me esqueceu!


Por Luís Augusto Menna Barreto

Em 16 de agosto de 2016.

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