quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A Morte do Ateu - parte 3



Anteriormente em “A Morte do Ateu”
"— (…) Não há nada depois!
— E o que tu vês agora?”
(…)
— Se estiveres certo, tu estás no nada, e eu não sou.
— Não és o quê?
— Diga-me ateu: o que tu negavas?”

_______parte 3_______

— Eu nunca neguei nada! Foi sempre uma afirmação.
— O que afirmavas? 
— Que não haveria nada depois. Que essa história de “fé” era uma bobagem, uma invenção do homem, dos fracos, para conformar-se com a morte. 
— Afirmar a “não existência”, não é negar?
— Talvez… mas não importa!
— Por quê?
— Porque estou certo! 
— E comemoras por isso?
— Não deveria? Eu estava certo o tempo todo! 
— Se estás certo, o que há para comemorar? 
— Isto: que eu estava certo, não há nada depois!
— E como comemoras, se não há nada nem ninguém para comemorar? 
— Basta-me a satisfação que sinto por ter estado certo o tempo todo!
—  Mas, se sentes satisfação, sentes algo, há algo e, então, não estavas certo.
— Deixa de ser ridículo! Estou certo. Não há nada aqui! Tu mesmo o disseste.
— Para ti, eu nem mesmo sou. Como poderia ter dito algo se sou nada?
— Lá vens tu com essa conversa de “sou" novamente! O que dizes que não "és"?
— Vejas: afirmas o nada, mas sentes; nega-me, mas diz ouvir-me. Dize-me tu, ateu: o que sou?

Luís Augusto Menna Barreto

26.2.2020


sábado, 22 de fevereiro de 2020

A Morte do Ateu - parte 2

_______parte 2_______


Anteriormente em “A Morte do Ateu”
"— (…) Não há nada depois!
— E o que tu vês agora?
(Fim da parte 1.)

_________parte 2__________


— O que eu vejo agora? Eu não vejo nada, já disse!
— O que é o nada?
— O nada é o vazio!
— Tu vês algo, onde estás?
— Não. Mas eu não estaria aqui!
— Onde tu estarias?
— Em lugar nenhum, oras! 
— E que lugar pensas que é esse?
— Dize-me tu.
— Não posso dizer-te.
— Por que não?
— Porque eu não tenho respostas além das tuas.
— Como assim?
— Quem tu encontrarias depois da vida?
— Não há "depois da vida”! Eu não encontraria ninguém.
— Quem pensas que sou?
— tu… tu és…
— Se não sou quem, então o quê tu pensas que sou?
— Tu…
— E se tu estiveres certo?
— Certo no quê?
— Na tua descrença.
— Como assim?
— Se estiveres certo, tu estás no nada, e eu não sou.
— Não és o quê?
— Diga-me ateu: o que tu negavas?

Luís Augusto Menna Barreto

22.2.2020


domingo, 16 de fevereiro de 2020

A Morte do Ateu - parte 1

A Morte do Ateu
_______parte 1_______




— Quem és tu?
— Ninguém. Pra ti, eu sequer existo.
— Como assim, ninguém? Como assim não existes? Estou falando contigo!
— Tu me vês?
— ãh… não… mas…
— Tu ouves minha voz?
— Não… mas de alguma forma eu sei o que dizes… então, eu sei que estás aqui!
— Aqui onde? 
— Aqui, oras! Onde eu também estou!
— E onde estás? O que tu vês?
— Eu… eu… Eu não sei… é tudo sem cor, luminoso sem ser luz… não vejo nada. Absolutamente nada, nem ao menos um contorno sequer. Não me sinto sequer flutuando, mas não há nada sob meus pés. É como se eu estivesse cego, simplesmente por não existir nada para ver, pois não há escuridão, sequer. Não consigo descrever. Que lugar é esse?
— Lugar nenhum! 
— Impossível! Eu estou aqui, não estou? Como pode ser lugar nenhum?
— Onde tu estarias?
— Como assim?
— Quando não houvesse mais vida?
— Que ridículo! Não estaria em lugar nenhum! Não há nada depois!
— E o que tu vês agora?

(... continua...)

Luís Augusto Menna Barreto
16.2.2020

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Brechó de Almas - final (parte 4 de 4)

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Parte 4 de 4

— Esse barulho… eu já me acostumei com ele… É sempre a mesma coisa: o barulho da chave abrindo o portão. A batida brusca quando o portão tranca. Depois a voz com algum desespero e confusão… pedidos para destrancar, para voltar… e a resposta invariável: “hummm”. Agora é só esperar.. essa alma que acaba de entrar, ficará assustada, passará um bom tempo esperando os olhos acostumar-se à neblina, aguçará os ouvidos… ficará espiando-me até sentir-se segura… chegará perto devagar, e tentará começar uma conversa e perguntará:
"Ah!, que alívio encontrar outra alma aqui! Olá. Onde estou? Que lugar é esse?"
"É o Limbo."
"E o que eu faço aqui? Como funciona? Com quem tenho de falar para que me coloquem em um bom lugar?”
— É sempre assim. Então, eu explico sobre as duas portas, sobre a escolha da chave, sobre a mesa… e sobre o juiz. Eu já nem lembro há quanto tempo tenho feito isso.  Não sei se passaram alguns anos ou séculos. Ainda lembro a conversa com a alma condenada no dia que cheguei. Foi aquela alma que me explicou sobre a chave… sobre o juiz. Então, a alma condenada levantou-se decidida, e caminhou até a imensa e larga porta da condenação. Eu fiquei observando, de longe. Ela virou a chave, e assim que a porta foi aberta, ouvi a luta. Ouvi gritos horrendos. Vi a mão forte e decidida da alma puxando a porta por dentro para fecha-la e vi os horrores que o puxavam para dentro enquanto tentavam sair pela porta aberta! Eu corri para lá e comecei a empurrar a porta, para fecha-la. Ouvi os gritos de agonia da alma condenada, e mesmo eu empurrando com toda a minha força, a porta parecia cada vez mais abrir alguns centímetros. Então aconteceu: veio um clarão de luz. Gritos de agonia, e a porta finalmente cedeu. Eu a empurrei com toda a força, e então a porta fechou com um estrondo. O clarão diminuiu um pouco e eu vi o anjo, pairando acima, olhando para mim. Olhou alguns segundos… e li em seus olhos o que ele me dizia em tom severo:
"Cumpre teu destino.”
— Eu fui até a mesa do juiz. Com medo. Mas a mesa estava vazia. Não havia chaves. Não havia sequer cadeira. Procurei o anjo e não estava mais lá. Desde então, simplesmente espero. Passei a saber identificar os sons. Acostumei-me com os gritos de agonia que ultrapassam a porta da condenação. Aprendi a perceber os passos hesitantes das almas que chegam ao portão do limbo. Antes, eu corria até o portão, tentava falar com o porteiro, que sempre respondia a mesma coisa: “hummm”. Dividia meu desespero com as novas almas que chegavam. Depois de eu explicar sobre a chave, a mesa e o juiz, elas iam até lá. E sempre voltavam com uma chave. Então, eu ia correndo e nunca encontrava uma chave para mim. Nunca encontrava sequer a cadeira do juiz. Com o tempo, perdi a conta das almas que ingressaram. Perdi a conta de quantas vezes eu fui até a mesa. Quantas vezes tentei voltar pelo portão do limbo com as almas que pegavam esta chave. Mas era sempre “hummm”, sem eu ter chance de voltar. Perdi a conta de quantas almas eu confortei depois de pegarem a chave da porta da condenação, e de quantas vezes eu tive de empurrar para trancar a porta, para que nenhum dos horrores saísse. Acho que me conformei com este destino: ficar no limbo, simplesmente, e esperar.  Esperar almas como esta que agora chegou-me:
— Olá…? Onde eu estou? 
— No limbo.
— E quanto tempo terei de esperar aqui? Quando alguém virá buscar-me?
— Ninguém virá. Tu tens de ir até a mesa do juiz e pegar tua chave.
— Onde fica este juiz? Que chave?
— É só a mesa do juiz. O juiz, és tu. Terás de escolher a chave: da porta da condenação, aquela lá!; ou da porta do caminho de volta!
— Ora, que ridículo! Não vou dar ouvidos a ti, alma maltrapilha!
— O quê? Maltrapilha…? Eu não… … espere! Eu estou mesmo maltrapilha! O que houve com minha alma alva e intacta? 
— Do que tu estás falando, seu mendigo! Por que está sorrindo? Vamos, tire logo esse sorriso idiota do rosto e vá até lá buscar minha chave!
— Sim, farei isso!
— Hummm.
— Porteiro? O que tu fazes aqui? E este clarão? Anjo? Também estás aqui? Por que me olhas severo assim? Sentar-me? Acho que não estou limpo adequadamente para sentar-me na cadeira do juiz. E eu não posso julgar aquela alma intacta… não a conheço.
— Hummm.
— Julgar a mim? Escolher minha chave? Dessas duas em cima da mesa? Eu…
— Hummm.
— Certo. Não haverei de demorar-me, já que tanto tempo tive de pensar em mim mesmo, tanto conversei com almas melhores que as minhas, que até mesmo condenadas foram. Eu aceito meu destino. Pegarei a chave da porta da condenação. 
— Hummm.
— Eu não entendo. Não consigo levantar a chave. O que houve? Como? … esta outra? … eu… Eu a consigo levantar. A chave do portão de volta, eu consigo levantar! 
Bem aventurada alma que ficara rota… descobriu depois de morta, que a salvação viria pela caridade. E o anjo acolheu-a em sua luz, e acolhida, atravessou o portão de saída do Limbo.
Fim.
Luís Augusto Menna Barreto

1º.2.2020



terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Brechó de Almas - parte 3 de 4


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Parte 3 de 4

— Olááááááá… … … … olááááááá…. Que lugar é… Não! Não tranca! Ei, volta aqui! Abre esse portão, dize-me onde devo ir… 
— Hummm
— Volta… volta… ei… … ei… … Não! Vou me concentrar! Sem medo! Sem choro! Tem de haver algo nesta neblina. Alguém! Basta eu andar com cuidado… sim… ali… ali… uma porta… e barulho… atrás da porta. E ali.. deixe ver, acho que são duas almas conversando… não! Uma tem asas. Um anjo! Será aqui o lugar dos anjos? O que os dois estão conversando? Por que apontam para aquela porta? Por que o anjo parece zangado e aquela alma fala de modo tão calmo? Mais perto… mais perto… pronto, posso ouvi-los:
“Tu não deverias estar aqui!”
“Eu também acho que não.”
"Foi outra chave que te deram. Não podes entrar em outra porta. Esta chave que tens não abre outras portas.”
"Eu sei.”
“Tu deverias estar ardendo no inferno!”
“Eu recebi a condenação. Peguei a chave que me deram. Fui até a porta que me era destinada.”
"Mas não entraste. Continuas sendo um covarde. Covardes não entrarão em outra porta”.
“Nunca fui um covarde. Carreguei meus erros. Aceitei a condenação.”
“Então porque não abriste a porta e entraste no que te foi destinado pelas escolhas que fizeste? Tiveste medo! Por que não usaste a chave na porta da condenação?”
“Nunca foi o medo de entrar… foi o medo do que poderia sair que me impediu de abrir aquela porta.”
“Não podes ficar aqui! Nem ao limbo tu pertences!”
— Meu Deus! Nunca antes eu ouvi alguém falar tão alto quanto o anjo! Minha alma reverbera com o som deste seu grito!… essa luz… Como Brilha! Vai-me cegar! … Onde… onde ele está? Para onde foi o anjo?
— Para a luz… 
— Por que ele gritava contigo?
— Porque ainda não usei minha chave. 
— Que chave?
— A que todos ganhamos. 
— Eu não tenho, ainda, chave…
— Pega a tua, cumpre tua sentença.
— Há somente uma porta, agora?
— Duas.
— Quais? 
— Esta, que é minha condenação…
— E a outra?
— O portão por onde entraste.
— Não… não pode…! Apenas duas? 
— Sim.
— E onde estão as chaves?
— Na mesa do juiz. 
— E onde está o juiz?
— Não há juiz, só há a mesa.
— Não faz sentido. Se não há juiz, qualquer um pode pegar a chave do caminho de volta. Ninguém pegaria a chave do inferno! Quem afinal escolhe as chaves?
— Tu não entendeste, não é?
— O que há pra entender?
— Tu és o único responsável pela escolha da tua chave.
Pobre alma intacta… sentiu medo. Descobriu depois de morta, que não existiria como enganar sendo o juiz de si mesma…



(continua… esta é a parte 3 de 4)
Luís Augusto Menna Barreto

27.1.2020

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Brechó de Almas - parte 2 de 4

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Parte 2 de 4

— Ei…
— Ah!, tu ainda estás aí? Achei que havias entendido que tua alma não serve ao nosso brechó.
— Mas é que vi passar uma alma tão intacta quanto eu: bons olhos, sem faltar parte nenhuma, quase brilhava de tão intacta! Nada a diferencia de mim. Por quê passou e eu não posso?
— Aquela recebeu o passe de aprovação! Por isso entrou! Ficará no brechó, mas na ala dos saldos e pontas.
— Que passe de aprovação? Também quero!
— Tu não me pareces o tipo de alma que conseguiria um passe de aprovação! 
— Ora, não me conheces! Em vida, sempre mantive a boa forma, frequentava academia, cuidava da pele, da alimentação, era saudável. Nao entendo como morri de parada cardíaca! Mas, enfim, isso não vem ao caso agora! Dize-me como faço para conseguir esse tal passe de aprovação?!
— Mas você não sabe nada sobre este lugar, não é mesmo? Não viste as instruções pelo caminho? 
— Não… quando percebi que morri, apressei-me logo! Não parei para ver nada, para ler nada. Eu queria apenas chegar logo. Havia muitas almas velhas e rasgadas no caminho, e não quis misturar-me. Pensei que haveria um lugar para almas como a minha, perfeitas, alvas, intactas…
— Está bem, está bem! Vês aquele portão, logo depois de passar a parte dos fundos do brechó? Fales com o porteiro de lá. Mas ainda penso que não conseguirás!
— Eu vim pegar um passe de aprovação!
— Hummm…
— Por que me olhas assim, de cima a baixo, com esse ar superior? Vamos, da-me logo esse passe!
— Hummm…
— Não me podes negar! Estou vendo pela fresta do portão, que outra alma há lá dentro, tão intacta quanto eu!
— Hummm…
— Abra logo! … Isso, agora sim! Na próxima vez, não se demore tanto! … Olá, com licença, este lugar está vazio?
— Ah, sim, está! A alma que aí estava, já foi chamada! Vê? Está saindo, agora! Conseguiu o passe! Vieste buscar também um passe de aprovação? 
— Sim! Como isso funciona?
— Esperamos nossa vez, somos chamados e respondemos à pergunta! 
— Que pergunta?
— Ora, não leste no caminho, as instruções?
— Claro que não! Estava empenhada em chegar logo, assim que morri! 
— Não sabes a pergunta?
— Não, não sei!
— E como responderás, se não sabes a pergunta?
— Saberei se tu me disseres! Vamos, fales logo!
— A pergunta é… Como? É minha vez? É minha vez! Minha vez! Perdoe-me! Estou ansiosa. Outra hora conversaremos!
— Espere… e a pergunta? Qual é a pergunta? Grite! Não te ouço…
— … ê… u… zesteeee….?
— E agora? Não ouvi. Ora, mas hei de sair-me bem! Sempre fui inteligente, acima da média! 
— Hummm…
— Nossa, que susto! Sim, já vou. Ali? Esta porta? Certo, certo… Com licença…? Sim, vou sentar-me. Estou preparada, claro! Pergunte! Como…? “O que eu fiz pelos outros"? Ora, veja bem, eu tinha 42 anos! Ninguém morre aos 42 anos! Vocês aqui, que erraram em chamar-me cedo. Não havia dado tempo, ainda de ter feito algo pelos outros! Claro que eu tinha planos de ajudar. Estava, ainda, acumulando bens, para ter condições de ajudar! Mas olhe, lembro perfeitamente, que uma vez, doei um sapato que não me servia mais! Sim, doei também comida! Lembro agora que uma vez bateram-me à porta pedindo comida, e eu tinha um saco de bolachas que estava passando a data de validade e doei! …Não serve? Não seja ridículo! Como? Que portão? O que tem naquele portão? Porque não posso voltar ao Brechó? Calma, calma… estou indo! 
— Com licença? 
— Que portão é esse? 
Pobre alma intacta… descobriu depois de morta, que de nenhuma forma doara-se. Não doara seu corpo. Não doara seu tempo. Não sabia sequer, que lhe abriam o portão do LIMBO…
(continua… esta é a parte 2 de 4)
Luís Augusto Menna Barreto
24.1.2020



segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Brechó de Almas - parte 1 de 4

Brechó de Almas


— Como assim, não posso?
— Não pode, lamento muito!
— Mas olhe pra mim! Estou perfeita! Morri uma morte estúpida, parada cardíaca aos 42 anos, onde já se viu?! Nenhum defeito na minha alma. Como não posso? Olha aquela ali. Ali, bem ali… 
— Estou vendo. 
— Pois então? Vê: tem buracos! Da minha parte, não tenho nenhum! Estou perfeita! Como é possível tu dizeres que não posso, que não terei serventia?
— Lamento, mas neste brechó, apenas as melhores almas são admitidas!
— Mas não haverá melhor que a minha! Olha: lá vai outra rasgada, bem no meio! Como pode ser admitida aquela alma? Certamente será recusada pelos espíritos novos que precisam escolher a alma para nascer!
— Bem, de fato, aquela não é a melhor… mas veja: não é necessário estar perfeita. Mas alguns requisitos deve cumprir!
— Pois procure na minha algum defeito! Nada há de errado! Olha: inteira!
— Não nos serve! 
— Não seja ridículo! Se várias rasgadas estão entrando, como a minha não serve? Olha: lá vai outra… cega! Sem olhos! E já está sendo pendurada em um cabide e exposta! Meus olhos estão perfeitos e não serei aceita nesse brechó?
— Muitas almas não são aceitas…
— Espere!, que gritaria é essa que vem de dentro do brechó? O que são estes aplausos entusiasmados?
— Ah!, pois veja: aquele espírito novo encontrou uma alma ideal, veja como a veste com orgulho. Vejo que mal pode esperar para nascer com esta alma!
— Que ridículo! Toda rasgada. Rasgada nos olhos, no tronco, atrás, na frente…  Até no lugar do coração está rasgada! Como não haveria de escolher a minha se eu estivesse lá. Vamos, pare com isso, deixe eu entrar! Minha alma está perfeita, intacta! 
— Justamente!
— Justamente o quê?
— Intacta!
— Como assim? 
— Em vida, doaste algum órgão?
— Não! Já falei, nada perdi quando viva! Estou perfeita.
— E depois de morta? Órgãos doados? Coração? Córneas? Algo…?
— Não…
— Doaste sangue ao menos, quando viva?
— … eu… não… bem…
— Tua alma, perdoe, não nos tem serventia. Aqui, valem-se as rotas… as que chegam aos pedaços… quanto mais lhes falta, mais as querem os espíritos a nascer. 
Pobre alma intacta… aprendeu depois de morta, que eram as que mais se doaram, que teriam novas chances…

Luís Augusto Menna Barreto

20.1.2020

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

pensamentos perdidos - “... vivos!”

pensamentos perdidos: “... vivos!”



Eu acordei 
Não, não é uma coisa qualquer!
Eu me sinto um privilegiado! 
E, se tu estás lendo isso, se estás acordado em 2020, também és! 
Estamos vivos! 
Meu plano para 2020?: acordar em 2021... e saber que com todas as agruras, percalços e dissabores, eu me divertirei durante o caminho!

Luís Augusto Menna Barreto

1.1.2020

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Entre a Cruz e a Espada - bora cronicar



Que eu não gosto de academia, todo mundo sabe! Já contei em crônicas anteriores minha saga quando meu paletó emagreceu e resolveu que não entraria mais em mim!
Então, ocorreu que há alguns dias de uma formatura em direito em que eu teria de usar um paletó, a Ana foi ao shopping ver os preços dos paletós, e voltou com o caso resolvido: eu teria de emagrecer! Seria muito mais barato! E a coincidência disso tudo, era que a formanda que nos havia convidado, era a Camila, personal que me acompanha nos treinos! Seriam duas semanas para diminuir alguns números no manequim!
O resultado, também já contei aqui: deu certo! Mas a que custo… foram muitos “dias de Camila”, que me fizeram gostar das segundas-feiras, porque nas segundas, “não tem Camila”!
Passado o apuro de fazer o paletó engordar para eu entrar nele, continuei a rotina de exercícios com a Camila, porque tenho hérnia de disco e, se paro com exercícios e alongamentos, começa a doer muito. Os exercícios não tem o ritmo frenético de quando eu tinha que entrar no paletó, mas “dia de Camila” é sempre um pequeno sofrimento… e eu sofro três vezes por semana: terças, quintas e sextas! Segunda não faço, porque segunda basta-se por si só! Quarta é dia de jogo do campeonato brasileiro na TV! Então, ficou assim: terças, quintas e sextas. Mas todos os “dias de Camila", sem exceção de nenhum, eu desço (faço o treino na academia do prédio onde moro) torcendo para chegar e a academia estar vazia. Não, não vazia porque não tenha ninguém treinando, não tenho nenhum problema de alguém ver minha preguiça… falo vazia de “Camila”. 
A Camila é uma ótima personal… mas tem um defeito grave, quase fatal para uma personal: ela não falta ao treino! Nunca. Nunquinhas! E pior: não se atrasa! Sabe aqueles efêmeros, mas absolutamente maravilhosos minutos de paz, em que experimentamos o paraíso, minutos que são a maçã do Édem, em que tu vês os aparelhos silenciosos, observas os pesos no suporte, ouves a música de ritmo marcado, e pensa: "é hoje, é hoje!”? Olhas para a tela do celular aguardando aquela notificação que começaria com “Luís, desculpa, mas aconteceu um imprevisto…” Sabes tudo isso? Pois é: com a Camila, não tem a menor chance de acontecer! Quando alguém me pergunta sobre a Camila, eu logo queimo o filme dela! Digo logo que ela é terrível: não, falta, não se atrasa, e não dá muita conversa; ela estuda os treinos, personaliza-os de acordo com nossa necessidade e não tem escapatória: tu só vais sair quando terminar todo o programa. Resumindo: um horror! 
Tu já passaste a experiência de ver novamente um filme que tu sabes como termina mas, assim mesmo, ficas torcendo para outro final? Pois é: eu sempre sei que a Camila vai estar lá! Moro no décimo andar e ainda assim, desço todos os dias pela escada, quando vou para academia, como que para prolongar a esperança de ela não estar… mas, então, mal abro a porta da escada para o Hal do piso da academia, e ouço: “oi Luíííííííís” (ela sempre estica uma vogal, cheia de entusiasmo ao cumprimentar)! 
Enfim, minhas esperanças morrem a centímetros da porta da academia! 
Porque estou contando tudo isso de novo? Por que ao encerrar o ano, a Camila teve uma surpresa: eu entrei entusiasmado na academia. Disse “oi, Camila” usando todos os fonemas, não apenas o meu usual resmungo:
— Oi Luíííííííííííís!
— Humpf…!
Foi assim:
— Oi Luíííííííííííís!
— Oi, Camila! 
Daí, foi assim: sobrancelhas pra cima, naquele inevitável movimento de surpresa; depois a cabeça meio de lado, como querendo entender, e a confusão mental.
Então… ela começou a unir alguns pontos:
Instantes antes de eu descer, ela recebeu um telefonema inusitado: a Ana, justamente a Ana, a pessoa que mais me empurra para a academia, havia ligado:
— Oi Camila.
— Tu já estás na academia?
— Oi Anaaaaaa. Já tô aqui!
— Tem como trocar o dia do Luís? Ele pode fazer amanhã?
— Amanhã não tenho como, porque ninguém desmarcou. Parece que pouca gente vai viajar nesse final de ano.
A Camila ficou intrigada e, obviamente, pensando que eu que havia pedido para a Ana ligar e desmarcar, porque quando preciso, peço sempre pra Ana fazer isso por mim! Então, quando eu desci e cumprimentei a Camila entusiasmado, ela não entendeu bem e ficou intrigada.
Eu notei a expressão intrigada, e expliquei:
— Sabe o que é, Camila…
(Dez minutos antes de eu descer pra academia):
— Essa prateleira tá toda bagunçada, né? — A Ana falou, referindo-se a uma das prateleiras da minha pequena biblioteca/escritório em casa.
— Hum… — (uma resposta prudente… algo que não se decifre. Tinha medo do rumo que aquilo podia tomar).
— E também o teu “cantinho de escrever" precisa arrumar, né? 
— (…). — Aqui, eu arrisquei um “é" quase mudo, algo entre um suspiro e uma concordância inaudível. Definitivamente, o rumo da conversa era perigoso… decidi que esperaria apenas mais uma afirmação!
E a afirmação veio:
— A gente pode aproveitar pra arrumar também…
Eu confesso que não ouvi o resto! Terminei de amarrar o tênis da academia correndo e, da porta, eu disse “tô indo”.
Foi nesse meio tempo que ela ligou pra Camila.
— Sabe o que é, Camila, a Ana começou a pensar em arrumar a casa…

Luís Augusto Menna Barreto

31.12.2019

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Açaí de 20, a Plaqueta e a Black Friday

Do Bléqui nunca se soube.
Ganhou o apelido naquela sexta-feira. E do apelido, não se pode dizer póstumo, porque o destino foi-lhe incerto.
Aquela loja, a primeira de uma grande rede, instalou-se em Marajó City ao findar de outubro. Foi um rebuliço! Os nativos dividiam-se entre o amor e o ódio! Os preços realmente eram mais baixos. Mas talvez fosse coisa de inauguração. 
O fato é que do Bar do Seu Nonô ao açougue do Retalho, do Hospital à Igreja, o assunto era a loja, os produtos e os preços. 
Um dos mais irritados era o Mariposa, comerciante local que, até então, dominava na cidade:
— Meia dúzia de badulaque diferente, que o povo daqui nem vai saber usar, e já correm tudo pra lá!
Falava com o copo na mão, sem se dirigir a ninguém especificamente, enquanto o Manobra, com alguma dificuldade equilibrava-se apoiado com uma das mãos no taco de bilhar segurando o copo de cerveja com a outra, e o Retalho manejava o cutelo em uma peça de carne. 
— Fala Mariposa! Manobra, toma uma pra acordar! — Era o Goela, passando. O Mariposa logo desconfiou:
— Tá indo pra onde, Goela? Já sei, pra loja nova! Agora é isso! Agora meu comércio tá lá, às moscas. Assim, acabo tendo que demitir os funcionários!
— Que “funcionários”, já, Mariposa? Lá só tem o Bolacha que fica dormindo no balcão e tu não pagas ele faz bem uns 3 meses!
O fato é que o Goela estava indo mesmo na direção da loja nova. Estava com um mandado de intimação para o Rogério Augusto Pantoja, até então "Açaí de 20”. Tá, para quem não sabe, quanto mais grosso o açaí, mais caro paga-se pelo litro. Daí, que açaí de vinte reais, naqueles dias, seria grosso pra caramba!
Pois o Goela tinha que intimar o Açaí de 20 para uma audiência de pensão de alimentos do filho da Plaqueta. Perguntando aqui e ali, o Goela soube que o Açaí de 20 estaria na loja nova! O Goela foi faceiro por ter um motivo de ir até a loja, até porque, era um dos raros lugares que tinha ar condicionado ligado direto! Na verdade, logo depois da loja inaugurar, houve uma espécie de “surto de resfriado” na cidade. O pessoal, que não estava muito acostumado com ar condicionado, adorou ficar entrando e saindo da loja bem fresquinha, e pronto: com os constantes choques térmicos, na semana da inauguração foi um festival de tosse-tosse na cidade!
Mas, enfim, o fato é que o Goela encontrou o Açaí de 20 na frente da loja, em uma cadeira de plástico. 
— Fala, Açaí.
— Qual é, Goela? Nem vem pro meu lado com papel do Fórum!
— Levou farelo: te botaram na justiça. Ou tu assinas, ou tu assinas, sabe como é!
— Quem foi? A Vera Vira Copo ou a Delícia? 
— A Plaqueta!
— Égua, Goela! Tá, não?! Dessa uma eu não esperava! Já tinha falado já, com essa pequena que ia dar uma forra pra ela! Ia comprar umas fraldas pro moleque nascido.
— E porque tu não compras, leva pra ela e tentas resolver antes da audiência?
— Tô esperando a “bléqui fráidi”. 
— Égua! Que é isso, já?
— Bléqui fráidi, Goela. Tá aí na faixa, olha!
Em cima da entrada principal, havia uma faixa anunciando que a loja abriria na quinta-feira, às 23h59min, com toda a loja em promoção, descontos de 50% até 80%.
— Já tô esperando, Goela!
— Tá doido, Açaí? Hoje é terça! 
— Daqui não saio, Goela! Vou ser o primeiro a entrar e vou comprar o que puder e revender nas ilhas. Vou “enricar”! 
A notícia espalhou-se rápido. Muito mais eficiente do que a faixa ou o comercial na rádio local que tocava duas horas por dia nas caixas de som amarradas aos postes, foi o Goela ter falado para a Tutela, que o Açaí de 20 já estava fazendo fila esperando a tal “bléqui fráidi”.
Para maior desespero, ainda, do Mariposa, todo mundo começou a ir para a frente da loja, para ver se era verdade. Como muitos sequer sabiam ler e os que sabiam tinham preguiça, ficavam com a notícia do boca-a-boca. No bar do Seu Nonô, já estavam comentando:
— Pois é, o “Bléqui" disse que tem coisa quase de graça, na meia noite!
O “Açaí de 20” já havia virado “Bléqui”. E a notícia dos descontos da loja nova virou febre.
Na quinta-feira, eu estava terminando de despachar o último processo do dia, por volta de 16h, e perguntei para o Goela:
— E aí, Goela? Tu vais pra fila da black Friday, também?
— Não, doutor. Eu já combinei com o China BR e um pessoal e já temos outra estratégia. Vamos concentrar no açougue do Retalho, tomando uma, e esperar a muvuca da entrada passar. Daí, a gente pretende ir na loja, na madrugada, quando tudo estiver calmo.
— E o que vocês pretendem comprar?
— Nada demais, doutor: a gente quer mesmo, é comprar bebida, que diz que até bebida vai ter em promoção!
Guardei o “hein?!” pra mim, e resolvi nem argumentar sobre não entender a vantagem de concentrar bebendo e pagando caro por bebida, para depois comprar bebida barato… mas, como já estava conhecendo o Goela e alguns outros, eu sabia que a probabilidade de eles beberem muito mais do que iriam comprar depois, era enorme! Mas, enfim, era a febre da “black Friday”.
O movimento em direção à loja, foi algo inacreditável! Por volta de 20 horas, não havia mais condições de nenhum veículo passar na rua da beira, em frente à loja! Segundo contaram, o Bléqui (antes Açaí de 20) havia ficado todos os três dias na frente da loja. Até tentou organizar uma fila, mas depois ficou impossível, e as pessoas empurravam-se em frente às portas fechadas que abririam às 23h59min. Contaram que o Bléqui chegou às vias de fato um sem número de vezes, com cada um que falava em entrar primeiro. Reivindicava a socos o direito de ser o primeiro a entrar. Mas de um tempo pra diante, nenhuma briga mais ouve, porque a aglomeração era tanta que não havia sequer como espichar o braço para dar socos. 
A cidade, com exceção da rua da Beira, estava vazia, e toda a população parecia aglomerar-se na rua da loja. A aglomeração era tanta que a multidão já havia chegado no açougue do Retalho, e muitos dos que esperavam a loja abrir, passaram a entrar na “concentração" do pessoal do Goela. O Retalho nunca vendera tanto, afora o fato de que ele não tinha nada a ver com os descontos prometidos, e vendia caro o litrão de cerveja e o copo de cachaça!
Naquela mesma noite de quinta para sexta-feira, eu viajei para Belém. Quando o navio encostou no trapiche, por volta de 22h, a multidão na rua da Beira já era inacreditável. O Padre reclamava que na procissão da padroeira não havia tanta gente. Houve muita gente desembarcando e correndo no sentido da multidão. O navio partiu para Belém com muito pouca gente e foi uma das viagens mais confortáveis que já fiz, tendo muito espaço pra atar minha rede no navio!
Do havido, eu soube somente quando cheguei na semana seguinte:
Da turma do Goela, dizem que apenas o próprio Goela e o China BR deram conta de entrar na loja. O resto ficou pelo caminho, ou amanheceu dormindo no açougue do Retalho. O Goela, sem querer, marcou pontos com a Afrodite, porque disseram que quando ela saiu de casa procurando o Goela com o dia amanhecendo, ele estava dormindo abraçado a um liquidificador bem na porta do fórum. Como de bobo ele não tem nada, logo disse que tinha encarado a multidão pra comprar o liquidificador pra Afrodite, embora ele não faça a menor idéia do que houve para aquele liquidificador aparecer na mão dele. 
Descobriu, pela fatura do cartão de crédito, que havia comprado na loja do Mariposa, pelo dobro do preço! 
O Bléqui (que jamais voltou a ser Açaí de 20), desapareceu! Ninguém lembra dele na loja, ninguém lembra depois! Quer dizer… notícia teve: a loja, que tanto rebuliço causou na cidade com a tal “black Friday”, fechou as portas. 
Tu estás te perguntando: "mas se a "Black Friday" foi um sucesso, por que fechou? E o que isso tem a ver com o Bléqui?”, caro leitor?
Bem… como o Bléqui simplesmente desapareceu, logo começou a correr notícia de que uma visagem dele passou a aparecer para pessoas que compraram na black Friday. Houve até quem afirmasse que o Bléqui teria morrido esmagado pela multidão, e agora assombrava quem conseguiu entrar na loja. E a notícia espalhou-se. Quem mais ajudava a notícia a circular, era o Mariposa! 
Tem quem jure, aliás, que desde a noite da black Friday, o Mariposa ocasionalmente era visto à noite, levando um lençol branco meio escondido… Mas depois da Tutela ter sido perseguida pela tal visagem em uma noite, depois que saiu da loja, a notícia não teve mais volta e só entrava na loja, quem não era da cidade. Até que fechou.
No dia da audiência do Bléqui, aquela que o Goela foi intimar lá na frente da loja, o Bléqui não apareceu, e a Plaqueta jurava que ele estava com uma morena numa ilha próxima, onde havia montado, ele mesmo, um armarinho. Segundo a Plaqueta, o nome do estabelecimento era “Bléqui Fráidi - a loja onde todo dia tem desconto”
Foto real da frente da loja Americanas em Breves, Marajó, Pará, na noite de quinta para sexta-feira em  28.11.2019, às 23h30min.
Luís Augusto Menna Barreto

24.12.2019